11.3.16

Com defeitos, com orgulho

Eu sou vaidoso.
Tiro quarenta fotos antes de achar uma boa o suficiente para passar pelo software de edição, e quarenta fotos passam pelos meus ajustes antes que eu ache uma delas boa o suficiente para ser compartilhada.
Odeio me sentir feio, odeio os óculos que carrego no nariz porque o olho não aceita mais as lentes de contato.
Odeio quando tiram fotos de mim e me revelo torto, pescoçudo, fora de esquadro. Odeio perder o controle da imagem que eu tenho de mim, mesmo que essa imagem seja bem distante da realidade.

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É difícil conviver comigo.
Mesmo que minha opinião sobre um assunto não seja tão forte assim, eu tendo a defender tudo com tanta força que eu pareço agressivo. Já tive problemas com pessoas que eu gosto muito por dar a entender que sei mais do que elas.
Aliás, eu tenho essa mania também, de ser especialista em tudo. Não comente nada comigo se não tiver meia hora para me escutar engrossar a voz, fazer pose e dar uma pequena palestra - normalmente mal informada - sobre o assunto.
Me perdoe se eu já fiz isso contigo.
(A não ser que você tenha sido condescendente comigo, que aí eu vou arranjar informação de onde aparecer pra mostrar que você é um escroto. Mesmo que eu não me importe com o assunto tanto assim, porque eu sou um escroto também.)

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Eu sou superficial com as pessoas que eu desejo, porque eu quero que elas estejam à altura da pessoa que eu penso que eu sou, e Jesus Cristo, às vezes eu acho que eu sou a aterrissagem terrestre da Pica das Galáxias.
E logo eu percebo que não, não sou, e vou pro extremo oposto, e me sinto o Cu dos Infernos, e a situação não fica nada legal de olhar.

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Eu não sofro com coisas enormes mas as pequenas me destroem. “Amanhã você vai precisar se mudar pra outra cidade e deixar tudo pra trás” é muito mais tranquilo pra mim do que “Vou atrasar pra encontrar contigo, ok?”.
Me apego aos meus planinhos pequenos como se fossem a coisa mais preciosa do mundo.

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Eu não tenho a melhor relação do mundo com a minha família, por mais que sejam as pessoas mais importantes do mundo pra mim. Às vezes sinto raiva e mágoa, às vezes sinto a maior gratidão do planeta.
Muitas vezes eu sinto que nem os meus melhores amigos me conhecem mesmo.
Volta e meia eu sinto falta pra caramba de me sentir verdadeiramente íntimo de alguém.

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Tenho uma tendência séria a me apaixonar por gente que não é tão calorosa assim, e em geral eu cubro a pessoa de abraços e beijos torcendo pra que uma manifestação espontânea disso venha do outro lado pra mim.
Ao mesmo tempo, não sou muito de dividir o meu espaço e preciso de muuuuito tempo sozinho.
Eu exijo bastante e nem sempre tenho o que contraofertar.

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Eu oscilo entre me sentir a pessoa mais injustiçada do mundo por não ter conseguido as coisas do meu jeito e me sentir o maior ingrato por ter tido tantas coisas ótimas na vida e ter gratidão por elas.
Muitas vezes eu me sinto cansado e brigando com a vida querendo que tudo fosse, ao menos, um pouquinho mais fácil pra mim. Mesmo que, se eu olhar bem, já seja.
Ao mesmo tempo, eu tenho um otimismo quase infantil pra quase tudo.
Minha carreira tá estancada e eu passo oito horas por dia tentando ser bom num trabalho que paga minhas contas, mas em que eu cometo erros primários tentando fazer coisas primárias. Tento lidar com isso trabalhando várias horas além do expediente normal na minha carreira escolhida, que não me paga tão bem assim.

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Ainda assim, eu acho que tudo vai dar certo. A ponto de não fazer tantos planos maduros, a ponto de deixar quase tudo à deriva, achando que algo mágico vai acontecer e me colocar em boas situações.
(E, se for ver, muitas vezes esse algo mágico aconteceu e me deu chances maravilhosas)
Quando eu me dou conta que não dá pra confiar cegamente no acaso, entro num pânico que me faz me sentir a pior pessoa do universo - até que eu tire uma soneca e acorde achando que tudo vai dar certo novamente, me impedindo de tomar qualquer atitude a respeito disso.

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Mas posso falar a verdade?
De todos esses defeitos, acaba que eu sou uma pessoa bem bacana, viu? Prometo que você ia - ou pelo menos eu ia tentar lhe fazer - se divertir se tomasse um café comigo.
Mesmo eu sendo vaidoso, mesmo eu sendo cabeça dura, mesmo eu sendo um otimista cego e mesmo que, com mais frequência que eu me orgulhe, eu desça a escada espiral pra onde mora a loucura.
Nessa vitrine decorada que é uma rede social, não quero que mostrar só a minha parte bonita, curada, pensada. Até porque essa é a pior parte de mim. Esse, com falhas difíceis de lidar, esse sou eu.
Essa parte maluca, estranha e com vergonhas é a parte que me faz ser bacana de verdade. Mais do que numa foto com a luz ideal, mais do que num post que me faz parecer inteligente, mais do que a pessoa que eu idealizo ser.

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Poderíamos mudar muita coisa se pararmos de supervalorizar nossos defeitos e começarmos a compartilhá-los tanto quanto exibimos por aí nossas qualidades.
Ter defeitos é ótimo. São eles que nos salvam de estar no controle o tempo todo e virarmos o maior tédio do mundo.
É a falta que nos faz completos. Querer ser só primavera empobrece muito nossas estações emocionais.

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Não adianta bancar só a parte luminosa de nós mesmos. Um carro não vai pra frente se você quiser acelerar só uma parte dele. Precisamos da estrutura toda, falhas e tudo, pra poder acelerar vida adiante.
Por inteiro. Com problemas e com orgulho.

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