22.4.14

Cachorros, gatos e empregadas

O céu estava cada vez mais negro, anunciando a tempestade que se aproximava.

Corri para casa tentando impedir a tragédia iminente. Nas primeiras gotas de chuva, tudo poderia estar perdido. Eu fingi não ouvir os alertas anteriores, e agora teria de arcar com as consequências.

Se o cocô da cadela molhasse, grudava no piso e nunca mais desgrudava dali.

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Isso na casa dos meus pais, que são responsáveis o suficiente para ter um animal de estimação.

Sob os meus cuidados, a pobre da cachorrinha ia morrer soterrada no próprio excremento antes mesmo de ter a chance de morrer de fome.

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Quando eu era criança, adotamos um gato de rua. Um desses cinzas e enormes que botam cachorro pra correr.

A regra imposta pelos meus pais era clara: ele não podia entrar na casa.

O meu complemento à regra: ...enquanto meus pais estivessem lá.

Enquanto meus pais trabalhavam, ele ficava comigo. Quando chegava a hora de um deles chegar, eu levava o gato até a porta.

Na primeira vez que meu relógio mental não me avisou que era hora de botar o gato pra fora, eu estava assistindo TV com aquela imensidão de pêlos no colo.

Quando escutei minha mãe chegando do trabalho, não tive dúvidas. Corri para a sacada e atirei o gato de lá.

Voltei tranquilamente para a televisão, cumprimentei minha mãe, contei até dez e tive a maior crise de choro da minha vida.

Um monstro, sim. Mas um monstro arrependido.

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Chegando em casa e correndo para limpar o cocô da pobre cachorra, dei de cara com a empregada.

Eu sempre esqueço que meus pais são ricos, o pobre sou eu.

(Pelo menos no Brasil, onde mesmo sem ser rico, existe alguém ainda mais pobre que você, que precisa trabalhar por uma merreca e ainda limpar o cocô do seu cachorro. O fato mais triste do mundo, e também o mais celebrado pela minha mãe.)

Pedi com carinho:

- Dona Maria, a senhora tira os cocôs da Lilica lá de fora antes que comece a chover, por favor?

Ela me olhou fixo nos olhos. Seu olhar era de perplexidade, de espanto. De "eu não mereço ouvir isso". Eu tinha certeza que essa seria a hora rebelião. Ela não ia mais aceitar essa vida de limpar cocô por salário mínimo. Eu teria sorte se ela não me matasse ali mesmo.

Ela só gargalhou e disse:

- Credo, menino! "Por favor"? Em empregada a gente manda. Não precisa ficar se humilhando, não!

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Acho que eu preferia levar a bronca. Fiquei sem saber o que responder.

Por pouco não tive a mesma reação da infância e joguei a Dona Maria da sacada. Não fiz porque eu ia acabar pisando num cocô de cachorro e caindo junto.

Além do mais, já estava chovendo.

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