27.5.14

As mentiras que os irmãos contam

A diferença entre as pessoas legais e as chatas é que as chatas nunca tiveram um irmão mais velho.

Uma pessoa chata se acha no direito de ser o assunto da conversa em todas as conversas, que a sua vida é a mais interessante do mundo e que, com certeza, o que ela tem a dizer é relevante.

É o irmão mais velho que vai te mandar calar a boca quando você não para de falar besteira.  A missão do irmão mais velho é te frustrar o máximo possível, para garantir que o seu desenvolvimento seja saudável.

Se você elaborar bem esse trauma, vai retribuir o favor e brigar com seu irmão a cada oportunidade que tiver. Assim, os dois aprendem que não são o centro do universo e vão pro mundo como pessoas melhores, castradinhas e legais.

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Quando eu tinha uns sete anos, fui perguntar ao meu irmão o que era o Livro dos Recordes. Ele explicou:

- Recorde é quando uma pessoa faz a maior coisa do mundo. - disse ele - Tem a pessoa mais alta do mundo, a mais baixinha, a mais velha.

- Ah, tá.

- Eu estou lá.

Meu queixo caiu. Como é que eu não sabia que meu irmão era a pessoa mais alguma coisa do mundo? Mais irritante, eu já suspeitava, mas não sabia que ele já tinha sido certificado.

- Pelo quê? O que você fez?

- O maior cocô do mundo.

Eu nunca tinha visto meu irmão falar tão sério. Eu não quis acreditar.

- Mas você não lembra? Aquele dia que a gente tava na praia e a gente foi fazer cocô num ginásio?

- Não lembro. Você tá mentindo.

- Juro! Por João 8:44! - jurou ele. Crescer numa família religiosa te faz jurar de um jeito estranho.

- Quantos metros tinha o seu cocô?

- Ah, uns doze.

- DOZE METROS?

- Eu tinha comido muito peixe.

- E eu não participei?

- Participou sim, mas o seu era menor. Só tinha uns seis metros.

Fiquei triste. Eu ainda tinha muito o que crescer pra aprender a fazer merda como o meu irmão.

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Só fui descobrir que essa história era mentira bem mais tarde, quando fui contar pra uns amigos que meu irmão estava no Guinness e me dei conta do absurdo.

Eu já era adulto.

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Outra vez, ele me chamou pra comer cachorro-quente.

- Só que eu só tenho grana pra um cachorro-quente e meio. Você vai ter de pedir pra o cara da barraca te dar só a salsicha.

Por mim, tudo bem. Topei o passeio. Chegamos na barraca e ele pediu o lanche. Pedi também:

- Moço, pode me dar só a linguiça?

Até hoje eu confundo salsicha com linguiça. Ele não entendeu:

- O quê?

- Só a salsicha! Desculpa, me enganei. Pode ser só a salsicha?

Ele olhou pro meu irmão e prendeu o riso:

- Só se for a minha.

- OK. - Aceitei, claro. Como ele ia me vender uma salsicha que não fosse dele?

- A minha salsicha? - Ele confirmou, rindo.

A essa altura, meu irmão já rolava pelo chão, em posição fetal e com lágrimas nos olhos.

- Sim, moço.

- A minha. A minha linguiça. Pode ser a minha linguiça?

Só faltou desenhar uma linguiça ao lado de um pênis e gritar a palavra ANALOGIA várias vezes. Não adiantou:

- Moço, eu já falei que pode ser!

A ingenuidade é uma arma poderosa. Acabei ganhando um cachorro-quente completo.

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Talvez não fosse ingenuidade. Quer dizer, eu era super novinho, mas vai que eu queria a salsicha do cara no figurativo, mesmo?

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Todo caçula é uma vítima, mas isso é pro seu próprio bem. Ter um irmão mais velho pode ser traumático, mas te impede de ser um chato completo.

Pior é pensar que, mesmo com todas essas mentiras, minha relação com o meu irmão é a mais honesta que eu tenho na vida.

Que horror.

13.5.14

Política e paixão

Cansei de escutar, enquanto crescia, que o Brasil não ia bem porque "o brasileiro não se interessa por política". O complemento padrão dessa frase era "porque só quer saber de futebol".

Tá certo que a minha timeline do Facebook representa bem menos pessoas que a torcida do Corinthians, mas se for tomada como amostra, as coisas não parecem estar tanto desse jeito.

Aliás, eu diria que o brasileiro está muito mais apaixonado por política do que por futebol.

E que isso não é necessariamente uma coisa boa.

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A paixão é a ilusão de poder encontrar a própria completude através de outra pessoa. 

É uma estranha mistura de humildade (de se aceitar incompleto e carente de sentido) e a onipotência (de achar que, adicionando uma outra pessoa na mistura, ficaremos saciados da nossa fome por preenchimento).

É aí que estamos, como nação. Apaixonados pela possibilidade de mudança. A frustração acumulada é tamanha, e em tanta coisa, que qualquer chance de mudança política brilha em nossos olhos como uma possibilidade de completude.

Isso explica porque fomos do completo desinteresse por política a um fanatismo generalizado.

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Pode parecer exagero, mas olhe ao redor e procure alguém moderado. 

Ao redor não, procure na lupa cruel de uma seção de comentários num site de internet e tente encontrar alguém que pregue o equilíbrio como uma opção viável.

"Impeachment da Dilma, prisão aos petralhas!", gritam uns. 

"Mulheres lésbicas, negras, cadeirantes e umbandistas no poder!", insinuam outros (eu entre eles).

"Mercado livre já! Toda restrição é burra!", ainda outros.

E, os meus preferidos:

"Não tem um que preste. Solução para o país é político no paredão!".

Todos com algo de razão, mas todos inflamados pela paixão com que se agarram aos seus pontos de vista.

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Uma pessoa apaixonada é extremamente manipulável. 

Guiada pela paixão, não vê defeito no seu objeto de desejo. Até porque, se enxergar algum defeito ali, toda a ilusão de estar completo pela presença da outra pessoa vai embora, e será necessário encarar o vazio de estar sozinho novamente.

Um exemplo dessa paixão? Os protestos do ano passado.

Milhares de pessoas, e um número surpreendente de adolescentes, tomando as ruas e esbravejando palavras de ordem. Apaixonados. Sorrindo. Erguendo bandeiras. 

Uma cena emocionante, e também um ótimo momento para quem quiser se colocar à frente como um Messias, tentando associar essa paixão coletiva às suas imagens. Oferecendo soluções para os seus apaixonados.

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Muito perigoso. A paixão é agressiva. A emoção é tamanha que exige alguma soltura para ser eloaborada. 

Para um casal apaixonado, uma boa briga e um bom sexo, quanto mais violento melhor, dão conta do recado. 

Para um país apaixonado? Intervenção militar! Redução de maioridade penal! Pena de morte! 

Porque se a paixão é extrema, a catarse também precisa ser.

Nesse caso, melhor ter uma nação de desinteressados por política do que uma multidão de pretensos informados, indignados por tudo e sem saber de nada. 

Indignação, quando aliada à desinformação, é um combustível perigoso.

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A paixão é ciumenta. Por isso os crimes passionais. 

Quebrar a cara com uma paixão dói tanto que perdemos o controle. Ficamos violentos com o objeto que queríamos que fosse nossa salvação. 

Não sabemos o que fazer quando o nosso ideal não corresponde à realidade.

Junte essa frustração com a necessidade de catarse, e você entende porque há quem precise amarrar um assaltante a um poste ou linchar uma mãe de família, em busca de justiça.

A paixão é cega. Quem ousa contestá-la recebe uma resposta violenta. 

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Mas, com sorte, depois da frustração, a pessoa olha um pouco para si. 

Passa a se ver como responsável pelo desejo que tem, e deixa de exigir do outro a satisfação de suas expectativas. Toma as rédeas da própria caminhada. 

Para quem não quer refletir, resta um caminho mais fácil: trocar de objeto de paixão. Deixar-se enfeitiçar por outra pessoa que ofereça uma tábua de salvação. Outro salvador. 

Enxágue e repita, e mantenha o ciclo de frustração e violência, esperando que algo mude.

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Se o fim da paixão for bem elaborado, a inflamação vai dando espaço à maturidade e é trocada por carinho e amor.

Pelo amor de aceitar a diferença, mesmo quando ela não corresponde às expectativas depositadas. Pelo carinho de fazer a sua parte para que a relação funcione. Pela dedicação para um bem comum. 

Sem tanta violênia, mas com atenção e cuidado.

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Há quem diga que o brasileiro não sabe fazer política. 

Se olharmos com mais cuidado, talvez apenas não saibamos amar.

7.5.14

Chimia, geléia e outras doçuras

Quem olhar pela janela do meu apartamento, numa manhã qualquer, provavelmente me verá tomar uma xícara de café com leite e comer um pão com geléia.

Verá errado. Não é o que eu faço. Não gosto de geléia. Aquilo que eu passo no pão tem outro nome: chimia.

É coisa aqui do Sul. Não se come muita geléia por aqui.

Os olhos nem sempre sabem dar o nome certo para aquilo que enxergam.

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A dona Eli era amiga da minha avó.

Não sei se exatamente amigas, ou só cúmplices, sobreviventes de uma geração. Só sei que havia muito carinho entre as duas e que, desde que eu era muito criança, a dona Eli já era bastante velha.

Das senhoras que iam à igreja toda semana, ela era a única que não ia com a família. Ela chegava cedo - trazida por alguém -, conversava com a minha avó, e depois sentava sozinha.

Na minha cabeça de criança, duas coisas sobre ela ficaram gravadas: a surpresa de descobrir que mulher também podia ficar careca (minha mãe me explicava o porquê, mas eu não entendia), e aquela voz.

A dona Eli sempre falava com a voz tremida. Uma voz tão fraquinha, tão fraquinha, que ela parecia estar sempre chorando.

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Me identifico mais com a chimia do que com geléia. Explico a diferença:

Para fazer geléia, você usa as frutas mais maduras, as mais suculentas, antes que elas passem do tempo. Depois, cozinha lentamente as frutas com açúcar, até que se forme uma pasta doce. É um doce nobre.

A chimia, não.

Inventada pelos imigrantes, que tinham de fazer máximo proveito da terra em que viviam, a chimia é feita com as cascas e as partes menos nobres das frutas, fervidas com açúcar até que se tornem palatáveis.

A geléia é a comida dos a que nada falta. A chimia é para quem precisa arrancar a doçura do bagaço da vida.

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A dona Eli era mestre na arte de fazer chimia.

É um trabalho mais difícil do que parece. Haja braço para mexer aquele monte de pedaço duro de fruta na água fervente até que aquilo se derreta.

E não era uma tarefa de só de vez em quando. A dona Eli tirava seu sustento com as chimias que fabricava em casa, na sua cozinha entupida de vidros de Nescafé vazios, que esperavam recheio.

Algo me diz que ela era muito mais forte do que eu pensava.

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Eu tinha uns sete anos, e minha avó pediu para ir até a casa da dona Eli entregar uma carta. Cheguei à casa dela e fiz a entrega, pronto para rodar nos calcanhares e ir embora.

Não tão rápido.

Ela me segurou com suas mãos, amassadas pela vida e macias apesar de tanta panela, e pediu pra eu esperar.

"Calma, que eu quero ver se tenho uma coisa pra você."

Esperei em silêncio, divertindo os olhos com os padrões que os caquinhos de azulejo desenhavam no chão.

Ela voltou com um punhado de balas.

"Obrigado pela visitinha!", disse ela, sorrindo e com a mesma voz de choro de sempre.

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Estava tão feliz que até fiquei constrangido, sem querer passar a impressão de que fui ali só pra ganhar bala. Ela olhou para mim por mais alguns segundos e disse de novo:

"Espera. Acho que eu tenho mais alguma coisa."

Dessa vez ela levou mais tempo. Corria de um lado para o outro dentro da casa, em busca de alguma coisa, enquanto eu entupia os buracos dos dentes com açúcar.

Voltou com uma nota de um real na mão.

"Toma. É pra você."

Não entendi bem por quê, mas tive vontade de chorar. Como podia sair tanta doçura de uma mulher tão pequena?

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Perguntei aos meus pais se a dona Eli ainda estava viva. Me disseram que está. Pedi quantos anos ela deve ter hoje, eles não sabiam.

Perguntei se ela ainda faz chimia pra vender. Disseram que sim, ela faz, e que ainda é a mais gostosa da cidade.

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Prestando mais atenção, tinha muito mais coisa onde eu via uma aquela mulher pequenininha e sofrida.

Olhando para ela hoje, pela janela do tempo, eu vejo uma alquimista, capaz de transformar bagaço em doçura, redefinindo o que significa força.

Não sei qual era o seu segredo. Os olhos nem sempre sabem dar o nome certo para aquilo que enxergam.

Suspeito que seja carinho.

5.5.14

Sobre morar em Curitiba

- Já são cinco e meia da tarde, que horas sua aula começa? - disse meu colega de quarto.
- Sete. - respondi.
- E por que você não foi pegar seu ônibus ainda? Você vai chegar atrasado!

Com essas palavras me dei conta de que eu não morava mais numa cidade pequena, atravessável a pé em trinta minutos.

Era meu primeiro dia em Curitiba, e o primeiro dia na faculdade.

Também foi o primeiro dia em que passei mais de uma hora num ônibus que não me levaria a uma cidade diferente.

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Hoje eu já acho tudo perto. "Ah, dá só quarenta minutos de ônibus, vamos caminhando!", eu digo pros incautos que vem me visitar.

Mesmo assim, eu ainda me surpreendo quando vou pra uma parte mais distante da cidade.

É rua, rua, rua, casa, casa, casa, e a cidade não acaba nunca.

Tem horas que eu penso que estou no desenho do Papa-Léguas, correndo no meio de um cenário repetido.

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"As pessoas são muito frias", dizem sobre Curitiba.

Não sei.

Aqui foi a única cidade em que eu já estive em que, recém-chegado e com cara de confuso na rua, alguém se aproximou e disse "Querido, cê precisa de informação?".

Talvez seja só minha cara de confusão que seja muito expressiva. Que nem aquele quadro do grito, do Munch, mas de touca na cabeça pra não passar frio.

(Ao mesmo tempo, essa cara devia parecer muito confiável, porque nunca me pediram tanta informação na rua quanto no meu primeiro mês aqui.)

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"É a Europa brasileira", dizem sobre Curitiba.

Também não concordo com essa. Na Europa não tem ninguém seminu e de corpo oleoso empurrando uma bicicleta de um lado pro outro.

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Acontece que essa cidade realmente tem algo de diferente. Talvez a malandragem exija um pouco mais de temperatura ambiente pra acontecer, mas aqui as pessoas são... mais certinhas.

Teve uma vez que, a caminho de casa, eu fui assaltado.

O bandido apareceu com a maior cara de mau do mundo, partindo pra cima de mim como se fosse me matar ali mesmo se eu não entregasse os cinco reais que eu tinha e meu celular comprado em 2004.

Um profissional do crime, sem dúvida.

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- IRMÃOZINHO, FICA DE BOA! - disse ele, num tom de voz que tornava impossível alguém ficar de boa.

Eu já estava resignado e pensando em maneiras de ir pra casa sem o dinheiro do ônibus, quando ele puxou uma faca do bolso.

Foi a cena mais triste que eu já vi: ele puxa do bolso uma faca enrolada em papel toalha, embrulhada certinho pra não machucar o bolso da calça.

Parecia até que a mãe dele tinha embalado aquela faca pra cortar uma maçã na hora do lanche. Provavelmente o papel toalha tinha uma carinha feliz desenhada por ela e um aviso de "Come tudinho, filhão!".

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Até o ladrão estava constrangido de tirar uma faca daquelas do bolso.

Não sei se ele se comoveu ao lembrar da mamãe, em casa, preocupada com se o filho, mas ele se estabanou e derrubou a faca no chão.

- Ai, cacete! - disse frustrado, enquanto se abaixava pra pegar a arma do assalto que não foi.

Aproveitei a deixa pra correr, mas me senti meio mal educado.

Devia ter mandado um abraço pra mãe dele, pedido desculpas por correr, falar que na próxima ia dar tudo certo... Vai que era o primeiro dia dele na profissão?

Pôxa vida, talento ele tinha.

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Só sei que hoje, seis anos depois, formado e distante da pessoa que ficava confusa na rua, eu não penso mais em sair daqui.

Nesse lugar de povo certinho e esquisito, que não sabe o que fazer num elevador lotado, acabei encontrando meu verdadeiro lar.

Pena que não dê pra ficar no lar por muito tempo. Eu trabalho do outro lado da cidade, e já tá na hora de pegar o ônibus.

Eufemismos

Eufemismos são lindos. A ação é a mesma, mas por que diabos uma pessoa que fala "Vou fazer xixi" soa tão fofa e uma que fa...