4.9.15

Não é doce morrer no mar

Nascendo a mais de quinhentos quilômetros da praia mais próxima, posso contar nos dedos a quantidade de vezes que vi o mar quando era criança.

Uma delas me marcou muito: em plena areia, deitado, reinava gigantesco um peixe prateado. Um peixe maior que eu, de um tamanho que eu nunca tinha pensado que um peixe podia ser.

Minha tia precisou me arrastar pelo braço pra eu parar de cutucar aquele cadáver majestoso que tomava sol com a gente.

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Quando algum paciente sonha com o mar, geralmente a água do oceano é um símbolo para o inconsciente. 

Pela maneira que o mar se comporta, conseguimos ter alguma ideia do estado emocional da pessoa: se ele está revolto ou calmo, se ele está limpo ou sujo, isso tende a ser um reflexo de como essa pessoa está lidando com seus conteúdos emocionais ocultos.

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O mar tem essa riqueza de possibilidades simbólicas porque jamais vamos ser capazes de entender tudo sobre ele: esse negócio que nunca acaba, que nos liga a terras desconhecidas (e também nos separa delas), e que esconde uma série de coisas que jamais vamos poder conhecer.

Nunca se sabe o que pode sair do mar. Pode ser um peixe morto, pode ser lixo...

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...Pode ser uma criança.

Algo me diz que a comoção mundial com a foto está intimamente ligada com a metáfora do mar como inconsciente: na imagem da criança que encalhou na areia, veio à consciência a criança morta que todos preferimos deixar inconsciente.

Com a força simbólica do mar, a criança síria traz a tona todas as crianças que não nos permitimos enxergar no dia-a-dia: o menino indígena que desemboca no portão da nossa casa tentando vender um balaio, o moleque que morre de tiro na favela por motivo nenhum, mil crianças em mil praias.

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Maior indicativo do significado simbólico disso tudo é como isso tem sido lidado artisticamente: mil charges e desenhos representando o menino morto com asas, sendo carregado por anjos, ou sob um foco de luz divinal.

Quanto antes o menino virar mito, virar anjo, mais cedo vai deixar de ser um cadáver. Mais rápido vai perder o impacto de ter sido o que foi: uma criança que morreu pela indiferença alheia.

Um cadáver de bermudinha, camiseta e tênis minúsculos que, cedo demais, experimentou o que é nadar e morrer na praia.

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O mais triste é que aquilo que o mar traz consigo, ele leva de volta. 

Essa criança veio à tona, e veio ao consciente, quando já era tarde demais.

Assim que pudemos, a enterramos - justamente na cidade de onde ela precisou fugir, para que fique onde deve: escondida. 

Mas por um momento, ainda que breve, tivemos consciência. 

Um comentário:

  1. É, encontrar um anjo ou um messias pra arrancar de dentro de nós a dor da indiferença, são tantas vidas ceifadas,..

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