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Mostrando postagens de Fevereiro, 2015

Ouvindo cores

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Essa semana, o nome do neurologista e escritor Oliver Sacks tem aparecido nas notícias. Ele, que descreveu minuciosamente uma série de condições neurológicas e seus efeitos sem nunca deixar de ser interessante, anunciou que está com uma doença terminal.

Foi alguns anos atrás, lendo o trabalho dele, que eu descobri que tenho uma leve sinestesia. Simplificando, sinestesia é uma confusãozinha do cérebro na interpretação dos sentidos, fazendo com que eles se misturem. Foi aí que eu percebi que falava uma língua ligeiramente estranha, composta de cores e movimentos onde as pessoas só ouvem sons.

Antes disso, eu pensava que eu era só uma pessoa muito auditiva. 
Nem sei quantas broncas eu levei na escola por estar com a cabeça baixa, ou deitado com a cabeça na mesa, durante a aula. 
"Acorda, menino!". E eu acordado, com os olhos fechados pra conseguir escutar melhor o que o professor dizia.
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A parte visual acabou ficando mais pra trás. Eu não tenho muito senso estético, e fico de…

Geladeiras e guarda-roupas

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Depois de formado na faculdade, precisei tomar umas escolas difíceis para não precisar voltar para a casa dos meus pais. Uma delas foi sair do apartamento simples e com móveis velhos em que eu morava... e ir para um lugar mais barato.
Aluguei um quarto no apartamento de uma amiga caridosa o suficiente para aceitar o valor que eu conseguiria pagar de aluguel.
Era só fazer a mudança, mas antes, eu precisaria decidir o que eu deixaria para trás por falta de espaço.
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A máquina de lavar roupa já estava funcionando na base da negociação. A cada dia uma etapa da lavagem funcionava: se lavava, não centrifugava; se centrifugava, pulava a etapa do molho; se fazia todas as etapas, engolia uma meia de cada par como pagamento.
A máquina estava tão fraca que, se você fizesse o ciclo completo de lavagem com um gato dentro dela, ele saía vivo e ronronando. E com o pêlo sujo.
O recado estava dado: ela não queria mais trabalhar. Como eu não escuto recado de eletrodoméstico, passei ela adiante par…

Águias Possíveis

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Você já deve ter lido essa história em algum lugar, e ela é mais ou menos assim:

A águia, por viver até setenta anos, precisa tomar uma decisão difícil quando chega aos quarenta: Com o bico curvado, as penas pesadas e unhas inflexíveis, ela precisa fazer um retiro de três meses. Nesse tempo, ela bate com o bico na pedra até arrancá-lo totalmente. Depois, arranca as próprias penas e mutila as próprias garras. Depois de todo esse sofrimento, o bico, as penas e as garras renascem mais fortes, e ela pode viver o resto da vida com segurança.

Talvez até tenha achado bonita, repassado para os colegas, se inspirado nela para tomar uma decisão difícil. O problema dessa história é que ela é completamente mentirosa. Nenhuma águia conseguiria sobreviver por tanto tempo vulnerável assim, sem bico, penas e unhas.

Se uma águia fizer uma coisa dessas, pode ligar pro CVV. A coitadinha é suicida: mesmo quando mais velha, ela depende de tudo isso para estar protegida e viver.

- Vou me atirar nessa torre!