22.6.15

Vovó mudou de ideia

"Burro é aquele que não aprende quando erra. Inteligente é aquele que aprende com o próprio erro. Esperto é aquele que aprende com o erro dos outros.", minha mãe dizia, provavelmente citando errado algum filósofo.

"Quantos anos você viveu?", ela também dizia, na hora da bronca. "Não importa o quanto você ache que está certo, eu sempre vou ter trinta anos a mais que você. Nesses trinta anos, tenho certeza que eu aprendi coisas que você não sabe."

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Pois bem. Fui crescendo e tentando ouvir a voz da experiência. 

Por isso, quando estava em dúvida entre ficar em Curitiba e tentar a carreira de psicólogo ou voltar a morar com meus pais, procurei a minha avó, uma professora aposentada - e afiadíssima - de 86 anos. 

Abri meu coração com ela. Falei de como a grana estava curta, como a vontade de trabalhar na minha profissão era grande e como eu teria mais oportunidades aqui do que na cidade dos meus pais, mas que não estava conseguindo pagar o aluguel e as coisas estavam difíceis. 

Falei que seria difícil voltar a morar com meus pais, que eu sentia que minha vida era em Curitiba, e não queria abandonar meus amigos daqui.

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No fim das contas, a minha pergunta era "Volto pra casa dos meus pais ou insisto mais um pouco?"

"Meu filho", disse ela, "Amigos vem e vão. Sua família é que está mesmo ao seu lado. Seu pai está muito sozinho no trabalho dele, faria muito bem ele ter companhia."

Não era bem o que eu queria ouvir.  No fundo, minha decisão já estava tomada, e o conselho dela acabou me deixando com peso na consciência.

Minha vó era a voz da sabedoria, afinal. Ela devia saber o que era melhor, e provavelmente essa decisão de ficar longe da família ia acabar mordendo a minha bunda.

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Enquanto eu decidia ficar na mesma cidade, minha avó ia para outra.

Sem conseguir mais ficar sozinha na casa onde morava, e para ficar mais perto da família, acabou se mudando para uma casa mais próxima à casa dos meus pais. 

Na visita seguinte, minha avó era só reclamação:

"Aqui não tem as minhas velhas, meu filho. Não tem com quem jogar baralho. Tô abandonada aqui."

Eu tentei usar os argumentos que ela usou comigo: família é bom, é importante ter por perto.

"Mas filho, a vida não é nada sem amigos..."

Acho que, mesmo aos (ou principalmente aos) 86 anos, você pode mudar de ideia.

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Pouco tempo atrás, o sogro de uma das minhas tias estava com câncer. Faleceu rapidamente após ser internado, consumido demais pela doença.

Como é comum em cidade pequena, as fofocas correram depressa. Inventaram uma fofoca que tinham dado para ele uma tal de "injeção da morte sem dor", e isso foi parar nos ouvidos da minha avó. 

Alguns dias depois, minha tia levou minha avó para tomar injeção. 

Na hora de levar a agulhada, minha avó teve um ataque de ansiedade, desmaiou e acabou sendo internada também.

Quando acordou, chegou à conclusão lógica: estavam tentando dar a tal da morte sem dor para ela.

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Desde então, minha avó decretou uma nova regra: antes de ela comer qualquer coisa, alguém precisa provar a comida na frente dela.

Por prevenção. Assim, ninguém vai dar nada pra ela morrer, não. 

Acho que, agora, ela sente a mesma coisa que eu sentia antes de sair da casa dos meus pais: família é ótimo, mas perto demais pode acabar te matando.

14.6.15

Vidas solitárias

Todos os dias, eu acordo sem ninguém ao meu lado.
Tomo o meu café da manhã sozinho, lendo sozinho as notícias do jornal.
Saio de casa sozinho, vou ao trabalho sozinho, e lá estou cercado de gente.

Bato o cartão sozinho e volto para casa acompanhado dos meus fones de ouvido. Faço meu jantar sozinho, enquanto canto para as paredes, e vou dormir sozinho.

Há quem pense que a minha vida é solitária.

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Uma amiga minha é a raspinha do tacho da família. Com três irmãos mais velhos, foi uma caçula muito amada - e muito cobrada - por todos.

Se apaixonou ainda na faculdade e tem um relacionamento intenso desde então. Intenso mesmo: brigam muito, discutem muito, reatam muito, choram muito e em alguns momentos são muito felizes. Sempre um ao lado do outro. Uma vida que é quase uma propaganda de shopping no dia dos namorados.

Ela vai dormir ao lado dele, acorda com ele, toma o café com ele e volta para a casa para encontrá-lo. Estão os dois lado a lado, isolados do mundo.

Às vezes eu penso que a vida deles é solitária.

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Minha mãe teve dois filhos de sangue, mas sempre tivemos um punhado de agregados lá em casa.
Gente que não tinha muito para onde ir e que acabava dormindo uma noite, duas, e quando percebíamos estava lá há alguns meses.

Ela foi professora por muitos anos, e até hoje alguns ex-alunos aparecem lá em casa para dar um abraço e abrir o coração pra ela.

Além disso, é envolvidíssima na igreja e sempre tem alguma visita em casa. Ela mora com meu pai e meu irmão.

Às vezes, ela me liga no meio do dia, meio sem jeito e com a voz chorosa, e diz "eu só queria ouvir sua voz".

Não sei se muita gente pensa que que a vida dela é solitária, mas eu acho que é.

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O conhecido que mora sozinho e está aposentado.
A vizinha que passa o dia conversando com todo mundo, mas que você sente que nunca realmente escuta.
O cachorro que passa o dia na porta, com cara de triste, esperando o dono voltar para casa.
O marido que não abre suas frustrações para a esposa por medo de que ela perca a admiração por ele.
O seu amigo que sempre te procura, mas de quem você se afastou um pouco porque só conversa com um baseado na mão.

Não existe pessoa que não tenha sido tocada pela mão fria da solidão.

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Acontece que a experiência da solidão não se resume à falta de outra pessoa na sua vida.

Se fosse apenas por falta de pessoas ao redor, ninguém se sentiria solitário. Todo mundo conhece alguém mais solitário do que si, e todo mundo sabe de alguém que poderia visitar. Fosse só isso, todo mundo se encontrava e a solitude não seria tão universal.

O buraco é mais embaixo. A solidão que dói é aquela para a qual não basta uma pessoa por perto.
É aquela que quer uma pessoa capaz de realizar as expectativas que não fomos capazes de cumprir por nós mesmos.

Aquela que quer uma pessoa argamassa pra preencher nossos buracos - e isso não existe.

E, se existisse, seria o fim de qualquer possibilidade de crescimento pessoal. Gente completa não precisa crescer.

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Paciência, solitários.
Não adianta pedir a Deus para ter o seu amor de volta, não adianta querer manipular seu filho até que ele lhe visite, não adianta passar horas no Tinder.

Solidão não se cura com outra pessoa.
Ou você aproveita a deixa e entra numa jornada de autoconhecimento, tentando suprir sozinho as necessidades que você queria que outra pessoa resolvesse, convivendo com suas frustrações e fraquezas individuais até começar a gostar do que vê, ou você se apega na esperança de que alguém vai tapar esse buraco.

E essa esperança, sim, é muito solitária.

11.6.15

A Surpresa

Dessa vez, ele não se deixaria esquecer.

A cada aniversário que ele fazia, ganhava da namorada uma festa mais nababesca que a anterior. Agora era hora de retribuir.

Além do mais, ela tinha passado o mês todo dizendo coisas como "E aí, como tá a organização da minha festa surpresa?".

Ele decidiu que não ia dormir no ponto.

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Passou dias organizando a festa.

Pegou o contato de todos os amigos, passou semanas escolhendo o buffet certo, foi em todas as confeitarias da cidade em busca de um bolo que a namorada fosse gostar.

"Quero só ver a cara dela..." pensava ele, ainda mais porque a namorada estava cada dia mais bicuda com ele.

Até que finalmente chegou o dia da surpresa. Estava tudo pronto. Impecável.

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Abriu a porta para a ela.

"Pode tirar a venda!"

Ela tirou. Ele, mais empolgado do que se a festa fosse para ele.

"FELIZ ANIVERSÁRIO!"

A expressão dela não foi a esperada.

"Meu aniversário foi três meses atrás, Lúcio Mauro!"

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O amor dele acabou ali, com aquela ingratidão. Ele saiu em prantos, não sem antes reclamar.

"Você sabe o trabalho que dá organizar uma festa dessas?"

Encontrando caminhos

Ele era uma constante distante nas sessões da minha paciente. Quer dizer, ele sempre aparecia nos fundos de alguma história, ou como motivaç...