28.12.16

Benefícios


Das coisas que eu vejo sendo compartilhadas no Facebook, uma me chama atenção em particular: aqueles artigos pseudocientíficos sobre saúde com nomes como "Sete benefícios incríveis de tomar limão em jejum" e "Os efeitos chocantes de comer um butiá por dia".
Não pelo conteúdo em si, mas por quem compartilha. É uma faixa etária bem específica. Você não vê adolescentes compartilhando receitas de "Máscara caseira contra celulite", por mais celulite que possam ter.
Deve existir alguma lei oculta no universo que só permita compartilhar artigos assim depois dos quarenta.

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Tem um pessoal por aqui vendendo umas garrafinhas que "imantam" a água (segundo eles, como assim você não toma água imantada? água imantada cura até câncer! se for alcalina, então...). Cada garrafinha custa quatrocentos reais.
Cheguei na casa dos meus pais e tinha uma jarra de vidro em cima da mesa da cozinha, cheia de água, com um saquinho dentro.
Dentro do saquinho, bem amarrado, um puta de um ímã arrancado de um alto-falante. Perguntei o que era e meu pai explicou: "Mal não deve fazer, né? Queria testar, mas eu nunca que ia pagar quatrocentos reais numa garrafinha."
Morri de orgulho.
Aí ele me contou que quase pagou 150 reais num e-book com exercícios para o olho que curam a vista cansada e eu desorgulhei um pouco.

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A gente compartilha nas redes sociais coisas que ressoam com o nosso sentido na vida.
Gente que se sente viva lutando por justiça compartilha política, gente que se sente viva se afirmando pela beleza compartilha selfies... Egente que está com medo de ficar sem saúde compartilha "Cinco Receitas Para Regular o Intestino em Uma Semana".
Depois dos quarenta já não se tem ingenuidade pra fingir que não se caga, nem noção para manter isso privado. Tem, e sobra, coragem de mostrar que se segue lutando.

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Além disso, a gente compartilha aquilo que nos faz sentir pertencente a um grupo.
Da mesma forma que a gente compartilha o trailer do novo Star Wars para ganhar likes dos amigos geeks, sua tia Irene compartilha os benefícios da babosa para se afirmar diante das amigas dela.
É a maneira dela de dizer pro mundo "Eu não tô morrendo não, viu? Eu tô até melhorando, curei o furúnculo no meu pé passando babosa nele, menina, nem te conto!".

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O triste é ver que, mesmo com a maturidade, sempre vai existir uma parte da gente que torce por uma fórmula mágica, que resolva todos os nossos males com o menor esforço possível da nossa parte.
Não julgo.
Se tem uma coisa na vida que dá pra entender é que o tempo passa rápido e que ninguém quer ficar pra trás. Se existir alguma receita que ajude a prolongar nossa estadia um pouquinho, ou fazer as juntas doerem um pouco menos, manda ver.
Mesmo que se precise brigar na justiça para poder usar fosfoetanolamina, mesmo que se precise pagar quatrocentos reais numa garrafinha de água imantada.
Melhor ainda se for de graça, com alguma coisa que todo mundo tem em casa. Não custa tentar, mesmo que a receita tenha vindo de um site tão renomado quanto um blog chamado "cura-pela-saude-com-a-natureza121" hospedado no blogspot.
Vale tudo pra gente se sentir um pouco menos como se estivesse morrendo.

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A idade chega pra todo mundo, e se tem alguma coisa que esse povo de quarenta e poucos anos tem mais do que eu é experiência.
Amigos, vou ouvir a voz da experiência e começar cedo. A partir de amanhã, vou tomar o suco de sete limões todo dia em jejum. Vou comer bicarbonato de sódio de colherada, pra alcalinizar o sangue. Vou secar minha barriga em quatro semanas, consumindo um litro e meio de azeite de côco a cada refeição.
Vou me banhar em babosa com tanta frequência, meus amigos, que vou emergir o próprio Highlander.

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Há de funcionar. Se eu sobrevivi a 2016 sem nem me cuidar direito, com essas receitas todas eu vou sobreviver a qualquer coisa.
Serei imortal, a não ser que eu engasgue com o ímã da garrafa de água.

11.12.16

Trabalho e sentido

O que faz um bom profissional? 
Nos escritórios de Recursos Humanos pelo mundo, enfileiram-se candidatos dispostos a mostrar o melhor lado de si: o quanto estão preparados para um desafio, o quanto são mais dedicados do que os outros e como estudaram em boas escolas. 

Mesmo com toda a psico e tecnologia disponível, o instrumento mais usado para selecionar profissionais ainda é um pedaço de papel onde se enumeram as maiores conquistas da vida de uma pessoa. 

Não serve qualquer conquista:  num curriculum vitae, você precisa enumerar apenas aquilo de você que é comparável. Onde você trabalhou, onde você estudou, o que você fez de diferente... dos quarenta outros candidatos para a vaga com experiências muito parecidas com as suas. 

Numa entrevista, só se mostra um lado de si que caiba numa tabela na mente do entrevistador, que vai, numa tentativa de ser objetivo, fazer uma média de quem mais acertou na expectativa geral do que um candidato ideal deveria ser. 

Irônico, já que as mesmas empresas que tocam seus processos de seleção dessa forma pagam pequenas fortunas para um "empreendedor de sucesso" discursar animadamente sobre quebrar padrões e ser um profissional incomparável. 

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No formigueiro do mundo de negóciosmilhões de formigas de pastinha debaixo do braço lutam por espaço fazendo funções muito similares.   
Como estratégia de sobrevivência, formigas que somos, precisamos decidir qual o sentido que vamos dar para tudo isso. Infelizmente, sentido não é algo que se aprenda na escola.   
Entre as experiências que dão empregos e as experiências que dão sentido, mora um abismo.  

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Formação não é só diploma. 

Os dias em que eu ajudei a minha avó a colher cenouras na horta foram muito mais importantes na compreensão das alegrias singelas de uma pessoa do que a leitura de artigos de setenta página sobre felicidade. 
O dia que eu fiquei até as oito da noite na escola porque meus pais esqueceram de me buscar me ensinou muito mais sobre lidar com frustrações, comunicar minhas necessidades e ter paciência do que se eu tivesse estudado em um colégio com mensalidade de cinco salários mínimos. 
Os olhares, os toques, as convivências, os filmes assistidos, as amizades improváveis e as infelicidades do caminho nos tornam diferenciam muito mais profundamente do que o ano de intercâmbio na Austrália que nos garantiria uma vaga de emprego.  
São as pequenas experiências que nos tornam únicos. Infelizmente, isso não se pode botar num currículo. 

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Mas é certo: se você tiver um senso de sentido, algo humano, emocional e na dimensão do incomparável, você pode ter a função mais banal e repetitiva de uma empresa e ainda assim ter alguma luz.  
Uma pessoa com sentido é capaz de animar e contaminar positivamente todas as pessoas que trabalham com ela. 

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Se isso ajuda a manter um emprego? Não sei. 
Muitos especialistas não são especiais o suficiente para perceber a importância do pequeno na construção de algo grande. 
Mas se você lembrar que é tão formado pelo abraço da sua mãe e pelos apelidos que ganhava do irmão mais velho do que pela faculdade onde se formou, e buscar honrar esse sentimento singelo, sua carreira vai mudar.  
Mesmo fazendo a mesma função, no mesmo lugar e com as mesmas expectativas de um milhão de formigas de pastinha ao seu redor, você vai ser mais feliz. 

6.12.16

Autoconhecimento

"Olha, eu não tenho nenhum problema grande, estou aqui pra mais pra me conhecer mesmo..."
É o que me dizem todos os pacientes que vão passar o resto da sessão falando sobre um problema específico.

Acontece. Não há jeito de trabalhar uma questão específica sem vasculhar o arquivo inteiro da vida em busca de uma resposta.
Ao mesmo tempo, depois de vasculhar o arquivo inteiro, você acaba tendo uma ideia bem melhor de quem é.

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Essa ideia de "Se conhecer" é engraçada, né?
É como ter um irmão gêmeo grudado em você pelo pescoço, com o mesmo corpo e as mesmas experiências que você tem, e não fazer ideia de como ele pensa.

Parece difícil, mas vai saber.
É capaz de, nessa situação, muita gente conhecer muito mais ao irmão do que a si mesmo.

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Outra coisa: se conhecer e se gostar são coisas diferentes.

Nem todo mundo tem um recheio cremoso com sabor de morango. A gente tende a ser muito mais amargo e difícil de digerir.

Mas o irmão é uma comparação válida: conforme os dois crescem juntos, é natural que briguem, se odeiem, se estranhem, se rejeitem... E é assim entre conforme a gente se conhece também.

Se autoconhecer não é um processo pacífico.

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Não basta se conhecer passivamente, só de olhar para si mesmo.

O autoconhecimento de verdade é um processo muito mais próximo de escrever um livro do que de ler um.

É uma tarefa que exige algum planejamento.

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Muito bem, mas como se conhecer?
Deixo algumas sugestões:

- Tente conhecer as outras pessoas. Algumas das coisas que eles sentem são universais e também vão se aplicar a você.

- Invente pessoas. Vá para um lugar cheio de pessoas e imagine a vida que elas devem levar. O que você imaginar sobre elas vai dizer muito sobre você mesmo.

- Sofra de enxaqueca. Você vai aprender o quanto sua vida é boa só por estar sem dor nenhuma, e de quebra vai perceber que às vezes querer morrer é natural.

- Fique nu no chão do seu quarto. Arranje uma caneta Bic e desenhe em sua pele. Rabisque do jeito que a sua mão, e não a sua cabeça, desejar. Isso vai lhe mostrar o limite do seu corpo, e que é possível ser criativo mesmo com limites.

- Arranje um espelho que caiba na mão e o leve para perto do seu cu. Assista-se peidar. Isso vai te dar uma intimidade com o seu corpo e te mostrar que não tem tanta diferença assim entre soltar um peido e mandar um beijo.

- Decepcione seus pais. Dê orgulho pros seus pais. Se decepcione com seus pais. Tenha orgulho dos seus pais. Entender quem eles são é um atalho para entender quem você é.

- Vá a um lugar com muita, muita beleza e se permita só apreciar. Tenha a certeza da existência de Deus.

- Vá a um lugar com muito, muito sofrimento e se permita só doer. Tenha a certeza que Deus não existe.

- Envelheça. Ficar mais jovem é muito contraprodutivo para quem quer se conhecer.

- E não se cobre tanto. Só de estar ali, convivendo consigo mesmo, cê já vai descobrir muita coisa - e provavelmente vai ficar feliz com o processo.

E se o processo ficar difícil demais, antes, durante ou depois disso tudo, procure um terapeuta.
Não existe um mapa exato para se encontrar, mas existem algumas bússolas que podem te ajudar no processo.

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O que dá pra dizer com certeza sobre autoconhecimento é o seguinte: você vai acabar se surpreendendo.

Tenta aí.

26.11.16

Calças

Quanto mais velho eu fico, mais eu preciso me esforçar pra usar calça.

Quando eu era adolescente, eu me recusava a usar bermuda. Era calça jeans o tempo todo, até pra ir na calçada levar o lixo.

Agora tá mais difícil. 
Como o código de ética da psicologia impede que eu pratique minha profissão e o nudismo ao mesmo tempo, eu fico horas demais por dia de calça, sapato, cinta, camisa social, aquele monte de botão... Isso cansa.

Ainda mais com essas calças moderninhas que agarram forte na canela e você fica parecendo um burrito enrolado em papel alumínio.

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Tinha aquela brincadeira de guri que alguém gritava "com calça" ou "sem calça", no final de cada frase de uma música, cês lembram? Era tipo:
Caía a tarde como um viaduto
COM CALÇA
E um bêbado trajando luto
SEM CALÇA
Me lembrou Carlitos
COM CALÇA

Eu tô com o bêbado.

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Agora eu aprendi a usar o desconforto ao meu favor. Fico cultivando o incômodo da roupa apertando o corpo até o dia terminar.
Aí a parte mais feliz do meu dia é chegar em casa e instantaneamente arrancar as calças, como se eu fosse um stripper com pressa pra devolver a fantasia de policial.
O resto da roupa fica, o que irrita mesmo são as calças, o símbolo maior da opressão.
Meu visual fica uma coisa linda, meias, cueca e camisa social amarrotada.

Até o final da década, prevejo que eu vou estar indo de sunga ao supermercado.

(desculpem deixar essas imagens na cabeça de vocês, mas quem leu até aqui foi porque quis)

9.11.16

Por amor

Surpresa: o Trump venceu.

E tá o mundo inteiro com as mãos na cabeça pensando "Puta que pariu, sério isso?".

Estamos decepcionados.

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Os tempos tem sido difíceis pra quem acredita na igualdade.
Temer, Crivella, Trump e companhia estão fazendo brincando de cirandinha ao nosso redor e cantando vitória.

O poder voltou às suas velhas mãos.

Mas, amigos, é hora de se acostumar com a decepção. É ingenuidade achar que os avanços do mundo duram para sempre.

Infelizmente, o poder sempre foi egoísta, misógino e violento.
Não há nada de novo debaixo do Sol.

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A gente, quando luta por igualdade e paz, é porque já sofreu nas mãos desse poder e não quer que tudo continue assim, perpetuando sofrimento.

Até tivemos nossas pequenas glórias: os homossexuais já estão sendo mais tolerados, a discussão racial nunca esteve tanto em pauta, conseguimos eleger governos com uma visão social maior em vários países...

Quando alguém está no poder e olha para o nosso lado, é fácil cair na ilusão de que o poder está do nosso lado. Que estamos vencendo.

Acreditar que tudo vai mudar pra sempre, ou que pelo menos a evolução, ainda que lenta, vai ser ininterrupta.

E então o mundo dá uma reviravolta e tudo parece retroceder um século.

O poder nunca foi nosso.

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É fascinante testemunhar a história acontecendo, poder estar presente e atento no exato momento que o mundo se lança rumo ao desconhecido.

Foi assim quando as torres gêmeas caíram. Foi assim quando o Obama foi eleito.
Quando o Putin invadiu a Crimeia.
Quando a Dilma caiu.
Quando o Trump foi eleito.

Estivemos lá, de frente para uma tela, assistindo a uma reviravolta e pensando em como o mundo seria diferente a partir dali.

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É fácil se assustar com um momento como o de hoje, em que a gente se assusta com o triunfo da maldade, porque damos de cara com uma maldade óbvia.

O homem é uma abóbora de Halloween em cima do corpo de um espantalho, pelo amor de Deus.

Parece que está tudo piorando, mas as estruturas do mundo são velhas e muito mais firmes do que desejamos acreditar.

Tudo está como sempre foi.
A gente ainda vive num mundo em que o natural é atirar pra baixo.
Em que o aceitável é olhar pro sofrimento do outro e pensar "Antes ele do que eu".
Um mundo em que o diferente precisa sofrer.

Nossos pais viveram num mundo assim. Nossos avós viveram num mundo assim.
É muita inocência achar que a nossa geração também não passaria por um momento sombrio, de um poder opressor e violento.

O mundo sobreviveu a coisas muito piores, o desejo de igualdade sobreviveu a períodos muito mais tenebrosos.
Entre mortos e feridos, o desejo de lutar seguiu em frente.

Tivemos nossos lampejos de "estamos quase lá"? Tivemos.
Mas é hora de arregaçar as mangas de novo.

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Falta ânimo pra seguir acreditando? Então precisamos lembrar que nosso esforço faz sentido.

Lembrar que não lutamos por benefício próprio e não batalhamos para segurar as coisas como sempre foram.

Que nós lutamos por amor.
Lutamos por acreditar que cada um merece ter sua voz ouvida, ainda que não seja um bilionário de cabeça laranja.

Por acreditar que o pobre, a mulher, a travesti, o louco, o fraco, todos devem ter seu direito respeitado.

A gente ainda pede igualdade e justiça porque ama.
Porque acredita no amor, em lutar com amor, lutar por amor, lutar pelo amor.
Ainda que em tempos sombrios.

E a hora, mais do que em qualquer outro momento da nossa geração, é de seguir lutando.
Amando.
Acreditando.

De ter o coração valente, mas começando por ter coração.
Porque é o coração que nos dá sentido nessa hora. E, sem sentido, não existe força.

E haja força pra viver num mundo desses.

4.11.16

Badoo

"Flávio, sabe onde eu te vi outro dia?" - Minha amiga perguntou.
Gelei. Os lugares que eu frequento são quase tão comprometedores quanto o meu histórico de buscas no Google.
Pensa aí num lugar equivalente a pesquisar por "pra onde uma espinha vai quando ela explode pra dentro" e você vai ter uma ideia de onde eu costumo ir.
Mas era um lugar pior do que eu poderia imaginar.
"No Badoo! Meu vizinho falou que lá era bom pra conhecer gente, eu baixei, e apareceu você lá!"
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Pra quem não sabe, o Badoo é o umbral dos solteiros.
Dá pra classificar as pessoas pelos aplicativos que elas usam pra conhecer gente.
Se ela tá mais de boa, e quer achar alguém que tem carro, vai de Happn.
Se tá mais no aperto, mas exige um choppinho antes do abate, Tinder.
Agora, se você tá sem luz no fim do túnel, matando cachorro a abraço e chamando a Sônia Abrão de meu louro, você instala o Badoo.
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Eu nem sabia que eu tinha uma conta nesse inferno de site.
Entrei lá, tentei excluir minha conta e não consegui. Quem fez o site sabe que ninguém vai encontrar o amor lá mesmo, então pra quê desinstalar?
Desisti. Depois tentei de novo, mas não lembrei minha senha. Tentei logar com o Facebook.
E esse buraco-negro de site automaticamente criou um perfil novo!
Agora eu não tenho uma, mas duas contas no Badoo que eu não consigo apagar.
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Meu status na hierarquia da solidão não é mais o de mero solteiro.
Virei o guardião dos portais da virgindade. O padroeiro das solteiras com vinte gatos. O Exu do Encalhe.
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O pior é que agora eu fico recebendo emails do tipo "Jessica, 26 anos, se interessou por você."
Desculpa, Jessica, mas você tá procurando a pessoa errada. Do jeito errado. No lugar errado.
Porra, Jessica. Me ajuda a te ajudar.
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Já entendi que nunca vou conseguir cancelar essa merda de conta. Vou ficar preso nesse labirinto pra sempre.
No Badoo, solteiro e sozinho.
Jessica, segura minha mão?

20.10.16

Sentindo sentidos

O que você está fazendo agora?

Eu espondo: está pensando. 
Botando informação pra dentro, mastigando com os neurônios e alojando cada coisa numa gavetinha na sua cabeça.

Evolutivamente, o processo de aprender não tem nada a ver com conseguir blefar melhor no pôquer ou citar Nietzsche. Tem a ver com sobrevivência.

A gente observa, repete, aplica e guarda tudo aquilo que pode nos ajudar a escapar de um risco iminente, seja um leão ou uma palavra. 

Pensamos para conseguir sobreviver.

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Sentir, por sua vez, é o termômetro interior que desenvolvemos ao longo de milhares de anos, que nos diz se estamos seguros nesse ambiente perigoso, cheio de leões e palavras.

Sentir serve para que mostrar uma realidade dentro de nós que vai além do dicionário e da lei da selva.

Sentimos para dar significado à existência.

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E como é que a gente toma decisões?

Pensando. 
Ignorando o sentido e focando na estratégia de sobrevivência, mesmo quando não estamos correndo tanto risco assim.

Usamos justamente a estratégia de fuga, quando podíamos muito bem estar no lugar seguro, no termômetro evolutivamente refinado e facilmente acessível dentro de cada um.

"Usar a cabeça" virou sinônimo de decisão bem tomada, mas eu tô com o consultório cheio de gente infeliz com a cabeça exausta de pensar.

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Aproveita que você tá matando tempo e faz esse exercício rapidinho:

Escolha um assunto que te incomoda.
Pode ser uma decisão, uma relação com alguém, um trauma do passado. 

Tenta relaxar um pouco o corpo, na cadeira mesmo.
Respire fundo e tenta se conectar com o seu corpo pelo lado de dentro.

Veja bem o que está confortável e o que não está, sem tentar corrigir nada.
Tente, por uma vez na vida, ser seu amigo e receber o que vem de você como se viesse de alguém que você gosta muito.
Aceite o que o seu corpo mostrar, sem julgamento e com bastante carinho.

Agora preste atenção na região entre a barriga e o pescoço, e manda a pergunta pra dentro:
"Que espaço isso (o tema que você escolheu) ocupa aqui dentro de mim?"

Tente não usar palavras.
Só sinta dentro do corpo, o espaço que isso ocupa dentro de você.

Resista à tentação da cabeçorra voraz. Sinta o corpo.

"Como meu corpo se sente em relação a isso?"
Perceba os sentimentos que vêm a tona. 

O corpo não responde com palavras, mas com sensações, cenas, memórias.
Deixe vir.

Depois de sentir por um tempo, pode usar a cabeça pra tentar descrever essas cenas e sensações brevemente. Brevemente, hein?

Às vezes só essa parte já ajuda a perceber o que a gente pode fazer pra mudar a situação.

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Mas tem uma segunda parte:

Ainda relaxado e amigável consigo mesmo, foque naquela mesma parte do corpo e pergunte:

Do que eu preciso em relação a esse tema?
Como é que eu me sinto bem?

Sons, imagens, memórias, aceite o que vier com bastante atenção e carinho.

E sinta o alívio de identificar o que você sente.
Pode ser que você não sinta isso há muito tempo.

Agora, mesmo que a situação continue a mesma, você já sabe o que se dar.

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É chato que a vida da gente esteja tanto na nossa cabeça que seja necessário reservar tempo e fazer exercícios simplesmente pra conseguir sentir alguma coisa.

Mas o esforço compensa, principalmente pra quem com ansiedade e depressão.

Entrar em contato com o porto seguro do corpo ajuda a desenvolver a força emocional e o carinho consigo mesmo necessário pra enfrentar essas condições.

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Vários estudos científicos relacionam a percepção de emoções a partir do corpo a um bom resultado de terapias. 

Fazer isso uma vez por dia pode fazer uma grande diferença a longo prazo. 

Experimente e me conta como foi. Como você se sentiu?
Fez sentido pra você?

6.10.16

O Gambá

Essa é uma história de vingança.

Começou no domingo. Apareceu um gambá morto na calçada na frente de casa.

"Vou ter que tirar essa merda daí, mas sem chance que vou fazer isso agora."
Procrastinei. Ao contrário da vida, a morte pode esperar.

Saí de casa e passei um tempo me convencendo que não ia ser tão nojento assim tirar o bicho de lá.

Mas ia sim. Voltando pra casa, encontrei uma surpresa.
Um cachorro cagou no gambá.

Além de morto e na sarjeta, o gambazinho estava literalmente na merda.

"Lei da atração", pensei. "Essa é uma alma afim."

Adiei o serviço novamente. Não tinha estômago pra catar o gambá morto naquele momento.

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Mais tarde resolvi encarar o problema e tirar o bicho dali de vez.

Peguei dois sacos de lixo grandes, forrei a mão com sacolas de supermercado, segurei na mão de Deus e fui.

E, milagre! O gambá sumiu.

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Algum dos meus vizinhos era uma pessoa especial, iluminada, divinal, com fetiche por necrofilia de gambá, alguma coisa assim.

De tão feliz, quase saí pela vizinhança oferecendo chocolates, flores e sexo oral como agradecimento.

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Corta pra hoje. Quinta-feira.

Alguém comenta comigo de um fedor característico vindo da rua.
"Acho que tem um gambá morto ali", disse o alguém.

Eu não quis acreditar. Que onda de morte de gambás é essa no meu bairro, gente?

Mas não era uma onda. Era o mesmo gambá, arrastado até a floreira alguns metros pra frente de onde o corpo estava.

O mesmo maldito gambá cagado, agora com quatro dias a mais de sol e chuva na carcaça pra feder mais gostoso.

QUEM DIABOS CUTUCA UM GAMBÁ MORTO SÓ PRA LEVAR ELE PRA UMA FLOREIRA DOIS METROS ADIANTE?

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Eu nunca me senti tão conectado a uma pessoa que eu não conheço quanto estou agora.

Essa pessoa, essa pessoa que escondeu o gambá morto pra me fazer cutucar um defunto apodrecido, essa é uma pessoa que eu vou virar amigo.

Eu vou virar íntimo dessa pessoa. Eu vou frequentar a casa dessa pessoa.
Eu vou ser convidado pra ceia de Natal na casa dessa pessoa.

E vou trocar o peru da ceia pelo corpo do gambá numa bandeja.

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Não, eu vou me aproximar dessa pessoa. Trazer felicidade pra vidinha miserável dessa pessoa.
Apresentar o grande amor da vida pra essa pessoa. Ser padrinho de casamento dessa pessoa.

E enfiar o gambá dentro do buquê.

Botar o focinho do gambá como enfeite do bolo.

Fazer o gambá de travesseiro na cama da noite de núpcias.

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Eu vou perseguir essa pessoa até ela morrer de remorso por ter escondido meu gambá.

Quando ela morrer, quando ela estiver sendo enterrada, eu vou jogar o gambá em cima do corpo dela.

Então, e só então, eu vou poder perdoar.

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Agora cês me dêem licença que eu tenho um gambá pra ajuntar.

2.10.16

Vergonha e orgulho

Ontem eu tive vergonha dos meus pais.

Estávamos nós, eles exaustos de viajar o dia inteiro, passando algumas horas comigo antes de seguir viagem madrugada adentro, eu querendo agradar e disposto a levá-los a algum lugar bacana pra mostrar como, apesar de telefonar todos os dias me fazendo de coitado, as coisas estão indo bem.

Eles preferiram ir ao Subway. Era rápido, tinha salada, tinha cafeína e isso era tudo o que eles precisavam para seguir dirigindo a madrugada inteira.

É o mesmo fast-food em que eu apareço no fim da noite, em fiapos, prestes a comprar um sanduíche da promoção antes de voltar para casa e ligar para os meus pais me fazendo de coitado.

E entramos na fila. Minha mãe primeiro, então meu pai e depois eu.

Um pássaro sob o efeito de LSD não daria tantas voltas para voar quanto minha mãe deu para escolher o sabor que queria. Perguntou o que era cada um dos recheios. Conjecturou. Perguntou a opinião do atendente sobre cada um.

Botou a mão no queixo e coçou a cabeça como se a extinção da fome no mundo dependesse do recheio daquele sanduíche.

Eu atrás, como um adolescente, batendo o pé no chão e pensando "Afe".

O atendente, um rapaz com a cara, a voz e os trejeitos do Lázaro Ramos, que me fez pensar que em algum momento o Luciano Huck apareceria e revelaria que tudo era uma brincadeira e eles iam reformar minha casa, teve a maior paciência do mundo.

Explicou ingrediente após ingrediente, disse qual achava mais gostoso, foi um lorde.

E foi a vez do meu pai.

Meu pai não é indeciso, mas é um palhaço. Escolheu rápido, mas justificou cada um dos sabores.

"Então o Frango Teriaki, o Steak de Frango e o Frango com Cream Cheese são todos de frango?"

Lorde Lázaro Ramos disse que sim.

"Que bom. Eu gosto de frango."

Eu ao lado dele, com os olhos quase enxergando o cérebro de tão virados pra trás.

Então foi minha vez de pedir.

Eu já sabia meu sabor de cor.
Mas aí eu lembrei que tinha uma outra combinação que eu não tinha experimentado.
Perguntei se dava pra adicionar.
Dava.
Fiquei na dúvida. Decidi que ia adicionar, sim.
E se dava pra tostar com a salada junto.
E se ia ser ruim pra fechar o pão se tostasse com a salada junto.
"Porque fica ruim se não der pra fechar o pão direito, né?"
E perguntando a opinião do Lázaro Ramos.

E eu me dei conta.
Como eu sou igual a eles, como eu sou assustadoramente igual a eles.
Se eu fosse meu parente, e estivesse atrás de mim na fila, eu estaria lá, batendo o meu pé e pensando Aff e virando os olhos e morrendo de vergonha, sem perceber que a pessoa na minha frente na fila era exatamente eu.

Só que com mais carinho por mim, parando no intervalo de doze horas de viagem para poder sentar numa lanchonete comigo e assistir a novela.

O lanche acabou e eles foram de volta para casa.

E eu fiquei aqui, digerindo um Subway com o coração apertado, morrendo de saudades, como se já não fizesse oito anos que eu moro longe e não estivesse acostumado a vê-los só de vez em quando.

Como se eu não fosse o adulto que se acha bacana o suficiente para querer levar os pais num restaurante mais chique, pra eles terem uma experiência diferente e quem sabe sentirem um pouco de orgulho.

Como se eu ainda fosse o exato mesmo menino do interior que se mudou para a capital carregando algumas roupas numa sacola emprestada, sem saber pedir num restaurante de fast food, achando que uma bolsa para fazer faculdade ia me transformar numa pessoa completamente diferente.

Sim, eu mudei muito, mas mesmo mudado eu sou exatamente igual a eles.
Nada mais do que um pedaço deles.

E só isso.
Ontem, eu tive muito orgulho dos meus pais.

17.9.16

Agente 06

"Agente 06, você está vestindo seu chapéu de papel de alumínio?"
"Estou, agente 08."
"Ótimo. Assim o governo não vai conseguir interceptar nossos pensamentos."
"Compreendido. Espero que eles também não desejem interceptar esse telefonema."
"Isso é irrelevante, agente 06. Preciso discutir um assunto sério com você."
"Pois não, 08. Diga-me."
"Eu tive um sonho muito estranho essa noite, agente 06. Eu estava no supermercado..."
"Compreendido."
"E eu estava na fila para passar as compras no caixa e pagar a conta."
"Compreendido."
"E, quando chegou a vez de eu pagar, de repente eu estava em outro supermercado..."
"Em outro?"
"Exato. E estava novamente no fim da fila do caixa. Preciso te dizer, agente 06, a fila era enorme."
"Você esperou, agente 08?"
"Esperei. Por horas."
"E aí?"
"Aí chegou minha vez."
"E aí?"
"Aí eu não tinha nada na cestinha."

Silêncio na linha.
"E aí?"
"Aí eu acordei."

Silêncio novamente.
"Você não percebe, agente 06? O governo está manipulando meus sonhos para testar minha resistência mental."

O agente 06 raciocina.
"Faz sentido, agente 08. Mas e agora?"
"Ora, agente 06. Preciso de um travesseiro de papel alumínio."
"Ótimo. Você já fez um?"
"Não fiz. Preciso ir ao supermercado comprar."

14.9.16

Inventar-se homem

Rapazes, essa é pra vocês.

Homens que não se sentem em casa entre os sarados top macho alfa da balada e nem com os desconstruidões do pé descalço do sarau-ciranda.
Os que estão no meio-termo.

As mulheres não são mais as mesmas do que prometeram pra gente quando a gente era criança, né? Pois é, elas mudaram. A gente, não tanto.

Aí sobrou pra gente se segurar como puder.
Alguns se afirmam no "foda-se, vai fazer meu sanduíche, mulher é pra meter mesmo, sai feminazi".
Outros ainda não sabem bem o que fazer diante de uma mulher empoderada, que ele respeita e admira mas fica mas sem saber qual a função que lhes resta.

Desses eu tenho visto muitos, que aparecem no consultório, calados e intimidados por não quererem a mesma coisa de um relacionamento que a namorada, ou morrendo de vergonha de estarem com menos tesão por uma mulher que engordou, como se não tivessem o direito de ter um pau que fica duro por causa de atração física.

--

Meninos, a gente tem que aprender algumas coisas com elas.
Elas que, muito mais que a gente, foram forçadas a cumprir papéis nem sempre compatíveis com o que eram realmente. A construção da mulher atual começou com uma desconstrução.

Descontentes com como eram obrigadas a agir, foram despindo-se.
Despindo-se da obrigação de casar, da obrigação de ser mãe, da obrigação de ser o objeto do outro.
E foram vendo que não precisavam despir tudo de uma vez, que podiam curtir a delicadeza, que podiam querer dedicar a vida aos filhos, assim como podiam curtir a intensidade e a vida de negócios.

Passo a passo, elas foram olhando para o que era esperado de uma mulher e abandonando o que lhes era incômodo, vestindo só os papéis que lhe cabiam no desejo e passando com um trator para abrir caminhos onde antes não podiam passar.

Ainda há muito o que se conquistar, mas olha só que longe elas já chegaram.

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Já os homens estão desconfortáveis.
Quando a referência de ser homem é ser o oposto da mulher, e as mulheres começam a ser polivalentes, não sobra pra onde se correr. Não dá pra ser o oposto de tudo no mundo.

E é aí que podemos aprender com o processo delas, que começaram a partir do próprio desejo em vez de a partir de quem é o outro.

Olhe bem o que lhe incomoda sobre o papel que é exigido de um homem.
Olhe bem o que você gosta sobre as expectativas que um homem tem sobre si.
Olhe onde seu sapato aperta e onde há espaço para folgá-lo.

E construa-se a partir daí.
Da sua própria experiência, do seu próprio jeito de viver a masculinidade.

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"Toda armadura de homem é emprestada e dez números maior, e dentro dela mora alguém com medo de ser descoberto", disse a Norah Vincent depois de passar dois anos passando-se por homem para escrever um livro.

Com razão.
Nos cercamos de armaduras por não acreditar que somos fortes o suficientes sem elas.

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Mudar é mais simples do que parece.
Basta se permitir e se conhecer sem preconceitos. Como uma pessoa única, em relação com uma série de pessoas - homens e mulheres - tão únicas quanto.

Um homem só é fortalecido quando se permite ser exatamente o que é.
Porque um homem pode ser sensível - e pode ser bruto também.
Selvagem e sensível. Vulnerável e poderoso. Romântico e sexual.
Naturalmente, na medida de cada um.

Como homens sem armaduras e ainda assim fortes, não vai nos intimidar ver uma mulher ter seu poder.

E então, lado a lado, poderemos nos divertir bastante.

Aumentando o volume

Depois de um debate em sala de aula na faculdade, uma professora me chamou - uma professora incrível, que eu respeito muito até hoje. &quo...