4.5.16

Do interior da gente

Todo mundo sabe que eu nasci numa cidade de interior chamada Pato Branco (e quase todo mundo tira sarro disso).
Volta e meia algum conterrâneo meu compartilha uma foto da cidade, e invariavelmente minha terra aparece linda, moderna, majestosa e cheia de prédios.
É como um grito de orgulho: “Ei, mundão! Galera da cidade grande, aqui a gente também é moderno, ok?”.

Mesma coisa quando alguém me conta sobre as novidades da cidade:
“Tá sabendo que abriu um Bob’s aqui?”
“Jura? Ah, mas fica difícil querer um lanche do Bob’s numa cidade que tem Xis Polenta, né?”
“Ah, mas a garotada gosta. Logo mais deve abrir um McDonald’s. Não é pouca coisa, não.”
“Bacana... eu não curto fast food tanto assim.” “E temakeria, cê já comeu temaki? Só na minha rua agora tem três temakerias!”

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Eu adoro o progresso. Se eu amasse alguma coisa o suficiente pra fazer uma tatuagem, provavelmente seria saneamento básico. Ou wifi. Mas me incomoda achar que uma cidade como essa só tem valor quando vai ficando parecida com uma cidade maior.


Tudo bem ser moderno, mas ser caipira é legal.
A gente acha incrível a pressa constante de quem mora numa cidade maior, mas não lembra de ver a beleza de como se vive por aqui.
A graça da gente encontrando conhecidos na rua e não saber o que fazer direito. (A gente acena. Diz “Opa!” mesmo sabendo que vai encontrar a mesma pessoa passando na rua outras sete vezes no mesmo dia.  Dá um sorrisinho. Comenta o que a pessoa tá fazendo do jeito mais óbvio possível. A pessoa passeando e a gente diz “Dando uma passeada?”)
A gente anda sem pressa e sem jeito pela rua. A gente tem sempre uma sacola na mão. A gente sempre conhece a família dos vizinhos pelo sobrenome (“Tá sabendo que a filha do Dombroski casou?”).
A gente celebra qualquer ocasião com um churrasco, seja um aniversário, um casamento ou só pra velar a morte do boi.
A gente pode falar que está “na praça”, “na igreja” e “no posto” e todo mundo entende exatamente onde é, mesmo que tenham várias praças, igrejas e postos ao redor.
É o nosso jeito, e é tão bonito.

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Quando aparece uma visita em casa, a gente simplesmente não sabe como lidar com isso sem tirar tudo o que tem de dentro da geladeira e botar na mesa, e fazer a pessoa comer até que ela esteja num estágio terminal de congestão.
Depois da refeição, oferece um café. E depois oferece o sofá pra pessoa tirar uma soneca. Se tiver uma filha solteira, já oferece a mão dela em casamento pro hóspede se sentir em casa.
É exagerado? É. Mas apanha quem ousar me dizer que isso não é bonito.
A gente gosta muito de ver o outro feliz.
É uma preocupação que a gente esquece de ter depois de morar um tempo numa cidade grande, mas no interior é assim: a gente realmente deseja que cada pessoa que cruza o nosso caminho saia um pouco mais feliz do que chegou.

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É ótimo ter orgulho de ser uma cidade de interior que está se desenvolvendo e que de vez em quando aparece no jornal por conta de alguma inovação feita por algum cientista - veja só, cientista! - daqui.
Mas não dá pra ter orgulho do progresso quando isso vem ao custo de ter vergonha do nosso lado menos cosmopolita. O legal é aproveitar os dois lados da moeda, o caipira e o moderno, lado a lado: O prédio de desenho arrojado na mesma rua em que passam mulheres caminhando com roupas não muito na moda, cabelo molhado e de corte simples, carregando sacolas de supermercado e andando apressadas porque tem almoço pra fazer. A fábrica de circuitos eletrônicos dando emprego aos filhos dos homens que estão na esquina, vestindo bonés com marca de posto de gasolina e falando da lavoura. A loja de roupa de grife em que você entra e dá de cara com as vendedoras numa rodinha de chimarrão.  menino que vai pra escola de tênis Adidas ouvindo um disco de rock no Spotify estudando junto com o que acorda às cinco da manhã para ajudar a família na roça e vai pra aula de chinelo.


São coisinhas singelas que só quem já viveu aqui é capaz de entender.
Já são quase dez anos morando na capital, mas meu lado interiorano se recusa a sair de mim. Que bom. Os modernos que me perdoem, mas ser caipira é sensacional.

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