28.10.15

Jogos de Memória

Eu ando muito esquecido.

Pego os óculos, desço as escadas, deixei as chaves lá em cima. Subo as escadas, procuro as chaves que eu não sei mais onde coloquei. Desço as escadas. Com pressa, porque preciso ir ao mercado antes que ele feche.

Subo de novo, porque dessa vez foram os óculos que ficaram lá em cima.

Corro para o mercado. O que é que eu ia comprar mesmo?

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Não era pra ser tão ruim.

Bem criança, já adorava brincar de jogo de memória. Passava o dia virando cartas de baralho de duas em duas, marcando mentalmente as que eu já tinha virado para acertar as que combinavam e vencer o jogo.

Com tanto treino, não era pra eu estar com a memória falhando aos vinte e cinco anos. E aqui estou eu, com mais lapso que a Faber Castell.

(desculpa)

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De uns tempos pra cá, muita gente tem aparecido no consultório reclamando de falta de memória. Gente de todos os tipos: jovens, adultos, estudados ou não.

Se estamos tão mal de memória, do que será que precisamos tanto esquecer?

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Para uma pessoa com Alzheimer, as memórias que ficam quando as outras vão embora em geral são as mais antigas: o nome da mãe, as ruas em que se brincava na infância, os irmãos queridos que hoje se foram. 

Realmente, nunca vi ninguém reclamando que estava tentando lembrar do nome da professora por quem foi apaixonado no primário e não conseguiu.

As memórias mais doces, que guardamos com carinho e afeto, parecem sempre estar lá, mesmo quando tudo mais vai embora.

Talvez essa seja uma pista importante: algumas coisas são importantes demais para esquecermos. Ainda assim, elas costumam ser aquilo que nós menos lembramos.

Atolamos o cérebro de informação porque não estamos mais lembrando do que está no coração.

Esquecemos o nome de um cliente porque há muito tempo não lembramos de telefonar para aquele velho amigo.

Esquecemos de buscar os filhos no colégio porque faz anos que não paramos para lembrar dos nossos próprios tempos de estudante.

Precisamos esquecer porque perdemos o hábito de lembrar.

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Não é uma questão de ficar preso ao passado.

A vida é como um jogo de memória: só faz sentido continuar jogando se você sabe por onde já passou.

Não faz sentido batalhar oito horas por dia se você não souber ligar esse esforço àquilo que você viveu e que te fez decidir fazer isso. 

Só vale a pena estar no presente se a caminhada do passado até aqui fizer sentido. 


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Sugiro um exercício de memória diferente: em vez de ficar horas preenchendo palavras cruzadas porque o médico mandou, que tal procurar aquele sabor de sorvete que você adorava quando era criança?

Que tal passar pela escola em que você estudou na adolescência e tentar lembrar o lugar exato do seu primeiro beijo? E de como você chorou quando levou o primeiro fora?

Que tal passar meia hora cantarolando todas as músicas que lhe vierem à cabeça e saborar as memórias que elas trazem?

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Pode parecer bobo, mas eu prometo que não é.

A escalação do time de futebol que você torcia quando tinha onze anos, o motivo do soco que você deu no seu vizinho quando tinha nove, o caminho que você fazia para voltar da aula aos quinze, essas memórias são justamente a base das memórias que você tem hoje. Foi em cima delas que você construiu quem é.

É pela avenida do ontem que caminhamos hoje para chegar até o futuro. Tendo essa base firme, não vai ser preciso esquecer todo o resto para lembrar do que é realmente importante.

E, sabendo disso, qual é o problema de esquecer os óculos em casa?

6.10.15

Narcisos

Era uma vez um rapaz chamado Narciso, que nunca tinha visto o próprio reflexo (a mãe dele foi trocada por uma mulher que vendia espelhos ou coisa assim).

Um dia, quando jovem, Narciso foi beber água em um lago (abalada pelo abandono, a mãe dele nunca se importou em colocar água encanada em casa) e viu o próprio reflexo na água.

Ficou apaixonado.

"Mas que tesão de novinho!", pensou ele.

Ficou dias se admirando, até que um dia tentou se lascar um beijo e caiu na água. Narciso não soube nadar (sua mãe era agorafóbica e não conseguia levá-lo na aula de natação) e morreu afogado.

Fascinado por si mesmo, Narciso se levou à morte.

(história levemente adaptada por preguiça de abrir a Wikipedia pra lembrar da original)

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Não sei vocês, mas eu uso a palavra "narcisista" como xingamento. Não tem coisa melhor para falar mal de uma pessoa expansiva demais, desesperada pra chamar atenção o tempo todo.

Acho isso injusto com Narciso. Ele, ao meu ver, era uma pessoa em depressão. O narcisismo é, por excelência, uma estratégia de defesa.

Narciso era um tímido: quando ficou consciente da própria beleza, ficou tão preocupado em não macular a perfeição que via em si mesmo que ficou paralisado.

Para manter o controle de como seria percebido, Narciso não podia tirar o olho de si mesmo, constantemente policiando-se para não se perder.

Para se proteger, o único olhar que Narciso recebia era o próprio. Ninguém mais podia ver sua beleza.

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Não é à toa que "Narciso" surge da mesma raiz que a palavra "narcótico". Estar narcísico é estar entorpecido em si mesmo, incapaz de interagir verdadeiramente com o mundo exterior, por medo de não ser reconhecido se expôr.

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Dá um trabalho danado ser Narciso.

A energia que se gasta se protegendo, querendo estar no controle e fingindo não querer ser o centro das atenções é exatamente a mesma energia que estaria disponível para fazer alguém brilhar e se manifestar à altura da própria capacidade.

Narcisismo é o oposto de auto-estima. Ter auto-estima é confiar que o julgamento do outro pode ser um pouco mais generoso do que o próprio. É deixar de querer ser tão perfeito e se mostrar belo do jeito que naturalmente já se é.

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Deixar de ser narcisista requer uma boa troca: gastar menos energia se preocupando em estar perfeito para gastá-la se manifestando mais autenticamente.

Basta olhar para si e pensar "Se eu tenho tanto ciúme, acho tanto que os outros deviam me dar valor, quero tanto ser reconhecido... é porque eu devo me achar muito foda, mesmo!".

E usar um pouco de lógica: "Se eu me acho tão foda assim, provavelmente algo de foda eu devo ter. Então, não preciso ter ciúme, nem vergonha de me mostrar. Vou agir do jeito que eu tenho vontade e exigir meu reconhecimento em voz alta. Ai de quem não gostar, que perde a oportunidade de ter um eu do lado."

Com auto-estima, ninguém precisa se achar perfeito nem se apaixonar pela própria imagem. Satisfeito com quem se é, ninguém se machuca tanto com as rejeições da vida, e fica mais fácil ser verdadeiramente humilde - ou seja, gostar de si mesmo dentro das próprias limitações.

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Era uma vez um Narciso que não era narcisista.

Um dia, ele viu sua própria imagem refletida num lago.

"Que pitéu", pensou ele. "Tô gato mesmo".

Ficou enfeitiçado pela própria imagem. Mas não quis guardar isso só para si.

Saiu andando pelas ruas cumprimentando todo mundo, piscando o olho pra quem olhava pra ele, caprichando no rebolado e no charme.

Fez um book de modelos e distribuiu por aí.

Fez sucesso. Viajou o mundo todo, mostrando sua beleza para todos.

Anos depois, viu a própria imagem refletida no lago. Estava envelhecido. O cabelo estava ralo, o rosto enrugado, a pele marcada. Passou a mão pela barriga já saliente e viu como tudo tinha mudado.
Deixou-se refletir um pouco.

"Sabe que eu ainda dou um caldo?"

Abriu um sorriso e seguiu em frente, continuando a piscar o olho com pés-de-galinha e mostrando o que tinha de belo por aí.

Sua beleza era algo mais profundo do que a superfície do lago podia refletir.

Aceitações

Nós, que andamos pelo mundo acordando cedo, andando com nossas próprias pernas e reclamando quando temos gripe, somos um seleto grupo de abe...