24.12.15

Em defesa do carinho

Pra mim, a emoção mais importante que um ser humano pode ter é o carinho.

Carinho é diferente de amor: Amor você pode sentir e esconder por trás de uma mágoa. 
Carinho é inescondível. Impossível olhar para alguém com carinho sem ser denunciado pelo brilho nos olhos.

Amar todo mundo ama, mas isso só tem valor quando o amor ganha movimento em forma de carinho.

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É o carinho que permite que a gente siga em gente quando levamos uma pancada da vida. 
É o carinho que nos derrete quando as circunstâncias querem nos petrificar. 

É do carinho que a gente sente falta quando a tentativa de amor não sai da forma que a gente esperava. 

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Cada um tem seu jeito de demonstrar afeto: tem os que deixam um bilhete carinhoso no espelho, os que cozinham para um batalhão mesmo pra receber uma só visita, os que trabalham duro pra não deixar nada faltar no fim do mês e os que se fazem de fortes, fingindo não precisar de carinho pra não criar incômodo pra ninguém.

Qualquer que seja a maneira de demonstrar, o carinho é o air-bag das relações humanas. É o carinho que te faz dizer "tudo bem, acontece" pra uma criança que quebrou algo seu, em vez de ceder ao instinto e esganar sorrindo. 

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Lanço agora o desafio de demonstrar carinho para quem é mais difícil.
Pro colega que você aprecia o jeito de trabalhar, ainda que ele tenha opiniões políticas que te dão ânsia de vômito.
Pra sua vizinha que você precisa fugir pra não ficar horas escutando todos os problemas, mas que veio te visitar quando você ficou doente.
Pra pessoa na rua que te perguntou se tá tudo bem quando você tropeçou e caiu de joelho.

Não importa o jeito de demonstrar: cada demonstração de carinho vai te acender uma coisa gostosa no peito. Mesmo que não entendam nada do que você fez, esse carinho vai te iluminar por dentro e o prazer é tudo seu.

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Eu realmente acho que o problema no mundo não é falta de amor.
Dá pra ver isso na nossa sala de estar: é claro que você ama aquele parente complicado, mesmo ele  sendo tão difícil de conviver.

Demonstrar carinho que é o difícil.
Como conseguir ser carinhoso com quem já machucou a gente?

Talvez o único jeito seja lembrando que a gente é muito pequeno. Que nós somos todos crianças desastradas que de vez em quando quebram o que não deviam.
E que, crianças que somos, precisamos tanto do colo pra aprender quanto da disciplina.

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Carinho é o açúcar da vida. Fiquemos diabéticos. 

15.12.15

Não precisa mudar tanto

No meu tempo, quando uma coisa demorava muito pra se resolver, a gente falava "Parece novela".

As novelas eram assim mesmo: No primeiro capítulo, a filha do coronel se apaixonava pelo filho do coronel inimigo. No capítulo trinta, eles se beijavam. No cinquenta, os pais descobriam. No capítulo cem, eles decidiam fugir. No cento e cinquenta tudo dava errado e mais ou menos no duzentos e vinte eles eram felizes para sempre.

No meio de tudo isso, cenas dos mocinhos chorando com trilha sonora triste e senhoras italianas fazendo macarrão.

Não era sem justiça que os mocinhos ficavam felizes para sempre: afinal, demorou quase um pra sempre inteiro para eles chegarem lá.

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Acho que essa expressão não funciona mais hoje em dia.

As novelas estão cada vez mais ágeis: em uma semana, a vilã comete um crime, foge, é pega, se redime e vira a mocinha.

Pode ser que isso tenha deixado as novelas mais interessantes, mas uma vida normal fica parecendo câmera lenta comparada com tudo isso.

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E como ficamos impacientes!

"Eu já tô solteiro há quatro meses, eu vou morrer sem ninguém!"

"Faz semanas que eu não tenho uma noite inesquecível... A vida está parada demais".

"Preciso de uma mudança total pra ontem!"

Na questão drama, a gente ganha fácil das novelas.

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A questão é: se você está vivo, se o seu pulmão se enche e esvazia de ar a cada tantos segundos e você ainda tem consciência de quem é... É porque tem bastante coisa acontecendo.

É natural do homem precisar de ritos de passagem para tudo. E esse jeito de ver as coisas que cria a ilusão de grandes avanços de uma só vez - por exemplo, como se nos tornássemos profissionais só no dia da formatura, em vez de nos centenas de dias de aula que o antecederam.


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A recompensa da paciência é a paciência, disse Santo Agostinho para irritar um ariano.

Com razão: não é de uma hora pra outra que as coisas acontecem.

Não é na hora do primeiro passo que uma criança começa a andar - é em cada uma das centenas de vezes que ela se apoiou no que tinha ao redor e se arrastou para a frente.

Mas não adianta. Essa criança não vai ganhar crédito até que finalmente mexa os dois pés no chão sem se segurar em nada.

Por que não valorizamos os períodos de consolidação lenta entre uma grande mudança e outra?

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Com muita sorte, vamos ter umas nove ou dez grandes revoluções na vida.

Fora isso, toda a nossa existência mora nos períodos entre uma mudança e outra - na adaptação ao novo momento, na calmaria de se estabelecer uma rotina, no tédio da repetição e finalmente na inquietude que antecede a mudança.

Uma mudança súbita que não foi antecedida por um período de duvidar de tudo e empurrar as coisas com a barriga dificilmente vai ter pernas para ir muito longe.

Pode não ser muito interessante andar em linha reta e em velocidade de cruzeiro - mas é nesses momentos que se pode apreciar a beleza da viagem.

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Pode ser que em alguns momentos nossa novela pareça chata e repetitiva, mas essa é justamente a deixa para que o desenvolvimento de nossos personagens. É a hora de ter bons diálogos e deixar o tempo correr.

No tempo livre, podemos chorar com trilha sonora e fazer macarrão.

Uma hora a reviravolta aparece - e não vai durar um capítulo só.

Suicídio e graça

Morro de inveja de quem sabe contar uma boa piada. Eu sou pior do que uma pessoa que não é engraçada: eu sou uma pessoa que tenta ser engr...