24.12.15

Em defesa do carinho

Pra mim, a emoção mais importante que um ser humano pode ter é o carinho.

Carinho é diferente de amor: Amor você pode sentir e esconder por trás de uma mágoa. 
Carinho é inescondível. Impossível olhar para alguém com carinho sem ser denunciado pelo brilho nos olhos.

Amar todo mundo ama, mas isso só tem valor quando o amor ganha movimento em forma de carinho.

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É o carinho que permite que a gente siga em gente quando levamos uma pancada da vida. 
É o carinho que nos derrete quando as circunstâncias querem nos petrificar. 

É do carinho que a gente sente falta quando a tentativa de amor não sai da forma que a gente esperava. 

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Cada um tem seu jeito de demonstrar afeto: tem os que deixam um bilhete carinhoso no espelho, os que cozinham para um batalhão mesmo pra receber uma só visita, os que trabalham duro pra não deixar nada faltar no fim do mês e os que se fazem de fortes, fingindo não precisar de carinho pra não criar incômodo pra ninguém.

Qualquer que seja a maneira de demonstrar, o carinho é o air-bag das relações humanas. É o carinho que te faz dizer "tudo bem, acontece" pra uma criança que quebrou algo seu, em vez de ceder ao instinto e esganar sorrindo. 

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Lanço agora o desafio de demonstrar carinho para quem é mais difícil.
Pro colega que você aprecia o jeito de trabalhar, ainda que ele tenha opiniões políticas que te dão ânsia de vômito.
Pra sua vizinha que você precisa fugir pra não ficar horas escutando todos os problemas, mas que veio te visitar quando você ficou doente.
Pra pessoa na rua que te perguntou se tá tudo bem quando você tropeçou e caiu de joelho.

Não importa o jeito de demonstrar: cada demonstração de carinho vai te acender uma coisa gostosa no peito. Mesmo que não entendam nada do que você fez, esse carinho vai te iluminar por dentro e o prazer é tudo seu.

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Eu realmente acho que o problema no mundo não é falta de amor.
Dá pra ver isso na nossa sala de estar: é claro que você ama aquele parente complicado, mesmo ele  sendo tão difícil de conviver.

Demonstrar carinho que é o difícil.
Como conseguir ser carinhoso com quem já machucou a gente?

Talvez o único jeito seja lembrando que a gente é muito pequeno. Que nós somos todos crianças desastradas que de vez em quando quebram o que não deviam.
E que, crianças que somos, precisamos tanto do colo pra aprender quanto da disciplina.

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Carinho é o açúcar da vida. Fiquemos diabéticos. 

15.12.15

Não precisa mudar tanto

No meu tempo, quando uma coisa demorava muito pra se resolver, a gente falava "Parece novela".

As novelas eram assim mesmo: No primeiro capítulo, a filha do coronel se apaixonava pelo filho do coronel inimigo. No capítulo trinta, eles se beijavam. No cinquenta, os pais descobriam. No capítulo cem, eles decidiam fugir. No cento e cinquenta tudo dava errado e mais ou menos no duzentos e vinte eles eram felizes para sempre.

No meio de tudo isso, cenas dos mocinhos chorando com trilha sonora triste e senhoras italianas fazendo macarrão.

Não era sem justiça que os mocinhos ficavam felizes para sempre: afinal, demorou quase um pra sempre inteiro para eles chegarem lá.

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Acho que essa expressão não funciona mais hoje em dia.

As novelas estão cada vez mais ágeis: em uma semana, a vilã comete um crime, foge, é pega, se redime e vira a mocinha.

Pode ser que isso tenha deixado as novelas mais interessantes, mas uma vida normal fica parecendo câmera lenta comparada com tudo isso.

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E como ficamos impacientes!

"Eu já tô solteiro há quatro meses, eu vou morrer sem ninguém!"

"Faz semanas que eu não tenho uma noite inesquecível... A vida está parada demais".

"Preciso de uma mudança total pra ontem!"

Na questão drama, a gente ganha fácil das novelas.

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A questão é: se você está vivo, se o seu pulmão se enche e esvazia de ar a cada tantos segundos e você ainda tem consciência de quem é... É porque tem bastante coisa acontecendo.

É natural do homem precisar de ritos de passagem para tudo. E esse jeito de ver as coisas que cria a ilusão de grandes avanços de uma só vez - por exemplo, como se nos tornássemos profissionais só no dia da formatura, em vez de nos centenas de dias de aula que o antecederam.


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A recompensa da paciência é a paciência, disse Santo Agostinho para irritar um ariano.

Com razão: não é de uma hora pra outra que as coisas acontecem.

Não é na hora do primeiro passo que uma criança começa a andar - é em cada uma das centenas de vezes que ela se apoiou no que tinha ao redor e se arrastou para a frente.

Mas não adianta. Essa criança não vai ganhar crédito até que finalmente mexa os dois pés no chão sem se segurar em nada.

Por que não valorizamos os períodos de consolidação lenta entre uma grande mudança e outra?

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Com muita sorte, vamos ter umas nove ou dez grandes revoluções na vida.

Fora isso, toda a nossa existência mora nos períodos entre uma mudança e outra - na adaptação ao novo momento, na calmaria de se estabelecer uma rotina, no tédio da repetição e finalmente na inquietude que antecede a mudança.

Uma mudança súbita que não foi antecedida por um período de duvidar de tudo e empurrar as coisas com a barriga dificilmente vai ter pernas para ir muito longe.

Pode não ser muito interessante andar em linha reta e em velocidade de cruzeiro - mas é nesses momentos que se pode apreciar a beleza da viagem.

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Pode ser que em alguns momentos nossa novela pareça chata e repetitiva, mas essa é justamente a deixa para que o desenvolvimento de nossos personagens. É a hora de ter bons diálogos e deixar o tempo correr.

No tempo livre, podemos chorar com trilha sonora e fazer macarrão.

Uma hora a reviravolta aparece - e não vai durar um capítulo só.

12.11.15

O novo hábito

Ele não estava feliz e não aceitava mais continuar desse jeito. Formal demais, trabalhador demais, obcecado demais. Não era possível ser a mesma pessoa e ainda assim ser uma pessoa.

Decidiu mudar de hábitos.

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E com um pequeno novo hábito, se permitiu viver e experimentar coisas que nunca tinha imaginado.

Como podia um novo hábito mudar tanto uma pessoa?

Pois ele mudou. Se desprendeu dos bens materiais.

Vendeu a televisão, depois o carro. Depois já não tinha quase nada. 

Não precisava de muito para viver - era um homem com um novo hábito.

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Caminhava pela cidade toda, não importava o horário.

Era como se tivesse muito mais coragem do que antes.

Seu corpo também mudou: perdeu peso, afinou o rosto.

Deixou a barba crescer. Até o sorriso estava diferente.

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Tinha muito mais energia! Era como se algo lhe dinamizasse e lhe desse coragem na vida.

Aprendeu a não deixar nada engasgado. Pedia o que queria sem vergonha nenhuma. Começou a se impôr, até se meteu em algumas brigas.

Se gostavam dele ou não? Isso não importava mais.

Perdeu o preconceito social. Fez novos amigos que seriam impensáveis na sua vida anterior.

Como um Jesus moderno, andava com todos os tipos de pessoas.

Parou de frequentar lugares importantes. Qualquer rua era capaz de fazê-lo encontrar prazer.

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Viu que aquilo que precisava na vida era muito barato.

Seu novo hábito lhe deixava feliz. E como era bom ser feliz!

E ele queria mais e mais daquilo. A vida não estava mais vazia. Estava cheia de prazer.

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Tudo isso por causa de um pequeno novo hábito: fumar crack.

Que bênção!

28.10.15

Jogos de Memória

Eu ando muito esquecido.

Pego os óculos, desço as escadas, deixei as chaves lá em cima. Subo as escadas, procuro as chaves que eu não sei mais onde coloquei. Desço as escadas. Com pressa, porque preciso ir ao mercado antes que ele feche.

Subo de novo, porque dessa vez foram os óculos que ficaram lá em cima.

Corro para o mercado. O que é que eu ia comprar mesmo?

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Não era pra ser tão ruim.

Bem criança, já adorava brincar de jogo de memória. Passava o dia virando cartas de baralho de duas em duas, marcando mentalmente as que eu já tinha virado para acertar as que combinavam e vencer o jogo.

Com tanto treino, não era pra eu estar com a memória falhando aos vinte e cinco anos. E aqui estou eu, com mais lapso que a Faber Castell.

(desculpa)

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De uns tempos pra cá, muita gente tem aparecido no consultório reclamando de falta de memória. Gente de todos os tipos: jovens, adultos, estudados ou não.

Se estamos tão mal de memória, do que será que precisamos tanto esquecer?

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Para uma pessoa com Alzheimer, as memórias que ficam quando as outras vão embora em geral são as mais antigas: o nome da mãe, as ruas em que se brincava na infância, os irmãos queridos que hoje se foram. 

Realmente, nunca vi ninguém reclamando que estava tentando lembrar do nome da professora por quem foi apaixonado no primário e não conseguiu.

As memórias mais doces, que guardamos com carinho e afeto, parecem sempre estar lá, mesmo quando tudo mais vai embora.

Talvez essa seja uma pista importante: algumas coisas são importantes demais para esquecermos. Ainda assim, elas costumam ser aquilo que nós menos lembramos.

Atolamos o cérebro de informação porque não estamos mais lembrando do que está no coração.

Esquecemos o nome de um cliente porque há muito tempo não lembramos de telefonar para aquele velho amigo.

Esquecemos de buscar os filhos no colégio porque faz anos que não paramos para lembrar dos nossos próprios tempos de estudante.

Precisamos esquecer porque perdemos o hábito de lembrar.

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Não é uma questão de ficar preso ao passado.

A vida é como um jogo de memória: só faz sentido continuar jogando se você sabe por onde já passou.

Não faz sentido batalhar oito horas por dia se você não souber ligar esse esforço àquilo que você viveu e que te fez decidir fazer isso. 

Só vale a pena estar no presente se a caminhada do passado até aqui fizer sentido. 


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Sugiro um exercício de memória diferente: em vez de ficar horas preenchendo palavras cruzadas porque o médico mandou, que tal procurar aquele sabor de sorvete que você adorava quando era criança?

Que tal passar pela escola em que você estudou na adolescência e tentar lembrar o lugar exato do seu primeiro beijo? E de como você chorou quando levou o primeiro fora?

Que tal passar meia hora cantarolando todas as músicas que lhe vierem à cabeça e saborar as memórias que elas trazem?

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Pode parecer bobo, mas eu prometo que não é.

A escalação do time de futebol que você torcia quando tinha onze anos, o motivo do soco que você deu no seu vizinho quando tinha nove, o caminho que você fazia para voltar da aula aos quinze, essas memórias são justamente a base das memórias que você tem hoje. Foi em cima delas que você construiu quem é.

É pela avenida do ontem que caminhamos hoje para chegar até o futuro. Tendo essa base firme, não vai ser preciso esquecer todo o resto para lembrar do que é realmente importante.

E, sabendo disso, qual é o problema de esquecer os óculos em casa?

6.10.15

Narcisos

Era uma vez um rapaz chamado Narciso, que nunca tinha visto o próprio reflexo (a mãe dele foi trocada por uma mulher que vendia espelhos ou coisa assim).

Um dia, quando jovem, Narciso foi beber água em um lago (abalada pelo abandono, a mãe dele nunca se importou em colocar água encanada em casa) e viu o próprio reflexo na água.

Ficou apaixonado.

"Mas que tesão de novinho!", pensou ele.

Ficou dias se admirando, até que um dia tentou se lascar um beijo e caiu na água. Narciso não soube nadar (sua mãe era agorafóbica e não conseguia levá-lo na aula de natação) e morreu afogado.

Fascinado por si mesmo, Narciso se levou à morte.

(história levemente adaptada por preguiça de abrir a Wikipedia pra lembrar da original)

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Não sei vocês, mas eu uso a palavra "narcisista" como xingamento. Não tem coisa melhor para falar mal de uma pessoa expansiva demais, desesperada pra chamar atenção o tempo todo.

Acho isso injusto com Narciso. Ele, ao meu ver, era uma pessoa em depressão. O narcisismo é, por excelência, uma estratégia de defesa.

Narciso era um tímido: quando ficou consciente da própria beleza, ficou tão preocupado em não macular a perfeição que via em si mesmo que ficou paralisado.

Para manter o controle de como seria percebido, Narciso não podia tirar o olho de si mesmo, constantemente policiando-se para não se perder.

Para se proteger, o único olhar que Narciso recebia era o próprio. Ninguém mais podia ver sua beleza.

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Não é à toa que "Narciso" surge da mesma raiz que a palavra "narcótico". Estar narcísico é estar entorpecido em si mesmo, incapaz de interagir verdadeiramente com o mundo exterior, por medo de não ser reconhecido se expôr.

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Dá um trabalho danado ser Narciso.

A energia que se gasta se protegendo, querendo estar no controle e fingindo não querer ser o centro das atenções é exatamente a mesma energia que estaria disponível para fazer alguém brilhar e se manifestar à altura da própria capacidade.

Narcisismo é o oposto de auto-estima. Ter auto-estima é confiar que o julgamento do outro pode ser um pouco mais generoso do que o próprio. É deixar de querer ser tão perfeito e se mostrar belo do jeito que naturalmente já se é.

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Deixar de ser narcisista requer uma boa troca: gastar menos energia se preocupando em estar perfeito para gastá-la se manifestando mais autenticamente.

Basta olhar para si e pensar "Se eu tenho tanto ciúme, acho tanto que os outros deviam me dar valor, quero tanto ser reconhecido... é porque eu devo me achar muito foda, mesmo!".

E usar um pouco de lógica: "Se eu me acho tão foda assim, provavelmente algo de foda eu devo ter. Então, não preciso ter ciúme, nem vergonha de me mostrar. Vou agir do jeito que eu tenho vontade e exigir meu reconhecimento em voz alta. Ai de quem não gostar, que perde a oportunidade de ter um eu do lado."

Com auto-estima, ninguém precisa se achar perfeito nem se apaixonar pela própria imagem. Satisfeito com quem se é, ninguém se machuca tanto com as rejeições da vida, e fica mais fácil ser verdadeiramente humilde - ou seja, gostar de si mesmo dentro das próprias limitações.

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Era uma vez um Narciso que não era narcisista.

Um dia, ele viu sua própria imagem refletida num lago.

"Que pitéu", pensou ele. "Tô gato mesmo".

Ficou enfeitiçado pela própria imagem. Mas não quis guardar isso só para si.

Saiu andando pelas ruas cumprimentando todo mundo, piscando o olho pra quem olhava pra ele, caprichando no rebolado e no charme.

Fez um book de modelos e distribuiu por aí.

Fez sucesso. Viajou o mundo todo, mostrando sua beleza para todos.

Anos depois, viu a própria imagem refletida no lago. Estava envelhecido. O cabelo estava ralo, o rosto enrugado, a pele marcada. Passou a mão pela barriga já saliente e viu como tudo tinha mudado.
Deixou-se refletir um pouco.

"Sabe que eu ainda dou um caldo?"

Abriu um sorriso e seguiu em frente, continuando a piscar o olho com pés-de-galinha e mostrando o que tinha de belo por aí.

Sua beleza era algo mais profundo do que a superfície do lago podia refletir.

17.9.15

De olho no trabalho

Trabalho é um lugar onde você ganha dinheiro para ser infeliz, mas não tão infeliz quanto estaria se estivesse em casa sem dinheiro.

Ao conjunto de estratégias para passar o maior tempo possível longe da família dá-se o nome de "carreira".

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Minha amiga era tão dedicada ao trabalho que entrou na minha vida por conta dele: nos conhecemos numa entrevista de emprego, os dois sem um tostão furado.

Nossos empregos eram a maior furada: a jornada de trabalho era a mesma de um ponteiro de relógio, o salário equivalente ao de um cavalo puxador de carroça e a chefe só não era uma vilã de filme da Disney porque assustaria as crianças no cinema.

Na terceira semana de trabalho, eu já queria desistir. Todo dia ia pegar o ônibus com vontade de chorar. Ela, precisando ainda mais do dinheiro do que eu, dizia "Aguenta, amigo. Vai melhorar.".

Ela nunca reclamava, nunca. Não entendo como ela conseguia ter tanta energia.

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Era domingo e ela me chamou:

- Flávio, vai comigo no posto de saúde?

Eu estava de folga, ela não.

- Você tá mal? - perguntei.

- Não ainda. Mas preciso ficar. Não vou aguentar ir trabalhar hoje. Não vou aguentar. Não vou.

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Dava para entender: ela estava esgotada. Se tivesse a opção, preferiria ser atropelada por um fusca entupido de palhaços que continuar naquele emprego. Estava ali porque precisava.

- O que você vai dizer que tem?

- Não sei! Já ouvi dizer que botar alho entre os dedos do pé dá febre.

- Mas o médico não vai estranhar se a gente chegar fedendo a alho?

- Eu digo que estava fazendo feijoada... Nos meus sapatos.

- E se você fechar o olho e fingir que tá com conjuntivite?

- Boa! - exclamou ela, enquanto corria para o banheiro. Corri atrás, tentando entender o que acontecia.

- O que é isso na sua mão?

- Desodorante.

-  Não! Você não vai...?

Ela ia. Respirou fundo para tomar coragem e plaft, encheu o olho de desodorante.

A pessoa com a maior ética de trabalho que eu já vi na vida, na minha frente, passando desodorante no olho para ver se conseguia um atestado médico.

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Eu sou péssimo em calcular distâncias.

Pra mim, "logo ali" e "do outro lado da cidade" são coisas muito parecidas. Talvez por não ter grana para o ônibus, minha amiga acreditou em mim quando eu disse que dava para ir andando até o posto de saúde mais próximo.

Caminhamos meia hora.
- Estamos perto?, perguntava ela, com o olho do tamanho de uma bola de vôlei.

Ainda não. Um sol de rachar. Mais meia hora de caminhada. O olho dela do tamanho da pedra que rolava atrás do Indiana Jones.

Mais vinte minutos caminhando, o olho dela ultrapassando Plutão na escala dos planetas, chegamos no posto de saúde.

"ESTAMOS EM GREVE", dizia o cartaz no portão.

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Ela derramou algumas lágrimas, talvez por causa do desodorante.

Acabamos indo tomar sorvete do outro lado da rua.

Ela ficou com uma inflamação de verdade no olho e teve que a falta no trabalho descontada do salário. Ela ainda aguentou ficar naquele emprego por mais um ano. Eu saí depois de três meses.

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- Que dia corrido! - disse outro colega de trabalho meu, com um ar de orgulho. - Tô sem almoçar até agora!

Estranhei.

- Mas você não foi almoçar agora pouco?
- Não, eu fiz o horário de almoço mas acabei só vomitando. Tô vomitando faz três dias.
- Credo, meu! Cê não vai ao médico?
- Muita coisa pra fazer. Não dá pra deixar qualquer coisa te derrubar, né?

"Qualquer coisa", pra ele, deve ser tipo o meu "logo ali".

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Não sei vocês, mas acho que esse ritmo de trabalho não faz bem pra ninguém.

Tem campanha na TV contra o uso excessivo de álcool, desestimulamos o uso de remédios, de cigarro, de açúcar, mas esquecemos rapidinho que vício em trabalho é um vício tão destruidor quanto qualquer outro.

Mas dizer "trabalhei quatorze horas sem intervalo" ou "não paro nem pra almoçar" nos dá um senso de orgulho que é digno de um viciado tentando justificar o vício.

"É, mas fazendo isso eu comprei um apartamento!"

Sim, e eu enchendo a cara consegui perder a virgindade. Agora, se eu precisar encher a cara a vida inteira pra fazer sexo, é porque tem algo de muito errado acontecendo.

Se alguém só consegue comprar o que quer sendo completamente engolido pelo trabalho, talvez esteja com as prioridades um pouco erradas.

[disclaimer rápido: eu sei que a gente vive num país muito desigual em que muita gente ou trabalha feito um chinês que tomou anfetamina ou não come. Não é disso que eu tô falando aqui.]

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Trabalhar não devia dar tanto trabalho.

Aliás, está mais que provado pela Ciência™ que mais horas gastas no trabalho não necessariamente refletem em mais produtividade. Mais e mais empresas tem descoberto que os funcionários produzem mais quando trabalham menos.

As empresas sabem disso. Afinal, grandes corporações tem setores inteiros dedicados a estudar o aumento de produtividade dos funcionários e implementar mudanças nesse sentido. Então, por quê nada muda?

Porque gente cansada paga o preço que for pelo conforto. Paga o que for necessário para conseguir o entretenimento mais fácil possível.

Quem está exausto só quer descansar - e por isso acredita mais fácil em promessas de consumo como chances de encontrar felicidade.

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Mais um benefício pra quem tenta se afastar dessa coisa de trabalhar o tempo todo: a vida passa a ser mais fácil de apreciar.

Com um pouco mais de calma e menos de gastrite nervosa, as coisas pequenas tendem a ganhar mais valor e você acaba percebendo que não precisava de tanto quanto pensava antes.

É difícil mudar? Talvez seja. Mas eu tenho uma ideia para resolver esse problema.

Vamos juntar toda a força laboral brasileira e bastante desodorante. Se possível, perto de um posto de saúde aberto.

Depois disso, abriremos os olhos - se conseguirmos.

4.9.15

Não é doce morrer no mar

Nascendo a mais de quinhentos quilômetros da praia mais próxima, posso contar nos dedos a quantidade de vezes que vi o mar quando era criança.

Uma delas me marcou muito: em plena areia, deitado, reinava gigantesco um peixe prateado. Um peixe maior que eu, de um tamanho que eu nunca tinha pensado que um peixe podia ser.

Minha tia precisou me arrastar pelo braço pra eu parar de cutucar aquele cadáver majestoso que tomava sol com a gente.

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Quando algum paciente sonha com o mar, geralmente a água do oceano é um símbolo para o inconsciente. 

Pela maneira que o mar se comporta, conseguimos ter alguma ideia do estado emocional da pessoa: se ele está revolto ou calmo, se ele está limpo ou sujo, isso tende a ser um reflexo de como essa pessoa está lidando com seus conteúdos emocionais ocultos.

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O mar tem essa riqueza de possibilidades simbólicas porque jamais vamos ser capazes de entender tudo sobre ele: esse negócio que nunca acaba, que nos liga a terras desconhecidas (e também nos separa delas), e que esconde uma série de coisas que jamais vamos poder conhecer.

Nunca se sabe o que pode sair do mar. Pode ser um peixe morto, pode ser lixo...

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...Pode ser uma criança.

Algo me diz que a comoção mundial com a foto está intimamente ligada com a metáfora do mar como inconsciente: na imagem da criança que encalhou na areia, veio à consciência a criança morta que todos preferimos deixar inconsciente.

Com a força simbólica do mar, a criança síria traz a tona todas as crianças que não nos permitimos enxergar no dia-a-dia: o menino indígena que desemboca no portão da nossa casa tentando vender um balaio, o moleque que morre de tiro na favela por motivo nenhum, mil crianças em mil praias.

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Maior indicativo do significado simbólico disso tudo é como isso tem sido lidado artisticamente: mil charges e desenhos representando o menino morto com asas, sendo carregado por anjos, ou sob um foco de luz divinal.

Quanto antes o menino virar mito, virar anjo, mais cedo vai deixar de ser um cadáver. Mais rápido vai perder o impacto de ter sido o que foi: uma criança que morreu pela indiferença alheia.

Um cadáver de bermudinha, camiseta e tênis minúsculos que, cedo demais, experimentou o que é nadar e morrer na praia.

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O mais triste é que aquilo que o mar traz consigo, ele leva de volta. 

Essa criança veio à tona, e veio ao consciente, quando já era tarde demais.

Assim que pudemos, a enterramos - justamente na cidade de onde ela precisou fugir, para que fique onde deve: escondida. 

Mas por um momento, ainda que breve, tivemos consciência. 

10.8.15

A geração do bico

Meu pai passou trinta anos construindo uma empresa até ela ser sólida o suficiente para sustentar uma família, com o objetivo de passar isso adiante para os filhos e deixar uma herança segura para os dois polacos babões que ele trouxe pro mundo.

Mesmo sendo babão, aprendi muito com a ética de trabalho dele.

Ele trabalhou muito duro, pegando pesado em dois fatores que ajudaram a empresa a dar certo:
Um, ele dava uma atenção enorme para cada cliente que passava pela porta.
Dois, os serviços que ele presta são super difíceis de aprender e dependem muito a experiência que só ele pode ter.

O que deixou meu pai praticamente sem tempo nenhum, porque o trabalho da empresa depende dele para tudo. Sem o diferencial do que ele faz, muito mais prático comprar o que ele vende pela internet.
Nada muito fácil para os filhos assumirem - isso sem contar que os dois polacos foram babar longe do pé: eu fui estudar psicologia e meu irmão foi tocar bateria e encher o corpo de tatuagens.

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A geração a que eu e meu irmão pertencemos não valoriza tanto a estabilidade quanto a do meu pai.

Chega a ser confuso: Todos desejamos vidas emocionantes e cheias de acontecimentos, mas quase todos os meus amigos estão tentando concurso público.

Olhando mais a fundo, parece que até a estabilidade do concurso é um projeto temporário. Algo como “Vou trabalhar aqui pelo dinheiro e fazendo o que eu gosto no paralelo, depois eu abandono”.


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Não acredito que meu pai tivesse grandes emoções ao trabalhar quatorze horas por dia construindo uma empresa. No máximo a emoção de saber que os filhos tinham comida na mesa e cadernos para ir pra escola.

Minha geração quer outra coisa: quer sentir frio na barriga, quer aplauso, quer sair do trabalho no horário que decidiu, dirigindo uma Mercedes, dar um pulo no apartamento de luxo pra trocar de roupa e ir pular de bungee jumping, antes de voltar para o anfiteatro onde vai dar uma palestra com o tema "Acredite nos seus sonhos” e receber aplausos de cinco mil pessoas.

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Não duvido que alguns de nós consigamos uma vida assim.

Não é minha intenção julgar esse objetivo – essa geração é a minha, e eu sou igualzinho ao que eu estou descrevendo – mas esse tipo de sonho tem um preço muito alto. Para ter a possibilidade de uma carreira emocionante, muitas coisas estão em risco. Você precisa passar por experiências de vida muito intensas e ainda ter tempo para se dedicar a coisas novas.

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Viramos a geração do bico.
Primeiro, bico pra pagar as contas. Não estamos dispostos a trabalhar quatorze horas por dia por trinta anos antes de ter resultados. Queremos nosso bungee jump no final do dia. (Todos meus colegas que investem com muito peso nessa parte parecem precisar de algumas cervejas ou um baseado no final do dia para pelo menos sentir um pouco de emoção).

Na escolha pela emoção, escolhemos nossas carreiras com ousadia:
"Vou estudar língua polonesa, serei o escritor exceção que vai ser amado por crítica e público!"
"Vou estudar musicoterapia, a área é difícil mas eu vou saber me destacar!"
"Vou viver de tocar guitarra, com muita fé e trabalho eu chego lá!"

Enquanto isso, hora de se virar: fazemos bicos de tradução, damos aulas, entregamos panfletos... tudo para garantir o feijão na busca de uma emoção maior.
Nada de maiores comprometimentos! Só bicos. Tudo é temporário.
"Só algum tempo nesse emprego até eu conseguir me estabelecer melhor, depois eu saio."

Agarramos firme em um cipó e pulamos de árvore em árvore tarzaneando rumo a um objetivo vago, com a ideia de que iremos aterrissar, quase por acidente, na realização pessoal e financeira.

(O mercado sacou isso e tem agido bem de acordo: agora a promessa não é de estabilidade e direitos garantidos: é de vaga temporária com um salário melhorzinho, é de pessoa jurídica com salário razoável e garantia nenhuma, é o bico formalizado. É isso que tem sido atraente para o trabalhador mais jovem.)

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Aí vem outro tipo de bico, quando não chegamos nesse objetivo maior:
"Não deu certo por quê, meu Deus? Cadê o nosso trato, vida? Que eu ia arriscar e ser ousado e você ia me premiar com aplausos e uma casa na praia?"
(ou, pior ainda: tô na praia e sendo aplaudido, mas cadê a felicidade que eu devia estar sentindo?)

É um pouco de birra, mesmo. Até em um texto ou outro sobre o assunto aparece o argumento de “Recebemos a promessa de que teríamos carreiras brilhantes e nos frustramos quando não a encontramos”.

Espera um pouco aí: ninguém prometeu nada! A gente que criou essa expectativa e resolveu agir de acordo. Conseguir é questão de sorte.

E nós, como crianças mimadas, batemos o pé e choramos pelo doce que ninguém nos disse que íamos ganhar. Bico de novo.

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Não é que o conceito de felicidade seja novo.
Não quer dizer que nossos pais não tinham a ideia de serem felizes profissionalmente, nada a ver com isso. A maior diferença talvez esteja que nós colocamos o sucesso absoluto como pré-condição para a felicidade.

E sucesso absoluto não existe, e felicidade condicional também não.
Lembrar que a vida não nos prometeu nada e que trabalhar duro numa coisa só é essencial para que algo floresça ajuda a adaptar as expectativas e a deixar de querer tantas coisas como condição para ser felizes.

Isso deixa a vida mais fácil. Daí pra frente... é bico.

3.8.15

Com medo, de propósito


Eu sou um covarde. Tenho até medo de dar uma opinião muito forte em voz alta por medo de que ela mude nos minutos seguintes e eu precise me contradizer.

Mesmo assim, tenho uma resposta que me parece ser definitiva.

Quando me perguntam minha frase favorita, minha citação preferida de toda a literatura, sou obrigado a lembrar do Rainier Maria Rilke (sim, eu sou um clichê e Cartas a um jovem poeta mudou minha vida na adolescência).

Eu não lembro a frase exatamente (que bom para uma frase preferida, né?), mas ele descreve como o medo é um dos poucos sentimentos que se sente inegavelmente no corpo.

E não é? Quando você está com cagaço de alguma coisa, isso dá um geladinho nas costas que nem escorregar pelado num tobogã de gelo é capaz de dar.

Pois bem, o Rilke estava falando do medo como esse sentimento, esse friozinho nas costas. Ele dizia algo como "O medo é o dedo de Deus lhe empurrando na direção que você deve ir".

Não lembro quando foi que eu li essas palavras, mas eu sei que eu nunca mais fui o mesmo depois disso.

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Eu adoro caminhar.

Não tem coisa melhor pra mim do que sair livremente pela rua, olhando as coisas, as pessoas, os carros, os pensamentos que me atravessam a cuca com a mesma desatenção que eu atravesso a rua.

Eu honestamente não sei como ainda não fui atropelado.

Assaltado já fui, uma, duas, oito vezes, por insistir em me recusar a voltar de táxi só porque estou a seis quilômetros de casa, sozinho, às duas da manhã.

Só não dá pra parar por conta disso.

Não aceito me parar por medo de assalto.

Não dá pra deixar de ocupar a cidade que eu escolhi para viver só porque tenho medo de que aconteça alguma coisa pra rua.

Lembro do dedo de Deus me esfriando as costas pra me apontar o caminho e sigo em frente.

Isso me faz dono da minha rua. Isso me faz ser senhor de onde minhas pernas podem ir. Isso me faz uma peça de resistência contra os muros que a cidade impôs.

Isso me faz ser assaltado uma vez por mês.

Não tão bom quanto as outras coisas, mas vale o preço de ser livre.

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Acho que isso me acompanha há mais tempo do que eu normalmente penso.

Me ocorreu a memória de ter uns nove anos e ver uma lesma subindo a janela da sala de casa.

Senti nojo daquele bicho, mas puta merda, era só uma lesma. O que ela ia me fazer? Passar por cima de mim e me deixar gosmento?

Não ia ter medo de um bicho que poderia muito bem ter saído do meu nariz num dia de resfriado forte.

Fui até a janela, respirei fundo e enfiei o dedo nela. Bem fundo na lesma, não pra machucar a verdosinha, mas pra sentir fundo aquilo que me assustava.

Missão cumprida. Toquei na lesma.

Mas a sensação de dever cumprido ainda não tinha aparecido. Faltava aquela satisfação final.

Não pensei duas vezes e coloquei o dedo na boca. Meu dedo sujo de lesma amassadinha.

Ia dizer que não tinha gosto de nada, mas tinha sim. De vitória.

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Ainda teimo em seguir essa filosofia.

E não é nas coisas grandes que a capacidade de vencer o medo se prova. Não é pulando de pára-quedas ou remando correnteza abaixo que você se prova maior do que antes.

É nas coisinhas pequenas.

E eu me obrigo a fazer isso. Obedecer um pouco o que o medo quer me dizer.

E lá vou eu, entregar um bilhete com meu telefone para um cara bonito em um bar, mais pra enfrentar o medo do que por interesse propriamente dito. Soltar a Billie Holliday de dentro de mim no karaokê, sem fingir que estou cantando mal de propósito só pra não pegar mal. Dizer pra mulher no ônibus com duas crianças no colo que ela é uma ótima mãe.

Uma coragenzinha por vez. No fundo, no fundo, nossa covardia esconde gentilezas e espontaneidades muito significativas.

E dá muito medo colocar essas qualidades pra fora num mundo tão insensível e engessado.

Mas não tem problema. Basta lembrar do dedo de Deus nos empurrando pra seguir em frente. Desconfortáveis e inseguros, mas de propósito.

Com medo, mesmo. E em problema nenhum com isso.

30.7.15

Assim tá bom

O Darwin mandou a letra: quem não se adapta fica pra trás.

Algum tempo atrás, algum macaco cabeçudo viu os colegas rabiscarem na parede e teve preguiça de fazer igual.  Ninguém quis dar pra ele por conta disso, e agora o DNA dele ficou perdido pra sempre.

É a lei da natureza. Ou você se adapta, ou morre.

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“Sabe no eu penso quando eu tô super mal, Flávio?”

Minha amiga perguntou e eu não sabia. Arrisquei:
“Em comida?”
“Em você. Quando eu penso que eu tô mal, que eu não tenho nada de bom na vida, e quero desistir de tudo... eu lembro de você. Sabe, cê passa por cada coisa... e não desiste.”
"Ahn...", pensei um pouco. "Obrigado?"

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Quando as coisas não vão bem, digamos, no financeiro, o certo é ser um bom cristão e racionalizar que “Pôxa, mas pelo menos eu tenho saúde, tem gente que não tem.”
E se não tiver saúde, pensar “Ah, mas pelo menos eu tenho família, tem gente que não tem.”
E se não tiver família, vai pensar “Pelo menos eu tenho fé.”
         
Agora, se você está sem dinheiro, saúde, família e fé... Tudo bem. Pode reclamar da vida à vontade.

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Num momento deprê, é natural se comparar com alguém que não está tão bem assim para se sentir melhor. Eu só não imaginava que eu era a pessoa em quem os outros pensavam nesse momento.

Eu devia ter desconfiado disso quando um casal de amigos apareceu aqui em casa no começo da noite, em pleno dia dos namorados, com três taças, morangos e uma garrafa de espumante, e disse “Ah, a gente resolveu passar aqui com você.”

E não era uma orgia que eles queriam. Acredite, eu tentei.

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Tá certo, eu passei por umas coisas bem chatas de uns tempos pra cá. De uns vários tempos pra cá. Nada tão pesado assim, só o suficiente pra acabar desenvolvendo o mecanismo do “Assim tá bom”.

Não rolou o emprego que eu queria? Tudo bem, assim tá bom. Levei um pé na bunda? Não dá nada, assim tá bom. Um jacaré comeu meu braço? Ótimo.

E sabe o que é? Até que tá bom, mesmo.

Quando a gente perde muito do que a gente julga ser importante pra nós, acaba descobrindo que não precisava de tudo aquilo que imaginava pra ser feliz.

Não que você fique totalmente alegre depois de uma decepção, claro, mas olha: o mesmo nível de infelicidade de antes dá pra manter, sim.

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Buda disse que renunciar ao desejo é o fim do sofrimento. Darwin disse que quem melhor se adapta ao ambiente é quem sobrevive.

Eu concordo: nada ensina tanto a gente quanto querer alguma coisa e não conseguir.

Ainda assim, acho importante não matar a parte da gente que quer as coisas.

Ficar satisfeito facilmente com o que a vida apresenta é muito útil, mas é a insatisfação é o que nos faz andar.  Se conformar é bom para não ser um chato, mas se conformar com tudo é receita pra morrer em vida.

Se a sua reação frente a uma coisa ruim é dizer “OK” e seguir em frente, você perde a oportunidade de se transformar com a frustração. Para nos transformarmos, precisamos ficar cansados, e frustrados, e chateados, e putos.

Em algum desses passos, surge a energia pra chutar o pau da barraca.

Com sorte, a situação fica melhor e você não tem que se adaptar a algo que não gosta. Se a barraca desabar, não resistir ao chute e cair em cima da nossa cabeça, tudo bem. A gente se acostuma.

Não deve ser tão ruim. O Darwin que disse.

2.7.15

Um pequeno criminoso

Quando tinha oito anos, eu roubei um carro.

Tá bom, tô exagerando. Quem roubou o carro foi o N, amigo do meu irmão.

O pai do N era policial, e um dos sargentos foi viajar com a família. A casa ia ficar sozinha por alguns dias.

Cidade pequena tem umas coisas meio estranhas. Aparentemente, o pensamento lógico era "Vai viajar? É perigoso deixar a casa sozinha. Bota uma criança pra ficar cuidando!".

O N foi ordenado guardião temporário da casa do sargento. Ele tinha doze anos, e chamou meu irmão e eu para lhe fazermos companhia num sábado à noite.

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Foi um dia de cometer pecados.

Ousadíssimos, tomamos quase uma lata de cerveja cada um. Remexemos todos os cantos da casa em busca do inesperado. Encontramos uma arma e brincamos de atirar um no outro.

Achamos o esconderijo de Playboys do dono da casa e nos masturbamos. Eles, com a foto clássica da Scheila Carvalho lambendo o próprio peito.

Eu, um pouco menos animado, tentando imaginar como é que ela conseguia fazer aquilo.

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Pra mim já era aventura o suficiente. Eles queriam mais.

"Véio...", disse o N, "isso aí no chaveiro é a chave do carro?"

Era a chave do carro do sargento.

"Você sabe dirigir?", perguntamos pro N.
"Eu sei."
"Eu também", disse o meu irmão, pra não ficar pra trás.

Fomos os três pro Corsa Wind novinho do sargento. Saímos da garagem, e dali pra frente, foi só emoção.

Dois meninos de doze anos se revezando ao volante, e tentando mostrar que eram bons motoristas. Não por fazer balizas impecáveis, mas tentando fazer a curva mais fechada possível na maior velocidade que o carro aguentasse, com o rádio ligado no último volume.

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Cidade pequena, barulho na madrugada, não demorou para vermos no retrovisor um giroflex atrás da gente.

Minha cabeça de criança foi incapaz de registrar direito a cena, porque a minha memória é praticamente uma cena de filme de Hollywood.

Adrenalina a mil, aceleramos e voamos pelas ruas desertas de Pato Branco, entrando em ruelas cada vez mais tortas, tentando despistar a polícia que nos seguia. Correndo, chegamos à rua de calçamento onde ficava a casa.

Xingávamos o portão eletrônico por abrir tão devagar, enquanto olhávamos para trás, incapazes de acreditar que não tínhamos sido pegos.

Finalmente o portão fechou e... nada aconteceu.

Chegamos em casa foragidos e ilesos. Meu anjo da guarda deve ser o Van Damme.

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Se tivéssemos sido pegos, provavelmente levaríamos belas broncas e uma surra memorável dos nossos pais.
Ainda assim, acho que todos lembrariam que éramos crianças, e provavelmente ninguém consideraria jogar a gente numa cadeia por causa de uma aventura dessas.

Agora, se estivéssemos nos dias de hoje, e  estivéssemos mais perto da periferia, e tivéssemos feito muito menos do roubar um carro por uma noite, já teria gente pedindo nossa cabeça.

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Acho estranha essa obsessão por reduzir a maioridade penal.

Adolescentes são muito inteligentes, mas não sempre. Às vezes a parte criança ganha, a cabeça é tomada pelo senso de aventura e vontade de ser dono de si, e o cérebro simplesmente desliga. Inocência de criança e frustração de adulto se encontram num ser só, desejoso de mergulhar no proibido e pronta pra fazer merda.

E isso até que é bom: errar é a melhor coisa que se pode fazer na adolescência.

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Claro que há erros e erros, mas não é esse o caso.
Essa discussão não se resume a argumentos como "ah, então ele é inocente só porque tem dezessete anos?".

Esperar os dezoito anos para prender alguém é como um combinado de cessar-fogo. É uma trégua.

É como se no começo do jogo, virássemos para um jovem de periferia e disséssemos "Sim, você vai nascer numa sociedade em que sua vida vale muito pouco, e você vai ter muito poucas chances. Mas vamos tentar ser justos: você vai ter até os dezoito anos pra aprender a se virar com isso antes de te jogarmos numa cadeia. Tente ser criança no percurso."

Quando você está com todas as regras do jogo contra você, você precisa pelo menos de um tempo pra tentar se localizar dentro delas. Errar é inevitável.

Quem não entende isso, é por maldade ou total falta de empatia.

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É todo um trabalho de olhar pra um adolescente e lembrar que ele é gente, mesmo quando erra. E que, se errou um erro muito grande, talvez tenha sido por falta de ter aprendido coisa melhor. E que, ainda assim, ele tem tempo pra aprender se for tratado com decência.

Como tratar um pequeno criminoso é uma questão complexa, mais fácil de dizer do que de fazer, e que não se entende com um olhar rápido.

Tipo a Scheila Carvalho lambendo o próprio peito.

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Notinha: tive que tirar o nome do meu amigo do texto porque deu treta. Mas tá certo, quando estamos falando de menores precisamos proteger os envolvidos...

22.6.15

Vovó mudou de ideia

"Burro é aquele que não aprende quando erra. Inteligente é aquele que aprende com o próprio erro. Esperto é aquele que aprende com o erro dos outros.", minha mãe dizia, provavelmente citando errado algum filósofo.

"Quantos anos você viveu?", ela também dizia, na hora da bronca. "Não importa o quanto você ache que está certo, eu sempre vou ter trinta anos a mais que você. Nesses trinta anos, tenho certeza que eu aprendi coisas que você não sabe."

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Pois bem. Fui crescendo e tentando ouvir a voz da experiência. 

Por isso, quando estava em dúvida entre ficar em Curitiba e tentar a carreira de psicólogo ou voltar a morar com meus pais, procurei a minha avó, uma professora aposentada - e afiadíssima - de 86 anos. 

Abri meu coração com ela. Falei de como a grana estava curta, como a vontade de trabalhar na minha profissão era grande e como eu teria mais oportunidades aqui do que na cidade dos meus pais, mas que não estava conseguindo pagar o aluguel e as coisas estavam difíceis. 

Falei que seria difícil voltar a morar com meus pais, que eu sentia que minha vida era em Curitiba, e não queria abandonar meus amigos daqui.

-- 

No fim das contas, a minha pergunta era "Volto pra casa dos meus pais ou insisto mais um pouco?"

"Meu filho", disse ela, "Amigos vem e vão. Sua família é que está mesmo ao seu lado. Seu pai está muito sozinho no trabalho dele, faria muito bem ele ter companhia."

Não era bem o que eu queria ouvir.  No fundo, minha decisão já estava tomada, e o conselho dela acabou me deixando com peso na consciência.

Minha vó era a voz da sabedoria, afinal. Ela devia saber o que era melhor, e provavelmente essa decisão de ficar longe da família ia acabar mordendo a minha bunda.

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Enquanto eu decidia ficar na mesma cidade, minha avó ia para outra.

Sem conseguir mais ficar sozinha na casa onde morava, e para ficar mais perto da família, acabou se mudando para uma casa mais próxima à casa dos meus pais. 

Na visita seguinte, minha avó era só reclamação:

"Aqui não tem as minhas velhas, meu filho. Não tem com quem jogar baralho. Tô abandonada aqui."

Eu tentei usar os argumentos que ela usou comigo: família é bom, é importante ter por perto.

"Mas filho, a vida não é nada sem amigos..."

Acho que, mesmo aos (ou principalmente aos) 86 anos, você pode mudar de ideia.

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Pouco tempo atrás, o sogro de uma das minhas tias estava com câncer. Faleceu rapidamente após ser internado, consumido demais pela doença.

Como é comum em cidade pequena, as fofocas correram depressa. Inventaram uma fofoca que tinham dado para ele uma tal de "injeção da morte sem dor", e isso foi parar nos ouvidos da minha avó. 

Alguns dias depois, minha tia levou minha avó para tomar injeção. 

Na hora de levar a agulhada, minha avó teve um ataque de ansiedade, desmaiou e acabou sendo internada também.

Quando acordou, chegou à conclusão lógica: estavam tentando dar a tal da morte sem dor para ela.

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Desde então, minha avó decretou uma nova regra: antes de ela comer qualquer coisa, alguém precisa provar a comida na frente dela.

Por prevenção. Assim, ninguém vai dar nada pra ela morrer, não. 

Acho que, agora, ela sente a mesma coisa que eu sentia antes de sair da casa dos meus pais: família é ótimo, mas perto demais pode acabar te matando.

14.6.15

Vidas solitárias

Todos os dias, eu acordo sem ninguém ao meu lado.
Tomo o meu café da manhã sozinho, lendo sozinho as notícias do jornal.
Saio de casa sozinho, vou ao trabalho sozinho, e lá estou cercado de gente.

Bato o cartão sozinho e volto para casa acompanhado dos meus fones de ouvido. Faço meu jantar sozinho, enquanto canto para as paredes, e vou dormir sozinho.

Há quem pense que a minha vida é solitária.

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Uma amiga minha é a raspinha do tacho da família. Com três irmãos mais velhos, foi uma caçula muito amada - e muito cobrada - por todos.

Se apaixonou ainda na faculdade e tem um relacionamento intenso desde então. Intenso mesmo: brigam muito, discutem muito, reatam muito, choram muito e em alguns momentos são muito felizes. Sempre um ao lado do outro. Uma vida que é quase uma propaganda de shopping no dia dos namorados.

Ela vai dormir ao lado dele, acorda com ele, toma o café com ele e volta para a casa para encontrá-lo. Estão os dois lado a lado, isolados do mundo.

Às vezes eu penso que a vida deles é solitária.

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Minha mãe teve dois filhos de sangue, mas sempre tivemos um punhado de agregados lá em casa.
Gente que não tinha muito para onde ir e que acabava dormindo uma noite, duas, e quando percebíamos estava lá há alguns meses.

Ela foi professora por muitos anos, e até hoje alguns ex-alunos aparecem lá em casa para dar um abraço e abrir o coração pra ela.

Além disso, é envolvidíssima na igreja e sempre tem alguma visita em casa. Ela mora com meu pai e meu irmão.

Às vezes, ela me liga no meio do dia, meio sem jeito e com a voz chorosa, e diz "eu só queria ouvir sua voz".

Não sei se muita gente pensa que que a vida dela é solitária, mas eu acho que é.

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O conhecido que mora sozinho e está aposentado.
A vizinha que passa o dia conversando com todo mundo, mas que você sente que nunca realmente escuta.
O cachorro que passa o dia na porta, com cara de triste, esperando o dono voltar para casa.
O marido que não abre suas frustrações para a esposa por medo de que ela perca a admiração por ele.
O seu amigo que sempre te procura, mas de quem você se afastou um pouco porque só conversa com um baseado na mão.

Não existe pessoa que não tenha sido tocada pela mão fria da solidão.

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Acontece que a experiência da solidão não se resume à falta de outra pessoa na sua vida.

Se fosse apenas por falta de pessoas ao redor, ninguém se sentiria solitário. Todo mundo conhece alguém mais solitário do que si, e todo mundo sabe de alguém que poderia visitar. Fosse só isso, todo mundo se encontrava e a solitude não seria tão universal.

O buraco é mais embaixo. A solidão que dói é aquela para a qual não basta uma pessoa por perto.
É aquela que quer uma pessoa capaz de realizar as expectativas que não fomos capazes de cumprir por nós mesmos.

Aquela que quer uma pessoa argamassa pra preencher nossos buracos - e isso não existe.

E, se existisse, seria o fim de qualquer possibilidade de crescimento pessoal. Gente completa não precisa crescer.

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Paciência, solitários.
Não adianta pedir a Deus para ter o seu amor de volta, não adianta querer manipular seu filho até que ele lhe visite, não adianta passar horas no Tinder.

Solidão não se cura com outra pessoa.
Ou você aproveita a deixa e entra numa jornada de autoconhecimento, tentando suprir sozinho as necessidades que você queria que outra pessoa resolvesse, convivendo com suas frustrações e fraquezas individuais até começar a gostar do que vê, ou você se apega na esperança de que alguém vai tapar esse buraco.

E essa esperança, sim, é muito solitária.

11.6.15

A Surpresa

Dessa vez, ele não se deixaria esquecer.

A cada aniversário que ele fazia, ganhava da namorada uma festa mais nababesca que a anterior. Agora era hora de retribuir.

Além do mais, ela tinha passado o mês todo dizendo coisas como "E aí, como tá a organização da minha festa surpresa?".

Ele decidiu que não ia dormir no ponto.

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Passou dias organizando a festa.

Pegou o contato de todos os amigos, passou semanas escolhendo o buffet certo, foi em todas as confeitarias da cidade em busca de um bolo que a namorada fosse gostar.

"Quero só ver a cara dela..." pensava ele, ainda mais porque a namorada estava cada dia mais bicuda com ele.

Até que finalmente chegou o dia da surpresa. Estava tudo pronto. Impecável.

--

Abriu a porta para a ela.

"Pode tirar a venda!"

Ela tirou. Ele, mais empolgado do que se a festa fosse para ele.

"FELIZ ANIVERSÁRIO!"

A expressão dela não foi a esperada.

"Meu aniversário foi três meses atrás, Lúcio Mauro!"

--

O amor dele acabou ali, com aquela ingratidão. Ele saiu em prantos, não sem antes reclamar.

"Você sabe o trabalho que dá organizar uma festa dessas?"

21.5.15

Tudo bem

Primeiros dias de aula são sempre um desafio, não importa se você é professor ou aluno. 
Quando preciso trabalhar com alguma turma nova, procuro começar com alguma coisa mais descontraída, algo que faça os alunos não me odiarem tão de cara.

A dinâmica era fácil: Cada pessoa ficava em silêncio por cinco segundos na frente da sala toda, e cada um escreveria a primeira palavra que lhe viesse à cabeça.

Foi divertido. Os alunos ajudaram a quebrar o gelo, e um por um, escutaram da sala quais as primeiras impressões que tinham passado.

Chegou a minha vez - eu gosto de participar também - e os alunos foram dizendo suas impressões da maneira que eu já esperava. "Palhaço", "espontâneo", "louco", "engraçado". 

Nenhum deles falou "ditador intolerante", que era o que eu mais temia. 

A última aluna da roda ficou reticente em contar o que tinha pensado de mim. 

"Posso falar mesmo, professor?"

Eu disse que podia.

"Assim que eu entrei na sala, eu te achei triste e cansado."

Filha da mãe.

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Ela estava certa. As coisas não tem sido particularmente fáceis ultimamente, mas eu não imaginei que isso estivesse tão estampado na minha cara a ponto de qualquer um perceber.

Até porque eu sempre me vi como um campeão paranaense de fachada, capaz de disfarçar com uma piada e uma careta a pior das emoções - mesmo porque quem tem a tendência de conviver com emoções conturbadas aprende a não ficar demonstrando isso o tempo todo. Ninguém se interessa e você vira um chato.

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Talvez o maior problema de ser sensível é que a tristeza é vista como uma coisa a ser corrigida.

Nada pior para uma pessoa dada às emoções do que ser vista chorando e alguém tentar fazê-la parar.

Nem sempre a lágrima é um defeito a ser corrigido. Às vezes ela é só higiene.

A tristeza também, nem sempre é uma coisa ruim.

É possível gostar de estar triste, de vez em quando, se você souber que isso é um processo de decantamento da bosta toda que você andou respirando e que isso faz parte de conseguir ter energia suficiente pra sorrir sinceramente no resto da sua rotina.

Eu gosto de ficar triste às vezes. Uma parte de mim sempre está triste, assim como há uma parte sempre pronta para rir sem motivo.

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Com o tempo eu fui perdendo a vergonha de me expôr emocionalmente.

Música, por exemplo, me derruba feito uma tijolada no pescoço. Já desisti de segurar o choro no ônibus quando toca uma música triste. E daí que vão olhar? A Dolly Parton tá cantando sobre o casaquinho que a mãe dela costurou, pôxa vida.

Não vou me censurar. Que pensem que eu levei um pé na bunda, ou que eu tô com conjuntivite.

-- 

Chorar e rir, no fundo, são o mesmo mecanismo. Alguma coisa te pega te surpresa, te provoca alguma reação emocional, e seu corpo lida com isso por chacoalhar o diafragma. A surpresa passa e essa energia toda que surge não te mata, porque vai embora.

A única diferença é que chorando você solta lágrimas e rindo você grunhe feito um porco.

Por isso que os comediantes costumam ter depressão, ou as pessoas mais tristes são as que mais dão risada. 

É só uma maneira de botar pra fora aquilo tudo que se acumula do lado de dentro.

--

Por isso que nenhum dos alunos estava errado nas impressões que teve de mim. Sim, eu sou palhaço, sou meio louco e sou espontâneo. E ainda assim, naquele dia, estava cansado e triste. 

Sem problemas! Depois eu tiro uma soneca e escuto uma música que me faça sorrir, e isso passa.

Enquanto isso, está tudo bem.

27.4.15

Pequena oração para o coletivo

Por estar desesperado, peço fé
(para mim e todos os desesperados)
Por sentir-me solitário, peço amor
(para mim e todos os desamparados)
Por sentir-me perdido, peço luz
(para mim e todos os desorientados)
Por estar iludido, peço paz
(para mim e todos os desenganados)

Para que eu consiga seguir,
(e os desesperados também)
Para que eu consiga ter paz
(e os cansados também)
Para que eu receba e dê amor
(e os solitários também)
Para que eu receba compaixão
(e os miseráveis também)

Para que eu receba a bênção
(e saiba passá-la adiante)
Para que eu tenha a razão
(mas não julgue-me senhor dela)
Para que o bem me seja feito
(e que eu o faça ao próximo)
Para que eu sinta-me melhor
(mas que eu não seja o único)

Para que eu não seja egoísta,
Amém

4.4.15

Como lidar com uma porta fechada

Enquanto corre atrás do que quer que você pensa estar querendo na sua vida, pode ser que você encontre algum obstáculo. Algo que separe você do que você deseja, como uma porta fechada.
Tudo o que você acha que pode te fazer feliz está ali, atrás de uma tábua de madeira maciça, duas dobradiças e uma manivela.

E você pode fazer o seguinte:

1 - Tentar abrir a porta calmamente: mas isso você já fez. Passou a mão na maçaneta com toda a confiança do mundo, não passou? E nada aconteceu. Deu uma apertadinha mais forte. Uma empurradinha com o ombro. E nada. Se abrir a porta calmamente funcionasse, você já estaria do outro lado da porta, com a sua recompensa em mãos.

2 - Tentar descobrir o jeitinho da porta: talvez ela não esteja trancada, talvez seja só uma questão de abrir do jeito certo. E aí você vira um cientista, empurrando todos os lados da porta, investigando as dobradiças todas e puxando a maçaneta de todas as formas possíveis.
Você pode tentar dissimular: passa pela porta olhando para os lados, assoviando, as mãos no bolso. Aí você pega a porta de surpresa: BAM! E ela continua fechada. Não funcionou.

3 - Conferir se você tem a chave: vai que alguma dessas coisas de metal no seu bolso encaixa nessa fechadura?
Você pode inclusive estar certo que a chave que você tem é a certa para aquela porta. Mas amigo, se a porta não está abrindo mesmo assim, pode ser que:
3.1 - você esteja com a chave errada, se enganando sobre o que é necessário para passar para o outro lado;
3,2 - você esteja com a chave certa, mas tentando abrir a porta errada, crente que é por ali que você tem que passar para chegar onde deseja;
3.2 - a porta realmente só abriria com um grampo de cabelo, como nos filmes.

4 - Bater na porta até que alguém abra: o que pode funcionar, mas você vai sempre depender de incomodar alguém para abrir as portas pra você, e ficar revoltado no dia em que essa pessoa se recusar a fazer isso.

5 - Continuar batendo na porta, exigindo que alguém abra: e fazer algumas ameaças, também. "Se você não abrir, eu vou assoprar, assoprar e assoprar!". Mas isso só vai fazer quem estiver atrás da porta correr para trás de outra porta para se esconder, e acabar com o seu fôlego.

6 - Procurar outra entrada: Se a porta estiver fechada, tente a janela! Pule pela chaminé! Entre pela abertura do cachorro, faça um buraco na parede, cave um túnel!
Isso não vai mudar o fato de você estar entrando em um lugar onde não foi convidado, não tem a autorização pra entrar e onde provavelmente não é bem-vindo - mas pelo menos você entra.

7 - Arrombar a porta: porque pôxa vida, você vai entrar onde você quer e por onde você quer!
Essa é quase garantia de que você vai ser tirado lá de dentro com a mesma brutalidade que entrou.

8 - Desistir da porta: afinal, você nem queria mesmo entrar lá. Saco.
(mas confessa, vai, você ainda quer saber o que está escondido ali atrás)

9 - Ir para outra porta: e lidar com a possibilidade de que talvez nenhuma porta se abra. Mas hey, você ainda tem a esperança de que alguma vai abrir! Força! Recupere o vendedor de bíblias que está dentro de você e saia de porta em porta!
(mas leve um par de sapato extra, isso pode demorar um bocado)

10 - Se distrair com outra coisa: quem sabe se não tem algo interessante ao redor da porta? Não tem um cachorrinho pra você brincar? Uma planta pra você tirar foto e botar no instagram? Um caramujo pra você passar o dedo e ficar com nojo?
Quem sabe se distraindo, você até esqueça que precisa passar por essa porta.

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Sinceramente, se você quer tanto assim chegar do outro lado, vai acabar passando por todas essas possibilidades.

Alguma delas talvez funcione, e te faça passar pela porta e encontrar o que quer.
Pode ser que você goste disso, mas depois de um tempo se enjoe e vá procurar uma outra porta em alguma outra vizinhança.
Pode ser que você encontre o que quer, e não goste disso. E vá para outra porta encontrar algo que goste.
Ou o que você quer não esteja atrás da porta, e ela só escondesse oportunismo.
Ou que a porta não abra mesmo, e você insista nela a vida inteira.

Mas, sendo bem inoportuno... quem se importa?

2.3.15

Onde você mora?

Você mora na sua casa?
Se você não para em casa, onde você mora? E se você para em qualquer lugar? E se você não para nunca, onde você mora?

Onde você mora se você está longe de casa?
Onde você mora se não tem casa? Onde você mora se tem mais de uma? Onde você mora se você vive na rua?

--

É onde você passa seu tempo que você mora?
E na sua casa, onde você mora? Você mora no seu quarto? E se você não tem um quarto, você mora onde? 

Se você só aluga um quarto, mas o resto da casa não é pro seu nariz, onde você mora? E se você é dono da casa e não é feliz no quarto? 
Se você come bastante, você mora na cozinha? E se você come na rua? E se você não come, onde você mora?

--

E se a sua casa é hostil, onde você mora? Onde é a sua casa, se você não se sente em casa na sua casa?
E se o seu coração mora em um lugar e você em outro? Onde você mora quando mora longe de casa?

Onde você mora se você é livre? Onde você mora quando se sente preso? Você mora inteiro num lugar ou mora um pedaço em cada canto do mundo?
Se você mais trabalha do que descansa, onde você mora? Se você se sente em casa no trabalho, onde você mora? 

--

Se você é expulso de casa, onde você mora? 

É na sua cidade que você mora? E na rua que você não passa quando está escuro, você mora lá também? E quando sai de férias, onde você mora?
É no seu país que você mora? E quando você discorda de quem mora contigo, você mora onde? 

É no seu planeta que você mora? E como você faz pra cuidar da sua casa?
E se você vive no mundo da Lua, onde você mora?

--

O lugar que você mora é seu mesmo ou é emprestado? Você empresta o lugar que você mora pra alguém?
Quem mora com você está longe ou perto? 

Onde você mora, tem espaço pra mim?
E se eu for morar com você, tem problema se meu coração quiser demorar pra sair?

26.2.15

Ouvindo cores

Essa semana, o nome do neurologista e escritor Oliver Sacks tem aparecido nas notícias. Ele, que descreveu minuciosamente uma série de condições neurológicas e seus efeitos sem nunca deixar de ser interessante, anunciou que está com uma doença terminal.

Foi alguns anos atrás, lendo o trabalho dele, que eu descobri que tenho uma leve sinestesia. Simplificando, sinestesia é uma confusãozinha do cérebro na interpretação dos sentidos, fazendo com que eles se misturem. Foi aí que eu percebi que falava uma língua ligeiramente estranha, composta de cores e movimentos onde as pessoas só ouvem sons.

Antes disso, eu pensava que eu era só uma pessoa muito auditiva. 

Nem sei quantas broncas eu levei na escola por estar com a cabeça baixa, ou deitado com a cabeça na mesa, durante a aula. 

"Acorda, menino!". E eu acordado, com os olhos fechados pra conseguir escutar melhor o que o professor dizia.

--

A parte visual acabou ficando mais pra trás. Eu não tenho muito senso estético, e fico de queixo caído quando alguém entra em uma sala e fala "Sabe o que ficaria legal aqui? Um lustre contrastando com a parede, aí você coloca uma cortina mais escura e isso vai chamar toda a atenção para o sofá!".

A pessoa vendo mil possibilidades de renovação visual, e eu ainda descobrindo que tem um sofá ali.

--

Acabei virando uma opção de entretenimento em festas (principalmente em festas em que nada interessante acontece), Eu menciono, por cima, que as vozes das pessoas tem cor pra mim, e todo mundo quer saber. "E a minha, que cor é?".

E lá segue a fila de pessoas, falando qualquer coisa por cinco segundos e esperando que eu consiga sentir uma cor no que elas falam. 

"Mas a minha voz é a da mesma cor que a voz da Fulana? Mas a voz dela é tão diferente da minha!".

Como se eu tivesse culpa da aquarela que sai da boca da pessoa.

--

Meu maior papo de doido é com o meu irmão, que é músico profissional.

"O que você achou do arranjo dessa música?", ele pergunta.
"Meu... a cor dessa guitarra podia mudar, né?"

E ele entende!
"Mas qual parte você gostou mais?"
"Aquela que o baixo e a bateria ficam girando."

E ele não entende.
"A que eles ficam girando pra frente ou a que eles ficam girando pra trás?"

--

Fica difícil saber quando o meu parâmetro é normal pra todo mundo e quando não é. 
"Eu adoro esse solo de órgão!", alguém fala.
"Sim! Cheio de octógonos, né?", eu respondo, certo de que vou ser compreendido.

E em menos de cinco minutos alguém me chama no canto pra tentar comprar maconha de mim.

Ao mesmo tempo, esses dias fui me exibir dizendo que tenho sonhos só de som, em que eu escuto uma música inteira, do começo ao fim, com o arranjo perfeitamente fiel ao da gravação, e me decepcionei com um "Mas todo mundo tem isso!".

Droga. Eu queria que fosse só eu.

--

Pode ser uma esquisitice, mas eu morro de orgulho de ter isso. Pode não ser algo tão exclusivo, mas é tão gostoso escutar uma música e poder enxergá-la também. É ter de graça uma coisa que as outras pessoas precisam usar drogas recreativas pra alcançar.

Talvez eu trocasse esse dom por uma visão mais atenta, que me impedisse de sair na rua assim:


Porque, definitivamente, esses tênis estão desafinados.

22.2.15

Geladeiras e guarda-roupas

Depois de formado na faculdade, precisei tomar umas escolas difíceis para não precisar voltar para a casa dos meus pais. Uma delas foi sair do apartamento simples e com móveis velhos em que eu morava... e ir para um lugar mais barato.

Aluguei um quarto no apartamento de uma amiga caridosa o suficiente para aceitar o valor que eu conseguiria pagar de aluguel.

Era só fazer a mudança, mas antes, eu precisaria decidir o que eu deixaria para trás por falta de espaço.

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A máquina de lavar roupa já estava funcionando na base da negociação. A cada dia uma etapa da lavagem funcionava: se lavava, não centrifugava; se centrifugava, pulava a etapa do molho; se fazia todas as etapas, engolia uma meia de cada par como pagamento.

A máquina estava tão fraca que, se você fizesse o ciclo completo de lavagem com um gato dentro dela, ele saía vivo e ronronando. E com o pêlo sujo.

O recado estava dado: ela não queria mais trabalhar. Como eu não escuto recado de eletrodoméstico, passei ela adiante para alguém que aceitasse os defeitos dela. 

Não foi difícil dar adeus. A pessoa que aceitou a máquina de graça não sabe o favor que me fez.

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Com meus pratos, talheres e copos, o processo também foi fácil: fiquei com duas ou três canecas que eu tinha ganho de presente e o resto foi doado.

Fui tão radical para doar louças que, na empolgação, doei  até o pratinho do micro-ondas. E o micro-ondas ficou comigo!

Sorte que ele funciona sem o pratinho.

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Meu guarda-roupa era velho e já era velho quando eu o comprei, mas eu não estava nadando em dólares para comprar um outro. Esse mesmo teria que sobreviver sua sexta ou sétima desmontagem e remontagem.
Sem problemas, o processo seria feito por um profissional: eu.

Quando fui desmontar o coitado, percebi que ele só estava em pé porque na última montagem ele foi entupido de pregos. Não sobrava uma prateleira intacta.

Desmontei com cuidado e torci para ele aguentar ser montado de novo. Na hora de montar, algumas peças da estrutura do móvel já estavam desgastadas demais.
Mas quem é que precisa de estrutura? Joguei essas partes fora e montei mesmo assim. Toda a parte de trás do guarda-roupa foi jogada fora.

E ele sobreviveu! Ele só precisa estar apoiado entre duas paredes para não cair, e você precisa empurrar o móvel todo para cima para conseguir abrir as gavetas.
Eu devia trabalhar com montagem de móveis.

Olha só, retinho!

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Mas a minha geladeira não tinha problema nenhum, tadinha. Era a única parte da minha casa antiga que ainda estava 100% boa.
Vendê-la não me daria quase nenhuma grana e eu sou egoísta demais para dar a geladeira pra alguém.

Levei ela comigo e a guardei no meu quarto. Não fazia sentido deixá-la ligada, nem guardar comida ali sendo que eu tinha uma cozinha perfeitamente funcional a alguns passos dali.
Precisava de um uso para ela.

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Acho que a geladeira e o guarda-roupa eram amigos, porque ele se recusou a aguentar o peso das minhas calças jeans.
E a geladeira é o quê, se não uma boa estante vedada completamente?

O trambolho branco da Electrolux hoje guarda parte das minhas roupas e minha papelada da época da faculdade. E eu não precisei vender minha geladeira nem jogar fora o guarda-roupa.


Mas hoje demoro horas para escolher uma calça jeans. Fico parado, com a porta da geladeira aberta, pensando na vida e escolhendo o que vestir.

Tem hábitos que nunca mudam.

9.2.15

Águias Possíveis

Você já deve ter lido essa história em algum lugar, e ela é mais ou menos assim:

A águia, por viver até setenta anos, precisa tomar uma decisão difícil quando chega aos quarenta: Com o bico curvado, as penas pesadas e unhas inflexíveis, ela precisa fazer um retiro de três meses. Nesse tempo, ela bate com o bico na pedra até arrancá-lo totalmente. Depois, arranca as próprias penas e mutila as próprias garras. Depois de todo esse sofrimento, o bico, as penas e as garras renascem mais fortes, e ela pode viver o resto da vida com segurança.

Talvez até tenha achado bonita, repassado para os colegas, se inspirado nela para tomar uma decisão difícil. O problema dessa história é que ela é completamente mentirosa. Nenhuma águia conseguiria sobreviver por tanto tempo vulnerável assim, sem bico, penas e unhas.

Se uma águia fizer uma coisa dessas, pode ligar pro CVV. A coitadinha é suicida: mesmo quando mais velha, ela depende de tudo isso para estar protegida e viver.

- Vou me atirar nessa torre!

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Tá certo que é só uma história motivacional, construída para ficar bonita num mural de escritório, com a imagem de uma águia imponente feita no powerpoint ao lado. Mas vale uma reflexão mais profunda:

Será que o único jeito de sobrevivermos à passagem do tempo é arrancando de nós mesmos aquilo de que dependemos para viver?

A reflexão da águia que abre mão de tudo para nascer de novo espelha bem o que a sociedade espera de uma pessoa de meia-idade hoje em dia.

Primeiro porque a média de expectativa de vida das águias é de trinta anos. Quem passa pelos quarenta e sofre com decisões pesadas somos nós, os macaquinhos pelados que estudaram bastante e batem ponto em uma empresa em vez de na floresta.

- Tá me tirando?

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É isso que se precisa questionar: na sociedade em que tudo precisa ser novo para ter valor, o que fazer quando nos sentimos desatualizados?

A ideia subliminar na história da águia é essa: Abra mão de tudo. Jogue tudo o que você tem fora! Arranque suas garras, jogue fora esse seu bico. Seja novo!

Leia-se: “Não valorize tanto a sua experiência! Jogue tudo para o alto! Esqueça desse emprego! Jogue fora seu casamento, arranje uma namorada de 19 anos e compre uma Harley Davidson! Isso vai te fazer viver de verdade!”

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E o que fazer com o que você foi antes?

Não acredito que jogar fora tudo aquilo que nos protege seja uma boa ideia. Com a nossa história jogada fora, ficamos tão vulneráveis quanto uma águia pelada e sem bico na vida selvagem.

Aliás, a águia de verdade tem um bico que nunca para de crescer. Ela pode até raspar o bico contra uma pedra, por exemplo, mas é para deixá-lo cada vez mais afiado.

A natureza é mais sábia que uma corrente de emails: se você crescer constantemente, e se expôr ao risco com frequência, não vai precisar de uma crise tão grande no meio da vida para se reinventar completamente.

- Tô de boa, então?
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Assim como as águias, uma pessoa que ganha experiência pode ser mais forte, se permitir-se crescer constantemente. É possível tornar-se mais forte e reinventar-se sem se violentar.

Tenho certeza que uma águia experiente é melhor de caça do que uma com tudo novo. Deve ser até mais charmosa na hora de voar.

Por falar nisso, a águia símbolo dos Estados Unidos não é careca e com a cabeça branca?

Quem sabe isso também tenha algo de simbólico…

30.1.15

Malditos mosquitos

É muito difícil matar uma mosca.
Mesmo segurando a respiração e mantendo todo o foco do mundo, é só chegar perto dela com a mão que ela percebe a ameaça e sai voando, rindo da sua cara e pensando em o quanto você é burro.

Para uma mosca, um humano não é muito diferente de um cachorro que tenta pegá-la no ar dando mordidas. Nós somos incapazes.

Mas tudo bem, as moscas são praticamente inofensivas: a não ser que você passe uns bons dias sem tomar banho (te prepara, estado de São Paulo!), elas não lhe perturbar muito.

Já os mosquitos, não! Os mosquitos fazem questão de provocar. Fazem barulho a noite toda, deixam uma picada que fica vermelha e coça, e ainda deixam uma malariazinha de brinde.

Mas eles… eles a gente consegue pegar.

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O maior argumento de um criacionista é o mosquito.

Porque foram milhões de anos de evolução, pôxa! Todo esse tempo e nenhum mosquito pensou em ter a mutação de ser mais silencioso? De zumbir mais baixo e se entupir no bufê livre de sangue que é uma pessoa dormindo?

Fica a dica, mosquitada.

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Os mosquitos mais jovens, inconsequentes, riem na cara do perigo.
Zumbem bem no seu ouvido, quando você tá quase caindo no sono, bem naquele dia que em que você precisa acordar cedo. Eles tem um timing melhor do que o intestino da Dira Paes.

Aí, eles agem como um adolescente que canta pneu na frente de um carro de polícia. Não adianta, o mosquito pode até sair dali voando o mais rápido que pode, mas perseguí-lo agora é uma questão de honra.

A ambição é um pecado grave, quando se é um mosquito.

O mosquito abusadinho escapa. Ele ainda tem agilidade, gana, curte a adrenalina de te provocar.Ele se enche de empáfia, pensa que tá com tudo, porque já te picou dezenas de vezes sem punição nenhuma. Já está até gordo, o filho da mãe.

É quando ele pousa na sua pele e você consegue sentir o peso dele. É um prazer enorme dar um tapa no bicho enquanto ele ainda está tentando chupar o seu sangue.

Sabe o nome disso? Carma.

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Garanto que, entre os mosquitos, tem um ou outro mais politizado. Eles devem se reunir em salinhas rústicas, carregando uma bandeira vermelha do MST (Mosquitos Sob Tensão), para falar mal dos humanos:

- Esses bípedes querem acabar com a nossa raça! Esses latifundiários! Cada um é dono de litros de sangue, e a gente não pode pegar nem um mililitrozinho que seja?
- Você não sabe da pior parte, companheiro! Esses dias eu vi um deles comentando que trabalha num Banco de Sangue! Não basta acumular dentro do corpo, eles ainda tem mais guardado no banco!
- Eles não estão nem aí pro nosso sofrimento! A gente tenta usufruir de um pouquinho só, que não ia fazer a menor diferença naquele mar de sangue que eles tem, e o que acontece? Matam a gente! Companheiro, eu tô até com dificuldades pra dormir, com tanta preocupação zumbindo na minha cabeça.

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Alguns devem ser mais extremistas:
- Sabe qual é o problema? É que as mosquitas dominam toda a nossa força de trabalho! Se fossem os mosquitos machos que buscassem o sangue, garanto que menos gente morreria em serviço!

E os que reagem:
- O corpo do mosquito macho não foi feito pra isso! Deus criou o mosquito homem pra ficar em casa, esse é o propósito dEle!

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Impossível simplesmente aceitar a perturbação de um mosquito. Mais produtivo ficar na fase da barganha: “Sério, cara, me deixa dormir, vai picar alguma coisa lá pra baixo, amanhã eu lido com a coceira. Sai do meu ouvido, por favor!”.

Se ele não ouvir, e eu precisar levantar da cama pra dar cabo do bicho, ele tá ferrado. É igual quando a mãe da gente perde a paciência e tira o chinelo do pé.

Agora, se eu não precisar de uma transfusão de sangue no dia seguinte, podem me picar à vontade.

Só, por favor, me deixem dormir.

25.1.15

Andadores e Muletas

Numa das minhas fotos preferidas de infância, eu, ainda um bebê gordinho, estou de óculos de sol, apoiado num trambolho de plástico e aço com rodinhas. Desengonçado, os braços esticados para frente, eu parecia o Godzilla fazendo fisioterapia antes de andar sobre Nova Iórque.

Foi assim que eu, e muitos da mesma geração, aprendemos a andar.

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Ano passado foi proibida a venda de andadores infantis no Brasil. O aparelho, que teoricamente ajudaria os bebês a aprenderem a caminhar, prejudicaria o processo de aprendizado da criança.

Pendurada no aparelho, a criança não usaria corretamente as próprias articulações e começaria a andar de uma maneira que não seria saudável - e lhe traria malefícios pelo resto da vida.

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Sabe quando você sofre um acidente e depois não lembra do que aconteceu? Nosso cérebro tem uma tendência a bloquear experiências que nos tenham feito sofrer demais.

Acho que é por isso que esquecemos de quase tudo da nossa infância.

Tudo é ridiculamente difícil. Você nasce desengonçado, sem conseguir nem pendurar a cabeça em cima do pescoço direito. Um ano depois, já precisa estar caminhando, com centenas de músculos e ossos em coordenação perfeita.

Sem o apoio de um andador, você tomba e levanta, e tomba e levanta, e tomba novamente, como um bêbado tentando andar num chão de gelatina.

Mas o esforço compensa: um dia você pendura a coluna no quadril do jeito certo, chacoalha os braços tentando segurar o nada, imita o Garrincha com as pernas e consegue dar seus primeiros passos.

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Estar cercado de proteções não é benéfico pra ninguém, seja um adulto ou um bebê.

Amadurecer exige que não tenhamos um suporte que nos impeça de usar nossas próprias pernas.

Por isso tanta gente reclama de solidão: não é que faltem pessoas no mundo, é que esses amores só vão aparecer quando você realmente aprender a andar com as próprias pernas.

Clichê, mas enquanto você precisar de alguém que lhe dê suporte para caminhar na vida, você não vai ter ninguém. Os andadores estão proibidos.

Depois que souber andar, emocionalmente, com as próprias pernas, fique à vontade para caminhar ao lado de quem quiser. Sem muletas nem andadores, quem sabe até consigam correr.

Vai ser tão natural quanto dar um passo.

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Em dez entre dez infâncias, a cena é igual: a mãe sai para trabalhar e a criança se descabela, pensando que a mãe nunca mais vai voltar e que ela nunca mais vai ser feliz como era antes.

Meia hora depois, já está batendo as panelas da casa da avó e achando isso a coisa mais divertida do mundo.

No dia seguinte, a mesma choradeira: a mãe foi embora, adeus felicidade. “Criancinhas bobas”, a gente pensa. Mas é levar um pé na bunda que a gente chora na porta do mesmo jeito: “Ela foi embora, eu nunca mais vou ser feliz!”.

E o pior é que fazer batuque em panela perde consideravelmente a graça com o passar dos anos.

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Para a criança, a gente entende fácil que aquilo faz parte do processo de crescimento. “A mamãe vai embora mas volta, não se preocupe!”, a gente diz, achando aquela dor imensa da criança uma bobagem.

Depois de crescidos, a gente perde um pouco a perspectiva: “Mas como é que eu vou viver sem ela?”.

Bom, se você não sabe, agradeça a vida. Ela está lhe dando uma oportunidade de saber..

Afinal, andadores estão proibidos. É hora de usar as próprias articulações.

21.1.15

Transar e Comer

Quando eu vejo um cachorro rosnando para outro na hora de comer, penso o que talvez essa seja a maior diferença do homem para o bicho. Pra gente, comer não é só uma questão de nutrição: é um rito social.

Não importa a ocasião a ser celebrada, ela é celebrada com comida. Natal, aniversário, fim de namoro, tudo é ritualizado ao redor de uma mesa.

Menos velórios, porque o homenageado não costuma estar com muito apetite.


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Sempre tem alguém no grupo que repara: “Já viu que a gente só se junta pra comer?”.

A questão é que se não fosse a comida nos unindo ao redor de um objetivo em comum, não saberíamos o que fazer para socializar.

Provavelmente recorreríamos ao outro grande prazer humano, o sexo.


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A vida com sexo no lugar da comida seria estranha, mas não muito diferente.

Você chegaria na casa de alguém e a pessoa ficaria toda sem jeito, querendo agradar:
- Você quer alguma coisa? Uma água, um boquetinho?

Recusar seria desfeita.


Nas reuniões de trabalho, as pessoas reclamariam: 
- Pôxa, seis horas de reunião e nem pra trazerem uma stripper?


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Os eventos maiores exigiriam um profissionalismo maior. Você abriria a caixa de correio e encontraria um envelope bonito. Dentro, em letras pomposas, o convite:

“Você está convidado para a Orgia de Casamento de Pedro Alcântara e Dafne Fonseca, que será realizada no dia 14 de agosto, no Motel Desejus, após a cerimônia religiosa. Camisinhas personalizadas de sabores diversos serão oferecidos aos convidados. Favor confirmar presença.”


Talvez você pudesse escolher entre um ou dois tipos de prato:

“Caso seja hétero ou tenha alguma outra restrição sexual, pedimos que avise com antecedência, para que se providencie um cardápio adequado.”


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Cada grupo aderiria do seu jeito:
“Você está convidado para a reunião semanal do Clube do Livro das Senhoras Cristãs de Piracicaba, com o Tradicional Coito das Cinco."


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Talvez a comida fosse vista com a mesma moralidade que hoje é reservada ao sexo. As fofocas de escritório seriam muito diferentes:

- Você viu o Dr. Augusto hoje, saindo com a secretária?
- Sim… Sempre grudados, né? Ele dá a desculpa que vai pro motel com ela…
- Pff, duvido! O Paulinho do RH me disse que viu os dois entrando num restaurante, outro dia!
- RESTAURANTE? E a cozinheira do Dr. Augusto sabe?
- Nem desconfia, tadinha. Mas essa secretária dele, também… Tem cara de que mal conhece um homem e já vai almoçando com ele.
- E pensa que engana, se fazendo de magra!


A secretária sairia da sala do chefe e um amigo mais chegado brincaria: 
- Tá comendo, hein?


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Sites de gastronomia seriam acessados em segredo, na aba anônima. Adolescentes apanhariam da mãe, que abriu a porta sem bater e flagrou o filho com a boca no quindim de um amigo.


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Acho que até os mais erotizados se cansariam de tanto sexo. Honestamente, entre transar ou comer de três em três horas, prefiro fazer minhas refeições.

Mas ainda assim, se alguém quiser transar, é só mandar um alô. Quem sabe a gente combina de sair pra jantar...

Sem cinismo

Uma criança brinca. Corre como se não tivesse limites, desbrava a sala como se fosse um campo de guerra e cai no chão como quem cai numa emb...