18.6.14

Incluindo e excluindo

"Eu já trabalhei com gente especial, também", minha avó me disse, quando eu contei que estava trabalhando com pessoas com deficiência. "Na época o nome era 'retardado', mas eu achava a palavra muito forte."

Minha avó sempre foi uma pessoa à frente do seu tempo.

"Aí eu chamava eles de bocós, mesmo. Achava mais bonito."

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É seu primeiro dia em um trabalho novo, e suas emoções oscilam entre a autoconfiança e o pavor completo. Você tem medo do ambiente novo, mas sabe que, com o tempo, vai se sentir em casa. 

É questão de adaptação e, logo, logo, você vai se sentir incluso. É porque você aprendeu a se incluir.

Quando você foi para a escola pela primeira vez, pensou que nunca ia se acostumar àquele ambiente esquisito, com muita gente e nenhuma mãe por perto.

Mas, dia após dia, foi sentindo o prazer de estar com os colegas, de sair de casa, de viver num novo ambiente. 

O novo ambiente era convidativo, a escolinha era feita sob medida para você. As mesas e cadeiras tinham a altura certa, a professora te tratava com carinho, o parquinho era divertido...

Mais do que o be-a-bá, você aprendeu que pode se sentir bem em novos ambientes - e que só precisava de um pouco de paciência para isso.

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E se fosse o contrário?

É seu primeiro dia na escola.  As cadeiras parecem feitas para alguma civilização alienígena, porque para você não servem. 

Você e seus colegas não conseguem se comunicar direito. Cada um parece estar com a atenção focada no próprio terror de estar ali.

Você olha para a professora, única referência possível de carinho nesse lugar, e ela não te entende. Ela até se esforça, mas está correndo de um lado para o outro tentando fazer da sala de aula um lugar um pouco menos caótico.

Se você é uma pessoa com deficiência, o mundo pode ser mais ou menos assim. Feito sob encomenda para todos, menos você.

Não há como se sentir incluso em um mundo que ignora suas necessidades. Inclusão é isso: deixar o mundo um pouco mais amigável para aqueles com quem ele costuma ser hostil.

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Não adianta proteger o portador de necessidades especiais do mundo. Quanto menos superproteção e mais exposição ao mundo como ele é, mais a inclusão vai ser verdadeira.

O Adriano, que se formou comigo na faculdade, que o diga. Entrou na minha sala na metade do curso, depois de passar por várias outras turmas sem se adaptar.

Na minha sala foi diferente.

Ele não podia largar as muletas no chão que algum de nós as pegava e saía correndo. Fazíamos de tudo com aquelas muletas: lutávamos esgrima, apostávamos corrida, brincávamos de robô, tudo.

Ué, se a gente era imaturo um com o outro ao ponto de esconder mochilas, cantar parabéns pra quem chegava atrasado na aula e jogar bolinhas de papel na cabeça dos colegas, por que não seríamos igualmente infantis com nosso colega de muletas?

Entre todas as turmas pelas quais o Adriano passou, a nossa era sua favorita.

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A própria presença de uma pessoa com necessidades especiais gera algum desconforto em quem não tem essas necessidades. Nós não aprendemos a nos adaptar a pessoas que precisam se adaptar à nossa realidade. 

Mas é só uma questão de empatia: você tem pouca ansiedade sobre o seu dia-a-dia porque a sua vida te preparou para isso. Porque os ambientes que você encontrava no seu trajeto eram, em certa medida, receptivos às suas necessidades.

Não quer dizer que você nunca foi excluído: só quer dizer que você aprendeu a se incluir mais fácil.

E isso é o importante ao se olhar para uma pessoa com necessidades diferentes da maioria: ela não quer ser incluída nos espaços sociais na base do cuidado excessivo.

Ela precisa, sim, de um olhar simpático e carinhoso que a diga "Ei, eu sei que pra você foi mais difícil. Mas não se preocupe. Você é um de nós."

Então, com espaços menos assustadores e mais humanizados, a pessoa com deficiência pode vencer a barreira da ansiedade e saber que, com o tempo, o espaço novo que a intimida pode ser o seu lugar.

Não porque alguém a incluiu, mas porque recebeu a oportunidade para que ela mesma se incluísse, com suas dificuldades e aptidões, como qualquer outra pessoa, sem depender de um gueto ou de termos politicamente corretos.

Andando com as próprias pernas, mesmo que elas não funcionem muito bem.

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E não é como se nós, sem deficiências, vivêssemos em um mundo maravilhoso, cheio de esperteza e possibilidades. Eu sei que estou repetindo um clichê, mas nada impede que uma pessoa com deficiência seja muito, muito, muito mais eficiente que qualquer um de nós.

Feito quando eu estava dando aula de informática para pessoas com deficiência e um aluno cego pediu para ser dispensado porque esqueceu os óculos em casa.

Eu liberei. Minha avó diria que o bocó sou eu - e teria razão.

2.6.14

Piorar faz bem

"Moço, tem dinheiro pra eu comprar um cachorro-quente?"

Eu não ia ajudar, mas meu amigo tirou três reais do bolso e entregou.

"Mas moço, o cachorro-quente é cinco!", o mendigo respondeu, indignado, como se reclamasse do atendimento em um restaurante francês.

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Gente folgada existe nesse mundo por um motivo, que é ensinar quem quer ser bonzinho a não ser tão besta.

Os folgados são um instrumento de evolução. O jeito abusado é um dom que ganharam de Deus para evoluir a humanidade, despamonhizando as pessoas que passam por eles.

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Outro dia, sentei pra comer perto de um grupo de rapazes. Eles conversavam daquele jeito que os homens fazem para reclamar sem parecer fracos, falando dos próprios erros como se fossem a coisa mais engraçada do mundo.

Um deles começou uma história sobre o tio e o primo, que apareciam na casa dele de surpresa, chorando as pitangas de como a vida andava dura. 

"Era assim toda semana. Eu me compadecia, levava os dois ao mercado e depois pagava a conta. Era família, né? Tinha que ajudar."

Depois de um tempo, o tio melhorou de vida. O rapaz ria pra disfarçar a mágoa:

"Pergunta se hoje ele me telefona? Se ele apareceu lá em casa de novo? Chega festa de família e ele nem me olha na cara!"

Pelo menos ele parecia ter aprendido a lição:

"Hoje eu não ajudo mais ninguém só porque é da família. Só se eu tiver certeza que a pessoa precisa e presta."

A hora que ele mais ria era quando lembrava da dor no bolso:

"Eu gastava setenta reais com eles no mercado. Setenta reais!"

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Uma coisa que acontece com quase todo mundo que começa uma terapia é ouvir dos outros algo parecido com "Que terapia é essa? Você tá piorando em vez de melhorar!", normalmente depois de ter limitado os palpites de alguém sobre a própria vida.

A tradução correta dessa frase é "Por que diabos você não faz mais o que eu quero que você faça?".

Como você ousa não satisfazer a expectativa do outro? Só sendo uma péssima pessoa, mesmo.

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Às vezes, a melhor coisa que uma pessoa pode fazer é piorar. Parar de gastar energia querendo salvar a vida alheia e empregar esse esforço todo em cuidar melhor de si mesmo.

É um grande prazer descobrir que não tem nada de errado em ser egoísta. Aliás, quem inventou que egoísmo é defeito era um folgado.

Como a vida melhora quando a gente piora um pouco!

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Quem faz de tudo pelo outro, o faz por vaidade. Faz sabendo que o outro vai amar uma pessoa útil.

É necessário quebrar a cara uma vez ou doze para aprender, mas se a gente se permite não ser tão bom quanto gostaria, descobre um tesouro.

Não se importar em ser mal visto, não se preocupar com o problema do outro só porque acha que deveria, tudo isso libera um tempo gigante para ser feliz.

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Não que ajudar os outros seja errado. 

É que só depois de parar de ajudar por obrigação se aprende a perceber quando a vontade de ajudar alguém é genuína.

Aí você ajuda só porque sua alma quis, sem esperar nada em troca. 

Só assim se ajuda de verdade.

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Dizendo não a um folgado, você passa a ser o instrumento que diz pra ele parar de coitadismo e cuidar da própria vida sozinho. Você é o objeto de evolução. Você é uma pessoa boa.

E só conseguiu isso deixando de ser bonzinho.

Cura gay

Como as pessoas pensam que ir a um psicólogo pra tratar sobre a sexualidade é: "Eu sou gay e quero deixar de ser." "MAS QUE...