22.9.17

Popstars

É fácil entender o sucesso de programa Popstar, na Globo.

Atores, apresentadores, artistas bem sucedidos em outras áreas se amontoam e se estapeiam pra soltar a voz em público. A cada canção bem recebida, choram como se não tivessem tido outro sonho na vida a não ser cantar.

E, realmente, talvez não tivessem.
Eu também, famoso fosse, ia querer estar lá, fazendo karaokê de Tim Maia e soltando minha voz grave e rouca pelo ar.

Todos nós tivemos nossas grandes paixões profissionais.
Se desse certo pra todo mundo, seríamos todos rockstars, astros de Hollywood ou o Neymar.

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É importante saber separar o saber do ofício.

Um arquiteto com um grande interesse em pessoas pode saber muito mais profundamente sobre a psicologia humana do que um psicólogo formado, ainda que não saiba praticar psicoterapia.

Um pedreiro com um grande interesse em música pode sentir muito mais profundamente um solo de guitarra do que um músico formado, ainda que não saiba explicar as escalas pelas quais o guitarrista passa.

Um cineasta com um grande interesse por matemática pode não saber resolver equações avançadíssimas, mas vai sentir uma emoção tremenda ao entender como um grande cálculo se executa do começo ao fim que talvez um matemático não saiba perceber.

Um dentista pode amar poesia. Um poeta, quem vai dizer que não?, pode achar lindo um tratamento de canal.

Um psicólogo com um grande interesse em música pode cantar muito mal, mas te indicar uns discos pouco conhecidos bacanas e... Tá, nesse caso não se aplica.

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Essa compreensão profunda e amor pela arte por quem não é artista acontece porque a distância - a falta, a sensação de não poder realmente alcançar o que ama - traz uma angústia que aprofunda as experiências que residem brevemente nos sentidos antes de voltar ao mundo dos sonhos.

Em tempos de escolher uma carreira aos dezessete anos, com a pressão de ganhar dinheiro e fazer o que ama pelo resto da vida, saber que o que se toma de ofício não é necessariamente uma garantia de amor eterno pode parecer pesado.

Mas saber que tornar da paixão um ofício pode trazer angústia e frustração - não financeiramente, como todos os pais pregam, mas na alma, por trazer o seu amor para perto demais, sob uma ótica muito real e cruel, capaz de desmontar as ilusões - pode ser libertador.

É como casar com a pessoa dos seus sonhos: o casamento começa e os sonhos acabam.
Amar à distância pode fazer o amor ficar muito mais interessante. Se o objetivo for manter o sonho, melhor guardar as alianças para si.

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Talvez meu conselho para quem está procurando uma profissão seja esse: faça o que ama, mas não dependa disso totalmente.

Case-se com um ofício que lhe seja fácil e pouco desgastante e persiga sua paixão como quem persegue um amor com astúcia: cuidadosamente, sem se mostrar disponível demais, sem depositar todas as suas expectativas e dando ocasional bote, quando a situação ideal aparecer.

Quem sabe você tenha sorte e sua tórrida paixão mantenha-se luxuriosa e intensa por anos a fio.
Quem sabe sua grande paixão seja melhor como uma amizade para toda a vida.

Amores mudam pela vida, ainda que haja amores duradouros.
Seu ofício pode não ser o que você sempre sonhou, mas pode ser aquele amor que te esquenta os pés no fim da noite e te faz se sentir satisfeito.

Aí, de vez em quando, você masturba sua imaginação botando um bom disco pra tocar e canta junto a plenos pulmões, se sentindo uma estrela do rock. Não há nada de errado em fantasiar com uma grande paixão enquanto se vive um amor maduro.

18.9.17

Cura gay

Como as pessoas pensam que ir a um psicólogo pra tratar sobre a sexualidade é:
"Eu sou gay e quero deixar de ser."
"MAS QUE ABSURDO! Gay é lindo, gay é vida, experimenta esse sapato!"

E seguem-se várias sessões rumo a uma inscrição no RuPaul's Drag Race.

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Como as pessoas querem que ir a um psicólogo pra tratar sobre a sexualidade seja:
"Eu sou gay e quero deixar de ser."
"Ótimo. Olhe bem para essa piroca e prenda a respiração. Você precisa associar a visão de um pênis a falta de oxigenação no cérebro."
"Eu vou deixar de ser gay?"
"Não, mas vai desmaiar toda vez que ver uma rôla."

E seguem-se várias sessões pra aprender a cuspir no chão, coçar o saco e decorar a escalação do time do Curíntia.

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Como ir a um psicólogo pra tratar sobre sexualidade realmente é:
"Eu sou gay e quero deixar de ser."
"Me conta sobre isso... Como você se sente sobre ser gay?"

E seguem-se várias sessões verdadeiramente escutando a pessoa, prestando atenção nos ditos e desditos do seu desejo, facilitando a própria escuta sobre suas vontades e medos e aumentando a autonomia dela sobre as próprias decisões.

Então, e só então, segue-se para a inscrição no RuPaul's Drag Race.

17.9.17

A favor de ser trouxa


Eu sempre tive uma fascinação por aquelas pessoas que fazem todo mundo cair a seus pés. As Frida Kahlos, Marylin Monroes e Marlon Brandos do mundo, aquelas pessoas que fazem todo mundo se apaixonar por elas enquanto elas, impassíveis, estão nem aí.

Quando um amigo qualquer reclamava que tinha alguém no seu pé o tempo todo, como se isso fosse a coisa mais chata do mundo, meus olhos brilhavam de admiração. Quanto poder, né? Ter alguém te querendo muito enquanto você faz cara de blasé e prefere ficar em casa cortando a unha. Eu, trouxa por formação e vocação, morria de inveja.

"Ah, mas é meio chato, não rola, sabe?", dizia a pessoa independente e feliz.
"Dá uma chance pra ele! É um chato bonzinho!", eu respondia, advogando por nós trouxas.

Afinal, eu sempre ocupei o papel de estar no pé dos outros, e achava isso muito, muito chato.
Não conseguia entender a capacidade de alguém negar um amor que estava ali, tão de graça.

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Precisei de um bom tempo de trouxice (suficiente pra uma faculdade bem longa, pós-graduação e mestrado), pra chegar num ponto de exaustão.

Algo perdeu o encanto. Até aquelas pessoas que, em outro momento, eu mataria pra ter uma chance, chegavam perto e me davam vontade de sair correndo pra casa, pra ficar quieto e sozinho, lendo um livro que eu já li antes e coçando a orelha.

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Mas adivinha o que acontece quando você chega nesse ponto? TODO MUNDO QUER NAMORAR CONTIGO.

Que tipo de sensor é esse, de pegar a pessoa mais machucada e aversa a relacionamentos que pode encontrar e falar "É esse!", e investir tudo o que pode?

Como sempre fui eu do outro lado desse cabo-de-guerra, fiquei feliz. Quer dizer, sair do papel de pessoa que quer muito ter alguém ao seu lado só pode ser uma evolução, certo?

Acontece que ser a pessoa indisponível pode até te dar mais poder, mas não te dá mais prazer.
Não é só auto-suficiência. Você quer sentir o contato próximo e o amor de alguém, mas alguma coisa te impede, como uma azia violenta que te dá ânsia só de olhar pro seu prato favorito.

E quando você se força a baixar um pouco a guarda... Vem uma gastrite violenta.

Tá ruim, sai de perto, preciso de ar.

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Pode ser muito divertido experimentar esse poder.
Aprendi muita coisa vendo a minha trouxitude refletida no outro.

Eu, que sempre me dobrei em cinco pra tentar agradar quem estava comigo, me surpreendi com como você pode ser cuzão e ainda assim ser atendido.

"Te trouxe flores", diz a pessoa, feliz, fazendo o papel que devia ser o meu.
"Ah, valeu. Eu tenho um pouco de rinite.", eu respondo, escroto.
"Nossa, desculpa, eu troco, eu trago outras coisas, quer chocolate?"

Ei, eu conheço esse sentimento de pedir desculpa por ter feito algo legal! Que coisa besta!

"Não, não, tá bom.", eu respondo, sorrindo.
"Nossa, mas eu vou te recompensar por essa... Não sabia que você não podia com flor."
"..."
"Desculpa, tá?"

Jesus Cristo, eu já fui assim.

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Ser indiferente ao carinho alheio não é sinal de força. É casca grossa, calo, fachada.
Tudo coisa de quem está machucado demais e não está disposto a se arriscar outra vez. Fica indiferente ao amor quem tenta se curar dele. Fica com azia quem se recusa a digerir a dor dos amores que deram errado.

Porque o amor dói e te faz de besta, mas é justamente isso que faz ser muito gostoso quando ele é retribuído.

É ser trouxa de vez em quando que faz encontrar um amor dar aquela sensação de ter ganho na loteria.

Exigir sair por cima toda vez que está com alguém é uma defesa que tira toda a graça de viver. Se privar de um sentimento é se privar de todos.

Há uma grande lição em aceitar que perder o poder às vezes pode ser bom. Você exercita um pouco o masoquismo, volta a ter emoções novamente e lembra o motivo de ser tão gostoso amar.

Marlon Brando que me perdoe. Ser fatal é lindo no papel, mas ser trouxa não é tão ruim.

(Até você ser bem trouxa outra vez. Aí é uma bosta. Mas aguenta, quem quis amar foi você.)

15.9.17

O que as coisas sugerem

Faz um mês e meio que eu estou morando em algo que eu posso considerar "o meu apartamento".
Quer dizer, é alugado e é dividido, mas fazia muito tempo que eu não morava em um lugar em que eu não precisasse marcar as paredes com urina pra marcar propriedade.

Até agora, foram uns tempos alugando quarto e dois anos morando no sótão do consultório, um lugar agradável e ameno onde a temperatura média é setecentos e vinte graus. Foi bom enquanto durou.

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Já morei sozinho antes disso, mas faz tempo. Agora eu divido o apartamento com uma colega dos tempos da faculdade, a Amanda.

Recomendo a todo mundo morar sozinho pelo menos uma vez da vida, pela liberdade e pelo autoconhecimento.  Depois disso, recomendo a todo mundo morar com a Amanda pelo menos uma vez na vida, porque ela faz um ovo mexido muito bom.

O legal de se sentir responsável por um lugar é que até limpar a casa vira uma rotina gostosa, já que você tá cuidando do que é seu.

Minha tarefa preferida é lavar louça, que é divertida pela recompensa imediata de ver o serviço pronto, seguida por lavar roupa, que é basicamente jogar a roupa na máquina e ficar no computador por duas horas e meia esperando a máquina fazer o serviço e falando "Já respondo, tô lavando roupa..." pras pessoas no Whatsapp.

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A rotina da vida adulta cria umas relações interessantes com as coisas.

Meu micro-ondas, por exemplo, apita sozinho na função Pudim. Tô ali, na cozinha, cuidando da minha vida, e o micro-ondas (que horrível escrever desse jeito) sai da sua condição de objeto inanimado pra me gritar PUDIM e me lembrar da importância dos prazeres na vida.

Nunca fiz pudim nele, mas eu aceito o recado e vou comprar um na padaria.

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A quantidade de atitudes humanas que meus objetos tem tido só seriam justificáveis se eu estivesse com uma severa esquizofrenia, que é um diagnóstico que eu prefiro deixar quietinho por enquanto.

Não vou nem levar em conta as sugestões do corretor do celular (manda uma foto do seu pai, diz ele), que eu já considero manifestações do meu inconsciente e que me fazem pensar duas vezes no que eu mando pras pessoas.

Prefiro acreditar que meus objetos me dão conselhos, mesmo.

Meu celular me assusta todos os dias mudando o horário exibido pra uma hora mais tarde. Depois do mini ataque cardíaco por achar que estou perdendo um compromisso, eu vou conferir e vejo o erro: O celular mudou o fuso horário pra Fernando de Noronha.

Todo. Santo. Dia. O fuso muda pra Fernando de Noronha.

Meu celular é um objeto de alta tecnologia e, como tal, sabe das coisas. Por isso, assim que eu tiver o orçamento, vou obedecê-lo.
Comendo pudim.

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Agora, de todas as manifestações que meus objetos inanimados tem, nenhuma bate a de quando eu deixei o celular desbloqueado no bolso e o movimento das minhas pernas, sozinho:
1 - Abriu o aplicativo do Whatsapp;
2 - Foi nas configurações de perfil;
3 - Clicou em "Trocar foto de perfil";
4 - Selecionou, de todas as fotos da galeria, um meme do cara de chapéu mostrando a piroca;

Foram dias com essa foto lá, exposta pra todos meus amigos e pacientes, até meu irmão me mandar uma mensagem perguntando que porra era aquela.

Se o microondas quer que eu aproveite a vida comendo pudim e o fuso horário quer que eu aproveite a vida indo pra Fernando de Noronha, o que o meme da piroca na foto do perfil está querendo me sugerir?

Fica em aberto.

10.9.17

Viver é urgente

Enquanto você for um ser humano, tudo o que é humano é seu. Toda a experiência humana lhe pertence.

Cada ato heróico e cada vergonha da história estão na sua conta. Se um humano fez, você teria sido capaz de também ter feito. Somos feitos da mesma coisa, não?

Se a autoestima estiver baixa, basta lembrar que é feito do mesmo material que os gênios. Você é feito de Ghandi e de Buda. Você é feito de Martin Luther King Jr. e de Gilberto Gil.

Da mesma forma, você é feito de Paulo Maluf e de Bandido da Luz Vermelha, e lembrar disso ajuda a segurar a onda de se achar muito santo.

Você é feito da mesma coisa que o cara que te xingou no trânsito ou que roubou seu celular, e talvez teria agido muito parecido nas mesmas condições que ele.

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Por isso não faz sentido isolar os criminosos da sociedade. Ok, nos protejamos, façamos justiça,  mas manter um canal de comunicação aberta pode ajudar a todos.

Um assassino pode ensinar muito sobre humanidade, mesmo para a pessoa mais altruísta.
Pode ensiná-lo, por exemplo, quais situações e pensamentos podem levar alguém a matar, e o altruísta pode conhecer e dominar melhor sua porção assassina da qual nem fazia ideia que existia.

Da mesma forma, a convivência com vários tipos de pessoas pode lembrar quem está na cadeia de que eles não são feitos de farinha de criminoso, e sim com a mesma receita de gente que todos os outros seres humanos, e por isso mesmo podem ter experiências muito maiores do que as que conhecem, tendo a oportunidade pra tanto.

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Se tudo que é de um humano é de todos, das conquistas aos erros, podemos procurar aprender com as diferenças em vez de nos afastarmos por elas.

Você pisou na Lua e morreu de fome. Você alimentou os órfãos e assassinou Jesus.
Você é o Alfa e o Ômega, a Ivete Sangalo e a Claudia Leitte.
Você é cada uma das oito bilhões de pessoas que estão vivas nesse momento.

Olhando assim, cada experiência se enriquece muito. Há muito ao que estar atento. Conhecer o outro é conhecer uma parte sua.

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Se todas as vidas que existem são suas, e nunca se viveu tanto e de tantas formas únicas, viver se torna urgente.

Viver é urgente porque é fugaz, porque somos todos feitos do mesmo pó vivo e todo mundo está na mesma. Viver é urgente porque você é único e porque o outro também é você.
Viver é urgente porque você é tão gente quanto um assassino, e o Papa é tão gente quanto os dois.
Viver é urgente porque há muito o que conhecer sobre si mesmo, ainda que através do outro.

Viver é urgente porque existe muita gente por aí. Muita gente diferente, e todos iguais, porque todos são... você.
Sem separação e sem medo.

4.9.17

A importância do fundo do poço

ou: Abandonar também é amar

Se alguém perto de você está cometendo os mesmos erros várias e várias vezes, é natural querer ajudar. Também é natural insistir na ajuda, ainda mais quando se trata de alguém que você ama muito.

Mas, se você está tentando muito evitar que alguém sofra, ou caia no mesmo padrão de erros que repetiu muitas vezes, deixo uma sugestão: Abandone.

Não por falta de amor, mas por amar.

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Na solidão e sofrimento inevitáveis que o fundo do poço traz reside uma capacidade de ganhar lucidez que estar protegido e guardado de chegar lá não permite. Tirar carinhosamente a mão de uma pessoa que insiste em tentar tocar o fogo nunca vai ensiná-la a não fazê-lo mais. A dor e o arrependimento de uma queimadura são professores muito melhores.

Abandonar alguém aos seus próprios recursos é justamente o que faz essa pessoa questionar se realmente tem os recursos que acredita ter: sem alguém para recuperar ou protegê-la, e sem capacidade de realmente mudar por conta própria, cai a última barreira da vaidade e pode surgir um sincero - ainda que sofrido - pedido de ajuda.

Aí, com autorização, é possível estar ao lado da pessoa enquanto ela reavalia suas atitudes. Ao lado, não à frente e não empurrando: é importante que a pessoa esteja plenamente consciente do seu próprio desespero e fundo do poço enquanto tenta melhorar.

Não faz bem consolá-la disso. É no desespero e no cansaço que a motivação permanece.
O desespero e a sensação de morte causada pelo fundo do poço é o que vai lembrá-la de que ela precisa de outras pessoas e que ela precisa tomar responsabilidade pelo que faz.

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É um processo muito doloroso para quem está ao lado. Abandonar alguém que está sofrendo questiona todas as teorias de que precisamos ser pessoas boas, samaritanos sempre dispostos a ajudar, e derruba a ideia de que amar é estar ao lado da pessoa que sofre.
Mas é essencial.

Amar é ter um preço. Amar é se afastar quando os requisitos básicos do amor não são cumpridos. Amar é permitir que a pessoa lide consigo mesma, abandonando qualquer tentativa de protegê-la de suas próprias atitudes.

Quem ama aguenta muita coisa, simplesmente pela ignorância que o amor dá. O amor é muito fantasiado como um processo de acolhimento interminável, e isso está registrado fundo no nosso próprio medo instintivo de sermos abandonados.

Por isso mesmo, abandonar alguém que está em um padrão doentio precisa ser um processo racional. Precisa ser um ato calculado, preciso e limpo de afastamento, que resista às tentações dramáticas de uma reconciliação que interrompa o - tão necessário - fundo do poço da outra pessoa.

E, como alguém que está apaixonado multiplica o desejo que tem pela outra pessoa depois de uma rejeição, uma pessoa abandonada aos próprios recursos percebe que ela mesma foi sua algoz e abandonadora, e pode encontrar, exatamente nisso, uma esperança de amor por si mesma.

Se, depois disso, vai tentar conquistar a si mesma ou não, isso depende só dela.

3.9.17

Experiência e sentido

“Você nunca viu seu rosto.”

Vi essa frase em algum lugar bobo da internet e fiquei encucado. Fora meu nariz largo, que aparece na frente dos olhos a todo momento, e minha bochecha, que tem pele sobrando como se eu fosse um cachorro sharpei e dá pra puxar pra frente do olho, eu nunca vi minha própria fuça.

Sorte, porque se eu não consigo passar na frente de um espelho sem ajeitar o cabelo, se eu tivesse contato constante com a minha aparência eu estaria perdido.

Engraçado como a gente passa a vida toda numa obsessão com uma aparência que a gente nunca vê, apenas percebe através da projeção no espelho e na reação do outro.

Mas tudo bem: o resto da gente, a gente conhece em primeira pessoa.  Ou não?

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As redes sociais estragaram a experiência.
Quer dizer, elas deram uma mãozinha pro narcisismo que já imperava, mas não conseguia ir muito além da casa da vizinha que se interessava pela sua vida. A competição era mais direta.

Agora não: é a nossa vida contra a do mundo. Todos enxergam todos e e tá todo mundo querendo ganhar. Não basta mais viver, é preciso mostrar evidências.

Pictures or it didn’t happen.

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Um grande sinal de que uma pessoa está se sentindo vazia é o registro constante do que se passa em sua vida*.
(*Querido diário, acabei de perceber a ironia. Um abraço!)

A ausência de verdadeiro contato consigo mesmo é o que cria a sensação de vazio, quer dizer, não sentir a vida pelo lado de dentro cria a necessidade de criar provas, para si mesmo, de que se está vivo.

E aí começam as fotos, os check-ins, as loucuras de fim de semana feitas sob encomenda para que alguém se sinta vivo, ainda que seu pulso emocional esteja fraquejando. Ter o feedback do outro, por exemplo em uma rede social, ajuda a acalmar a angústia desse vazio.

“ESTOU VIVO?”, grita alguém, postando uma foto de uma cerveja na sexta-feira, legendada com “Começando os trabalhos”.
“Vivíssimo!”, responde quem curte.

Que alívio.


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Foi isso que estragou o ato de viajar.

Viajar já foi o símbolo do crescimento pessoal, do momento em que uma pessoa renuncia a sua vida cotidiana para mergulhar no mundo da experiência plena.

As pessoas ainda acreditam nisso, mas o mercado já percebeu o potencial disso faz tempo. Agora, viagens são vendidas como experiências - mas experiências úteis, registráveis, comprováveis, compartilháveis.

Porque ninguém vai postar fotos de um passeio pelo transporte público de Osasco, ainda que essa experiência possa ser tão transformadora quanto um fim de semana no Tibet.

Da mesma forma que é absolutamente proibido praticar ioga sem a presença de uma câmera.

É o cúmulo do fetiche pelo registro: o momento de experimentar a si mesmo pelo mundo só é válido quando registrável. Se gerar inveja, melhor ainda.

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O registro da experiência é menor do que a experiência, mas é vendável.

É o que faz a Taylor Swift ganhar mais do que uma professora que canta para seus alunos de pré-escola. Ela é mais registrável. Sua emoção é mais fácil de identificar, empacotar e vender. É emoção mais destilada mesmo, pra consumo bruto, pra entrar na veia e dar sensação de vida.

É daí que surge essa angústia que tanta gente tem sentido: viver em busca de experiências registráveis é competitivo demais. Se o registro da experiência do outro é mais impactante do que o meu, a minha experiência não vale nada - por mais que eu tenha gostado dela.

E aí é necessário ter o corpo melhor. A viagem mais fotografável. O namoro mais instagramicamente adequado.

Não é por nada que quase toda criança hoje em dia sonha ser Youtuber, porque não basta mais registrar a própria vida. É preciso ter plateia. E a plateia anda cada vez mais escassa, preocupada em fazer seus próprios registros para mostrar pro mundo.

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Pra escapar disso, só se precisa lembrar que o feedback mais importante que temos da nossa vida é nossa própria experiência.

Lá dentro, longe dos likes e próximo do próprio gosto.

Porque o gostar lá de dentro é sempre simples. Se contenta com um bom amigo e um dia de sol deitado na grama. Só existindo, só sentindo, só sendo.

Não é necessário enxergar o próprio rosto para saber que ele está lá.

Basta sentir para encontrar sentido.

30.8.17

Prezado Paciente Difícil


Resolvi escrever uma carta pra você porque, bem, nas sessões é você quem fala.

E como fala! Eu gosto de você falar tanto, porque facilita meu trabalho, mas olha… Às vezes eu acho que você poderia me escutar um pouquinho mais.

Aliás, vamos concordar, você tem dois extremos: ou você fala muito e sem parar, durante a sessão toda, sem escutar uma palavra do que eu digo, ou você fica em completo silêncio.

E olha, eu até lido bem com o silêncio, mas me sinto tão na obrigação de te movimentar que começo a fazer show de variedades:

“E como foi a semana?"
“Ok.”
“Você ainda está gripado?”
“Uhun.”
“O que você acha que baixou sua imunidade?”
“Sei lá.”
“Anitta ou Ludmilla?”
“Ahn?”
"Pra quem você tira o chapéu?"

Ok, bem honestamente, eu prefiro quando você fala bastante.

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Mas mesmo quando você fala bastante, eu tenho minhas dificuldades.

Eu sei que você jura por Deus que não tem resistência nenhuma, mas eu posso provar que tem sim.  Você não sabe, mas nas últimas semanas eu tenho te testado, pra ver se você presta atenção no que eu falo.

Você, todo verborrágico, dizia:
“... e aí eu falava pra ele, sempre falei pra ele, na verdade, que quando ele me procurava só pra transar eu me sentia feito no Grey’s Anatomy e…”

Eu, com a cara séria e profissional, olhava fundo no seu rosto e dizia:
“Estrogonofe”.

Você, nem aí, continuava:
“... e sabe quando tem a cena do acidente de avião, e a Arizona grita sem parar?”

“Jiripoca”, eu observava.

“Exato! Eu me sentia daquele jeito, e tipo, eu gosto da minha perna. Você acha que ele entendeu?”

“Churrasquinho.”

“É, ele nunca me entende! Ele não me ouve, esse é o problema!”

Eu e uma planta ali seríamos a mesma coisa.

Faz parte do trabalho, eu sei. Já aprendi a lidar com isso, mas como o ego dói!
Dói mais que a perna da Arizona Robbins.

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Paciente difícil, meu querido, eu sei que você está me odiando nesse momento

Eu falei algumas coisas pesadas na última sessão, mas você estava precisando.
Eu sei que você esperava de mim a aprovação total e o carinho infinito, e eu te frustrei, mas você precisa confiar em mim. Antes você me botava num pedestal imenso, e agora acha que eu não faço ideia do que eu tô fazendo, principalmente quando eu piso no seu calo.

Mas, de novo, confia em mim: pode ser dolorido, mas a pisada no calo foi muito calculada e é pra ser terapêutica.

Eu preciso te fazer me odiar de vez em quando, pra dar um gás no seu processo de mudança. Só se trabalha com emoções a partir de emoções, e nem sempre lidar com as emoções é fácil. É por isso que você me paga.

E, como qualquer ser humano, odeio que alguém não goste de mim. Se eu estou te fazendo me odiar, é porque te amo.

Aliás, eu estou até segurando de te cobrar por esses dois meses e meio de sessões atrasadas, primeiro porque eu sei que você pretende me pagar regularmente… Mas agora eu tô preocupado de você ficar puto comigo e não me pagar mais nada.

Só que, mais do que com o pagamento, eu me preocupo com você.

Porque mesmo eu precisando de oito horas de descanso toda vez que eu termino um atendimento contigo, eu acredito muito que você pode melhorar.

Aliás, Paciente, eu quero que você saiba que, por mais que essa carta seja direcionada a você, ela não é só sobre você. Se mil pacientes meus lerem essa carta, pelo menos novecentos vão ter certeza de que ela foi escrita exclusivamente para eles.

--

Paciente, querido, às vezes eu tenho raiva de você. Às vezes eu quero desmarcar a sessão. Tem dias que eu olho para o relógio a cada meia hora, pra ver que só passaram cinco minutos. Tem dias que eu quero te esganar.

E que isso não quer dizer que eu não goste de você. Só quer dizer que, de tanto acreditar que você pode ser mais feliz, eu me enrosquei e criei algumas expectativas também.

Não se preocupe, não vou lhe cobrar por expectativas minhas. Essas coisas eu trabalho com o meu próprio terapeuta.

Ele também tem um paciente muito difícil…

PS: Me desculpe por aquele dia que eu joguei uma almofada na sua cara quando você disse que voltou para o seu ex-namorado que te batia. Foi reflexo.

19.8.17

Amar é frustrar

Pais machucam filhos.

Essa é uma lei da natureza tão certeira quanto a de que pais botam filhos no mundo.
Duas certezas biológicas: a da reprodução e a da produção de traumas.

Agora, pobre do pai que acredita que pode se poupar de machucar um filho.
Todo pai que age cheio de dedos para evitar causar traumas futuros em seu filho não o faz pelo bem do filho: o faz pela vaidade de ser considerado um bom pai.

Ironicamente, os bons pais são odiados,
Bons pais incomodam, bons pais tem defeitos horríveis, bons pais dão a seus filhos o presente de, desde cedo, saber lidar com situações difíceis.

Um bom pai precisa criar, pelo menos, três bons traumas em seus filhos por semana.

Menos do que isso é negligência.

--

Filhos machucam seus pais.

Aliás, bons filhos machucam seus pais.

É necessário não ceder às suas expectativas e botar alguma ordem nessa bagaça. Sim, eles mandam em casa, mas eles não mandam na vida de todo mundo.
Muito menos na vida de um bom filho.

Quer ver um filho ruim? É aquele que vai com a mãe na igreja, que leva o pai ao supermercado e que deixa o salário inteiro em casa no fim do mês. É aquele que paga com a própria gastrite pela mania de limpeza da mãe.

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Um bom filho presenteia sua mãe kardecista com uma tatuagem do Belzebú, pra ela aprender a ter tolerância religiosa.

Um bom filho presenteia seu pai vascaíno com uma bandeira do Flamengo na porta do próprio quarto, pra ele aprender que seu amor pelo filho supera tudo.

Um filho ótimo aparece com um neto de presente para os pais assim que completa quatorze anos.
Ah, quanta coisa esses pais vão aprender com isso!

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É no embate entre pais e filhos que acontecem os maiores crescimentos nessa relação.
Na hora do colo e cafuné tudo é muito bonito, mas pobre da família que só tem amor e carinho.

Família serve pra entender a ambiguidade de amar e odiar a mesma pessoa.
Pra gritar no almoço de domingo e pra ferrar com todas as possibilidades
Pra ser tão ruim, tão ruim, a ponto de uma pessoa aprender que os horrores de ser independente e se ferrar na vida não são tão ruins assim,

Família serve pra ferir, pra pedir perdão e seguir amando.
Pra ensinar que, mesmo causando danos horríveis à vida de outro ser humano, é possível ser amado incondicionalmente.

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Pra chegar nesse nível de evolução, só soltando o cinto de segurança e deixando a própria personalidade correr solta, por mais que ela possa causar acidentes no trajeto.

Frustrar não é falta de amor. Frustrar é, justamente, amar.
Frustrar é mostrar a possibilidade de um mundo real e libertar a outra pessoa da infantilidade de viver desejando um mundo ideal.

Seja de pais para filhos, seja de filhos pra pais.

Todos feridos, todos frustrados, todos banhados de amor.

14.8.17

Pra quê serve a adolescência?

Nem todo choro é igual.
Existe aquele choro comum, um choro de cotidiano, pras angústias do dia-a-dia, e existe o choro sentido, vindo do fundo da alma.

Esse último é reservado para momentos de dor profunda que há de se guardar por muito tempo, ou para dores que estão guardadas há tempos e saíram do guarda-roupas pra arejar.

--

Esse choro sentido, quando vem de olhar pra trás, quase sempre é de alguma rejeição profunda de infância ou... de alguma coisa superficial da adolescência.

Dor de infância a gente respeita. Quer dizer, pra quê dar mais porrada em uma criança que está ali dentro de um adulto, sofrendo?

As de adolescência não.
"É bobo falar disso", meus pacientes dizem antes de contar do pé na bunda que sofreram aos dezessete e que não conseguiram superar.

"É um sonho irrelevante", eles falam, quando passaram a noite andando nus pelo colégio em que estudaram e sendo ridicularizados.

--

No fundo, no fundo, temos a ideia de que adolescentes são inúteis.

Eles não servem para muita coisa: comem muito, reclamam muito e cheiram mal. Não sabem controlar o próprio corpo e falam alto demais. 

Se você disser que não gosta de crianças, vai receber mais desaprovação pública que o governo do Temer, mas diga que não gosta de adolescentes e apenas escute "Aborrecentes, né?".

Nem os adolescentes gostam de adolescentes. 
Até quem já saiu da fase olha pra quem foi naquele tempo e fala "Puta merda, que franja horrível eu tinha, Como eu era sem noção."

Mas, assim como uma criança interior mora em cada um de nós, um adolescente incômodo está ouvindo a música mais dramática possível, no último volume, em algum quarto do nosso coração.

E, pra que a gente consiga aguentar esse barulho... Só arranjando um jeito de amá-lo.

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Se a infância é a fase da descoberta, a adolescência é a fase da vergonha.

Temos vergonha da nossa pele, temos vergonha da nossa voz.  Achamos que somos o centro do universo e temos pressa de mudar. 

Essa vergonha e sensação de reprovação constante é muito útil, porque impulsiona o pensamento de "Eu vou provar pra eles!" que faz uma pessoa chegar longe.

Depos disso, é uma vida inteira tentando consertar nossos defeitos de adolescência, pra depois de velhos pensarmos "Eu era feliz e não sabia". 

A única coisa boa de envelhecer é perceber que você não precisa sentir vergonha de si. 
Pra chegar nesse ponto, só elaborando bem a própria adolescência. Isto é, lembrando das vergonhas da época, olhando para como cresceu e lembrando que não, isso não é bobo.

E, se for o caso, deixando aquele choro sentido correr.

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Um adulto sem força pra viver é um adolescente que ainda está dando ouvidos às críticas que escutou. Nada recompõe mais uma pessoa abatida do que assumir como qualidade o que, quando jovem, ouviu dizer que era defeito.

Com generosidade, dá pra perceber que, justamente naquilo que a gente não tentou consertar, melhoramos muito. Que merecemos amor, mesmo ainda sendo desengonçados.

Que crescer é inevitável e bom, mesmo quando nos sentimos (e somos!) inadequados.

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De uma fase com tantas mudanças, só sai bem quem aceita que vai seguir sempre mudando. Cresce de verdade aquele que permanece adolescente. 

Sim, a adolescência é uma fase irritante e transitória, mas mudar é irritante mesmo - e não estar em transição é estar morto.

11.8.17

Quase-Perdão

Sempre achei estranho quando uma pessoa falava "Nunca consegui perdoar fulano!".

Acho que é de geração. Hoje o pessoal tem mais como lema  aquele "Eu só me arrependo do que eu não fiz" que as pessoas falam quando saem do Big Brother do que as velhas ideias católicas de pecado e arrependimento.

Não adianta. Chega uma hora em que você é passado pra trás ou alguém faz algo que te fere. 
Como o assassinato é um crime e esconder um corpo é muito difícil, o que sobra pra fazer?
Exercer o perdão.

Mesmo sem acreditar tanto assim nele.

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Começar a perdoar é muito difícil, porque a primeira fase do perdão é a raiva e nós somos um bando de frouxos. A gente acha que raiva é coisa boba, a gente imita a Sandy na capa da Capricho falando que "Ódio é uma palavra muito forte" e empurra tudo goela abaixo.

Mas a raiva é essencial para botar fim numa situação de dor. É preciso ter ódio, agressividade, vontade de matar, ou pior!, de casar a pessoa com o José Serra, porque a raiva é justamente a energia que permite botar ponto final em uma coisa e ir para outra.

Para perdoar , você admite que a pessoa que (traiu sua confiança? roubou seu namorado? sequestrou seu cachorro? deu o nome do próprio filho com o nome que você sonhava desde o jardim de infância?) foi escrotíssima, e confessa a si mesmo que não é um anjo de luz e que sim, está se mordendo de  ódio da pessoa pelo que ela te fez.

A raiva é a mastigação do perdão: se você tentar engolir alguma coisa sem ela, a situação vai ficar entalada na sua garganta por muito tempo. 

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A segunda fase do perdão é a mais difícil. É o "Quase-Perdão".

Quando você está no "Quase-Perdão", a situação já parece ter ficado pra trás e os pingos já parecem ter caído confortavelmente sobre os is, até que...

Você sonha com o desgraçado.
E, no sonho, você faz com um taco de beisebol o que normalmente se faz com creme antirrugas, e espalha porrada na cara de quem te machucou.


Quando você acha que já está tudo superado, você cruza com um carro igualzinho ao de quem te machucou e você imagina a cena se repetindo, dói tudo de novo, todos os sentimentos vem à tona e você chora no meio do estacionamento da Havan... 
Mas esquece tudo meia hora depois, porque afinal de contas, você já perdoou - ou quase.

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A terceira fase do perdão já não tem a ver com a outra pessoa.
Perdão mesmo, de verdade verdadeira, pra fechar o negócio, é dado a si mesmo. Você precisa se perdoar por ter sido trouxa o suficiente pra passar pelo que passou. 

A gente gosta de pensar que é o centro do universo, e que provocou tudo o que o outro fez com a gente, mesmo que tenha sido atropelado por um desconhecido bêbado. 

Por isso, mesmo sem ter feito nada, é preciso perdoar-se por ter provocado o problema. 

Por ter acreditado em quem não devia, por ter sido ingênuo e ambicioso, ou por repetir o mesmo padrão que, agora, olhando pra trás, estava na cara o tempo todo.

Se perdoar por ser humano e ter acreditado quando alguém ofereceu uma oportunidade de ganhar muito dinheiro rápido, e por ter deixado essa pessoa fugir com as suas economias para o Paraguai.

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Depois de tudo perdoado (a si mesmo) e esquecido (porém guardado para futuras referências), você pode retirar seu diploma de Perdoador Exemplar na paróquia mais próxima.

Não é uma conquista muito feliz, porque ela sempre vai partir de ter tido uma experiência ruim.
Infelizmente, perdoar não dá prazer nenhum. 

Mas, pelo menos, abre espaço pra que algum outro prazer aconteça.
Se você tentar tudo isso e o perdão não vier... Falha minha. 
Me perdoe.

6.8.17

Como acaba um relacionamento

Não são claros os termos do que faz uma pessoa se apaixonar por outra, mas a coisa fica muito mais simples quando falamos do que faz um relacionamento acabar.

Não é o fim da atração física, não é parar de ter conversas interessantes sobre os seus artistas musicais favoritos.
Isso não é munição suficiente.

Não é brigar, nem ter uma convivência difícil.
Isso ainda passa, se o dinheiro estiver entrando e o sexo continuar bom.

Um relacionamento só acaba quando uma pessoa entende que ela não é importante para a outra na medida que a outra é importante para si.
Pode demorar pra chegar lá, mas quando esse momento chega... Acabou de vez.

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Estava tudo bem enquanto a gente saía no soco de vez em quando, sabe?
A gente perdia a cabeça, mas encontrava o corpo.
Incrível como o corpo é muito mais maravilhoso do que a cabeça.

Estava tudo bem enquanto a gente se traía, sabe?
Não era bom, de jeito nenhum, mas dançar entre a culpa, a raiva e a paixão deixava meu cérebro mais ligado do que três baldes de café, e não saber se o que você falava era mentira ou verdade te dava um ar de mistério muito sedutor.

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Estava tudo bem quando você levou todo o meu dinheiro
Você chorou na minha frente quando eu te descobri. Você sofreu sinceramente e me abraçou.
Eu te percebi tão criança, tão sem saber o que fazia. Me senti tão íntimo de você, tão querendo te dar carinho.

Estava tudo bem quando cheguei em casa e vi minha avó no chão, com o olho roxo, depois de você discutir com ela sobre o jogo de gamão.
Sim, ela era a pessoa mais doce que eu já conheci, mas ela podia ter tido um pouquinho mais de paciência contigo.
Todo mundo se vai um dia, e pelo menos ela parecia tranquila deitada no chão com a dentadura cuspida pra fora do rosto.

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Agora, você ter ficado oito horas sem responder minha mensagem?

EU VI QUE VOCÊ ESTAVA ONLINE!
Não consigo compreender tamanho desaforo.

Fora da minha vida. Fora. Agora. Já.
Tudo tem limites.

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Não é por acaso que as pessoas falam como bebês quando estão apaixonadas.
Nós voltamos a ser crianças quando estamos no colo de quem a gente imagina que vai nos amar para sempre, como a mamãe amou.

Não é por acaso que as pessoas passam anos em análise falando sobre as falhas das suas mães. Uma mãe pode cometer o erro que for, mas não há filho que perdoe quando sente que a mãe não está lhe dando atenção.

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Belisque um bebê e ele vai esgarçar os pulmões chorando, mas continuar vivo.
Mutile um bebê* e ele vai sofrer horrores, mas passar a vida inteira tentando entender como isso veio de alguém que deveria amá-lo.
*por favor, não mutile um bebê

Agora, ignore um bebê e... se ele sobreviver, vai ser só pra te dar dezesseis golpes de faca quando completar dezoito anos.

Mentira, ele não vai fazer isso.
Mas que ele vai começar a namorar com alguém que ele vai querer matar quando não ganhar atenção... Isso vai!

Porque não tem graça nenhuma viver se não for pra ser o centrinho do universo de alguém.
Nem que seja só na ilusão.

3.8.17

O avião

Adoro andar pelo centro da cidade. Ele sempre me lembra do que realmente importa.

Hoje foi assim.
Era quase meio dia e eu estava esperando pra atravessar uma rua bem movimentada. Estávamos em uns vinte, todos aguardando na calçada por uma notícia do semáforo de pedestres.

Ninguém olhava pra ninguém.
A vida da cidade é dura. Todos estão ocupados, todos estão apressados, todos tensos. Ninguém se conhece, ninguém parece se importar.

Subitamente, uma moça quebrou o marasmo do momento. Desesperada, apontou pro céu e gritou:
"MEU DEUS, OLHA O AVIÃO!"

Eu dei um pulo.
Geral olhou pro céu. Os executivos colocaram a pasta na cabeça para fazer de boné, as senhoras baixinhas esticaram o pescoço, todo mundo pareceu acordar da rotina, na esperança da sorte de ter um acidentezinho aéreo pra colorir o dia.

Os próximos segundos passaram como se fosse em câmera lenta.
Olhei, olhei, e não vi nada. Pescoço por pescoço foi virando de volta, seus donos frustrados por não conseguirem ver nada. Olhamos de volta pra moça que deu o grito, pra ver se ela explicava o que tinha acontecido.

Ela apontou o dedo pra todos nós e disse:
"VOOU NO SEU CALÇÃO!

Ninguém conseguiu reagir de imediato. Ela gritou de novo:
"AAAAAAAAAAAAAAAAAAH!", como quem diz "Peguei vocês!".

O povo ficou PUTO. Eu comecei a rir.
O semáforo abriu e cada um seguiu o seu caminho.

Já falei que eu adoro andar pelo centro da cidade?
Ele sempre me lembra do que realmente importa.

20.7.17

Encontrando caminhos

Ele era uma constante distante nas sessões da minha paciente. Quer dizer, ele sempre aparecia nos fundos de alguma história, ou como motivação para algum comportamento, mas poucas vezes chegava a entrar no assunto como personagem principal.

Com algum tempo de prática, é fácil identificar quais são esses assuntos: na primeira menção, todo disfarçada de elemento casual, já se identifica a força de sucção desse buraco negro – que, em geral, a pessoa trata como assunto resolvido.

Felizmente, o inconsciente não deixa assuntos importantes passarem batidos, e nunca se sabe onde se encontrará com um caminho para chegar a eles.



Ana era particularmente dedicada aos seus sonhos.

A cada sessão, traz um pequeno calhamaço de papéis rabiscados, contando das jornadas intensas que fazia todas as noites.

Cada dia uma jornada, cada jornada abrindo uma porta para o passado, mas algo se mantinha entre quase todos os seus sonhos: caminhos perigosos, escuros, e a necessidade de chegar em algum lugar.



Depois de algumas sessões, no meio da interpretação de um sonho, Ana mencionou novamente, como quem não quer nada, o rapaz.

Era hora de atacar.

“Me fala mais sobre ele! Como foi a história de vocês?”, eu disse, também com um quê de quem não quer nada.

“Bem… Nós nos vimos por algum tempo. O sexo era muito bom, mas depois eu entrei em uma crise terrível. Eu quis morrer. Ele tinha namorada, sabe?”

“Isso te incomodava?”

“Muito. Eu estava no motel com ele, um dia, quando me dei conta do que estava fazendo. Eu não era aquela pessoa, eu quis morrer. Cortei todo o contato com ele, mas foi terrível. Fiquei um bom tempo sofrendo. Me sentia culpada de ter feito ele trair a namorada.”

Deixei passar a oportunidade de perguntar sobre a culpa. Ainda não era hora.
“Você ainda pensa nele?”

“Não muito. Mas tem uma coisa estranha… Ele me levava para tomar café, em um café desses mais arrumadinhos, de rico. Eu ficava impressionada, aquele mundo não parecia ser meu, eu ainda na faculdade, sem grana… Até hoje eu procuro por esse café, acredita? Eu sei que fica perto de onde eu moro hoje, mas eu já passei mil vezes pela rua e não encontro. Nunca mais achei onde fica, não é engraçado?”

Ela falou do assunto rapidamente, e eu não quis me prolongar muito.
Quando a ferida dói muito, a gente limpa com toquezinhos delicados em vez de esfregar com bucha.





Algumas sessões depois, Ana chegou ansiosa.

“Você acredita que ele me ligou? Anos sem falar com esse homem, e ele me ligou do nada! Ele perguntou alguma coisa sobre trabalho, mas parecia que era desculpa. Eu aproveitei a situação e pedi para ele me responder algumas coisas.”

“Algumas coisas?”

“Perguntei se ele tinha traído a namorada novamente. Você acredita que sim? E, se eu não tivesse falado pra ele que não tinha interesse, teria traído novamente!”

“Como você se sentiu?”

“Aliviada. Livre. Não fui eu que provoquei a traição. Ele teria feito isso de qualquer jeito, com qualquer pessoa. Foi como se eu não tivesse mais culpa.”

Ana contou a história com a alegria de quem conquista algo importante. Continuou:
“Ah, e você acredita que eu achei o café essa semana? Estava passando pela rua, tão pertinho de casa, e finalmente encontrei o café novamente, depois de tanto tempo!”

Como o inconsciente é lindo. Só depois de se livrar da culpa de levar um homem para o caminho da traição naquele café, ela pode encontrar o caminho para lá novamente.



Sonhou, dessa vez, com caminhos fechados.

“Eu subia escadas, mas não conseguia passar por elas. Trocava de corredor e isso se repetia, até que cheguei em um lugar alto e bonito, e eu via um pôr do sol lindo. Eu ficava contente.”

“Você sente que chegou num lugar positivo?”, perguntei.

“Sinto. Mas então, eu me virei e encontrava um elevador que...”

O sonho continuava. Sua história ainda não acabava ali.
Ainda assim, ela já havia encontrado um caminho.


(Alguns nomes e situações foram alterados para preservar a identidade do paciente, que autorizou a publicação desse texto.)

17.7.17

Em semi-círculo

Você já assistiu essa cena:
Um educador bem intencionado, que quer que seus estudantes se engajem um pouco mais, junta todos eles numa sala e avisa:
"Hoje a aula vai ser diferente!", fala como se isso fosse algo que os alunos gostam de ouvir, "por favor, façam um semicírculo."

Depois de meia hora de gente arrastando cadeiras, ele decide que é hora de começar.
"Hoje nós vamos discutir uma questão polêmica. Aborto!"

Vinte minutos depois, começa a terceira guerra mundial.

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Já estamos tão acostumados com isso que parece que o bate-boca é parte essencial de qualquer discussão.

Talvez o erro seja estarmos tentando avançar logo para a questão polêmica, sem olhar para o que vem antes dela (justamente onde podem haver mais pontos de convergência entre os dois lados da conversa).

Ser a favor ou contra a legalização do aborto (ou da maconha, ou reforma trabalhista, o assunto que for) é a ponta de uma lança muito comprida. Muitas perguntas precisam anteceder essa. Não adianta - mesmo com as melhores intenções - juntar pessoas para discutir aborto sem antes discutir profundamente sobre temas muito mais básicos do que ele, como a liberdade individual, liberação sexual, o papel da mulher na sociedade...

Mas a gente pula etapas, e quando vê... a discussão complexa que um tema como polêmico requer vira uma briga infantil com gente gritando "Assassino de crianças!" de um lado e "Você odeia as mulheres" do outro.

Temos pressa demais para chegar no final das questões, e não querer perder tempo com o básico só atrapalha nossa capacidade de empatia.

Até uma discussão precisa de tempo e preparo para começar.
Se botar uma criança com bicicletas de rodinhas pra fazer manobras radicais, o tombo é certo.
E olha, pode até ser divertido de assistir... mas não vai ser produtivo.

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Lembro de uma discussão que tive em sala de aula, ainda na faculdade de psicologia.

Uma aluna evangélica fez alguns comentários preconceituosos bem primários sobre homossexualidade.

A professora, um gênio, doutora pela USP, ativista na área há décadas, tentou argumentar. Um argumento de cá, uma resposta de lá, e... a professora não aguentou.
Mandou a menina embora da sala. A turma, que estava em peso do lado da professora, murchou. A atitude só serviu pra reforçar a ideia de que quem é liberal é intolerante.

Acontece. Mesmo uma pessoa muito preparada acaba perdendo a cabeça.
Uma pessoa super educada e capaz de aprofundar-se nos assuntos a que se dedica não é obrigada a perder tempo escutando argumentos de gente que não quer ouvir...

Mas, se não for pra ouvir os argumentos do outro lado, pra quê entrar num debate?

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Só existe um modo de sobreviver ao Método SuperPop de Abordagem a Assuntos Polêmicos, e é tratar o outro lado com a paciência e a didática de um professor de jardim de infância.

Deixar o outro lado berrar um pouquinho e responder, na voz mais calma do mundo, um argumento extremamente simples, apelando pros fundamentos mais básicos da questão. Pelo menos você aparenta ter um pouco mais de classe. 

Ser um pouco mais frio e condescendente, tirando o elemento emocional da conversa, parece ser errado, ainda mais quando estamos falando de um assunto que mexe muito conosco. Mas só assim se coleta o benefício de conseguir permanecer plácido enquanto o outro lado esbraveja sozinho até conseguir perceber, sozinho, que está sendo ignorante.

Senão é o Jean Willys cuspindo no Bolsonaro tudo de novo. 
Catártico, mas superficial.

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Saber dar um passo para trás e fazer a pergunta por trás da pergunta é uma das habilidades mais importantes de se aprender na vida.

Conter o impulso de erguer a voz e perguntar para si mesmo "O que eu quero com essa discussão?".
É ganhar o argumento? É promover um ponto? É que a outra pessoa deixe de te ver como um inimigo? É parecer malvado?

Com essa resposta nas mãos, você vai saber direcionar seu argumento para onde você deseja, em vez de para onde a emoção manda.

Se o outro lado ainda assim não quiser te ouvir... Tente ignorá-lo.
Se não der... Desce a porrada. Violência mesmo. Conflito nem sempre é tão ruim assim.

Depois marque um novo debate. 
Dessa vez, sobre a importância da paz.

8.7.17

Está vindo

Quem passa a vida pulando entre uma cordinha de sanidade mental e outra, como um Tarzan tentando não cair num matagal de loucura, sabe de duas coisas: um, a próxima crise sempre vem; e dois, você pode prevê-la.

Os sinais são claros.

Você começa a sentir uma coisa que não é bem a crise, mas sim o prenúncio da crise, como uma dorzinha no pescoço precede uma crise de enxaqueca.
Fecha os olhos e enxerga, de leve, a imagem de si mesmo na cama, como se já estivesse com o pensamento de terror ao pensar em levantar no outro dia - mas o pensamento ainda não está lá.  Você só tem a imagem dele.
Sente o seu cheiro. Escuta seus passos.

A crise vem, você sabe que ela vem.

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Os pensamentos negativos surgem e desparecem como os faróis de um carro que cruza o seu caminho à noite. Sussurros se divertem ao lhe torturar dizendo "está tudo dando errado" no seu ouvido pra depois sair correndo.

E você ainda está bem.
Você está funcionando, você ainda consegue acreditar que o próximo dia pode ser bom.

Mas a crise vem, você sabe que ela vem.

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Você tenta fazer algo a respeito.

Tenta agendar uma saída com os amigos, uma corrida no parque, um macarrão com queijo e um copo de vinho, qualquer coisa que tire a sua cabeça da sensação de que a qualquer momento um avalanche vai acontecer te soterrando em toneladas de depressão acumulada.

Tenta dizer pra si mesmo "coisa da minha cabeça". Tenta racionalizar e pensar que, quem sabe, perceber que esses sinais todos são sinais pra você se controlar um pouco mais e evitar que a crise venha. Não é pra isso que serve aprender a ler os sinais?
Ainda assim, você se prepara.

Porque a crise vem, você sabe que ela vem.

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E você resiste.

Pega um livro e folheia como se conseguisse se enganar que está lendo.
Escova os dentes, toma um banho. Evita olhar demais o espelho, pra não começar a se achar uma pessoa desprezível ainda.
Ouve uma música, joga paciência. Tenta ganhar tempo.

Porque a crise ainda não começou, mas você sabe que ela vem.
E ela está vindo.

Pelo menos não vai ser de surpresa.

5.7.17

Não me calo

Passei os últimos meses com um caco de vidro enfiado no pé.

Meu hábito de quebrar copos e meu hábito de caminhar descalço se uniram e, não sei bem quando, comecei a sentir alguma coisa estranha no meu pé.

Toda vez que eu pisava, doía.

Eu não entendia o motivo até fazer a matemática: É claro que eu devia ter pisado em algum caquinho bem pequeno e aí continuei a caminhar como se nada tivesse acontecido.

Como a dor começou pequena, eu não dei bola.

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Passei as semanas seguintes me gabando da minha dor pras pessoas. Alguém comentava "Ai, tô com azia" e eu já respondia na lata:
"E eu, que tô com um caco de vidro há meses no meu pé e nem ao médico fui?".

Eu mesmo me surpreendia com a minha resistência, porque o bicho foi doendo mais e mais e eu não estava nem aí. Ia pra academia, saía correr, andava torto mas usava meu pé doendo como uma medalha de guerra.

Até tentei abrir o pedaço de pele inchada com um estilete pra ver se conseguia tirar o caco, sem sucesso.

Cancela o budismo, gente, porque eu venci a dor humana.
Eu sou muito forte.

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Hoje minha amiga comentou que precisava pegar um atestado e eu aproveitei a companhia para ir ao médico também. Comentei do caco de vidro na triagem com a enfermeira e já recebi uma pulseirinha dizendo que meu caso tinha alguma urgência, apesar de não muita.

Afinal, não era qualquer coisinha, meu caco de vidro de estimação.

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Cheguei na sala e repeti pra médica toda a história: provavelmente-pisei-num-caco-de-vidro-e-só-reparei-depois-que-tinha-uma-cicatriz-por-cima-mas-agora-tá-doendo-bastante-afinal-até-heróis-sofrem.

Ela me pediu para tirar o calçado e examinou.
Pediu onde era.

Apertou.
Eu gemi.
Apertou de novo.
Eu urrei.
Apertou de novo.
Eu falei PISA MENOS, DOUTORA.

Ela parou de apertar. Olhou pra mim com cara de "Não acredito que tô gastando meu tempo com isso" e disse:
"Você tem um calo."

Quê?
"Isso é um calo. Você tem um calo no pé, só isso."

As minhas perguntas seguintes foram algo entre "por que isso dói tanto?" e "mas isso mata?".

Enquanto isso, ela procurou no Google um nome de um creminho esfoliante da Granado que, segundo ela, resolve tudo. Aconselhou colocar um protetorzinho na palmilha e... pronto.

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Bem, tem algumas pessoas que eu preciso me retratar.
Eu não tinha um caco de vidro no meu pé, ok? Desculpa aí.
Como diria a Folha de São Paulo, erramos.

Mas sabe na Bíblia, que tem todo um mistério porque o apóstolo Paulo dizia sofrer de um "espinho na carne", que as pessoas não sabem até hoje o que é?
Aí inventam histórias desde ele ser homossexual até que ele tinha lepra?

Eu acho que ele tinha um calo no pé mesmo.
Aquelas sandalinhas romanas não deviam ser muito confortáveis.

Isso explica porque ele dava tanta lição de moral, também, porque eu fiquei insuportável com essa experiência.

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Quer dizer, não é porque minha dorzinha veio de uma coisa banal que eu não vou usar ela filosoficamente pra me sentir melhor que os outros.

Todo mundo que eu encontro eu já arranjo um clichê pra meter na conversa.
A pessoa ali, paradinha, e eu já chego puxando assunto:
"Tomando café?"
"Sim", diz a pessoa.

Eu já respondo julgando.
"Bem... cada um sabe onde o calo aperta, não é?"
"Como?"
"Olha, olha! Não pisa no meu calo!"

A pessoa acha estranho.
"Cê não tá falando nada com nada, Flávio"
"Ah, é? Antes de me julgar caminhe um quilômetro com meus pés!", e saio revoltado.

Podem reclamar o quanto quiser.
Não me calo.

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