15.7.14

Um assunto espinhoso

Quando uma pessoa olha no espelho, pode olhar muitas coisas.

Pode ver os sonhos que deixou pra trás, as marcas da vida que se transformaram em rugas, o brilho nos olhos que nunca se apagou...

Eu, por minha vez, vejo as minhas espinhas.

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Li um escritor de autoajuda, uma vez, que dizia que a acne é um modo que a pessoa com vergonha de si mesma arranja para se esconder do mundo.

Por isso adolescente costuma ter tanta espinha. De tanta vergonha que tem, arranja inconscientemente um jeito de cobrir o rosto, pra que ninguém olhe para ele.

Aí ele fica com mais vergonha ainda, nascem mais espinhas, e o ciclo se repete até o dia em que ele morre e reencarna num cactus. Alguma coisa assim.

Nada contra essa interpretação, mas eu já sou adulto, pôxa. Tenho outros meios para me esconder, feito barba, óculos e ausência de vida social.

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Soluções milagrosas existem aos montes.

Quando você usa um sabonete desses com propaganda na TV, dizendo que secam as espinhas, se dá conta que o sabonete é muito melhor do que a propaganda promete.

Ele não só seca as espinhas, mas também seu rosto inteiro, que começa a descascar, emoldurando seu nariz com casquinhas brancas. Você deixa de parecer um adolescente punheteiro para parecer uma estátua de gesso depois de uma machadada.

Você pode corrigir isso com um pouco de creme hidratante... que te dá mais espinhas.

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Se bem que meu maior problema nunca foram as espinhas em si, e sim os cravinhos.

Você pode escolher entre não fazer nada com eles e ficar com tantos pontinhos escuros no rosto que fazem parecer que você acabou de fugir de um vulcão em erupção, ou espremê-los e ficar com a aparência de quem lutou contra um pica-pau e perdeu.

Se eu pudesse escolher, trocaria os meus pelos Cravinhos da Suzane Von Richtoffen.

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De todos os tratamentos para acne que eu já tentei, o que deu melhor resultados foi não fazer tratamento nenhum. Deixar os cravos e espinhas quietinhos, na deles, sem pressão.

De certa forma, minhas espinhas são iguaizinhas a mim. Se ninguém me incomoda, eu sou praticamente inofensivo; sob pressão, eu explodo.

E jogo pus pra todo lado.

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Não sei o que eu faria se um dia todas as espinhas fossem embora.  Não ia saber o que fazer diante do espelho. No fundo, acho que gosto dessa mistura que meu rosto acabou sendo.

Por um lado, as espinhas de um adolescente. Por outro, as primeiras ruguinhas e sinais de envelhecimento.

Talvez isso seja ser adulto. Ser novo e velho ao mesmo tempo, sem precisar se esconder.

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Ok, talvez eu não tenha tentado todas as soluções possíveis. Já ouvi dizer que não se masturbar e não comer chocolate ajudam a combater a acne.

Mas quem sou eu pra querer combater aquilo que Deus me deu, né?

Sem cinismo

Uma criança brinca. Corre como se não tivesse limites, desbrava a sala como se fosse um campo de guerra e cai no chão como quem cai numa emb...