30.1.15

Malditos mosquitos

É muito difícil matar uma mosca.
Mesmo segurando a respiração e mantendo todo o foco do mundo, é só chegar perto dela com a mão que ela percebe a ameaça e sai voando, rindo da sua cara e pensando em o quanto você é burro.

Para uma mosca, um humano não é muito diferente de um cachorro que tenta pegá-la no ar dando mordidas. Nós somos incapazes.

Mas tudo bem, as moscas são praticamente inofensivas: a não ser que você passe uns bons dias sem tomar banho (te prepara, estado de São Paulo!), elas não lhe perturbar muito.

Já os mosquitos, não! Os mosquitos fazem questão de provocar. Fazem barulho a noite toda, deixam uma picada que fica vermelha e coça, e ainda deixam uma malariazinha de brinde.

Mas eles… eles a gente consegue pegar.

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O maior argumento de um criacionista é o mosquito.

Porque foram milhões de anos de evolução, pôxa! Todo esse tempo e nenhum mosquito pensou em ter a mutação de ser mais silencioso? De zumbir mais baixo e se entupir no bufê livre de sangue que é uma pessoa dormindo?

Fica a dica, mosquitada.

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Os mosquitos mais jovens, inconsequentes, riem na cara do perigo.
Zumbem bem no seu ouvido, quando você tá quase caindo no sono, bem naquele dia que em que você precisa acordar cedo. Eles tem um timing melhor do que o intestino da Dira Paes.

Aí, eles agem como um adolescente que canta pneu na frente de um carro de polícia. Não adianta, o mosquito pode até sair dali voando o mais rápido que pode, mas perseguí-lo agora é uma questão de honra.

A ambição é um pecado grave, quando se é um mosquito.

O mosquito abusadinho escapa. Ele ainda tem agilidade, gana, curte a adrenalina de te provocar.Ele se enche de empáfia, pensa que tá com tudo, porque já te picou dezenas de vezes sem punição nenhuma. Já está até gordo, o filho da mãe.

É quando ele pousa na sua pele e você consegue sentir o peso dele. É um prazer enorme dar um tapa no bicho enquanto ele ainda está tentando chupar o seu sangue.

Sabe o nome disso? Carma.

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Garanto que, entre os mosquitos, tem um ou outro mais politizado. Eles devem se reunir em salinhas rústicas, carregando uma bandeira vermelha do MST (Mosquitos Sob Tensão), para falar mal dos humanos:

- Esses bípedes querem acabar com a nossa raça! Esses latifundiários! Cada um é dono de litros de sangue, e a gente não pode pegar nem um mililitrozinho que seja?
- Você não sabe da pior parte, companheiro! Esses dias eu vi um deles comentando que trabalha num Banco de Sangue! Não basta acumular dentro do corpo, eles ainda tem mais guardado no banco!
- Eles não estão nem aí pro nosso sofrimento! A gente tenta usufruir de um pouquinho só, que não ia fazer a menor diferença naquele mar de sangue que eles tem, e o que acontece? Matam a gente! Companheiro, eu tô até com dificuldades pra dormir, com tanta preocupação zumbindo na minha cabeça.

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Alguns devem ser mais extremistas:
- Sabe qual é o problema? É que as mosquitas dominam toda a nossa força de trabalho! Se fossem os mosquitos machos que buscassem o sangue, garanto que menos gente morreria em serviço!

E os que reagem:
- O corpo do mosquito macho não foi feito pra isso! Deus criou o mosquito homem pra ficar em casa, esse é o propósito dEle!

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Impossível simplesmente aceitar a perturbação de um mosquito. Mais produtivo ficar na fase da barganha: “Sério, cara, me deixa dormir, vai picar alguma coisa lá pra baixo, amanhã eu lido com a coceira. Sai do meu ouvido, por favor!”.

Se ele não ouvir, e eu precisar levantar da cama pra dar cabo do bicho, ele tá ferrado. É igual quando a mãe da gente perde a paciência e tira o chinelo do pé.

Agora, se eu não precisar de uma transfusão de sangue no dia seguinte, podem me picar à vontade.

Só, por favor, me deixem dormir.

25.1.15

Andadores e Muletas

Numa das minhas fotos preferidas de infância, eu, ainda um bebê gordinho, estou de óculos de sol, apoiado num trambolho de plástico e aço com rodinhas. Desengonçado, os braços esticados para frente, eu parecia o Godzilla fazendo fisioterapia antes de andar sobre Nova Iórque.

Foi assim que eu, e muitos da mesma geração, aprendemos a andar.

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Ano passado foi proibida a venda de andadores infantis no Brasil. O aparelho, que teoricamente ajudaria os bebês a aprenderem a caminhar, prejudicaria o processo de aprendizado da criança.

Pendurada no aparelho, a criança não usaria corretamente as próprias articulações e começaria a andar de uma maneira que não seria saudável - e lhe traria malefícios pelo resto da vida.

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Sabe quando você sofre um acidente e depois não lembra do que aconteceu? Nosso cérebro tem uma tendência a bloquear experiências que nos tenham feito sofrer demais.

Acho que é por isso que esquecemos de quase tudo da nossa infância.

Tudo é ridiculamente difícil. Você nasce desengonçado, sem conseguir nem pendurar a cabeça em cima do pescoço direito. Um ano depois, já precisa estar caminhando, com centenas de músculos e ossos em coordenação perfeita.

Sem o apoio de um andador, você tomba e levanta, e tomba e levanta, e tomba novamente, como um bêbado tentando andar num chão de gelatina.

Mas o esforço compensa: um dia você pendura a coluna no quadril do jeito certo, chacoalha os braços tentando segurar o nada, imita o Garrincha com as pernas e consegue dar seus primeiros passos.

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Estar cercado de proteções não é benéfico pra ninguém, seja um adulto ou um bebê.

Amadurecer exige que não tenhamos um suporte que nos impeça de usar nossas próprias pernas.

Por isso tanta gente reclama de solidão: não é que faltem pessoas no mundo, é que esses amores só vão aparecer quando você realmente aprender a andar com as próprias pernas.

Clichê, mas enquanto você precisar de alguém que lhe dê suporte para caminhar na vida, você não vai ter ninguém. Os andadores estão proibidos.

Depois que souber andar, emocionalmente, com as próprias pernas, fique à vontade para caminhar ao lado de quem quiser. Sem muletas nem andadores, quem sabe até consigam correr.

Vai ser tão natural quanto dar um passo.

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Em dez entre dez infâncias, a cena é igual: a mãe sai para trabalhar e a criança se descabela, pensando que a mãe nunca mais vai voltar e que ela nunca mais vai ser feliz como era antes.

Meia hora depois, já está batendo as panelas da casa da avó e achando isso a coisa mais divertida do mundo.

No dia seguinte, a mesma choradeira: a mãe foi embora, adeus felicidade. “Criancinhas bobas”, a gente pensa. Mas é levar um pé na bunda que a gente chora na porta do mesmo jeito: “Ela foi embora, eu nunca mais vou ser feliz!”.

E o pior é que fazer batuque em panela perde consideravelmente a graça com o passar dos anos.

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Para a criança, a gente entende fácil que aquilo faz parte do processo de crescimento. “A mamãe vai embora mas volta, não se preocupe!”, a gente diz, achando aquela dor imensa da criança uma bobagem.

Depois de crescidos, a gente perde um pouco a perspectiva: “Mas como é que eu vou viver sem ela?”.

Bom, se você não sabe, agradeça a vida. Ela está lhe dando uma oportunidade de saber..

Afinal, andadores estão proibidos. É hora de usar as próprias articulações.

21.1.15

Transar e Comer

Quando eu vejo um cachorro rosnando para outro na hora de comer, penso o que talvez essa seja a maior diferença do homem para o bicho. Pra gente, comer não é só uma questão de nutrição: é um rito social.

Não importa a ocasião a ser celebrada, ela é celebrada com comida. Natal, aniversário, fim de namoro, tudo é ritualizado ao redor de uma mesa.

Menos velórios, porque o homenageado não costuma estar com muito apetite.


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Sempre tem alguém no grupo que repara: “Já viu que a gente só se junta pra comer?”.

A questão é que se não fosse a comida nos unindo ao redor de um objetivo em comum, não saberíamos o que fazer para socializar.

Provavelmente recorreríamos ao outro grande prazer humano, o sexo.


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A vida com sexo no lugar da comida seria estranha, mas não muito diferente.

Você chegaria na casa de alguém e a pessoa ficaria toda sem jeito, querendo agradar:
- Você quer alguma coisa? Uma água, um boquetinho?

Recusar seria desfeita.


Nas reuniões de trabalho, as pessoas reclamariam: 
- Pôxa, seis horas de reunião e nem pra trazerem uma stripper?


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Os eventos maiores exigiriam um profissionalismo maior. Você abriria a caixa de correio e encontraria um envelope bonito. Dentro, em letras pomposas, o convite:

“Você está convidado para a Orgia de Casamento de Pedro Alcântara e Dafne Fonseca, que será realizada no dia 14 de agosto, no Motel Desejus, após a cerimônia religiosa. Camisinhas personalizadas de sabores diversos serão oferecidos aos convidados. Favor confirmar presença.”


Talvez você pudesse escolher entre um ou dois tipos de prato:

“Caso seja hétero ou tenha alguma outra restrição sexual, pedimos que avise com antecedência, para que se providencie um cardápio adequado.”


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Cada grupo aderiria do seu jeito:
“Você está convidado para a reunião semanal do Clube do Livro das Senhoras Cristãs de Piracicaba, com o Tradicional Coito das Cinco."


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Talvez a comida fosse vista com a mesma moralidade que hoje é reservada ao sexo. As fofocas de escritório seriam muito diferentes:

- Você viu o Dr. Augusto hoje, saindo com a secretária?
- Sim… Sempre grudados, né? Ele dá a desculpa que vai pro motel com ela…
- Pff, duvido! O Paulinho do RH me disse que viu os dois entrando num restaurante, outro dia!
- RESTAURANTE? E a cozinheira do Dr. Augusto sabe?
- Nem desconfia, tadinha. Mas essa secretária dele, também… Tem cara de que mal conhece um homem e já vai almoçando com ele.
- E pensa que engana, se fazendo de magra!


A secretária sairia da sala do chefe e um amigo mais chegado brincaria: 
- Tá comendo, hein?


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Sites de gastronomia seriam acessados em segredo, na aba anônima. Adolescentes apanhariam da mãe, que abriu a porta sem bater e flagrou o filho com a boca no quindim de um amigo.


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Acho que até os mais erotizados se cansariam de tanto sexo. Honestamente, entre transar ou comer de três em três horas, prefiro fazer minhas refeições.

Mas ainda assim, se alguém quiser transar, é só mandar um alô. Quem sabe a gente combina de sair pra jantar...

13.1.15

Pequenos suicídios

Li um caso clínico, em um livro de psicanálise, sobre um senhor de oitenta e poucos anos que, mesmo casado com uma mulher por toda a vida, finalmente desejava viver a homossexualidade que passou a vida negando.

O psicanalista teve a triste missão de ajudá-lo a perceber que era tarde demais. Doente e dependendo dos cuidados da esposa, também já idosa, era mais prudente lidar com o fato de que já não era mais possível reparar os danos dessa parte abandonada.

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Quando recebemos a notícia de que alguém tirou a própria vida, a sensação de algo interrompido é inevitável.
“Mas era tão novo!”
“Mas era um pai de família!”
“Mas tão velho, se matando? Não era melhor esperar?”

É porque temos a ideia de que a vida precisa ser vivida ao máximo, sem atalhos ou concessões.
Quer dizer, pelo menos a vida dos outros.

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Uma paciente que tive (e de cuja história mudo alguns detalhes para preservá-la) me procurou por conta de muito estresse no trabalho. Executiva em um banco privado, sofria crises de pânico toda manhã a caminho do escritório.

Conversando sobre o seu passado, falou que era a única da família nesse ramo. Todo o resto trabalhava em salões de beleza. Mãe, avó, tias, todas eram cabeleireiras de sucesso.
Ela cresceu entre escovas e secadores de cabelo. A intensidade do carinho com que falava sobre os momentos que passava ajudando as mulheres mais velhas no salão de beleza me comovia.

Perguntei se ela nunca considerou ter seguido os passos da família.
Ela disse que sim. Fez a escola de cabeleireiros, encheu-se de expectativa, comprou uma cadeira para trabalhar no salão da mãe e esperou a primeira cliente pagante. Sob os olhares apoiadores das mulheres da família, ela fez o corte com muito capricho.
Nessa parte da história, seus olhos encheram de lágrimas.

A cliente, disse ela, levantou, olhou para o espelho, olhou fundo em seus olhos e reclamou: “Mas ficou uma bosta, hein? Você cortou demais. Não vou pagar por essa porcaria!". Girou nos calcanhares e saiu.
A recém-cabeleireira fechou as tesouras, limpou a cadeira e nunca mais tocou num cabelo novamente.
Agora, tinha ataques de pânico a caminho de um trabalho que não tinha nada a ver quem ela era.

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Abrir mão do que somos por medo é uma violência terrível. Sabotar nossa verdadeira personalidade é suicidar-se da própria força.

Fico pensando em como seria a vida daquele senhor de idade que nunca assumiu o desejo por outros homens. O quanto teria crescido ao enfrentar o medo que tinha, o quanto teria sido alegre ao lado de um companheiro que lhe complementasse. Em como sua esposa poderia ter gozado ao ser comida por alguém que realmente gostasse do que estava fazendo.

Ou ainda, como seria a vida daquela executiva se tivesse deixado sua sensibilidade estética florescer, Ainda, como uma crítica violenta pode desarmar a vida de uma pessoa de um jeito que o ofensor jamais imaginaria - e como a gentileza é fundamental.

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Somos nós que desligamos as máquinas da nossa esperança e nos permitimos murchar diante das impossibilidades da vida.

Não por irresponsabilidade ou fraqueza, mas porque a dificuldade de seguir em frente é grande demais. Suicidamos nosso desejo – e, com ele, morre o nosso prazer de viver.

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Se o senhor gay morreu sem ter provado o amor de outro homem, por outro lado a executiva, já fora da terapia, abandonou o emprego que lhe fazia tanto mal.

Nem sempre é tarde demais para tentar viver de novo.

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