5.5.14

Sobre morar em Curitiba

- Já são cinco e meia da tarde, que horas sua aula começa? - disse meu colega de quarto.
- Sete. - respondi.
- E por que você não foi pegar seu ônibus ainda? Você vai chegar atrasado!

Com essas palavras me dei conta de que eu não morava mais numa cidade pequena, atravessável a pé em trinta minutos.

Era meu primeiro dia em Curitiba, e o primeiro dia na faculdade.

Também foi o primeiro dia em que passei mais de uma hora num ônibus que não me levaria a uma cidade diferente.

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Hoje eu já acho tudo perto. "Ah, dá só quarenta minutos de ônibus, vamos caminhando!", eu digo pros incautos que vem me visitar.

Mesmo assim, eu ainda me surpreendo quando vou pra uma parte mais distante da cidade.

É rua, rua, rua, casa, casa, casa, e a cidade não acaba nunca.

Tem horas que eu penso que estou no desenho do Papa-Léguas, correndo no meio de um cenário repetido.

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"As pessoas são muito frias", dizem sobre Curitiba.

Não sei.

Aqui foi a única cidade em que eu já estive em que, recém-chegado e com cara de confuso na rua, alguém se aproximou e disse "Querido, cê precisa de informação?".

Talvez seja só minha cara de confusão que seja muito expressiva. Que nem aquele quadro do grito, do Munch, mas de touca na cabeça pra não passar frio.

(Ao mesmo tempo, essa cara devia parecer muito confiável, porque nunca me pediram tanta informação na rua quanto no meu primeiro mês aqui.)

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"É a Europa brasileira", dizem sobre Curitiba.

Também não concordo com essa. Na Europa não tem ninguém seminu e de corpo oleoso empurrando uma bicicleta de um lado pro outro.

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Acontece que essa cidade realmente tem algo de diferente. Talvez a malandragem exija um pouco mais de temperatura ambiente pra acontecer, mas aqui as pessoas são... mais certinhas.

Teve uma vez que, a caminho de casa, eu fui assaltado.

O bandido apareceu com a maior cara de mau do mundo, partindo pra cima de mim como se fosse me matar ali mesmo se eu não entregasse os cinco reais que eu tinha e meu celular comprado em 2004.

Um profissional do crime, sem dúvida.

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- IRMÃOZINHO, FICA DE BOA! - disse ele, num tom de voz que tornava impossível alguém ficar de boa.

Eu já estava resignado e pensando em maneiras de ir pra casa sem o dinheiro do ônibus, quando ele puxou uma faca do bolso.

Foi a cena mais triste que eu já vi: ele puxa do bolso uma faca enrolada em papel toalha, embrulhada certinho pra não machucar o bolso da calça.

Parecia até que a mãe dele tinha embalado aquela faca pra cortar uma maçã na hora do lanche. Provavelmente o papel toalha tinha uma carinha feliz desenhada por ela e um aviso de "Come tudinho, filhão!".

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Até o ladrão estava constrangido de tirar uma faca daquelas do bolso.

Não sei se ele se comoveu ao lembrar da mamãe, em casa, preocupada com se o filho, mas ele se estabanou e derrubou a faca no chão.

- Ai, cacete! - disse frustrado, enquanto se abaixava pra pegar a arma do assalto que não foi.

Aproveitei a deixa pra correr, mas me senti meio mal educado.

Devia ter mandado um abraço pra mãe dele, pedido desculpas por correr, falar que na próxima ia dar tudo certo... Vai que era o primeiro dia dele na profissão?

Pôxa vida, talento ele tinha.

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Só sei que hoje, seis anos depois, formado e distante da pessoa que ficava confusa na rua, eu não penso mais em sair daqui.

Nesse lugar de povo certinho e esquisito, que não sabe o que fazer num elevador lotado, acabei encontrando meu verdadeiro lar.

Pena que não dê pra ficar no lar por muito tempo. Eu trabalho do outro lado da cidade, e já tá na hora de pegar o ônibus.

3 comentários:

  1. Cara, eu gostei dos seus textos.
    Seguindo.

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  2. Adorei. O meu texto sobre Curitiba que li até agora :)

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  3. Flávio, tudo bem? Eu sou uma rondoniense (já pode se assustar) que pretende se mudar para Curitiba em dezembro. Estou bem confusa quanto aos bairros e a segurança para escolher um apê/studio/kitnet (ou sei o que chamam)... você pode me ajudar? :)

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