29.4.14

Entre meninos e meninas

No jardim de infância, eu era cercado por meninas.

Talvez por ter uma quantidade de tias superior à lotação do maracanã, sempre me afinei mais com o papo das mulheres, seja lá o que isso signifique.

Mas nem sempre o clube da Luluzinha aceitava minha invasão.

Algumas meninas reclamaram com a professora e uma solução foi proposta: o parquinho da escola seria dividido ao meio. De um lado, as meninas brincariam. Do outro, os meninos.

Isso impediria minhas invasões no território feminino e, com sorte, me obrigaria a virar um menino mais normal.

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A estratégia não deu muito certo.

Fora do grupo das meninas e sem amizade com os garotos, eu passava os intervalos sozinho, no meio do parquinho, onde a linha divisória foi marcada.

Lá ficava eu: entre o masculino e o feminino, com seis anos de idade, brincando de balanço.

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Na quarta série, resolvi que era hora de mudar. De uma vez por todas, eu ia ser um menino igual aos outros.

Decidi passar pelo ritual mais masculino de todos: o futebol.

Só naquele dia, não fingi a tradicional dor de barriga na aula de educação física (que me permitia fugir para jogar xadrez), e ainda lembro dos olhares de espanto enquanto entrava na quadra.

Fui o último a ser escolhido para um time, mas participei do primeiro lance da partida: no primeiro passe, um garoto meteu toda a força que tinha na bola, e ela vinha na minha direção. O tempo passava em câmera lenta, eu sem reação alguma.

Antes que eu pudesse pensar em sair correndo, a bola encontrou as minhas próprias bolas com uma intensidade que eu nunca tinha sentido até aquele momento.

Entrar em contato com o masculino nunca foi tão dolorido.

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Depois da faculdade, por alguma coincidência a maior parte dos meus amigos íntimos são homens heterossexuais. Não do tipo machão, mas do tipo melhor: que sofre por amor, gosta de mulheres fortes e não vê problemas em ser dono-de-casa.

Ainda assim, de alguma maneira, me infiltrei no clube do Bolinha - mesmo sem saber jogar futebol (na última tentativa, minha melhor jogada foi dar uma manchete na bola).

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Hoje, sou praticamente um deles. Mas não cem por cento:

Outro dia, num churrasco, três amigos começaram a bater um no outro, de brincadeira. Primeiro, um dando tapas na mão do outro. Depois, socos no ombro, um no outro, cada vez com mais força.

A sequência era essa:

1 - Soco.
2 - Grito.
3 - Soco mais forte ainda no colega.

Até tentei participar, mas desisti depois de perceber que
1 - Levar socos dói.
2 - Ninguém ganhava.

Fiquei assistindo, fascinado, enquanto um batia no outro, com os olhos inflamados de paixão e fúria.

Naquele momento, eu entendi tudo o que representa ser um homem.

A disposição para a luta, ainda que desnecessária. O motivo das guerras no mundo. O porquê do UFC fazer tantos ídolos. A competição pela graça da competição. A quantidade de bacon que se vende no mundo.

Não, eu nunca seria um deles.

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No dia seguinte, eles não paravam quietos no Whatsapp. Era mais uma competição, dessa vez para ver quem ficou com a mão mais machucada depois da brincadeira.

Entendi que não era uma questão de ver quem ganhava a briga: era pra ver o quanto de sofrimento que eles aguentavam antes de pedir arrego. São um grupinho muito especial, esses homens.

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Ao contrário das meninas no parquinho, ninguém me pediu para sair do grupo - mesmo sem eu participar muito bem da brincadeira. Eu não precisava participar da disputa de poder para ter meu lugar ali. A competição não termina nunca, mas quem não ganha nada também tem o seu lugar.

Demorei anos pra entender o quanto os homens também são sensíveis, com seus laços de amizade e relações profundamente generosas. Às vezes isso se demonstra na base do soco, mas tudo bem.

Outra coisa legal: eu os comparei à meninas de seis anos de idade, e nenhum deles vai se ofender com isso.

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Pra concluir numa nota importante: a bolada no saco foi quinze anos atrás, mas só de lembrar, doeu tudo outra vez.

22.4.14

Cachorros, gatos e empregadas

O céu estava cada vez mais negro, anunciando a tempestade que se aproximava.

Corri para casa tentando impedir a tragédia iminente. Nas primeiras gotas de chuva, tudo poderia estar perdido. Eu fingi não ouvir os alertas anteriores, e agora teria de arcar com as consequências.

Se o cocô da cadela molhasse, grudava no piso e nunca mais desgrudava dali.

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Isso na casa dos meus pais, que são responsáveis o suficiente para ter um animal de estimação.

Sob os meus cuidados, a pobre da cachorrinha ia morrer soterrada no próprio excremento antes mesmo de ter a chance de morrer de fome.

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Quando eu era criança, adotamos um gato de rua. Um desses cinzas e enormes que botam cachorro pra correr.

A regra imposta pelos meus pais era clara: ele não podia entrar na casa.

O meu complemento à regra: ...enquanto meus pais estivessem lá.

Enquanto meus pais trabalhavam, ele ficava comigo. Quando chegava a hora de um deles chegar, eu levava o gato até a porta.

Na primeira vez que meu relógio mental não me avisou que era hora de botar o gato pra fora, eu estava assistindo TV com aquela imensidão de pêlos no colo.

Quando escutei minha mãe chegando do trabalho, não tive dúvidas. Corri para a sacada e atirei o gato de lá.

Voltei tranquilamente para a televisão, cumprimentei minha mãe, contei até dez e tive a maior crise de choro da minha vida.

Um monstro, sim. Mas um monstro arrependido.

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Chegando em casa e correndo para limpar o cocô da pobre cachorra, dei de cara com a empregada.

Eu sempre esqueço que meus pais são ricos, o pobre sou eu.

(Pelo menos no Brasil, onde mesmo sem ser rico, existe alguém ainda mais pobre que você, que precisa trabalhar por uma merreca e ainda limpar o cocô do seu cachorro. O fato mais triste do mundo, e também o mais celebrado pela minha mãe.)

Pedi com carinho:

- Dona Maria, a senhora tira os cocôs da Lilica lá de fora antes que comece a chover, por favor?

Ela me olhou fixo nos olhos. Seu olhar era de perplexidade, de espanto. De "eu não mereço ouvir isso". Eu tinha certeza que essa seria a hora rebelião. Ela não ia mais aceitar essa vida de limpar cocô por salário mínimo. Eu teria sorte se ela não me matasse ali mesmo.

Ela só gargalhou e disse:

- Credo, menino! "Por favor"? Em empregada a gente manda. Não precisa ficar se humilhando, não!

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Acho que eu preferia levar a bronca. Fiquei sem saber o que responder.

Por pouco não tive a mesma reação da infância e joguei a Dona Maria da sacada. Não fiz porque eu ia acabar pisando num cocô de cachorro e caindo junto.

Além do mais, já estava chovendo.

6.4.14

Caminhando

Eu tinha quatorze anos quando o tédio de ficar em casa ficou maior que o prazer de não sair do sofá.

Eu não tinha nada para fazer, a internet ainda era discada e eu não tinha saco pra essas coisas. Solução: dar uma volta na quadra.

Pode parecer uma daquelas mentiras que o Globo Repórter quer que você acredite (comer vegetais faz bem, é possível ser feliz na terceira idade, é prazeroso estar em contato com a natureza), mas a tal da endorfina realmente vai parar no sangue depois de uma caminhadinha.

Terminar uma caminhada causa um prazer indescritível, ainda mais se aliado ao consumo de uma barra de chocolate.

Em pouco tempo, fugir de casa pra caminhar virou um hábito.

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Erik Satie, o compositor, chegava a caminhar trinta quilômetros por dia. Foi assim que ele aprimorou seu senso de ritmo e de variações sobre temas repetitivos.

A Fiona Apple precisou fazer tratamento no joelho depois de gravar seu último álbum, porque ela passava quatro horas por dia subindo e descendo um morro perto de onde morava pra fazer fluir a criatividade antes de ir pro estúdio.

Tchaikovsky, Kant, Mahler, os gênios adoram fazer caminhadas. Era parte do que os tornava tão sensíveis e inovadores.

"Mas Flávio," você pode falar, "você adora fazer caminhadas e não é nem um pouco genial".

Verdade. Mas é porque essa gente toda não tinha um mp3 player no último volume enfiado nos ouvidos o tempo todo. Provavelmente essa genialidade toda vai chegar em mim daqui a três ou quatro anos, quando eu finalmente ficar surdo.

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Posso não ter virado um artista genial com as minhas caminhadas, mas decorei todas as músicas do último disco da Kylie Minogue em menos de um dia. Quero ver o Tchaikovsky fazer isso.

Aliás, a natureza é muito sábia. Ela sabe como é importante para um homem escutar a voz feminina, e não nem que os gays ficassem sem isso.

Alguma coisa evoluiu diferente na audição dos homens gays, e se nós não vamos casar com uma mulher para escutá-la reclamar sobre tudo, é bem provável que gastemos metade do nosso salário em discos em que mulheres (de preferência, loiras que cantam sem calça) cantam estridente, gritam e reclamam da vida.

Desde que dê pra dançar ao mesmo tempo, a gente topa.

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Essa história de fazer caminhadas combina muito com o fator pobreza que assola a minha vida.

Ter resistência para caminhar bastante sem cansar (e tolerância para não se importar de chegar suado em todos os compromissos) torna mais fácil a vida de quem não tem carro e quer economizar na passagem de ônibus.

Mas nem tudo é tão econômico assim. Um vez, meu namorado me deu de presente um tênis de quatrocentos reais (uma fortuna, ao meu ver), e ficou indignado quando viu que o tênis tinha se destroçado completamente em menos de seis meses.

"O que você fez com ele, meu Deus?"

"Caminhei, uai."

Ele, que vai de carro até a padaria na esquina da casa dele, não quis acreditar.

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Essa semana, bati meu recorde. Entre um compromisso e outro, o tempo todo à pé, caminhei dezesseis quilômetros em um dia.

Você sabia que isso é suficiente para dar dar duas voltas completas no planeta Terra?

Tá, pode não ser verdade. Mas a sola do meu tênis tá toda ferrada, minhas pernas estão doendo e eu quero me sentir bem a respeito disso.

Ainda bem que existe a endorfina.

Cura gay

Como as pessoas pensam que ir a um psicólogo pra tratar sobre a sexualidade é: "Eu sou gay e quero deixar de ser." "MAS QUE...