3.8.15

Com medo, de propósito


Eu sou um covarde. Tenho até medo de dar uma opinião muito forte em voz alta por medo de que ela mude nos minutos seguintes e eu precise me contradizer.

Mesmo assim, tenho uma resposta que me parece ser definitiva.

Quando me perguntam minha frase favorita, minha citação preferida de toda a literatura, sou obrigado a lembrar do Rainier Maria Rilke (sim, eu sou um clichê e Cartas a um jovem poeta mudou minha vida na adolescência).

Eu não lembro a frase exatamente (que bom para uma frase preferida, né?), mas ele descreve como o medo é um dos poucos sentimentos que se sente inegavelmente no corpo.

E não é? Quando você está com cagaço de alguma coisa, isso dá um geladinho nas costas que nem escorregar pelado num tobogã de gelo é capaz de dar.

Pois bem, o Rilke estava falando do medo como esse sentimento, esse friozinho nas costas. Ele dizia algo como "O medo é o dedo de Deus lhe empurrando na direção que você deve ir".

Não lembro quando foi que eu li essas palavras, mas eu sei que eu nunca mais fui o mesmo depois disso.

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Eu adoro caminhar.

Não tem coisa melhor pra mim do que sair livremente pela rua, olhando as coisas, as pessoas, os carros, os pensamentos que me atravessam a cuca com a mesma desatenção que eu atravesso a rua.

Eu honestamente não sei como ainda não fui atropelado.

Assaltado já fui, uma, duas, oito vezes, por insistir em me recusar a voltar de táxi só porque estou a seis quilômetros de casa, sozinho, às duas da manhã.

Só não dá pra parar por conta disso.

Não aceito me parar por medo de assalto.

Não dá pra deixar de ocupar a cidade que eu escolhi para viver só porque tenho medo de que aconteça alguma coisa pra rua.

Lembro do dedo de Deus me esfriando as costas pra me apontar o caminho e sigo em frente.

Isso me faz dono da minha rua. Isso me faz ser senhor de onde minhas pernas podem ir. Isso me faz uma peça de resistência contra os muros que a cidade impôs.

Isso me faz ser assaltado uma vez por mês.

Não tão bom quanto as outras coisas, mas vale o preço de ser livre.

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Acho que isso me acompanha há mais tempo do que eu normalmente penso.

Me ocorreu a memória de ter uns nove anos e ver uma lesma subindo a janela da sala de casa.

Senti nojo daquele bicho, mas puta merda, era só uma lesma. O que ela ia me fazer? Passar por cima de mim e me deixar gosmento?

Não ia ter medo de um bicho que poderia muito bem ter saído do meu nariz num dia de resfriado forte.

Fui até a janela, respirei fundo e enfiei o dedo nela. Bem fundo na lesma, não pra machucar a verdosinha, mas pra sentir fundo aquilo que me assustava.

Missão cumprida. Toquei na lesma.

Mas a sensação de dever cumprido ainda não tinha aparecido. Faltava aquela satisfação final.

Não pensei duas vezes e coloquei o dedo na boca. Meu dedo sujo de lesma amassadinha.

Ia dizer que não tinha gosto de nada, mas tinha sim. De vitória.

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Ainda teimo em seguir essa filosofia.

E não é nas coisas grandes que a capacidade de vencer o medo se prova. Não é pulando de pára-quedas ou remando correnteza abaixo que você se prova maior do que antes.

É nas coisinhas pequenas.

E eu me obrigo a fazer isso. Obedecer um pouco o que o medo quer me dizer.

E lá vou eu, entregar um bilhete com meu telefone para um cara bonito em um bar, mais pra enfrentar o medo do que por interesse propriamente dito. Soltar a Billie Holliday de dentro de mim no karaokê, sem fingir que estou cantando mal de propósito só pra não pegar mal. Dizer pra mulher no ônibus com duas crianças no colo que ela é uma ótima mãe.

Uma coragenzinha por vez. No fundo, no fundo, nossa covardia esconde gentilezas e espontaneidades muito significativas.

E dá muito medo colocar essas qualidades pra fora num mundo tão insensível e engessado.

Mas não tem problema. Basta lembrar do dedo de Deus nos empurrando pra seguir em frente. Desconfortáveis e inseguros, mas de propósito.

Com medo, mesmo. E em problema nenhum com isso.

Um comentário:

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