16.6.16

A geração que quer ser geração

Só hoje apareceram uns três textos na minha timeline com títulos começando com "A geração que...".

Todo dia tem:
"A geração que não aceita ser mandada"
"A geração que largou tudo para viver seus sonhos"
"A geração que pendurou três quilos de maminha no açougue do Seu Toninho"

Geração de títulos mais criativos, ninguém quer fazer.

(Já escrevi texto assim também, mas me deixa ser hipócrita, vai.)

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Quando se entra na adolescência, é necessário largar um pouco a identificação que se tem com a família para conseguir se diferenciar e começar a se entender como uma pessoa única.

Como isso é um processo difícil, o adolescente vai se identificando com os grupinhos de amigos que estão por perto e também passam por esse processo.

É macaco imitando macaco pra mostrar que é menos macaco que os macacos lá de casa.

Junte um pouco de capitalismo na receita, com a capacidade de vender qualquer coisa, e o kit fica completo: o grupo já vem pronto, com roupa, perfume, música e ídolos pré-preparados. Pra facilitar.

Aos poucos, a gente vai crescendo e percebe que não é tão diferente assim. No fim das contas, a gente acaba sendo uma mistura do macaco-lá-de-casa e do macaco-punk-de-boutique que a gente ensaiou ser.

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Acontece que toda pessoa com seus vinte (trinta? quarenta? cento e vinte?) anos vai se sentir desorientada. Ninguém está com a vida acertada à essa altura. Isso é bom: seria um tédio viver o resto da vida com tudo pronto.

Mas, nessa inquietude de não se saber pra onde vai, a gente volta a se apegar em qualquer ideia de movimento. E, como adolescentes, tudo passa a ser motivo de identificação.

"Eu estou infeliz porque sou da geração que não se contenta com empregos medíocres, ora bolas." soa muito melhor do que "Tô envelhecendo, num emprego que eu não gosto e me sinto frustrado".

Mas fazer o quê? Estar frustrado faz parte do processo. Não dá pra se ter pressa para amadurecer.

A vida é um projeto que demora uma vida inteira.

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Pode ter certeza que geração nenhuma sabia o que estava fazendo enquanto estava surgindo. Só se entende uma mudança geracional depois que ela acontece, nenhuma geração vem pronta.

Apega-se em ser da "geração alguma coisa" quem não consegue se reconhecer como um processo único e individual - e, ainda assim, tão pequeno e comum quanto qualquer pessoa, de qualquer geração que tenha vindo antes.

Resolver isso? Fica pra geração seguinte.

5.6.16

Como ajudar alguém ferido emocionalmente

"Você fica se colocando pra baixo. Se você ficar pensando assim o tempo todo, você nunca vai se sentir melhor."

Eu sei que a intenção é das melhores, mas isso dificilmente vai ajudar alguém que está com sofrimento emocional.

Até por quê, na maior parte dos casos, esse sofrimento começa lá no iniciozinho da vida da pessoa. A gente é amado de um jeito um pouquinho mais torto, a vida acontece com alguma dificuldade maior, e isso fica com a gente.

Eu confesso que acho até estranho quando alguém comenta comigo que não tem crises, que não chega em casa e tem vontade de chorar, ou de quebrar alguma coisa, ou que nunca pensou em tirar a própria vida.

E, vice-versamente, essa pessoa deve achar muito estranho quando alguém fala que sempre se sentiu inferior, ou que tem uma voz constante na cabeça dizendo que os outros a odeiam, ou que ela não tem direito a ser assertiva com ninguém porque isso a tornaria uma pessoa ruim.

Por isso o conselho do "Você se sente mal? Mas você não tem motivo, é só deixar de sentir assim!".

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Pra ajudar de verdade alguém com marcas emocionais profundas, precisamos compreender o processo pelo qual essa pessoa precisa passar para melhorar.

"Pra quê tanto tempo de terapia? Se você já sabe que tem depressão porque se sentia abandonado na infância, porque isso não te cura?"

Por isso algumas pessoas não acreditam na terapia. Acham que ela é remexer em feridas e chafurdar na dor, o que só pioraria as coisas.

Mas para uma pessoa ferida melhorar, o processo é longo. Ele envolve:
1 - Identificar o padrão que se repete na vida.
2 - Descobrir de onde ele veio
3 - Compreender e aceitar as repercussões disso na atualidade.
4 - Encontrar um novo modo de reagir às situações.
5 - Aprender a agir desse novo modo.
6 - Estar atento a cada movimento emocional, para que você aprenda a substituir a reação emocional padrão, aprendida no início da vida, pelo novo modelo.
7 - Quando receber uma nova pancada emocional, lembrar que essa primeira resposta, aquele sentimento infantil e primário, não te define. Que ele faz parte de você e vai te acompanhar para sempre, mas não te define.
8 - Aprender que, mesmo quando não se executa esse passo-a-passo perfeitamente, você é uma pessoa merecedora de carinho e amor.

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Se você não entende o porquê de alguém estar se sentindo mal, ofereça compreensão. Tenha paciência com essa pessoa.
E não há pessoa mais capaz de ajudar alguém ferido na vida do que alguém que já passou por isso.

Esse é um processo muito, muito difícil. É uma pílula amarga que se digere melhor se for digerida com muito, muito carinho.
Pode demorar, pode ser difícil, mas feridas emocionais melhoram.

Confia em mim.

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