15.2.16

Cagando Aranhas

O maior medo de muita gente é acordar um dia e abrir os olhos para não enxergar nada. Perder a visão que lhe permitia andar pelo mundo sem orientação.
O medo não é o de não voltar a enxergar uma flor. Não, é de depender de auxílio para ir de um lugar ao outro. Ter que se orientar pela escuridão, pela memória e pelo inconsciente.
Tolos.
Não fazem ideia de como andam cegos pela vida sem se dar conta.
O conforto da vida é estar cego enquanto enxerga. É não depender dos olhos para se movimentar. É ir de um lado ao outro sem a surpresa de uma cadeira surgir de surpresa no meio do caminho só para causar o seu tropeço.
É esse conforto que tantos temem perder.
Mas não adianta. Mesmo de olhos abertos e com as pupilas a mil recebendo toda a luz que podem, pode aparecer uma cadeira no meio da sala onde imaginávamos estar caminhando em campo aberto e nos fazer moer o dedinho do pé contra sua madeira dura.
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Pois eu enxergo tudo o que está no meu caminho. Preciso de um par de lentes grossas de acrílico para me orientar, mas estou de olhos abertos e se tem uma coisa que esses olhos fazem é enxergar.
E, hoje, eu enxerguei uma barata saindo do buraquinho da pia.
Não a barata inteira, só suas antenas.
Maldita, atrapalhando minha cegueira. Me obrigando a estar atento de por onde eu passo.
Barata não morde, barata não tem veneno. O que irrita na barata é que ela é imprevisível.
Ela pode fugir do meu chinelo, ela pode voar pra qualquer lado, ela pode se aproveitar da minha expressão de susto e entrar pela minha boca, arruinando todas as escovações de dente que eu já fiz na vida.
Ela pode se esgueirar pela cozinha caminhando pelos pratos que eu lavei de qualquer jeito, rindo da minha cara no dia seguinte quando eu acreditar que o que eu boto na minha boca é limpinho e saudável.
Ah, barata, eu preferia quando eu não te via.
Quando eu sabia da sua existência, mas só por supôr. Por imaginar que, sim, por cima desse forro deve caminhar alguma barata. Por dentro desse esgoto. Quando eu era cego de você.
Mas ousar se expôr? É declaração de guerra.
É invadir minha casa. É fazer terror psicológico.
Se a Clarice escreveu um livro inteiro sobre encontrar uma barata, é porque escrever era o que ela fazia em pânico. Não há outra explicação.
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Como uma dondoca que reclama com o segurança do shopping porque tem um mendigo dormindo sob a marquise. Ela sabe que existe a pobreza, cacete, mas precisa esfregar na cara?
Maior falta de empatia do mendigo.
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Eu tinha uns seis anos de idade e tive uma súbita vontade de fazer cocô.
Corri para o banheiro, abaixei minha cuequinha e soltei um pum que inaugurou o vazio na minha alma que eu sinto até os dias de hoje.
Insisti.
Não, nada. Se tinha sido alguma coisa que eu comi, era um pastel de vento.
Mas não é o conteúdo que saiu de mim o foco dessa história: ao terminar o parto da minha gravidez imaginária, levantei do vaso e fui conferir se realmente não tinha saído nada.
Por cima da água do fundo do vaso, estava ela. Uma aranha imensa, suas pernas de Ana Hickmann se estendendo de um lado ao outro daquele mar fedendo a pinho. Não, ela não teria saído de mim.
Ela estava ali o tempo todo, e tornou-se mais íntima de mim do que qualquer pessoa até então.
Até hoje, eu inspeciono o vaso sanitário por aranhas antes de meditar.
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Aquela aranha arruinou a tranquilidade de todas as cagadas da minha existência após aquele dia.
Não sei onde a barata de hoje está. Provavelmente está me olhando nesse exato momento.
Se eu parecer paranóico, é justamente porque essa barata arruinou a minha cegueira de andar pela casa me sentindo dono do meu reinado.
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O pior cego é o que não quer ver, dizem. O pior vidente também.
Mas, às vezes, não há outra forma de se ter conforto.

12.2.16

Dessa vez, com raiva

Essa história eu vi com esses olhos míopes que a terra há de engolir:

A moça, com uns 26 anos de idade e casada com um homem de pelo menos uns 15 anos a mais do que ela, descobriu que estava sendo traída.

Era uma mulher forte e ponderada. Não quis ter uma reação emocional. Aguentou. Perdoou. Deixou passar. Seguiu casada.

Um tempo depois, disse ao marido que não ia poder ir a um evento de negócios para o qual estavam convidados. A enxaqueca estava pesada demais naquela noite.

"Desculpe te fazer ir sozinho, amor", falou, pedindo perdão por estar doente.

Ele resmungou alguma coisa e foi embora.

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[Ok, eu não vi essa história com meus próprios olhos, foi um paciente que me pagou noventa reais a hora para contar isso sem que eu contasse pra ninguém. Por isso, eu mudei a história toda pra poder soltar a língua. Ainda assim, pedi autorização para poder contar a história aqui. Respeito demais quem me paga noventa reais a hora na crença de que eu posso fazer algo útil por ele.]

[Ah, sim, e a ética também.]

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Mas prossigamos.

Ela não aguentou a culpa. Enxaqueca e tudo, se enfiou num vestido e foi ao evento. Indo rápido, não ia deixá-lo muito tempo sozinho por lá. Tadinho, tão esforçado.

Chegou e não encontrou o marido no salão principal. Cumprimentou algumas pessoas e foi ao banheiro retocar a maquiagem e reforçar a dose da aspirina.

Abriu a porta e... lá estava o marido, com a secretária. Aos beijos. Aos amassos. Algumas partes do corpo dele dentro de outras partes do corpo dela. Movimentos espásticos. Gemidos.

Olharam para ela em silêncio. Ela não soube reagir.

"Desculpa", pediu ela novamente, e saiu correndo.

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Educada como era, não fez barraco. Não contou nada para a família, nem a dela nem a dele.

Não quis queimar o filme. Não reagiu. Seguiu com os procedimentos do divórcio enquanto ainda aparecia com ele em todos os eventos em que ele precisava estar acompanhado.

Uma verdadeira dama.

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O tempo foi passando e as evidências iam se somando. Aparecia algum bilhete, alguém fofocava alguma coisa, ela foi descobrindo o quanto ele mentia para ela.

O quanto ele economizou com ela para gastar com a outra. O quanto ele deixou de fazer coisas por ela a pretexto de trabalhar, para ficar num resort com a outra.

E ficou puta.

Em plena madrugada, foi ao quarto dele (eles ainda dividiam a casa, por mais sofrido que isso fosse para ela).

Olhou para o seu rosto, acariciou a bochecha, com um carinho que há tempos não se permitia demonstrar. O mesmo carinho com que disse "Querido, tira os óculos".

Ele tirou.

E ela quebrou a cara dele.

Não uns tapinhas. QUEBROU A CARA DO SUJEITO.

Ficou cega de raiva. Depois me contou que teve medo de matar o marido, que se tivesse uma arma na mão, seria capaz de matar.

Mas não matou. Só lavou a alma.

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Violência é péssima. É horrível. Não estou aprovando a violência aqui.

Mas não consigo achar a raiva uma coisa ruim.

Com a quantidade de merda que a vida é capaz de jogar nas nossas cabeças, se a gente não surtar de vez em quando, vai ficar fedendo pra sempre.

Onde a dor paralisa, a raiva liberta. Não há como se mexer na vida sem um pouquinho de raiva como combustível.

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Em geral, as pessoas aparecem no consultório em plena crise de pânico falando "Preciso aprender a me controlar".

Pessoas super bem educadas, pessoas que não fazem mal a uma mosquinha. Como assim, controlar mais? Onde cabe mais controle nessa vida?

O que o clube dos bem comportados precisa é aprender a se descontrolar.

Do jeito certo: expondo a cara feia aos poucos, conforme os problemas vão se apresentando, em vez de esperar tudo acumular e explodir de uma vez só.

A única maneira de não explodir, não ficar cego de raiva e não fazer nenhuma besteira é liberando a pressão da penal aos poucos, ficando raiva sem nos deixar cegar e fazendo microbesteiras aos poucos.

Sem acúmulo, sem explosão.

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"Você não é punido por ter raiva, é punido pela sua raiva", disse Buda, na imagem que eu vi no Facebook de uma fonte não confiável.

Acho que as pessoas entendem isso de não guardar sentimentos ruins de um jeito torto.

Sentimentos não desaparecem por conta própria. Eles precisam ser transformados, trabalhados, arados até que alguma coisa possa nascer deles.

E nada melhor para se livrar da raiva do que botar a raiva para fora.

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O problema é nos pressionarmos tanto para sermos perfeitos. Quietos, silenciosos, educados, no controle. Só faltando a asa para ser anjo. Os aedes aegypti transmissores da paz.

Ironicamente, está mais perto do controle quem sabe que precisa se descontrolar de vez em quando.

Porque sabe que sofrer calado não tem nada de elegante. Porque sabe botar os dentes à mostra além de só pra sorrir.

Ficar amigo da própria raiva só traz benefícios: melhor pra quem não explode, e mais seguro pra quem está ao redor.

Ainda mais se quem estiver ao redor for um folgado que merecia apanhar mesmo.

Aceitações

Nós, que andamos pelo mundo acordando cedo, andando com nossas próprias pernas e reclamando quando temos gripe, somos um seleto grupo de abe...