31.8.16

Especialistas

"Você está muito fraca", disse a doula. "Vou deitar na sua barriga para empurrar com mais força."
"Essa criança está muito magra", disse a avó. "Bota logo na teta."
"Fraldas de plástico? Que horror!", disse o padrinho, ecologista.
"Você precisa deixar a criança mais tempo fora do colo", disse a pedagoga.
"Você precisa trancar bem a porta", disse o especialista em segurança.
"Ele precisa sair mais!", disse a amiga turismóloga.
"Só com protetor solar fator 300!", disse o médico dermatologista.
"E usando óculos de sol", disse o oftalmo.
"Só entra em casa depois de se proteger contra os germes.", disse o comercial de sabonete.
"Escola privada? Você vai mimar demais esse menino", disse a vizinha.
"Pública? Tá certo, um filho traficante vai ter mais estabilidade financeira", disse a prima.
"Bisnaguinha para o lanche, de jeito nenhum!", disse a nutricionista.
"Ele precisa de aulas particulares para se preparar para o vestibular", disse o professor.
"Tá precisando é de uma namoradinha", disse o avô. "Vai acabar sendo viado."
"Mas ele precisa experimentar", disse a sexóloga.
"Tá demorando demais no banho", disse o pai.
"Tem que lavar melhor atrás da orelha", disse a tia.
"Vestido desse jeito, não vai conseguir um emprego", disse a moça da loja.
"Leve ele mais ao teatro, ele precisa de cultura", disse o amigo ator.
"Ele precisa fazer musculação, tá muito magrinho", disse a sobrinha crossfitter.
"Esse menino tá agindo estranho", disse a avó.
"Esse surto está gravíssimo", disse o psiquiatra.
"Ele tá tomando remédios demais", disse o pai.
"Podiam ter escolhido uma roupa melhorzinha para enterrar o garoto", disse o coveiro.
"Você precisa de um ansiolítico, amiga", disse a colega da mãe. "Você está fora de si."

29.8.16

Acertando as contas

Quando era um adolescente sem maiores responsabilidades, eu tive a sorte de saber como era bom ser um adolescente sem maiores responsabilidades.

Aproveitei a condição e matei aula como se fosse a realidade matando esperanças.

No ensino médio, reprovei duas vezes em matemática e uma em física.

Engraçado, porque hoje, se eu tenho algum arrependimento, é o de não ter prestado mais atenção nas aulas de matemática. Quando vejo um cálculo enorme e cheio de letras, sinto inveja dos bem versados nessa língua estranha.

E olha que eu sou um clichê encarnado das ciências humanas, nascido e criado com miçangas na mão.

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Talvez como mecanismo de defesa, intimidados pela exatidão dos números, muita gente de humanas considera a matemática uma ciência menos elevada intelectualmente. Chega a ser irônico.
Pouquíssimo tempo atrás, era comum um grande filósofo se preocupar tanto com encontrar o sentido da vida quanto com encontrar o valor de xis.

Descartes, Platão, Pascal, Pitágoras, todos eram homens com profunda compreensão da experiência humana e cérebro afiado para a matemática.

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Devemos estimular a inteligência por completo, apreciar todos os tipos de raciocínio, sem preconceitos.

E não só como "musculação" para o cérebro. Como conhecimento mesmo.

Como compreender os desequilíbrios sociais sem saber calcular uma taxa de juros, meu Deus?

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"Mas eu sou horrível em matemática!"
Não, não é. A não ser que tenha uma lesão grande no giro angular do seu cérebro.
Improvável: essa área, que processa os cálculos matemáticos, é a mesma envolvida em vários processos de compreensão de linguagem, memória e inteligência espacial.

Então, se você consegue diferenciar direita de esquerda e dizer quem descobriu o Brasil, acredite: você é capaz de compreender Bháskara.

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Infelizmente, as experiências de muitos de nós com o estudo da matemática foram negativas.
Para quem é mais ligado a poemas do que em lógica, pode ser difícil se entregar à labuta necessária para resolver uma equação complexa.

Mas é questão de didática.
Talvez essa briga de irmãos entre humanas e exatas possa ser resolvida com um abraço.

As ciências humanas abraçando as exatas e oferecendo uma pedagogia mais sensível a essa área tão importante do conhecimento, e as exatas nos ajudando a enxergar o concreto do mundo com mais persistência.

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Talvez aí a gente lembre que a matemática pode, quem diria, ser uma fonte de prazer. Ou vai dizer que não era muito gostoso quando você finalmente compreendia um conceito novo e acertava uma conta difícil?

Um mesmo cérebro pode ser muito capaz de fazer contas e fazer de conta. De tirar os noves fora e botar os pingos nos is.

Assim, de um jeito mais humano, a gente acerta as contas.

12.8.16

Eleições

2026. Eleições presidenciais no Brasil. Segundo turno.

De um lado, Ângelx Guarani-Kaiowá Rodrigues é a candidata da esquerda. Ângelx ganhou notoriedade com seu livro "Feminismx sem gênerx", mas seu verdadeiro contato com o público foi com sucesso de seu Tumblr "Apenas melhore".

Seu programa de governo inclui a inclusão do pós-modernismo no currículo escolar e a regulamentação do crime da gordofobia.

Do outro, General Digão Maromba representa a direita. General Digão ganhou proeminência através das redes sociais, onde compartilhou um vídeo de si mesmo ateando fogo a um mendigo.
"Se fosse gente que preste, não tava na rua", dizia no vídeo, e virou herói.

Digão defende a separação das escolas entre meninos e meninas (mas só com professoras mulheres, professor homem é viado) e a obrigação de rezar o Pai Nosso antes de todas as aulas.

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Argumentos muito fortes, dos dois lados:
- Vocês são coxinhas! Reaças!
- Fica quieto, socialista de iPhone! Esquerdalha!

Agressões fortíssimas:
- Não passarão! Não passarão!
- CHOLA MAIS! CHOLA MAIS!

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Com as polaridades intensas, o problema não é ser extremo demais. É não ser extremo o suficiente.

A mídia, partidária, carrega na pressão:
"GENERAL DIGÃO TRAI SEU ELEITORADO E DIZ: 'EU COMERIA UMA NEGRA'. Seria um comunista?"
"Ângelx Guarani-Kaiowá recusa beijo de língua em lésbica: verdadeiramente esquerdista ou farsa do capital?"

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Todos devem escolher um lado. Todas as notícias do Brasil se resumem à essa divisão.

Até uma manchete como "CRIANÇA SOBREVIVE A AFOGAMENTO: Levado pelas águas, menino de sete anos consegue voltar à praia a tempo de ser socorrido" pode gerar discussões intensas.

"Parabéns, criança! Quem quer se esforça e consegue! Isso é mérito! DIGÃO PARA PRESIDENTE!"

"Se a escola pública fosse mais eficiente, essa criança não estaria sem supervisão! Lacra Ângelx Presidentx!"

Enquanto outra criança morre afogada mais à frente.

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A competição foi tamanha, a briga tão acirrada, que tudo explodiu.

Num movimento ousado, General Digão Maromba e seus seguidores decidem invadir um comício da adversária. Dezenas de homens, megafones na mão, movimentação nervosa.

"Morre, vagabunda! Esquerdista tem que morrer!", cantam.

Os eleitores de esquerda, assustados, agem rápido. Tiram os celulares do bolso e mudam furiosamente suas fotos nas redes sociais, com filtros dizendo "Estamos com Ângelx!".
Em questão de segundos, textos de quatorze parágrafos já problematizavam a invasão do comício citando Engels.

Enquanto isso, um invasor mais exaltado sobe no palanque.
Furiosamente, joga gasolina no corpo da candidata de esquerda e ateia fogo a ela, imitando o gesto de seu ídolo com o mendigo.
Ângelx grita por socorro, mas seus seguidores precisam fazer alguns questionamentos antes de tomar uma atitude.
"Como podemos nos focar no problema de uma só pessoa, se tantos em nosso país passam fome?"
"E o desastre ambiental de Mariana, que é de escala tão maior que tudo isso? Egoísta! Tira o olho do umbigo, sua privilegiada!"
E a mulher queimando.

A única demonstração de carinho veio justamente de Digão, que, com dó, começou a pisotear o rosto de Ângelx tentando apagar o fogo. Pensou pouco. Com o coturno pesando a chumbo, acabou por assassinar a oponente por traumatismo craniano.

Não teve tempo pra se arrepender. Seus próprios seguidores começaram a lhe atirar pedras, gritando:
"Morte humanizada é o caralho, bruxa tem que morrer queimada!"
"Frouxo! Viado!"
"Se gostava tanto, leva pra casa! Vai pra Cuba!"

Morreu também, apedrejado até a morte.

Dois traidores, dois mártires.

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Sem candidatos, a eleição demorou para acontecer. Por uns meses, ficamos sem governo.
Há quem diga que, nesse tempo, o Brasil melhorou.

8.8.16

Amigos artistas

Abençoado é aquele com amigos artistas.
Sou desses. São vários, menos ou mais talentosos, quase todos precisando de público, com fome de aplauso, querendo a certeza de não estar falando para as paredes.

Sabe aquilo que tanto falam do Facebook, de que as pessoas hoje vivem para ganhar likes?
Os artistas sempre foram assim. Sedentos de atenção e (os melhores, pelo menos) em dúvida de se o que fazem tem algum valor.

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Para apoiar um amigo artista, tenho duas regras.

A primeira é: apoiar sempre.

Se eu der de cara com um texto seu, ou uma música, ou uma foto, e admirar seu trabalho, você vai ganhar um elogio.
Mesmo que eu já tenha te elogiado mil vezes. Mesmo que eu não te conheça e fique sem jeito. Mesmo que eu não goste de você. Mesmo que você já seja elogiado muitas vezes.

Já fui chamado de paga-pau muitas vezes por isso. Tudo bem, bons paus merecem ser pagos.

É desse jeito:
Se é bom, eu aplaudo.
Se é médio, eu elogio o que eu gostei.
Se é fraquinho mas esforçado, eu elogio mais ainda e digo que quero mais.

Quem trabalha com arte sabe a diferença que faz um elogio na hora certa.

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A segunda regra é: não aplaudir forçado.

É desconfortável, é difícil, mas eu não vou te elogiar só porque você tá esperando confete.

Aplauso é presente, e só deve ser dado com amor no coração.
Confete não merecido apodrece um artista por dentro.

Me peça um rim, mas não me peça likes.

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História:

Uma conhecida minha decidiu ser poeta. O pai bancou a edição do livro. Até alguns autógrafos ela deu. 
Principalmente para tias e amigos, a fortuna dos escritores iniciantes.
Mas escrevia bem, a moça. Não era nenhum Michel Temer, mas quem é, né?

A encontrei entre amigos, num bar. Me alcançou uma folha de papel com um poema. Li, atento. Nada de Uau!, mas bonito.

O resto da mesa distraído em outras conversas, ela me fuzilou com a pergunta:
- O que você achou?

Fui pego de surpresa.
- Achei... bom. - e sorri, o menos amarelo que pude.

Ela me direcionou um olhar de raiva. Voltei a dar atenção ao assunto da mesa.

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Meses mais tarde, a encontrei, bêbada. Ela me confrontou.
"Por que você me detonou?".
"Como?"
"Você detonou meu poema na frente de todo mundo! Eu te admirava tanto!"

Povinho sensível e de expectativas altas.
Ouvir um elogio um pouco mais modesto do que se esperava já é ser detonado. Pessoas inseguras são recheadas de TNT.

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Não me retratei. Semanas depois, vi um outro poema dela no Facebook.
Curti. Comentei elogiando. Enviei mensagem dando parabéns.

Não consigo fugir da primeira regra.

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Não concordo com o ideal do artista com fome, rejeitado pela sociedade e azarado no amor, que precisa ser pária em tudo pra ter valor em sua arte. Mas também não aceito o contrário, Deus me proteja da bolha.

Você caiu no mundo com a ambição ousada de ser poeta? Com a loucura de querer soltar a voz? Com a insanidade de desejar pisar no palco?

Engrosse a sola do pé, meu amor. A caminhada há de ser dura. É necessário ser firme.

Se a sua arte está associada à crítica ou ao elogio, ela não está vindo de dentro o suficiente. A melhor arte é aquela que você não consegue evitar, mesmo que ninguém vá gostar.

Melhor assim. Afinal, aplauso fácil não tem graça. Aplausos de mãos calejadas valem mais.

Estarei por aqui, calejando as minhas, para poder aplaudir melhor. Só não conte com isso.

4.8.16

Um breve resumo de Todos os Livros de Auto Ajuda

Começamos com a história do autor. Ele já foi bem fodido na vida, já perdeu tudo, teve que morar no carro (ele é americano, pra americano isso é uma tragédia). Mas aí ele teve uma epifania e tudo mudou!

Agora ele faz cinco mil palestras por ano e quer ajudar você a ser bem sucedido também!

(inclusive, se você aplicar os passos direitinho, vai ter todas as habilidades necessárias para dar uma guinada na sua carreira... de palestrante motivacional)

PROGRAMANDO SEU CÉREBRO

Nada de perder meses na terapia com pretensos "psicólogos" que usam de "ciência".

O único motivo de você não ter uma Lamborghini na garagem é que você programou seu cérebro errado. Seu cérebro é bem mongolão e não entende a palavra "não".

O seu subconsciente, por sua vez, é muito poderoso. Se você convencer seu subconsciente direitinho, o universo conspirará para trazer a Bruna Lombardi na direção da sua virilha.

É tudo uma questão de repetir as palavras certas para si mesmo.
Em vez de dizer "Quero ser rico", você precisa dizer "Vim ao mundo na linhagem sanguínea do Chiquinho Scarpa". No positivo, no presente.
Em vez de "Tô com azia porque me alimento de cream cracker há seis meses", diga "sou abençoado com uma alimentação equilibrada todos os dias".

Diga isso pro seu subconsciente todos os dias e um sanduíche de chia se materializará na sua boca. Seu subconsciente é muito foda.

Porque o universo é como um catálogo. Escolha o que deseja e ele proverá.
Deus é tipo uma revendedora Jequiti.

MOMENTO METÁFORA
Um homem muito pobre vivia numa vila de pescadores.
Foi quando um homem rico apareceu e perguntou "Homem pobre, por que você não é rico?"
O homem pobre falou "Para quê? Pra poder viver com tranqulidade numa praia?"
Então eles empurraram uma vaca penhasco abaixo e todos conseguiram o que queriam.
O nome dessa vaca?
Albert Einstein.

Agora o autor repete toda a história dele do começo do livro, porque tem que preencher página.
Mas agora ele termina com uma mensagem mais positiva. Ele curou milhares de pessoas com seu método de programação mental. Ele está rico! Sabe por quê? Porque ele MEN-TA-LI-ZA.

Aprenda a mentalizar.
Bote um disco dos Beatles pra tocar. Agora feche os olhos e sinta no seu corpo como se eles realmente estivessem ali. Tocando pra você. Sinta isso no seu corpo. Sinta-se grato.
Agora abra os olhos.

Se o Paul McCartney não estiver tocando na sua frente é porque você não mentalizou corretamente.

Mas não desista. Agora você tem as armas para conseguir o que deseja na vida.
O autor fala que está escrevendo as últimas palavras do livro de frente para o mar, torcendo para que você consiga fazer a mesma mudança que ele fez, e que o permite estar de frente para o mar agora.
Mas há uma ferramenta ainda mais forte para conquistar o que se deseja. É um segredo que ele acabou de descobrir.

E ele vai contar esse segredos... em outro livro!
"O MESMO TÍTULO DO LIVRO ANTERIOR... EM PRÁTICA!". Já nas lojas.

Aceitações

Nós, que andamos pelo mundo acordando cedo, andando com nossas próprias pernas e reclamando quando temos gripe, somos um seleto grupo de abe...