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Mostrando postagens de Outubro, 2016

Sentindo sentidos

O que você está fazendo agora?

Eu espondo: está pensando.  Botando informação pra dentro, mastigando com os neurônios e alojando cada coisa numa gavetinha na sua cabeça.
Evolutivamente, o processo de aprender não tem nada a ver com conseguir blefar melhor no pôquer ou citar Nietzsche. Tem a ver com sobrevivência.
A gente observa, repete, aplica e guarda tudo aquilo que pode nos ajudar a escapar de um risco iminente, seja um leão ou uma palavra. 
Pensamos para conseguir sobreviver.
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Sentir, por sua vez, é o termômetro interior que desenvolvemos ao longo de milhares de anos, que nos diz se estamos seguros nesse ambiente perigoso, cheio de leões e palavras.
Sentir serve para que mostrar uma realidade dentro de nós que vai além do dicionário e da lei da selva.
Sentimos para dar significado à existência.
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E como é que a gente toma decisões?
Pensando.  Ignorando o sentido e focando na estratégia de sobrevivência, mesmo quando não estamos correndo tanto risco assim.
Usamos justamente a e…

O Gambá

Essa é uma história de vingança.

Começou no domingo. Apareceu um gambá morto na calçada na frente de casa.

"Vou ter que tirar essa merda daí, mas sem chance que vou fazer isso agora."
Procrastinei. Ao contrário da vida, a morte pode esperar.

Saí de casa e passei um tempo me convencendo que não ia ser tão nojento assim tirar o bicho de lá.

Mas ia sim. Voltando pra casa, encontrei uma surpresa.
Um cachorro cagou no gambá.

Além de morto e na sarjeta, o gambazinho estava literalmente na merda.

"Lei da atração", pensei. "Essa é uma alma afim."

Adiei o serviço novamente. Não tinha estômago pra catar o gambá morto naquele momento.

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Mais tarde resolvi encarar o problema e tirar o bicho dali de vez.

Peguei dois sacos de lixo grandes, forrei a mão com sacolas de supermercado, segurei na mão de Deus e fui.

E, milagre! O gambá sumiu.

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Algum dos meus vizinhos era uma pessoa especial, iluminada, divinal, com fetiche por necrofilia de gambá, alguma coisa assim.

De t…

Vergonha e orgulho

Ontem eu tive vergonha dos meus pais.

Estávamos nós, eles exaustos de viajar o dia inteiro, passando algumas horas comigo antes de seguir viagem madrugada adentro, eu querendo agradar e disposto a levá-los a algum lugar bacana pra mostrar como, apesar de telefonar todos os dias me fazendo de coitado, as coisas estão indo bem.

Eles preferiram ir ao Subway. Era rápido, tinha salada, tinha cafeína e isso era tudo o que eles precisavam para seguir dirigindo a madrugada inteira.

É o mesmo fast-food em que eu apareço no fim da noite, em fiapos, prestes a comprar um sanduíche da promoção antes de voltar para casa e ligar para os meus pais me fazendo de coitado.

E entramos na fila. Minha mãe primeiro, então meu pai e depois eu.

Um pássaro sob o efeito de LSD não daria tantas voltas para voar quanto minha mãe deu para escolher o sabor que queria. Perguntou o que era cada um dos recheios. Conjecturou. Perguntou a opinião do atendente sobre cada um.

Botou a mão no queixo e coçou a cabeça como se…