28.5.16

Wallace

Para quem tem uma ideia mais liberal das coisas, a batalha não para.
A sociedade é um vidro de conserva e joga vinagre em tudo o que você tenta fazer para mudar as coisas.

A gente se consola com o pensamento de que o progresso é inevitável, mas a câmara deputados se dá a liberdade e puf!, é 1964 de novo.

Só pra esfregar na nossa cara o quanto mudar é difícil, e como a gente corre o risco de morrer sem ter visto um mundo com mais liberdade e justiça.

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George Wallace era um demagogo de primeira.

Quatro vezes governador do Alabama, George era um conservador que pregava a segregação racial com todas as suas forças.

Nada de pautas LGBT ou feministas. Só o racismo, que é a figurinha que vem de graça no álbum de qualquer reaça, já bastava para fazer uma agenda bem repressiva para a época.

"Olha como meu pulso não dobra!"


"SEGREGAÇÃO HOJE, SEGREGAÇÃO AMANHÃ, SEGREGAÇÃO SEMPRE", diziam os cartazes da campanha de George Wallace.

O povo gostou. O povo tende a gostar desses bocudos que falam o que a maioria pensa.

(A maioria tende a achar que ninguém pensa como ela, e elege como ídolo qualquer mané que perca a vergonha de vomitar as suas asneiras em público).

Wallace foi eleito uma vez. Duas.
Na terceira, sem poder repetir a candidatura, colocou a mulher como candidata-barriga-de-aluguel.
Isso num estado conservador, mais ou menos quarenta anos depois das mulheres terem conquistado o direito ao voto. Missão difícil, mas o discurso segregacionista e o carisma de Wallace deram conta do recado.
Nada de avanços: a esposa manteve as medidas de segregação racial, num estado já marcado pelo preconceito.

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Esse Bolsonaro que deu certo aumentou suas ambições e lançou candidatura à presidência dos Estados Unidos. Fez um sucesso estrondoso, mesmo numa época em que a segregação racial já começava a ser mal vista.

Fez barulho, mas não conseguiu se eleger. Tentou uma, duas, quatro vezes.

Até que em um de seus comícios, George Wallace levou dois tiros - não de um opositor, mas de um apoiador de suas ideias que se entusiasmou demais com o discurso de violência do candidato.
Um dos tiros se alojou em sua espinha, e Wallace ficou confinado à uma cadeira de rodas pelo resto de sua vida.

"Isso vai pegar bem no futuro", disse ele.


Ainda muito popular, Wallace manteve sua influência após o atentado.

Entretanto, a tentativa de assassinato mexeu com as suas certezas. No final dos anos setenta, Wallace se declarou um cristão-renascido e lançou-se mais uma vez candidato ao governo do Alabama. Venceu novamente, e, para a surpresa geral, abandonou o discurso segregacionista.

Indicou tantos membros do governo negros que, até hoje, o número de participantes negros na chapa governatorial de Wallace nunca foi ultrapassado no Alabama.

Depois de quase morrer, Wallace se arrependeu do discurso segregacionista e tentou (talvez tarde demais) reparar o estrago que fez.

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Na maior parte das vezes - infelizmente - não se defende uma causa por empatia.
Luta quem sofre.
É a favor do casamento gay quem não aceita ficar à margem.
É contra o estupro quem corre risco.
É contra o racismo quem já foi discriminado.
É pelo feminismo quem tem sangue de mulher para derramar.

São poucos os que tem a sabedoria de colocar a dor do próximo pelo ângulo da própria e entendem que não basta lutar só por si.
Que precisamos estar lado a lado, seja qual for a nossa dor nessa pluralidade de discriminações que há no mundo.

Que não é preciso levar um tiro na espinha e ficar paraplégico para entender a luta de quem é mais fraco.

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Só com muita empatia para a gente conseguir ter força o suficiente para continuar minerando mudança.
Segregação hoje, segregação amanhã, pode até ser inevitável. Segregação sempre, não iremos permitir.
Questão de empatia.

5.5.16

Cia. Subterrânea das Boas Intenções

Boa intenção todo mundo tem.
Com engenharia reversa suficiente, dá pra achar boa intenção em qualquer atitude que alguém tome.

O próprio Satanás, o bode expiatório mais lembrado pelos consumidores, teve boa intenção, se você olhar bem. Afinal, o mundo inteiro era perfeito, ninguém tinha acne e a forma de entretenimento de maior sucesso era dar nome a bicho, mas o paraíso era uma ditadura, né?

Aí surge esse ventríloquo de serpente e sugere que outra forma de governo poderia ser possível.
Querendo ou não, o Diabo é o pai da democracia. Veja só, que intenção boa.

E deu no que deu.

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O problema é acreditar que a boa intenção é garantia de bom resultado, como se o universo tivesse a obrigação de responder positivamente as nossas atitudes de mocinhos da Disney.

Mas não tem jeito: a gente nunca conhece a situação bem o suficiente pra garantir que não está confundindo as coisas e sendo bem intencionado pro sentido errado.

Como uma colega que me chamou de canto uma vez pra conversar:
"Flávio, eu preciso de ajuda. Acho que meu filho tá com TOC."

Perguntei por quê.
"Ele sempre me deixava deitar na cama com ele, ficar conversando... Agora ele deu de não deixar entrar no quarto dele, sai do quarto correndo pra lavar a mão, fica horas no banho. Começou a lavar as próprias roupas... Acho que ele tá maníaco por higiene!"

Não foi fácil explicar que o menino tava maníaco por se divertir usando uma parte específica do corpo dele.
As mãos, claro.


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Acho que o recorde de boas intenções que deram errado é do cientista americano Thomas Midgley Jr.

Quando Thomas começou sua carreira, os sistemas de refrigeração dependiam de gases muito perigosos para funcionar. O ar condicionado até gelava, mas os gases dentro dele podiam pegar fogo, explodir ou pular o papo furado e te matar envenenado de uma vez.

Thomas quis deixar os lares americanos mais seguros e se pôs a estudar. Chegou a um composto quimicamente inerte muito mais seguro do que os utilizados em sua época. Revolucionou a área. Tornou a vida de muita gente mais tranquila. Foi reconhecido como gênio.

O nome do composto que ele inventou? Clorofluorcarbono.
O mesmo CFC que arregaçou a camada de ozônio e vai fazer o câncer de pele ser a moda do verão de 2025.  Hoje, Thomas é considerado o ser vivo que mais danificou o ambiente ao seu redor na história do planeta.


"Meu sonho é fazer do mundo um lugar melhor!"
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Thomas não parou por aí.

Na década de 1920, os automóveis não eram muito confiáveis. Thomas descobriu que, adicionando tetraetilchumbo aos combustíveis, os motores rodariam muito mais suavemente.

Foi outra revolução. Thomas ganhou prêmios e fama com sua invenção, até começarem a perceber que respirar o chumbo que saía dos escapamentos dos carros não era a melhor coisa do mundo.

Thomas ficou indignado. Foi a público provar que sua invenção era segura.
Lavou as mãos com o composto. Botou uma garrafa do produto debaixo do nariz e respirou fundo várias vezes, provavelmente olhando ao redor com as sobrancelhas levantadas e dizendo "Olha, é seguro! É seguro! Confia em mim!".

Pouco tempo depois, Thomas teve que se afastar do trabalho e foi internado com sinais de intoxicação por chumbo. Vários funcionários das plantas fabris que produziam o composto morreram por efeitos colaterais da inalação.

O efeito do chumbo lançado ao ar por essa invenção foi associado a maiores níveis de doenças mentais, pulmonares e neurológicos em cidades inteiras expostas ao aditivo, e até a índices mais altos de violência cometida por pessoas que respiraram resquícios do composto.

Puro como o ar do campo!


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A vida desse homem era um infomercial da Polishop, porque TEM MAIS!

Apesar das mancadas científicas bem intencionadas, Thomas Midgley Jr. continuou sendo considerado um grande químico e um incentivador do avanço das ciências nos Estados Unidos até sua velhice.

No fim da vida, Thomas contraiu poliomielite. Para não dar muito trabalho aos seus cuidadores (olha a boa intenção!), ele inventou um sistema de cordas e roldanas que poderia levantá-lo da cama com mais facilidade.

Um dia, tentando se levantar, Thomas se enroscou nas cordas e, paralisado, não conseguiu se soltar. Sem ninguém por perto para ajudar, Thomas morreu estrangulado pela própria invenção.

Justamente aquela que ele fez pra não dar trabalho pra ninguém.

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Mas se a boa intenção nos atrapalha, também é ela que consegue nos dar alguma paz de espírito.

Afinal, nem um anjo de luz, nem uma mãe preocupada e nem um gênio da química conseguem acertar o tempo todo. O mais perto do acerto que a gente chega é no querer acertar.
E isso quem não quer?

Já que errar é inevitável, só nos resta ir de encontro ao erro com a melhor das intenções.
Se não for suficiente, tudo bem. A gente se encontra no inferno.

4.5.16

Do interior da gente

Todo mundo sabe que eu nasci numa cidade de interior chamada Pato Branco (e quase todo mundo tira sarro disso).
Volta e meia algum conterrâneo meu compartilha uma foto da cidade, e invariavelmente minha terra aparece linda, moderna, majestosa e cheia de prédios.
É como um grito de orgulho: “Ei, mundão! Galera da cidade grande, aqui a gente também é moderno, ok?”.

Mesma coisa quando alguém me conta sobre as novidades da cidade:
“Tá sabendo que abriu um Bob’s aqui?”
“Jura? Ah, mas fica difícil querer um lanche do Bob’s numa cidade que tem Xis Polenta, né?”
“Ah, mas a garotada gosta. Logo mais deve abrir um McDonald’s. Não é pouca coisa, não.”
“Bacana... eu não curto fast food tanto assim.” “E temakeria, cê já comeu temaki? Só na minha rua agora tem três temakerias!”

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Eu adoro o progresso. Se eu amasse alguma coisa o suficiente pra fazer uma tatuagem, provavelmente seria saneamento básico. Ou wifi. Mas me incomoda achar que uma cidade como essa só tem valor quando vai ficando parecida com uma cidade maior.


Tudo bem ser moderno, mas ser caipira é legal.
A gente acha incrível a pressa constante de quem mora numa cidade maior, mas não lembra de ver a beleza de como se vive por aqui.
A graça da gente encontrando conhecidos na rua e não saber o que fazer direito. (A gente acena. Diz “Opa!” mesmo sabendo que vai encontrar a mesma pessoa passando na rua outras sete vezes no mesmo dia.  Dá um sorrisinho. Comenta o que a pessoa tá fazendo do jeito mais óbvio possível. A pessoa passeando e a gente diz “Dando uma passeada?”)
A gente anda sem pressa e sem jeito pela rua. A gente tem sempre uma sacola na mão. A gente sempre conhece a família dos vizinhos pelo sobrenome (“Tá sabendo que a filha do Dombroski casou?”).
A gente celebra qualquer ocasião com um churrasco, seja um aniversário, um casamento ou só pra velar a morte do boi.
A gente pode falar que está “na praça”, “na igreja” e “no posto” e todo mundo entende exatamente onde é, mesmo que tenham várias praças, igrejas e postos ao redor.
É o nosso jeito, e é tão bonito.

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Quando aparece uma visita em casa, a gente simplesmente não sabe como lidar com isso sem tirar tudo o que tem de dentro da geladeira e botar na mesa, e fazer a pessoa comer até que ela esteja num estágio terminal de congestão.
Depois da refeição, oferece um café. E depois oferece o sofá pra pessoa tirar uma soneca. Se tiver uma filha solteira, já oferece a mão dela em casamento pro hóspede se sentir em casa.
É exagerado? É. Mas apanha quem ousar me dizer que isso não é bonito.
A gente gosta muito de ver o outro feliz.
É uma preocupação que a gente esquece de ter depois de morar um tempo numa cidade grande, mas no interior é assim: a gente realmente deseja que cada pessoa que cruza o nosso caminho saia um pouco mais feliz do que chegou.

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É ótimo ter orgulho de ser uma cidade de interior que está se desenvolvendo e que de vez em quando aparece no jornal por conta de alguma inovação feita por algum cientista - veja só, cientista! - daqui.
Mas não dá pra ter orgulho do progresso quando isso vem ao custo de ter vergonha do nosso lado menos cosmopolita. O legal é aproveitar os dois lados da moeda, o caipira e o moderno, lado a lado: O prédio de desenho arrojado na mesma rua em que passam mulheres caminhando com roupas não muito na moda, cabelo molhado e de corte simples, carregando sacolas de supermercado e andando apressadas porque tem almoço pra fazer. A fábrica de circuitos eletrônicos dando emprego aos filhos dos homens que estão na esquina, vestindo bonés com marca de posto de gasolina e falando da lavoura. A loja de roupa de grife em que você entra e dá de cara com as vendedoras numa rodinha de chimarrão.  menino que vai pra escola de tênis Adidas ouvindo um disco de rock no Spotify estudando junto com o que acorda às cinco da manhã para ajudar a família na roça e vai pra aula de chinelo.


São coisinhas singelas que só quem já viveu aqui é capaz de entender.
Já são quase dez anos morando na capital, mas meu lado interiorano se recusa a sair de mim. Que bom. Os modernos que me perdoem, mas ser caipira é sensacional.

Aceitações

Nós, que andamos pelo mundo acordando cedo, andando com nossas próprias pernas e reclamando quando temos gripe, somos um seleto grupo de abe...