28.12.16

Benefícios


Das coisas que eu vejo sendo compartilhadas no Facebook, uma me chama atenção em particular: aqueles artigos pseudocientíficos sobre saúde com nomes como "Sete benefícios incríveis de tomar limão em jejum" e "Os efeitos chocantes de comer um butiá por dia".
Não pelo conteúdo em si, mas por quem compartilha. É uma faixa etária bem específica. Você não vê adolescentes compartilhando receitas de "Máscara caseira contra celulite", por mais celulite que possam ter.
Deve existir alguma lei oculta no universo que só permita compartilhar artigos assim depois dos quarenta.

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Tem um pessoal por aqui vendendo umas garrafinhas que "imantam" a água (segundo eles, como assim você não toma água imantada? água imantada cura até câncer! se for alcalina, então...). Cada garrafinha custa quatrocentos reais.
Cheguei na casa dos meus pais e tinha uma jarra de vidro em cima da mesa da cozinha, cheia de água, com um saquinho dentro.
Dentro do saquinho, bem amarrado, um puta de um ímã arrancado de um alto-falante. Perguntei o que era e meu pai explicou: "Mal não deve fazer, né? Queria testar, mas eu nunca que ia pagar quatrocentos reais numa garrafinha."
Morri de orgulho.
Aí ele me contou que quase pagou 150 reais num e-book com exercícios para o olho que curam a vista cansada e eu desorgulhei um pouco.

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A gente compartilha nas redes sociais coisas que ressoam com o nosso sentido na vida.
Gente que se sente viva lutando por justiça compartilha política, gente que se sente viva se afirmando pela beleza compartilha selfies... Egente que está com medo de ficar sem saúde compartilha "Cinco Receitas Para Regular o Intestino em Uma Semana".
Depois dos quarenta já não se tem ingenuidade pra fingir que não se caga, nem noção para manter isso privado. Tem, e sobra, coragem de mostrar que se segue lutando.

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Além disso, a gente compartilha aquilo que nos faz sentir pertencente a um grupo.
Da mesma forma que a gente compartilha o trailer do novo Star Wars para ganhar likes dos amigos geeks, sua tia Irene compartilha os benefícios da babosa para se afirmar diante das amigas dela.
É a maneira dela de dizer pro mundo "Eu não tô morrendo não, viu? Eu tô até melhorando, curei o furúnculo no meu pé passando babosa nele, menina, nem te conto!".

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O triste é ver que, mesmo com a maturidade, sempre vai existir uma parte da gente que torce por uma fórmula mágica, que resolva todos os nossos males com o menor esforço possível da nossa parte.
Não julgo.
Se tem uma coisa na vida que dá pra entender é que o tempo passa rápido e que ninguém quer ficar pra trás. Se existir alguma receita que ajude a prolongar nossa estadia um pouquinho, ou fazer as juntas doerem um pouco menos, manda ver.
Mesmo que se precise brigar na justiça para poder usar fosfoetanolamina, mesmo que se precise pagar quatrocentos reais numa garrafinha de água imantada.
Melhor ainda se for de graça, com alguma coisa que todo mundo tem em casa. Não custa tentar, mesmo que a receita tenha vindo de um site tão renomado quanto um blog chamado "cura-pela-saude-com-a-natureza121" hospedado no blogspot.
Vale tudo pra gente se sentir um pouco menos como se estivesse morrendo.

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A idade chega pra todo mundo, e se tem alguma coisa que esse povo de quarenta e poucos anos tem mais do que eu é experiência.
Amigos, vou ouvir a voz da experiência e começar cedo. A partir de amanhã, vou tomar o suco de sete limões todo dia em jejum. Vou comer bicarbonato de sódio de colherada, pra alcalinizar o sangue. Vou secar minha barriga em quatro semanas, consumindo um litro e meio de azeite de côco a cada refeição.
Vou me banhar em babosa com tanta frequência, meus amigos, que vou emergir o próprio Highlander.

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Há de funcionar. Se eu sobrevivi a 2016 sem nem me cuidar direito, com essas receitas todas eu vou sobreviver a qualquer coisa.
Serei imortal, a não ser que eu engasgue com o ímã da garrafa de água.

11.12.16

Trabalho e sentido

O que faz um bom profissional? 
Nos escritórios de Recursos Humanos pelo mundo, enfileiram-se candidatos dispostos a mostrar o melhor lado de si: o quanto estão preparados para um desafio, o quanto são mais dedicados do que os outros e como estudaram em boas escolas. 

Mesmo com toda a psico e tecnologia disponível, o instrumento mais usado para selecionar profissionais ainda é um pedaço de papel onde se enumeram as maiores conquistas da vida de uma pessoa. 

Não serve qualquer conquista:  num curriculum vitae, você precisa enumerar apenas aquilo de você que é comparável. Onde você trabalhou, onde você estudou, o que você fez de diferente... dos quarenta outros candidatos para a vaga com experiências muito parecidas com as suas. 

Numa entrevista, só se mostra um lado de si que caiba numa tabela na mente do entrevistador, que vai, numa tentativa de ser objetivo, fazer uma média de quem mais acertou na expectativa geral do que um candidato ideal deveria ser. 

Irônico, já que as mesmas empresas que tocam seus processos de seleção dessa forma pagam pequenas fortunas para um "empreendedor de sucesso" discursar animadamente sobre quebrar padrões e ser um profissional incomparável. 

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No formigueiro do mundo de negóciosmilhões de formigas de pastinha debaixo do braço lutam por espaço fazendo funções muito similares.   
Como estratégia de sobrevivência, formigas que somos, precisamos decidir qual o sentido que vamos dar para tudo isso. Infelizmente, sentido não é algo que se aprenda na escola.   
Entre as experiências que dão empregos e as experiências que dão sentido, mora um abismo.  

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Formação não é só diploma. 

Os dias em que eu ajudei a minha avó a colher cenouras na horta foram muito mais importantes na compreensão das alegrias singelas de uma pessoa do que a leitura de artigos de setenta página sobre felicidade. 
O dia que eu fiquei até as oito da noite na escola porque meus pais esqueceram de me buscar me ensinou muito mais sobre lidar com frustrações, comunicar minhas necessidades e ter paciência do que se eu tivesse estudado em um colégio com mensalidade de cinco salários mínimos. 
Os olhares, os toques, as convivências, os filmes assistidos, as amizades improváveis e as infelicidades do caminho nos tornam diferenciam muito mais profundamente do que o ano de intercâmbio na Austrália que nos garantiria uma vaga de emprego.  
São as pequenas experiências que nos tornam únicos. Infelizmente, isso não se pode botar num currículo. 

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Mas é certo: se você tiver um senso de sentido, algo humano, emocional e na dimensão do incomparável, você pode ter a função mais banal e repetitiva de uma empresa e ainda assim ter alguma luz.  
Uma pessoa com sentido é capaz de animar e contaminar positivamente todas as pessoas que trabalham com ela. 

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Se isso ajuda a manter um emprego? Não sei. 
Muitos especialistas não são especiais o suficiente para perceber a importância do pequeno na construção de algo grande. 
Mas se você lembrar que é tão formado pelo abraço da sua mãe e pelos apelidos que ganhava do irmão mais velho do que pela faculdade onde se formou, e buscar honrar esse sentimento singelo, sua carreira vai mudar.  
Mesmo fazendo a mesma função, no mesmo lugar e com as mesmas expectativas de um milhão de formigas de pastinha ao seu redor, você vai ser mais feliz. 

6.12.16

Autoconhecimento

"Olha, eu não tenho nenhum problema grande, estou aqui pra mais pra me conhecer mesmo..."
É o que me dizem todos os pacientes que vão passar o resto da sessão falando sobre um problema específico.

Acontece. Não há jeito de trabalhar uma questão específica sem vasculhar o arquivo inteiro da vida em busca de uma resposta.
Ao mesmo tempo, depois de vasculhar o arquivo inteiro, você acaba tendo uma ideia bem melhor de quem é.

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Essa ideia de "Se conhecer" é engraçada, né?
É como ter um irmão gêmeo grudado em você pelo pescoço, com o mesmo corpo e as mesmas experiências que você tem, e não fazer ideia de como ele pensa.

Parece difícil, mas vai saber.
É capaz de, nessa situação, muita gente conhecer muito mais ao irmão do que a si mesmo.

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Outra coisa: se conhecer e se gostar são coisas diferentes.

Nem todo mundo tem um recheio cremoso com sabor de morango. A gente tende a ser muito mais amargo e difícil de digerir.

Mas o irmão é uma comparação válida: conforme os dois crescem juntos, é natural que briguem, se odeiem, se estranhem, se rejeitem... E é assim entre conforme a gente se conhece também.

Se autoconhecer não é um processo pacífico.

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Não basta se conhecer passivamente, só de olhar para si mesmo.

O autoconhecimento de verdade é um processo muito mais próximo de escrever um livro do que de ler um.

É uma tarefa que exige algum planejamento.

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Muito bem, mas como se conhecer?
Deixo algumas sugestões:

- Tente conhecer as outras pessoas. Algumas das coisas que eles sentem são universais e também vão se aplicar a você.

- Invente pessoas. Vá para um lugar cheio de pessoas e imagine a vida que elas devem levar. O que você imaginar sobre elas vai dizer muito sobre você mesmo.

- Sofra de enxaqueca. Você vai aprender o quanto sua vida é boa só por estar sem dor nenhuma, e de quebra vai perceber que às vezes querer morrer é natural.

- Fique nu no chão do seu quarto. Arranje uma caneta Bic e desenhe em sua pele. Rabisque do jeito que a sua mão, e não a sua cabeça, desejar. Isso vai lhe mostrar o limite do seu corpo, e que é possível ser criativo mesmo com limites.

- Arranje um espelho que caiba na mão e o leve para perto do seu cu. Assista-se peidar. Isso vai te dar uma intimidade com o seu corpo e te mostrar que não tem tanta diferença assim entre soltar um peido e mandar um beijo.

- Decepcione seus pais. Dê orgulho pros seus pais. Se decepcione com seus pais. Tenha orgulho dos seus pais. Entender quem eles são é um atalho para entender quem você é.

- Vá a um lugar com muita, muita beleza e se permita só apreciar. Tenha a certeza da existência de Deus.

- Vá a um lugar com muito, muito sofrimento e se permita só doer. Tenha a certeza que Deus não existe.

- Envelheça. Ficar mais jovem é muito contraprodutivo para quem quer se conhecer.

- E não se cobre tanto. Só de estar ali, convivendo consigo mesmo, cê já vai descobrir muita coisa - e provavelmente vai ficar feliz com o processo.

E se o processo ficar difícil demais, antes, durante ou depois disso tudo, procure um terapeuta.
Não existe um mapa exato para se encontrar, mas existem algumas bússolas que podem te ajudar no processo.

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O que dá pra dizer com certeza sobre autoconhecimento é o seguinte: você vai acabar se surpreendendo.

Tenta aí.

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É fácil entender o sucesso de programa Popstar, na Globo. Atores, apresentadores, artistas bem sucedidos em outras áreas se amontoam e se ...