26.7.16

Cabeças

Muito tempo atrás, as pessoas eram livres.
A cada dia se acordava numa cabeça diferente.

Quem estava no corpo de uma senhora de cara fechada em uma noite, abria os olhos no corpo de um menino sapeca no dia seguinte.
Quem era um adolescente irresponsável num dia, acordava no seguinte no papel de um pai de família que batalhava para sustentar os filhos.

Nessa impermanência, todos se entendiam. Todos pelo menos tentavam respeitar o próximo, pois no próximo dia o próximo podia ser ele.
Ninguém fazia mal de propósito, sob o risco de acordar naquele corpo na manhã seguinte e ter que aguentar o sofrimento que causou.

Quando a dor inevitavelmente vinha, todos entendiam muito bem que o sofrimento era passageiro. Amanhã, querendo ou não, você seria outro.

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O ser humano não sabe lidar com a sorte. Sempre acha que os dados estão viciados a seu desfavor.

Alguns começavam a se ressentir.
"Há muito tempo eu não acordo rico. Não é justo. Há meses não sinto o gosto de um caviar."
ou
"Sinto falta do amor que eu senti quatrocentos dias atrás. Não é justo que eu não possa vivê-lo."

E, pela insatisfação geral, o vento que soprava as mentes de corpo em corpo parou.
Quem sabe assim ficaríamos satisfeitos.

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Eis que onde antes éramos livres, agora estávamos confinados.
Ficamos presos em uma cabeça só, até o fim de nossos dias. Presos em uma vida só, em uma só experiência.

Presos na mesma angústia, nas mesma piscina onde ondulavam os erros nossos e dos outros.

E, dia após dia, precisávamos escutar a mesma voz na mesma cabeça. Com as mesmas tragédias.
O amor que se perdeu num dia continuava perdido no outro. As saudades de um dia eram também do dia seguinte.

O outro, quando discordava, era um inimigo em potencial. Cada um em uma só cabeça, uma ação mal planejada poderia ferir pra sempre. O outro era um perigo.
Não se pode chegar verdadeiramente perto de quem é uma ameaça para nossa segurança.

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Fomos ficando solitários.
Ser uma pessoa só é muito pouco pra quem nasceu para ser muitos.

Mesmo confinados, aprendíamos. Cultivamos a paciência. Engolimos a seco a humildade.

E, missão mais difícil de todas, aprendemos a gostar da cabeça que nos aprisionava.
Quem chegava nesse ponto, conquistava a paz.

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Alguns nunca se adaptaram a viver numa cabeça só.

Uns fugiam, atravessando o mundo para mudar o cenário e manter a sensação de que não estavam mais na vida do dia de ontem.
Outros vestiam roupas de outra vida e subiam num palco, e lá fingiam que eram outra pessoa com outra dor.
Outros, menos afortunados, ouviam vozes na própria cabeça, e essas vozes brigavam entre si, e cada uma dessas vozes era um mundo só dela.

Os viajantes, os artistas, os loucos.
Podiam não ter conquistado a paz, mas eram livres novamente.

14.7.16

Nada é tanto assim

Vamos lá, umas perguntas e respostas sobre felicidade pra economizar na terapia:

"Por que eu capricho tanto nas coisas que eu faço e nada dá certo?"
Primeiro, certeza que um monte de coisa já deve ter dado certo na sua vida. Segundo, porque esforço não é garantia de sucesso. Infelizmente, muita coisa na vida é sorte.

"Mas então não adianta me esforçar em nada?"
Fica um tempo sem se esforçar pra nada pra ver o farrapo que você fica. Ninguém aguenta. Viver é isso, querer dar conta de uma missão grande e errar na maior parte das vezes. De vez em quando você insiste e acerta e isso é muito legal.

"Só vai ser legal quando eu acertar, então?"
Só se você for bobo. Mesmo se você ganhasse um Oscar, pode ter certeza que você ia estar insatisfeito um mês depois. É assim que o nosso cérebro funciona. Não dá pra ganhar um Oscar por mês, então não é muito inteligente depender de conquistas pra ser feliz.

"Como que eu vou ser feliz se não conquistar nada?"
Ô filhote, olha a quantidade de coisa que você já conquistou e o quanto você ainda está infeliz.
Não existe condição para a felicidade. Tá ligado o Jó, da Bíblia? O da paciência?
Então, essa é história é uma puta metáfora para a felicidade. O homem perdeu tudo o que tinha, filhos, dinheiro, o cargo de gerente na loja de departamento, abriu o pote de sorvete na geladeira e achou feijão, tudo. Mesmo assim, seguiu em frente e tentou não amaldiçoar a vida que tinha. Quando viu, tinha outros filhos, dinheiro, um cargo melhor na loja concorrente e o feijão valorizou.
Enquanto você não valorizar o que tem, não vai ter muita coisa mesmo.

"Então eu não posso reclamar da vida?"
Pode sim. Deve.
Gente que tenta ser positiva o tempo todo fica recalcada e chata. Reclamar faz bem. Só não reclama o tempo todo, por favor.

"Mas tem pessoas com vidas mais fáceis que a minha"
Tem mesmo. Tem um monte. E um monte de gente com a vida mais difícil, também.
Não dá pra comparar. Mas é injusto mesmo e dá pra reclamar a vontade. Se tiver idealismo e tolerância suficiente pra lidar com a frustração, você pode até tentar fazer algo a respeito.

"Mas o ser humano foi feito pra evoluir!"
Olha que evoluído você. Molhando o travesseiro toda a noite querendo acertar em alguma coisa. Não adianta nada ter quarenta anos de idade e ainda querer ser o anjinho do presépio da vovó, a fonte de orgulho interminável sabe-se lá para quem.
VOCÊ É GENTE. Gente erra, gente se engana, gente faz coisa errada sabendo que é errado. Gente é gente.
E gente que se faz de evoluída demais é recalcada e entediante. Você é bem mais evoluído quando aceita o que é e o que pode aguentar.

"Mas eu quero fazer algo de grande!"
Começa fazendo alguma coisa pequena, cara, porque coisa grande é difícil pra caramba pra fazer e as coisas simplesmente NÃO SÃO TÃO IMPORTANTES QUANTO VOCÊ PENSA.
Que mania de achar que tudo é importante, meu deus. Precisar de tudo certinho pra ser feliz é arrogância e apego, não evolução. Sossega o drama.

"Mas aí a vida fica muito chata!"
Cara, não duvida da sua capacidade de ser feliz e de dar conta do que a vida trouxer.
Sem dar importância a acertar em tudo, sem dar importância a ter alguém específico do seu lado, só dando importância a estar tranquilo. Estar tranquilo é muito mais importante do que estar feliz.
Feliz é a Peppa Pig, e ninguém consegue assistir a Peppa por muito tempo.

A vida é bonita inteira, gente.
Tem tanta beleza no dia do seu casamento quanto no do funeral da pessoa que você mais ama. É só questão de aprender a ver o que tem de bonito ali e saber que tudo passa.
Nada é tão importante assim.
E sofrer não é tão ruim assim, você até gosta um pouco, assume.

Nada é TANTO ASSIM.
Pega mais leve. Depois me conta como foi.

8.7.16

Expiatório

Ser um homossexual com muitos amigos héteros me botou em uma situação inusitada.
Virei um bode expiatório amoroso. 

Com as amigas, qualquer foto junto rende um "Que lindo casal" da tia da menina.

Com os amigos, qualquer foto junto rende um "Fulano é viado, né? Tá sempre com o Flávio...". 
Ou ainda uma mensagem com um "Parabéns, Flá, esse barbudo que você tá pegando é bonito!"

Sorte que eu não tenho muitas fotos com o meu cachorro.

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Também tenho talento pra ser usado como desculpa, seja para quem for.

"Meu ex viu minhas fotos contigo, aí falei que tava te pegando mesmo, pra ele ficar com ciúme."
ou
"Flávio, falei pra sua mãe que vou passar a semana na sua casa, mas na verdade eu vou fazer um aborto na Venezuela, tá? Se ela ligar você confirma, beijo!"
ou
"Flávio, você se importa de fazer um atestado dizendo que eu não posso trabalhar nunca mais mas preciso receber porque tô muito deprimido?"
ou
"Se fulano ligar, você diz que eu tô fora da empresa, tá? Mas eu vou ficar na mesa ao lado falando bem alto durante a conversa."

Meu sonho ter uma vida tão acompanhada quanto os outros fazem parecer.

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Olhando pras redes sociais, a percepção que os outros tem de mim é bem diferente do que eu realmente sou.
Quando pensam que eu estou namorando, normalmente eu tô sozinho.
Quando eu tô enroscado com alguém, eu não mostro pra ninguém.

Pensam que eu saio o tempo todo, e eu passo as noites ouvindo música no quarto com as luzes apagadas.
Pensam que eu sou um puta psicólogo cheio de clientes, eu trabalho das oito às seis preenchendo burocracia.
Pensam que eu bebo horrores, meu vício é café com leite.
Pensam que eu devoro um livro por dia.
Pensam que eu sou legal.

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Mas pelo menos, PELO MENOS, ninguém pensa que eu acredito que as regras e condições do Facebook vão mudar. 

Nenhum disclaimer é capaz de impedir o enxerimento na vida alheia.

Encontrando caminhos

Ele era uma constante distante nas sessões da minha paciente. Quer dizer, ele sempre aparecia nos fundos de alguma história, ou como motivaç...