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Mostrando postagens de Maio, 2014

As mentiras que os irmãos contam

A diferença entre as pessoas legais e as chatas é que as chatas nunca tiveram um irmão mais velho.

Uma pessoa chata se acha no direito de ser o assunto da conversa em todas as conversas, que a sua vida é a mais interessante do mundo e que, com certeza, o que ela tem a dizer é relevante.

É o irmão mais velho que vai te mandar calar a boca quando você não para de falar besteira.  A missão do irmão mais velho é te frustrar o máximo possível, para garantir que o seu desenvolvimento seja saudável.

Se você elaborar bem esse trauma, vai retribuir o favor e brigar com seu irmão a cada oportunidade que tiver. Assim, os dois aprendem que não são o centro do universo e vão pro mundo como pessoas melhores, castradinhas e legais.

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Quando eu tinha uns sete anos, fui perguntar ao meu irmão o que era o Livro dos Recordes. Ele explicou:

- Recorde é quando uma pessoa faz a maior coisa do mundo. - disse ele - Tem a pessoa mais alta do mundo, a mais baixinha, a mais velha.

- Ah, tá.

- Eu estou lá.

Meu …

Política e paixão

Cansei de escutar, enquanto crescia, que o Brasil não ia bem porque "o brasileiro não se interessa por política". O complemento padrão dessa frase era "porque só quer saber de futebol".

Tá certo que a minha timeline do Facebook representa bem menos pessoas que a torcida do Corinthians, mas se for tomada como amostra, as coisas não parecem estar tanto desse jeito.
Aliás, eu diria que o brasileiro está muito mais apaixonado por política do que por futebol.
E que isso não é necessariamente uma coisa boa.
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A paixão é a ilusão de poder encontrar a própria completude através de outra pessoa. 
É uma estranha mistura de humildade (de se aceitar incompleto e carente de sentido) e a onipotência (de achar que, adicionando uma outra pessoa na mistura, ficaremos saciados da nossa fome por preenchimento).
É aí que estamos, como nação. Apaixonados pela possibilidade de mudança. A frustração acumulada é tamanha, e em tanta coisa, que qualquer chance de mudança política brilha em…

Chimia, geléia e outras doçuras

Quem olhar pela janela do meu apartamento, numa manhã qualquer, provavelmente me verá tomar uma xícara de café com leite e comer um pão com geléia.

Verá errado. Não é o que eu faço. Não gosto de geléia. Aquilo que eu passo no pão tem outro nome: chimia.

É coisa aqui do Sul. Não se come muita geléia por aqui.

Os olhos nem sempre sabem dar o nome certo para aquilo que enxergam.

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A dona Eli era amiga da minha avó.

Não sei se exatamente amigas, ou só cúmplices, sobreviventes de uma geração. Só sei que havia muito carinho entre as duas e que, desde que eu era muito criança, a dona Eli já era bastante velha.

Das senhoras que iam à igreja toda semana, ela era a única que não ia com a família. Ela chegava cedo - trazida por alguém -, conversava com a minha avó, e depois sentava sozinha.

Na minha cabeça de criança, duas coisas sobre ela ficaram gravadas: a surpresa de descobrir que mulher também podia ficar careca (minha mãe me explicava o porquê, mas eu não entendia), e aquela voz.

A dona E…

Sobre morar em Curitiba

- Já são cinco e meia da tarde, que horas sua aula começa? - disse meu colega de quarto.
- Sete. - respondi.
- E por que você não foi pegar seu ônibus ainda? Você vai chegar atrasado!

Com essas palavras me dei conta de que eu não morava mais numa cidade pequena, atravessável a pé em trinta minutos.

Era meu primeiro dia em Curitiba, e o primeiro dia na faculdade.

Também foi o primeiro dia em que passei mais de uma hora num ônibus que não me levaria a uma cidade diferente.

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Hoje eu já acho tudo perto. "Ah, dá só quarenta minutos de ônibus, vamos caminhando!", eu digo pros incautos que vem me visitar.

Mesmo assim, eu ainda me surpreendo quando vou pra uma parte mais distante da cidade.

É rua, rua, rua, casa, casa, casa, e a cidade não acaba nunca.

Tem horas que eu penso que estou no desenho do Papa-Léguas, correndo no meio de um cenário repetido.

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"As pessoas são muito frias", dizem sobre Curitiba.

Não sei.

Aqui foi a única cidade em que eu já estive em que, recém…