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Mostrando postagens de Abril, 2014

Entre meninos e meninas

No jardim de infância, eu era cercado por meninas.
Talvez por ter uma quantidade de tias superior à lotação do maracanã, sempre me afinei mais com o papo das mulheres, seja lá o que isso signifique.
Mas nem sempre o clube da Luluzinha aceitava minha invasão.
Algumas meninas reclamaram com a professora e uma solução foi proposta: o parquinho da escola seria dividido ao meio. De um lado, as meninas brincariam. Do outro, os meninos.
Isso impediria minhas invasões no território feminino e, com sorte, me obrigaria a virar um menino mais normal.
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A estratégia não deu muito certo.
Fora do grupo das meninas e sem amizade com os garotos, eu passava os intervalos sozinho, no meio do parquinho, onde a linha divisória foi marcada.
Lá ficava eu: entre o masculino e o feminino, com seis anos de idade, brincando de balanço.
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Na quarta série, resolvi que era hora de mudar. De uma vez por todas, eu ia ser um menino igual aos outros.
Decidi passar pelo ritual mais masculino de todos: o futebol…

Cachorros, gatos e empregadas

O céu estava cada vez mais negro, anunciando a tempestade que se aproximava.

Corri para casa tentando impedir a tragédia iminente. Nas primeiras gotas de chuva, tudo poderia estar perdido. Eu fingi não ouvir os alertas anteriores, e agora teria de arcar com as consequências.

Se o cocô da cadela molhasse, grudava no piso e nunca mais desgrudava dali.

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Isso na casa dos meus pais, que são responsáveis o suficiente para ter um animal de estimação.

Sob os meus cuidados, a pobre da cachorrinha ia morrer soterrada no próprio excremento antes mesmo de ter a chance de morrer de fome.

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Quando eu era criança, adotamos um gato de rua. Um desses cinzas e enormes que botam cachorro pra correr.

A regra imposta pelos meus pais era clara: ele não podia entrar na casa.

O meu complemento à regra: ...enquanto meus pais estivessem lá.

Enquanto meus pais trabalhavam, ele ficava comigo. Quando chegava a hora de um deles chegar, eu levava o gato até a porta.

Na primeira vez que meu relógio mental não me …

Caminhando

Eu tinha quatorze anos quando o tédio de ficar em casa ficou maior que o prazer de não sair do sofá.

Eu não tinha nada para fazer, a internet ainda era discada e eu não tinha saco pra essas coisas. Solução: dar uma volta na quadra.

Pode parecer uma daquelas mentiras que o Globo Repórter quer que você acredite (comer vegetais faz bem, é possível ser feliz na terceira idade, é prazeroso estar em contato com a natureza), mas a tal da endorfina realmente vai parar no sangue depois de uma caminhadinha.

Terminar uma caminhada causa um prazer indescritível, ainda mais se aliado ao consumo de uma barra de chocolate.

Em pouco tempo, fugir de casa pra caminhar virou um hábito.

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Erik Satie, o compositor, chegava a caminhar trinta quilômetros por dia. Foi assim que ele aprimorou seu senso de ritmo e de variações sobre temas repetitivos.

A Fiona Apple precisou fazer tratamento no joelho depois de gravar seu último álbum, porque ela passava quatro horas por dia subindo e descendo um morro perto d…