26.2.15

Ouvindo cores

Essa semana, o nome do neurologista e escritor Oliver Sacks tem aparecido nas notícias. Ele, que descreveu minuciosamente uma série de condições neurológicas e seus efeitos sem nunca deixar de ser interessante, anunciou que está com uma doença terminal.

Foi alguns anos atrás, lendo o trabalho dele, que eu descobri que tenho uma leve sinestesia. Simplificando, sinestesia é uma confusãozinha do cérebro na interpretação dos sentidos, fazendo com que eles se misturem. Foi aí que eu percebi que falava uma língua ligeiramente estranha, composta de cores e movimentos onde as pessoas só ouvem sons.

Antes disso, eu pensava que eu era só uma pessoa muito auditiva. 

Nem sei quantas broncas eu levei na escola por estar com a cabeça baixa, ou deitado com a cabeça na mesa, durante a aula. 

"Acorda, menino!". E eu acordado, com os olhos fechados pra conseguir escutar melhor o que o professor dizia.

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A parte visual acabou ficando mais pra trás. Eu não tenho muito senso estético, e fico de queixo caído quando alguém entra em uma sala e fala "Sabe o que ficaria legal aqui? Um lustre contrastando com a parede, aí você coloca uma cortina mais escura e isso vai chamar toda a atenção para o sofá!".

A pessoa vendo mil possibilidades de renovação visual, e eu ainda descobrindo que tem um sofá ali.

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Acabei virando uma opção de entretenimento em festas (principalmente em festas em que nada interessante acontece), Eu menciono, por cima, que as vozes das pessoas tem cor pra mim, e todo mundo quer saber. "E a minha, que cor é?".

E lá segue a fila de pessoas, falando qualquer coisa por cinco segundos e esperando que eu consiga sentir uma cor no que elas falam. 

"Mas a minha voz é a da mesma cor que a voz da Fulana? Mas a voz dela é tão diferente da minha!".

Como se eu tivesse culpa da aquarela que sai da boca da pessoa.

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Meu maior papo de doido é com o meu irmão, que é músico profissional.

"O que você achou do arranjo dessa música?", ele pergunta.
"Meu... a cor dessa guitarra podia mudar, né?"

E ele entende!
"Mas qual parte você gostou mais?"
"Aquela que o baixo e a bateria ficam girando."

E ele não entende.
"A que eles ficam girando pra frente ou a que eles ficam girando pra trás?"

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Fica difícil saber quando o meu parâmetro é normal pra todo mundo e quando não é. 
"Eu adoro esse solo de órgão!", alguém fala.
"Sim! Cheio de octógonos, né?", eu respondo, certo de que vou ser compreendido.

E em menos de cinco minutos alguém me chama no canto pra tentar comprar maconha de mim.

Ao mesmo tempo, esses dias fui me exibir dizendo que tenho sonhos só de som, em que eu escuto uma música inteira, do começo ao fim, com o arranjo perfeitamente fiel ao da gravação, e me decepcionei com um "Mas todo mundo tem isso!".

Droga. Eu queria que fosse só eu.

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Pode ser uma esquisitice, mas eu morro de orgulho de ter isso. Pode não ser algo tão exclusivo, mas é tão gostoso escutar uma música e poder enxergá-la também. É ter de graça uma coisa que as outras pessoas precisam usar drogas recreativas pra alcançar.

Talvez eu trocasse esse dom por uma visão mais atenta, que me impedisse de sair na rua assim:


Porque, definitivamente, esses tênis estão desafinados.

Um comentário:

  1. Privilegiado. Tentando conseber essa sinestesia... queria saber como isso é. Bem que poderiam inventar uma espécie de print scren da nossa visão.

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