26.11.16

Calças

Quanto mais velho eu fico, mais eu preciso me esforçar pra usar calça.

Quando eu era adolescente, eu me recusava a usar bermuda. Era calça jeans o tempo todo, até pra ir na calçada levar o lixo.

Agora tá mais difícil. 
Como o código de ética da psicologia impede que eu pratique minha profissão e o nudismo ao mesmo tempo, eu fico horas demais por dia de calça, sapato, cinta, camisa social, aquele monte de botão... Isso cansa.

Ainda mais com essas calças moderninhas que agarram forte na canela e você fica parecendo um burrito enrolado em papel alumínio.

--

Tinha aquela brincadeira de guri que alguém gritava "com calça" ou "sem calça", no final de cada frase de uma música, cês lembram? Era tipo:
Caía a tarde como um viaduto
COM CALÇA
E um bêbado trajando luto
SEM CALÇA
Me lembrou Carlitos
COM CALÇA

Eu tô com o bêbado.

--

Agora eu aprendi a usar o desconforto ao meu favor. Fico cultivando o incômodo da roupa apertando o corpo até o dia terminar.
Aí a parte mais feliz do meu dia é chegar em casa e instantaneamente arrancar as calças, como se eu fosse um stripper com pressa pra devolver a fantasia de policial.
O resto da roupa fica, o que irrita mesmo são as calças, o símbolo maior da opressão.
Meu visual fica uma coisa linda, meias, cueca e camisa social amarrotada.

Até o final da década, prevejo que eu vou estar indo de sunga ao supermercado.

(desculpem deixar essas imagens na cabeça de vocês, mas quem leu até aqui foi porque quis)

9.11.16

Por amor

Surpresa: o Trump venceu.

E tá o mundo inteiro com as mãos na cabeça pensando "Puta que pariu, sério isso?".

Estamos decepcionados.

--

Os tempos tem sido difíceis pra quem acredita na igualdade.
Temer, Crivella, Trump e companhia estão fazendo brincando de cirandinha ao nosso redor e cantando vitória.

O poder voltou às suas velhas mãos.

Mas, amigos, é hora de se acostumar com a decepção. É ingenuidade achar que os avanços do mundo duram para sempre.

Infelizmente, o poder sempre foi egoísta, misógino e violento.
Não há nada de novo debaixo do Sol.

--

A gente, quando luta por igualdade e paz, é porque já sofreu nas mãos desse poder e não quer que tudo continue assim, perpetuando sofrimento.

Até tivemos nossas pequenas glórias: os homossexuais já estão sendo mais tolerados, a discussão racial nunca esteve tanto em pauta, conseguimos eleger governos com uma visão social maior em vários países...

Quando alguém está no poder e olha para o nosso lado, é fácil cair na ilusão de que o poder está do nosso lado. Que estamos vencendo.

Acreditar que tudo vai mudar pra sempre, ou que pelo menos a evolução, ainda que lenta, vai ser ininterrupta.

E então o mundo dá uma reviravolta e tudo parece retroceder um século.

O poder nunca foi nosso.

--

É fascinante testemunhar a história acontecendo, poder estar presente e atento no exato momento que o mundo se lança rumo ao desconhecido.

Foi assim quando as torres gêmeas caíram. Foi assim quando o Obama foi eleito.
Quando o Putin invadiu a Crimeia.
Quando a Dilma caiu.
Quando o Trump foi eleito.

Estivemos lá, de frente para uma tela, assistindo a uma reviravolta e pensando em como o mundo seria diferente a partir dali.

--

É fácil se assustar com um momento como o de hoje, em que a gente se assusta com o triunfo da maldade, porque damos de cara com uma maldade óbvia.

O homem é uma abóbora de Halloween em cima do corpo de um espantalho, pelo amor de Deus.

Parece que está tudo piorando, mas as estruturas do mundo são velhas e muito mais firmes do que desejamos acreditar.

Tudo está como sempre foi.
A gente ainda vive num mundo em que o natural é atirar pra baixo.
Em que o aceitável é olhar pro sofrimento do outro e pensar "Antes ele do que eu".
Um mundo em que o diferente precisa sofrer.

Nossos pais viveram num mundo assim. Nossos avós viveram num mundo assim.
É muita inocência achar que a nossa geração também não passaria por um momento sombrio, de um poder opressor e violento.

O mundo sobreviveu a coisas muito piores, o desejo de igualdade sobreviveu a períodos muito mais tenebrosos.
Entre mortos e feridos, o desejo de lutar seguiu em frente.

Tivemos nossos lampejos de "estamos quase lá"? Tivemos.
Mas é hora de arregaçar as mangas de novo.

--

Falta ânimo pra seguir acreditando? Então precisamos lembrar que nosso esforço faz sentido.

Lembrar que não lutamos por benefício próprio e não batalhamos para segurar as coisas como sempre foram.

Que nós lutamos por amor.
Lutamos por acreditar que cada um merece ter sua voz ouvida, ainda que não seja um bilionário de cabeça laranja.

Por acreditar que o pobre, a mulher, a travesti, o louco, o fraco, todos devem ter seu direito respeitado.

A gente ainda pede igualdade e justiça porque ama.
Porque acredita no amor, em lutar com amor, lutar por amor, lutar pelo amor.
Ainda que em tempos sombrios.

E a hora, mais do que em qualquer outro momento da nossa geração, é de seguir lutando.
Amando.
Acreditando.

De ter o coração valente, mas começando por ter coração.
Porque é o coração que nos dá sentido nessa hora. E, sem sentido, não existe força.

E haja força pra viver num mundo desses.

4.11.16

Badoo

"Flávio, sabe onde eu te vi outro dia?" - Minha amiga perguntou.
Gelei. Os lugares que eu frequento são quase tão comprometedores quanto o meu histórico de buscas no Google.
Pensa aí num lugar equivalente a pesquisar por "pra onde uma espinha vai quando ela explode pra dentro" e você vai ter uma ideia de onde eu costumo ir.
Mas era um lugar pior do que eu poderia imaginar.
"No Badoo! Meu vizinho falou que lá era bom pra conhecer gente, eu baixei, e apareceu você lá!"
--
Pra quem não sabe, o Badoo é o umbral dos solteiros.
Dá pra classificar as pessoas pelos aplicativos que elas usam pra conhecer gente.
Se ela tá mais de boa, e quer achar alguém que tem carro, vai de Happn.
Se tá mais no aperto, mas exige um choppinho antes do abate, Tinder.
Agora, se você tá sem luz no fim do túnel, matando cachorro a abraço e chamando a Sônia Abrão de meu louro, você instala o Badoo.
--
Eu nem sabia que eu tinha uma conta nesse inferno de site.
Entrei lá, tentei excluir minha conta e não consegui. Quem fez o site sabe que ninguém vai encontrar o amor lá mesmo, então pra quê desinstalar?
Desisti. Depois tentei de novo, mas não lembrei minha senha. Tentei logar com o Facebook.
E esse buraco-negro de site automaticamente criou um perfil novo!
Agora eu não tenho uma, mas duas contas no Badoo que eu não consigo apagar.
--
Meu status na hierarquia da solidão não é mais o de mero solteiro.
Virei o guardião dos portais da virgindade. O padroeiro das solteiras com vinte gatos. O Exu do Encalhe.
--
O pior é que agora eu fico recebendo emails do tipo "Jessica, 26 anos, se interessou por você."
Desculpa, Jessica, mas você tá procurando a pessoa errada. Do jeito errado. No lugar errado.
Porra, Jessica. Me ajuda a te ajudar.
--
Já entendi que nunca vou conseguir cancelar essa merda de conta. Vou ficar preso nesse labirinto pra sempre.
No Badoo, solteiro e sozinho.
Jessica, segura minha mão?

Aceitações

Nós, que andamos pelo mundo acordando cedo, andando com nossas próprias pernas e reclamando quando temos gripe, somos um seleto grupo de abe...