17.9.15

De olho no trabalho

Trabalho é um lugar onde você ganha dinheiro para ser infeliz, mas não tão infeliz quanto estaria se estivesse em casa sem dinheiro.

Ao conjunto de estratégias para passar o maior tempo possível longe da família dá-se o nome de "carreira".

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Minha amiga era tão dedicada ao trabalho que entrou na minha vida por conta dele: nos conhecemos numa entrevista de emprego, os dois sem um tostão furado.

Nossos empregos eram a maior furada: a jornada de trabalho era a mesma de um ponteiro de relógio, o salário equivalente ao de um cavalo puxador de carroça e a chefe só não era uma vilã de filme da Disney porque assustaria as crianças no cinema.

Na terceira semana de trabalho, eu já queria desistir. Todo dia ia pegar o ônibus com vontade de chorar. Ela, precisando ainda mais do dinheiro do que eu, dizia "Aguenta, amigo. Vai melhorar.".

Ela nunca reclamava, nunca. Não entendo como ela conseguia ter tanta energia.

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Era domingo e ela me chamou:

- Flávio, vai comigo no posto de saúde?

Eu estava de folga, ela não.

- Você tá mal? - perguntei.

- Não ainda. Mas preciso ficar. Não vou aguentar ir trabalhar hoje. Não vou aguentar. Não vou.

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Dava para entender: ela estava esgotada. Se tivesse a opção, preferiria ser atropelada por um fusca entupido de palhaços que continuar naquele emprego. Estava ali porque precisava.

- O que você vai dizer que tem?

- Não sei! Já ouvi dizer que botar alho entre os dedos do pé dá febre.

- Mas o médico não vai estranhar se a gente chegar fedendo a alho?

- Eu digo que estava fazendo feijoada... Nos meus sapatos.

- E se você fechar o olho e fingir que tá com conjuntivite?

- Boa! - exclamou ela, enquanto corria para o banheiro. Corri atrás, tentando entender o que acontecia.

- O que é isso na sua mão?

- Desodorante.

-  Não! Você não vai...?

Ela ia. Respirou fundo para tomar coragem e plaft, encheu o olho de desodorante.

A pessoa com a maior ética de trabalho que eu já vi na vida, na minha frente, passando desodorante no olho para ver se conseguia um atestado médico.

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Eu sou péssimo em calcular distâncias.

Pra mim, "logo ali" e "do outro lado da cidade" são coisas muito parecidas. Talvez por não ter grana para o ônibus, minha amiga acreditou em mim quando eu disse que dava para ir andando até o posto de saúde mais próximo.

Caminhamos meia hora.
- Estamos perto?, perguntava ela, com o olho do tamanho de uma bola de vôlei.

Ainda não. Um sol de rachar. Mais meia hora de caminhada. O olho dela do tamanho da pedra que rolava atrás do Indiana Jones.

Mais vinte minutos caminhando, o olho dela ultrapassando Plutão na escala dos planetas, chegamos no posto de saúde.

"ESTAMOS EM GREVE", dizia o cartaz no portão.

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Ela derramou algumas lágrimas, talvez por causa do desodorante.

Acabamos indo tomar sorvete do outro lado da rua.

Ela ficou com uma inflamação de verdade no olho e teve que a falta no trabalho descontada do salário. Ela ainda aguentou ficar naquele emprego por mais um ano. Eu saí depois de três meses.

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- Que dia corrido! - disse outro colega de trabalho meu, com um ar de orgulho. - Tô sem almoçar até agora!

Estranhei.

- Mas você não foi almoçar agora pouco?
- Não, eu fiz o horário de almoço mas acabei só vomitando. Tô vomitando faz três dias.
- Credo, meu! Cê não vai ao médico?
- Muita coisa pra fazer. Não dá pra deixar qualquer coisa te derrubar, né?

"Qualquer coisa", pra ele, deve ser tipo o meu "logo ali".

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Não sei vocês, mas acho que esse ritmo de trabalho não faz bem pra ninguém.

Tem campanha na TV contra o uso excessivo de álcool, desestimulamos o uso de remédios, de cigarro, de açúcar, mas esquecemos rapidinho que vício em trabalho é um vício tão destruidor quanto qualquer outro.

Mas dizer "trabalhei quatorze horas sem intervalo" ou "não paro nem pra almoçar" nos dá um senso de orgulho que é digno de um viciado tentando justificar o vício.

"É, mas fazendo isso eu comprei um apartamento!"

Sim, e eu enchendo a cara consegui perder a virgindade. Agora, se eu precisar encher a cara a vida inteira pra fazer sexo, é porque tem algo de muito errado acontecendo.

Se alguém só consegue comprar o que quer sendo completamente engolido pelo trabalho, talvez esteja com as prioridades um pouco erradas.

[disclaimer rápido: eu sei que a gente vive num país muito desigual em que muita gente ou trabalha feito um chinês que tomou anfetamina ou não come. Não é disso que eu tô falando aqui.]

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Trabalhar não devia dar tanto trabalho.

Aliás, está mais que provado pela Ciência™ que mais horas gastas no trabalho não necessariamente refletem em mais produtividade. Mais e mais empresas tem descoberto que os funcionários produzem mais quando trabalham menos.

As empresas sabem disso. Afinal, grandes corporações tem setores inteiros dedicados a estudar o aumento de produtividade dos funcionários e implementar mudanças nesse sentido. Então, por quê nada muda?

Porque gente cansada paga o preço que for pelo conforto. Paga o que for necessário para conseguir o entretenimento mais fácil possível.

Quem está exausto só quer descansar - e por isso acredita mais fácil em promessas de consumo como chances de encontrar felicidade.

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Mais um benefício pra quem tenta se afastar dessa coisa de trabalhar o tempo todo: a vida passa a ser mais fácil de apreciar.

Com um pouco mais de calma e menos de gastrite nervosa, as coisas pequenas tendem a ganhar mais valor e você acaba percebendo que não precisava de tanto quanto pensava antes.

É difícil mudar? Talvez seja. Mas eu tenho uma ideia para resolver esse problema.

Vamos juntar toda a força laboral brasileira e bastante desodorante. Se possível, perto de um posto de saúde aberto.

Depois disso, abriremos os olhos - se conseguirmos.

4.9.15

Não é doce morrer no mar

Nascendo a mais de quinhentos quilômetros da praia mais próxima, posso contar nos dedos a quantidade de vezes que vi o mar quando era criança.

Uma delas me marcou muito: em plena areia, deitado, reinava gigantesco um peixe prateado. Um peixe maior que eu, de um tamanho que eu nunca tinha pensado que um peixe podia ser.

Minha tia precisou me arrastar pelo braço pra eu parar de cutucar aquele cadáver majestoso que tomava sol com a gente.

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Quando algum paciente sonha com o mar, geralmente a água do oceano é um símbolo para o inconsciente. 

Pela maneira que o mar se comporta, conseguimos ter alguma ideia do estado emocional da pessoa: se ele está revolto ou calmo, se ele está limpo ou sujo, isso tende a ser um reflexo de como essa pessoa está lidando com seus conteúdos emocionais ocultos.

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O mar tem essa riqueza de possibilidades simbólicas porque jamais vamos ser capazes de entender tudo sobre ele: esse negócio que nunca acaba, que nos liga a terras desconhecidas (e também nos separa delas), e que esconde uma série de coisas que jamais vamos poder conhecer.

Nunca se sabe o que pode sair do mar. Pode ser um peixe morto, pode ser lixo...

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...Pode ser uma criança.

Algo me diz que a comoção mundial com a foto está intimamente ligada com a metáfora do mar como inconsciente: na imagem da criança que encalhou na areia, veio à consciência a criança morta que todos preferimos deixar inconsciente.

Com a força simbólica do mar, a criança síria traz a tona todas as crianças que não nos permitimos enxergar no dia-a-dia: o menino indígena que desemboca no portão da nossa casa tentando vender um balaio, o moleque que morre de tiro na favela por motivo nenhum, mil crianças em mil praias.

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Maior indicativo do significado simbólico disso tudo é como isso tem sido lidado artisticamente: mil charges e desenhos representando o menino morto com asas, sendo carregado por anjos, ou sob um foco de luz divinal.

Quanto antes o menino virar mito, virar anjo, mais cedo vai deixar de ser um cadáver. Mais rápido vai perder o impacto de ter sido o que foi: uma criança que morreu pela indiferença alheia.

Um cadáver de bermudinha, camiseta e tênis minúsculos que, cedo demais, experimentou o que é nadar e morrer na praia.

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O mais triste é que aquilo que o mar traz consigo, ele leva de volta. 

Essa criança veio à tona, e veio ao consciente, quando já era tarde demais.

Assim que pudemos, a enterramos - justamente na cidade de onde ela precisou fugir, para que fique onde deve: escondida. 

Mas por um momento, ainda que breve, tivemos consciência. 

Encontrando caminhos

Ele era uma constante distante nas sessões da minha paciente. Quer dizer, ele sempre aparecia nos fundos de alguma história, ou como motivaç...