15.12.15

Não precisa mudar tanto

No meu tempo, quando uma coisa demorava muito pra se resolver, a gente falava "Parece novela".

As novelas eram assim mesmo: No primeiro capítulo, a filha do coronel se apaixonava pelo filho do coronel inimigo. No capítulo trinta, eles se beijavam. No cinquenta, os pais descobriam. No capítulo cem, eles decidiam fugir. No cento e cinquenta tudo dava errado e mais ou menos no duzentos e vinte eles eram felizes para sempre.

No meio de tudo isso, cenas dos mocinhos chorando com trilha sonora triste e senhoras italianas fazendo macarrão.

Não era sem justiça que os mocinhos ficavam felizes para sempre: afinal, demorou quase um pra sempre inteiro para eles chegarem lá.

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Acho que essa expressão não funciona mais hoje em dia.

As novelas estão cada vez mais ágeis: em uma semana, a vilã comete um crime, foge, é pega, se redime e vira a mocinha.

Pode ser que isso tenha deixado as novelas mais interessantes, mas uma vida normal fica parecendo câmera lenta comparada com tudo isso.

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E como ficamos impacientes!

"Eu já tô solteiro há quatro meses, eu vou morrer sem ninguém!"

"Faz semanas que eu não tenho uma noite inesquecível... A vida está parada demais".

"Preciso de uma mudança total pra ontem!"

Na questão drama, a gente ganha fácil das novelas.

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A questão é: se você está vivo, se o seu pulmão se enche e esvazia de ar a cada tantos segundos e você ainda tem consciência de quem é... É porque tem bastante coisa acontecendo.

É natural do homem precisar de ritos de passagem para tudo. E esse jeito de ver as coisas que cria a ilusão de grandes avanços de uma só vez - por exemplo, como se nos tornássemos profissionais só no dia da formatura, em vez de nos centenas de dias de aula que o antecederam.


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A recompensa da paciência é a paciência, disse Santo Agostinho para irritar um ariano.

Com razão: não é de uma hora pra outra que as coisas acontecem.

Não é na hora do primeiro passo que uma criança começa a andar - é em cada uma das centenas de vezes que ela se apoiou no que tinha ao redor e se arrastou para a frente.

Mas não adianta. Essa criança não vai ganhar crédito até que finalmente mexa os dois pés no chão sem se segurar em nada.

Por que não valorizamos os períodos de consolidação lenta entre uma grande mudança e outra?

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Com muita sorte, vamos ter umas nove ou dez grandes revoluções na vida.

Fora isso, toda a nossa existência mora nos períodos entre uma mudança e outra - na adaptação ao novo momento, na calmaria de se estabelecer uma rotina, no tédio da repetição e finalmente na inquietude que antecede a mudança.

Uma mudança súbita que não foi antecedida por um período de duvidar de tudo e empurrar as coisas com a barriga dificilmente vai ter pernas para ir muito longe.

Pode não ser muito interessante andar em linha reta e em velocidade de cruzeiro - mas é nesses momentos que se pode apreciar a beleza da viagem.

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Pode ser que em alguns momentos nossa novela pareça chata e repetitiva, mas essa é justamente a deixa para que o desenvolvimento de nossos personagens. É a hora de ter bons diálogos e deixar o tempo correr.

No tempo livre, podemos chorar com trilha sonora e fazer macarrão.

Uma hora a reviravolta aparece - e não vai durar um capítulo só.

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