24.11.17

Aceitações

Nós, que andamos pelo mundo acordando cedo, andando com nossas próprias pernas e reclamando quando temos gripe, somos um seleto grupo de abençoados. Tem todo um submundo de sofredores em tempo integral que, por conveniência, deixamos esquecidos num canto da memória.

São os doentes, os abandonados, os esquizofrênicos, os pulmões-de-ferro, essa multidão que a gente usa só nos momentos da nossa própria dor, pra relativizar nossa situação e se convencer que não está tão ruim assim.

O engraçado é que, no grupo dos que estão nesse sofrimento grandão, bruto, tem muita gente que dá show na gente sobre como viver com tranquilidade.

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Não sei explicar o motivo, mas quem teve a oportunidade de conviver com alguém com uma doença terminal ou muito grave sabe como é a transformação que um sofrimento desses faz com a pessoa.

Ninguém é herói e ninguém lida com isso sem muita briga, mas em alguns momentos surge uma aceitação que só se atinge num estado desses. É algo um passo além da resignação, como se a aceitação fosse tão profunda que saísse de um mero "Ok, isso está acontecendo na minha vida" e fosse para um "Muito bem, é isso que eu sou agora, e eu vou honrar esse papel que eu recebi".

Então, de alguma forma, misturando um senso de sacerdócio naquele sofrimento todo, a pessoa adquire forças suficientes para seguir o baile sem negar a situação ruim em que está.

Não gosto da palavra "missão" porque ela parece tentar convencer alguém que está muito doente de que ela tinha mais é que sofrer mesmo, mas parece que quem lida bem com problemas tão graves acaba encarando dessa forma mesmo.

Algo como um "Se é isso que me resta, deixe-me enfrentar com alguma dignidade pelo tempo que eu tenho."

Um "aceita que dói menos", se for resumir.

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A gente subestima muito a quantidade de coisas na nossa vida que somos condenados a aceitar.

Não escolhemos nossa aparência, além do corte do cabelo e, tendo grana, aquilo que um cirurgião plástico consegue fatiar. Não escolhemos nossa altura, não escolhemos nossa aptidão física, nem a maior parte dos aspectos de nossa saúde, nem o ambiente em que crescemos, nem nossa família, nem nada.

Nós somos o amontoado de todo o aleatório que fez a gente parar no mundo. O personagem vem pronto.

Daquilo que podemos fazer com aquilo que somos, podemos tirar um pouco mais de liberdade, mas o resto? Só podemos aceitar.

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Viver é aprender a aceitar imposições e mudanças. Só isso.
Por isso que a adolescência é o capeta que é. Todo mundo ao redor parece estar bem ajustado e bonito, e você com aquele pescoção que cresceu antes do resto do corpo, aquela espinha gigante na testa.

E aí você fica com raiva. Chora, culpa os pais, reza, muda a postura tentando disfarçar, faz o diabo.
Mas não adianta: aquilo no espelho é você.

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Ficar adulto não ajuda em nada, porque envelhecer é brincar um jogo de aceitação em que ganha quem aceita que perdeu.

As mudanças vão aparecendo aos pouquinhos, sorrateiras, e você precisa atualizar a listinha daquilo que faz parte de você a cada dia. Você se surpreende quando olha no espelho:

"Essas bolsas debaixo dos olhos não vão mais embora não? Que merda." - respira fundo e tenta aceitar - "Muito bem, é isso que eu sou de agora em diante. Uma pessoa com olheiras e bolas profundas sob os olhos."

Isso pra tudo:
"Joelhos que doem o tempo todo? Bem vindos! Esse sou eu agora: a pessoa que eu era ontem, somada a um par de joelhos que doem o tempo todo."

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É quase como se fosse um guichê de desgraças:
"Aceita que agora você não pode mais dançar como na juventude?"
"Aceito."
"Aceita que agora sua visão não é mais a mesma de antes?"
"Aceito."
"Aceita que sua mãe morreu e você nunca mais vai comer a polenta com queijo que ela fazia?"
"Aceito."
"Aceita esse traste como seu legítimo esposo?"
"Manda ver."

Você envelhece, merda acontece, você aceita.
A cada dia você incorpora o novo e luta pra aceitar que o personagem que você interpreta mudou.

E tem alternativa?

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Tá vendo como é fácil esquecer de quem tá com um problema grave mesmo?
Em dois parágrafos eu fui de pensar em quem tem uma doença terminal pra uma lamentação sobre como é ruim ter rugas no rosto.

Mas a verdade é que ninguém precisa de uma doença grave pra adquirir a sabedoria de quão bonita e impositiva é a missão de ser aquilo que é, mesmo quando você é alguma coisa de que não goste.

É a única forma de dar sentido à vida: tentar conciliar as sinas às quais fomos condenados em um quebra cabeça que, de alguma forma torpe e esquisita, resulte bonito.

Se não resultar bonito, a gente aceita também.

14.11.17

Rituais


Rituais são necessários para marcar qualquer fim de fase na vida. É com o ritual do casamento que a gente se despede da vida de solteiro, com o ritual do velório que a gente se despede da vida, e com o ritual de fazer uma piada machista sem pensar que a gente se despede de metade dos seguidores que tem no Facebook.

Pra marcar o fim da infância, há vários rituais. Os judeus tem seus bar mitzvahs, as meninas tem suas festas de debutantes, meus colegas no interior tinham suas primeiras vezes com uma cabra... Enfim, o ritual varia.

Mas, se para as meninas a menarca inaugura a vida adulta, para os meninos, o fim oficial da infância é o momento exato em que começa a feder o sovaco.

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Meninos são desligados, meninos correm o dia todo, meninos fazem movimentos intensos com o braço direito debaixo do cobertor.
Logo, meninos suam.

Mas meninos também tem muito pouca autopercepção, então demora um pouco até se tocarem que precisam passar um desodorantezinho todos os dias. Os piores odores registrados no mundo são os de cadáveres abandonados, de enxofre queimado e de vestiário masculino cheio de adolescentes.

Alguns demoram pra perceber que o desodorante se passa antes, e não depois, de estar encharcado de suor. Alguns acham que, se suor é um cheiro ruim, desodorante só pode ser um cheiro bom, e por isso se banham em uma piscina olímpica de Axe achando que vão abafar.

Aos poucos, eles vão se acostumando, os hormônios descansam e o fedor vai embora. Mas há homens que passam uma vida inteira sem perceber que fedem. A estes, falta o ritual. São perpetuamente imaturos.

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Na minha família, tínhamos algo além do fedor para marcar nossa saída da infância: acne!

Quase todo mundo tinha muita espinha na adolescência. Os álbuns de família parecem ter sido atacados traças armadas com uma caixa de alfinetes, mas não, é só o jeito que as nossas peles ficaram depois de tanto espremer espinha e cravo.

Eu devia ter uns treze anos, fui lavar as mãos antes de almoçar e reparei que estava com uma espinha enorme na testa. Enorme, como se eu estivesse na metade do processo de virar um unicórnio, como um Hulk que se transforma quando se sente fofo.

Espremi a bicha.

O plotz que uma espinha faz quando explode é um dos maiores prazeres da vida, mas essa em particular tinha muito mais do que o plotz. Ela continuou inchada depois de espremer, cheia de sangue dentro.

Eu, como um homem do campo determinado a secar uma vaca, espremi aquela espinha até o último litro. Dava pra ter salvado um hospital infantil inteiro com a quantidade de sangue que saiu daquela espinha.

Como um sábio, limpei o sangue na toalha branca do banheiro e fui almoçar.

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Minha mãe urrou quando viu:
"Quem diabos sangrou na toalha de rosto inteira?"

Era minha hora de ganhar atenção. Fiz minha melhor cara de coitado e falei:
"Fui eu, mãe..." - pela minha voz, eu estava morrendo de hemorragia - "...eu espremi uma espinha e saiu muito, muito sangue."

Não sei bem o que eu esperava, mas talvez algo como abraços, apoio e gritos de "Você é nosso guerreiro! Você sobreviveu a toda essa perda de sangue!", ou "Meu Deus, filho! Evite ficar com anemia, coma urgente essa barra de chocolate!".

"Se você fizer isso de novo eu vou arrancar seu couro! Que nojo!", disse a minha mãe. Eu sinceramente não entendi qual era o problema. Ela percebeu.

Mães precisam ser ridiculamente didáticas às vezes., então ela me explicou:
"Se alguém limpasse a menstruação na toalha, cê ia gostar?"

Ah, faz sentido. Que vergonha.

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Eu era bem perdido para algumas coisas, mas o desodorante estava sempre em dia, inclusive porque eu era uma criança viada que vendia Avon. Já fedi por muitos motivos, mas nunca por falta de desodorante.

Até ontem.
Saí do banho antes de ir trabalhar, peguei o desodorante e... acabou. Só deu para uma axila. O outro sovaco saiu desprotegido.

"Tudo bem", pensei, "não vou andar muito e posso comprar outro hoje à tarde".

Acontece que justo ontem eu me distraí dentro do ônibus e desci super longe de onde eu precisava ir. Caminhei quarenta minutos, encharcando um lado da camisa enquanto o outro continuava intacto.

Então, me perdoem se eu estou meio fedido.
É um ritual importante pra mim. É hoje que eu amadureço.

13.11.17

Faxineiras

Eu só me senti verdadeiramente próspero na vida quando chegamos num ponto em que não estávamos mais dando conta da limpeza da clínica sozinhos e precisamos contratar alguém pra vir a cada duas semanas fazer a limpeza pesada.

Foi assim que conheci a Lázara.
A Lázara é uma máquina, uma grande máquina alta intensidade, que mesmo depois dos sessenta anos limpa uma casa grande em menos de três horas, usando só um balde, um pano e um rádio AM ligado na estação evangélica.

Reclamar, ela só reclamava de não poder vir mais cedo fazer a limpeza. Começar às oito era muito tarde pra ela, que preferia vir antes para poder emendar outra limpeza depois.

Aliás, um horário com ela era quase impossível de conseguir, porque ela sempre foi disputada pelo bairro todo - e ela nunca parava de trabalhar. Me contaram que ela tinha até uma casa na praia, como se fosse um escândalo uma diarista ter uma casa na praia.

Um dia eu até perguntei pra ela se era verdade:
"Lázara, você vai viajar no feriado?"
"Sim! Vou pra minha casinha na praia!"
"Que bom, descansar um pouco faz bem..."
"É, eu não descanso muito. Primeiro eu tenho que limpar a casa lá, depois eu tenho os meus clientes daqui que também vão pra praia no feriado, então quando eu vou pra lá eu limpo a casa de praia deles também..."
"E aí você descansa?"
"Não, aí eu vou aproveitar pra levantar um muro na frente de casa, que tá precisando..."

Não ouse se chamar de workaholic num mundo onde existe a Lázara.

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O preço que a Lázara pedia pela faxina era tão pouco que a gente deu um aumento pra ela à força, pra conseguir dormir sem peso na consciência.

A diária não era só pra faxina, era também um ingresso pra presenciar a força daquela mulher. Mesmo baixinha e aparentemente frágil, ela levantava móveis pesados como se fossem plumas, usando uma mão só, enquanto a outra mão passava o rodo.

Diz a lenda que ela já levantou uma jamanta de duas toneladas pra limpar uma mancha de óleo que estava embaixo.

Enfim, Lázara era um monstro, uma maravilha de pessoa, daquelas que a gente sabe que não vai saber viver sem.

Até que acontceu de precisarmos viver sem. Ela pediu pra liberar o nosso horário quinzenal com ela, porque ela estava precisando fazer um tratamento na coluna (quem diria que levantar coisas com dezoito vezes o peso do corpo fazia mal pra coluna?) e esse era o único horário que o médico tinha.

Nos outros dias, ela seguiria trabalhando. O motivo pra ela fazer o tratamento? Conseguir pegar o bisneto no colo.

Bisneto, gente, bisneto!

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Saiu a Lázara, entrou a dona Zeli. Outra sessentona.

A Lázara não é dona Lázara porque não gosta, e porque a energia dela já diz quem é que é a dona logo de cara. Já a dona Zeli precisa do dona, porque ela inspira uma coisa mais calma, mais maternal.

Ela não limpa as coisas com a voracidade da Lázara. Ela é a calma em pessoa, passa pano como quem faz um cafuné no chão, leva os panos sujos pra lavar em casa, com cuidado, e traz dobradinhos na limpeza seguinte.

Ela mesma puxa o assunto:
"O meu negócio é criança, sabe?"
"Ah, é, cê cuida de criança também?", perguntei.
"Não, eu sou professora aposentada."

Fiquei surpreso.
"Mas agora ninguém mais quer me contratar. Tô velha. Eu trabalhei na rede de ensino por anos, sou especialista em educação de crianças com deficiência", disse ela como se isso não fosse nada, enquanto esfregava a pia da cozinha, "só que agora não presta pra nada".

Doeu meu coração.

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É por isso que me dá vontade de bater na cara de quem fala "Eu cumprimento da faxineira ao presidente" querendo mostrar o quanto é uma boa pessoa.

Inclusive, se tem alguém com mais honra que o presidente, são essas duas mulheres. Quer dizer, todo mundo tem mais honra que o Temer, mas principalmente elas.

Inclusive, gostaria de fazer uma proposta: Vamos dividir o governo do Brasil entre a Lázara e a dona Zeli.

As duas seriam co-presidentes, e teriam uma ditadura temporária.

A Lázara esfregaria a cara de cada membro do congresso com água sanitária e seria responsável por deixar todas as esferas de governo limpinhas, pra depois organizar.

A dona Zeli gerenciaria a educação e as questões diplomáticas. Seria ela a responsável pelo ousado projeto de tratar gente como se fosse gente - algo que o nosso governo atual jamais faria.

Recomendo fortemente que a gente implemente essa forma de governo.
Minha única condição é que, a cada quinze dias, uma delas seja liberada pra fazer faxina aqui na clínica.

Aí sim, teremos paz.

7.11.17

O fofo

Minha amiga me ligou revoltada.

Ela tinha arranjado um cachinho dos tempos de ensino médio, um menino que estava doido por ela. Ela, recém-saída de um relacionamento mal-sucedido, não estava dando muita corda.

O menino insistiu.

Mandava mensagens românticas, três bons dias por dia, perguntava como estava, oferecia massagem - todo grudento oferece massagem - e falava todos os dias que queria uma chance de levá-la para sair.

Quanto mais ela dizia não, mais ele mandava bom dia. O recorde foram seis bons dias em duas horas.

"Ele não deve ser tão ruim! Ele é fofo!", eu aconselhei.

Minha amiga, tadinha, esqueceu o fato de que meus conselhos são piores do que uma caxumba que desce pras bolas e saiu com ele.

Imagina, se o menino não foi um monstro?

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Não, não foi. O rapaz foi um anjo com ela. Passou horas ouvindo ela falar, elogiando a roupa, os olhos, o cabelo, a atitude.

Foi o genro que a mãe da minha amiga pediu pra eu ajudar ela a encontrar.

No dia seguinte, ela me contou com uma esperança que poucas vezes eu tinha escutado em sua voz:

"Acho que eu vou dar uma chance pra ele. Não senti muita firmeza, mas ele me tratou tão bem!"

Marcaram um segundo encontro.
Já num clima romântico, marcaram para sair com um casal de amigos em comum.

Eu já estava exultante, torcendo pra dar zebra e minha amiga ficar com o menino que tanto tinha desprezado.

(Minha vida romântica atual tem sido vivida através da vida dos meus amigos. Meu coração, hoje, só tem um daqueles arbustos de filme de faroeste girando em falso. Quando alguém tem uma história interessante, eu acabo me empolgando.)

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No dia do encontro, atendi o telefone e a voz dela atingia decibéis nunca atingidosp ela voz humana antes:

"Você acredita que eu tava pronta, maquiada, esperando ele me buscar, e ele me manda mensagem falando que estava cansado e não ia? Que, se eu quisesse, podia ir na casa dela pra gente dormir junto?"

Não sei quem estava mais frustrado, ela ou eu. Eu tinha botado tanta fé naquele moço, ele me dá uma dessas?  Deu vontade de ligar pra ele e dar uma bronca.

"Se a sua estratégia é a fofura, amigo, seja fofo até o final. Se você for dar uma de difícil na última hora, vai morrer na praia. Na areia fofa, como era pra você ter sido."

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"Ah, mas ele é um fofo com momentos de cuzão. Continua fofo!"

Não é uma questão matemática. É uma questão de consistência.

O que mantém muita gente em relacionamentos com cuzões (estou usando essa palavra porque é o termo técnico utilizado pela minha linha teórica favorita, a psicanálise de boteco) é que o cuzão não é sempre cuzão.

Inclusive, o cuzão consistente merece algum respeito. Ele é estúpido sempre, ninguém espera algo diferente.

O pior cuzão é o que consegue peidar cheiroso de vez em quando, o cuzão ocasionalmente fofo. Ele dá suas mancadas, mas depois te dá uma noite ótima, um chamego no pescoço inigualável, um afeto geralmente reservado a filhotinhos de Golden Retriever.

De novo, o problema não está no defeito: está na inconsistência.

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Toda essa história e os palavrões todos são para defender a importânia de alguma consistência emocional.

Todo mundo tem seus momentos de oscilação, mas o caráter e a evolução acabam sendo avaliados pela média geral - e essa média depende muito de como você age com constância.

Uma pessoa não é boa por ser boa o tempo todo, nem por ser incrivelmente boa tudo de uma vez.

Uma pessoa é boa quando é consistentemente boa. Ela não precisa ser perfeita, mas o ideal é que você consiga apostar que, a qualquer momento, você pode aparecer de surpresa e flagrá-la sendo boa, e que a margem de erro não seja tão grande.

É aí que você consegue confiar nela, quando sabe bem que tipo de coelho sai daquele mato.

Água mole em pedra dura só fura enquanto continuar sendo líquida.

27.10.17

A culpa não é sua


Quem procura terapia e lê textos sobre saúde mental na internet geralmente é o tipo de pessoa responsável demais, que quer acertar em tudo, que não quer incomodar, que sente que precisam fazer alguma coisa para receber amor.

Esse texto é para vocês, neuróticos queridos.
Pessoas espertas, que viam os outros falando mal de gente que era folgada, e assumiram desde cedo muita responsabilidade.

Vocês que são maduros. Que sabem cuidar de si. Que resolvem qualquer situação. Vocês que mal podem ver uma responsabilidade que já vão assumindo.

Vocês estão errados.

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A gente fica desse jeito quando tem a sensação de que, se não cuidar de tudo o tempo todo, as coisas vão dar errado.

É difícil abrir mão desse ponto de vista, porque viver assim funciona!

Você vai bem no trabalho. Seu chefe te adora. Não te dá um aumento há seis anos, mas sabe que você entende a situação da empresa. Não tá fácil pra ninguém, e você assume a responsabilidade de apertar os cintos por ele.

Sua família pode contar com você. Seus irmãos tem a vida deles, então é você que precisa levar sua mãe para todas as consultas médicas. Você reclama, mas se você não fizer, quem faz?

Você está cansado, mas mora bem, não tem tanta coisa dando errado na sua vida (pelo menos comparado aos seus parentes e amigos menos responsáveis) e esse é a vida, não é?

Até que você surta.

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Quem já teve uma crise de ansiedade sabe do que eu tô falando.

É tanto controle, é tanta coisa pra resolver, é tanta pressão de todos os lados que o corpo começa a gritar "PERIGO!".

E é um perigo real, porque como é que o mundo vai andar se você não estiver cuidando de ABSOLUTAMENTE TUDO O TEMPO TODO?

Essa sensação é destruidora: você passou a vida inteira tentando cuidar pra que as coisas não desabassem, e elas acabaram desabando por excesso de cuidado.

Você se perde. O corpo não dá mais conta, as emoções não conseguem mais se organizar. Por falta de opção, você precisa largar suas responsabilidades.

E qual é o tamanho do tapa na sua cara quando você vê que, mesmo sem você cuidar de tudo, o mundo segue em frente.

Você não era tão importante assim.

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Então confessa aqui pra mim, meu colega neurótico: Você sempre teve inveja de quem levava a vida sem se preocupar.

Sempre quis aproveitar a vida como aquele seu irmão que não fazia a tarefa de casa quando sua mãe mandava, levava bronca e ainda assim não estava nem aí.

Sempre teve inveja da sua amiga que não se importava em se arrumar toda pra encontrar o namorado, enquanto você fazia o maior esforço pra estar apresentável, e ainda tinha mil homens no pé.

Ou do colega que saiu tocando violão em vez de fazer faculdade, e até que tá se dando bem na vida.

Essas pessoas que vivem a vida sem culpa nenhuma, enquanto você se culpa de cada passo que dá fora do caminho estabelecido.

Posso falar uma coisa? A culpa não é sua.

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Amigo responsável, você sabe que tem gente se aproveitando do seu desejo de deixar tudo na mais perfeita ordem. Gente que vai tentar te fazer se sentir culpado se você não fizer até a parte deles do trabalho.

Mas se as coisas derem errado quando você abrir mão de ser o único responsável por elas, isso quer dizer que elas já estavam desorganizadas desde o começo.

Talvez você tenha até atrapalhado a boa organização dessas coisas quando assumiu todas as responsabilidades pra si mesmo.

Seja responsável, mas seja responsável por ir até onde pode. Seja responsável por dar limite pros outros, e permitir que eles cumpram com a responsabilidade que é deles - não sua!

Deu errado? Problema deles. A culpa não é sua.

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Não se preocupe, você não vai se transformar num vagal. Sua responsabilidade não vai sumir completamente.
É questão de estrutura. Você é formiga, não é cigarra.

O que não significa que você não pode relaxar um pouquinho e agir como se os problemas do mundo não fossem todos com você. Você pode, inclusive, usar sua neurose pra planejar bem certinho como você pode se divertir e ainda assim ter uma aposentadoria saudável.

Use sua neurose ao seu favor. As cigarras podem até cantar o dia todo, mas só as formigas sabem o que é realmente doce.

23.10.17

Aumentando o volume

Depois de um debate em sala de aula na faculdade, uma professora me chamou - uma professora incrível, que eu respeito muito até hoje.

"Flávio, não me entenda mal, tá? Mas eu já vi alunos brilhantes saindo da faculdade e não conseguindo emprego porque se expuseram demais nas aulas. Você revela muito de si, as pessoas se aproveitam disso. Toma cuidado, tá?"

Fiquei triste pensando no que essa professora deve ter sofrido na carreira dela pra fazer um gesto desses. Ela realmente estava tentando me proteger.

Mas eu, vindo do interior, quebrado, criado testemunha de Jeová, homossexual assumido e sem contatos na capital, ia ganhar o quê por me esconder?
Pra quem está por baixo no jogo, não adianta cuidar do personagem para parecer algo mais aceitável.

A gente sabe que o jogo não está ao nosso favor.

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Tentar acomodar as expectativas sociais nas nossas atitudes é - pelo menos no nível do raciocínio - um ótimo negócio: se a minha experiência de vida é considerada incômoda, eu escondo essa parte de mim e fica tudo bem.

Mas não fica. Esconder uma parte de si - qualquer parte, de uma sexualidade a uma opinião - enfia a gente numa panela de pressão emocional.

"E se descobrem que eu sou gay?"
"E se ficam sabendo que eu tenho passagem pela polícia?"
"E se descobrem que, na verdade, eu não sou esse trabalhador que eu mostro pro mundo, e gosto mesmo é de ficar tomando cerveja no bar?"

E toma gasto energético pra tentar se esconder.

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É questão de transformar a vergonha em orgulho. Quando a gente revela de verdade o que é, ganha a posse da nossa história. Fofoca de coisa que todo mundo já sabe não tem força.

Contemos nossa história antes. Mostremos nosso defeito como bandeira. Quanta coisa a gente não aprendeu sendo diferente de todo mundo?
Pra depois querer jogar isso fora, pra parecer igual a todo mundo? Só porque um monte de gente igual não suporta uma diferencinha?

Eles não vão gostar da gente de nenhum jeito.
Adianta perder o próprio poder por causa disso?

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O mais duro de tudo é que a bandeira da ignorância tá lá, hasteada, com um monte de boçais morrendo de orgulho dela e chamando a gente de errado!

E qual a reação que muitos tem? De se esconder mais. De justificar. De "não é bem assim".

Frescura. Melhor bancar o que somos.

Nós somos, sim, os subversivos. Nós somos, sim, os que querem destruir a família tradicional - porque sabemos que esse conceito de família não faz bem a ninguém. Somos os que querem que transexualidade e homossexualidade sejam consideradas coisas normais, sim - porque são! Os que acham que religião demais faz mal - porque faz!

Somos os viados, os boêmios, os malucos, os que não gostam das coisas do jeito que estão e acham que tem mais é que mudar tudo mesmo.

Nós temos a opinião que temos porque apanhamos na cara, porque sofremos com a opinião oposta, porque estudamos o suficiente pra achar o que achamos.

Pra quê seguir tentando se explicar tanto, e tentando se justificar pra quem acha que direitos humanos e arte são coisas de pedófilos comedores de criancinha?

Diminuir nossa opinião é jogar nossas histórias no lixo. É abrir mão da potência que adquirimos com muita dor.

E daí que estão reclamando do nosso barulho? É hora de aumentar o volume.

20.10.17

Cumprimentos

Já existiu um mundo em que, guerras e traições à parte, havia mais honra entre os homens. Havia um código, um sinal universal que garantia a comunicação e o respeito entre todos os portadores do sexo masculino: o aperto de mão.

O que começou como uma maneira de mostrar mutuamente que ninguém tinha uma espada na mão dominante, e que qualquer assassinato que ocorresse ali aconteceria em termos mais justos, virou uma linguagem. Apertar mãos com a pressão correta, pelo tempo suficiente pra indicar conforto e firmeza, era uma capacidade a ser dominada para conquistar o respeito em sua comunidade.

Em poucos segundos, se determinava quem era o mais forte da relação, quem dominaria a conversa, quem sairia ganhando na ransação do momento.

Eram tempos mais simples, até que um cretino resolveu cumprimentar com a mão em pé e o dedão pra cima, em vez de pra frente.

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A hora em que um homem inventou de cumprimentar outro de uma maneira diferente que o aperto de mão tradicional foi o equivalente moderno da Torre de Babel.

Nós, homens, não falamos mais a mesma língua na hora do cumprimento.
Olhamos invejosos para as mulheres e seus beijinhos no rosto. Quanta intimidade! Quanto conforto consigo mesmas! Quanta confiança na certeza de que a outra mulher não está com uma espada escondida, pronta para matá-la!

As mulheres dominam todas as outras formas de comunicação muito melhor do que nós, o aperto de mão era tudo o que a gente tinha.

Mas nós, homens, temos tradição em não saber apreciar o que está - literalmente - em nossas mãos.

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Toda interação social entre dois homens, nos dias de hoje, começa com momentos de ansiedade e tensão.

Ao se deparar com outro homem vindo em sua direção, um homem tem milésimos de segundos para tentar adivinhar qual aperto de mão usar com essa pessoa. Em pouco tempo, você precisa enquadrar o homem que vem na sua direção em algum perfil.

Tem os tradicionais, que cumprimentam com o aperto de mão tradicional, sisudo, sério. Esse cumprimento já foi sinal de respeito, mas foi apropriado pelos assaltantes como uma forma de dizer "Se você nem me cumprimenta, tá me dando motivo pra te assaltar, e se cumprimenta, tá dando abertura".
Além dos assaltantes, o aperto de mão tradicional é muito utilizado por advogados e corretores de imóveis. São áreas muito parecidas.

Tem os que querem fazer um cumprimento informal, então espalmam a mão na sua com toda a força que tem, com uma intimidade que casais juntos há décadas não conquistam. Esses são os engraçadinhos, os que tem ambições de fazer stand up comedy, os que vão passar horas te explicando como funciona o futebol americano sem você pedir.

Tem aqueles que já chegam balançando a mão desde as costas, estendidas, pra fazer aquela puxadinha e dar aquele soquinho adolescente de uma mão na outra, um cumprimento que diz "Eu tenho trinta e cinco anos e brigo com a minha mãe pra assistir o que eu quero na televisão".

Tem os cumprimentos combinados, com coreografias individuais para cada amigo, cada um com sua dança particular. Esses são utilizados por pessoas com muito sofrimento dentro de si.

Se você erra na hora de adivinhar o jeito certo de cumprimentar o outro rapaz, vai ter de enfrentar longos segundos de toque descoordenado e perdido entre uma mão e outra, um pânico intenso na hora de encontrar um novo cumprimento em comum, que funcione.

Não é à toa que precisamos ser violentos e encontrar oportunidades pra bater uns nos outros. O toque entre dois homens é uma zona de desconforto e nebulosidade.

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E os tapinhas nas costas?
Não há nada mais desconfortável que encontrar a dinâmica do abraço entre dois homens.

Você só abraça um homem com o qual já sente alguma intimidade, mas não há como saber qual a intimidade dele com você. Aí? Quando o momento é de celebração, então, o que você faz?
Começa avaliando, com um toque sutil de ombros. Talvez um, talvez dois tapinhas nas costas. Nada que ultrapasse três segundos.

Abraço, abraço mesmo, só no cadáver do seu pai, na hora do enterro. E ainda corre o risco do velho abrir os olhos só pra te dizer, com a boca costurada, que é pra você segurar a onda.


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É difícil subverter essa confusão toda e encontrar uma maneira universal de cumprimentar homens.

Todos os cumprimentos existentes tem seu grau de polêmica, e minha tentativa de inovar cumprimentando todo homem que eu encontro com um demorado beijo de língua foi recebida com níveis mistos de reprovação e reciprocidade.

Mas é um desafio que precisamos enfrentar. Insisto que uniformizar o cumprimento vai trazer tranquilidade e paz. Dizem que a incidência de crimes na adolescência cai em 45% em comunidades onde o aperto de mão é regulamentado, mas carece de fontes.

Só sei que enquanto não encontrarmos uma maneira de encontrar a paz entre os homens através do aperto de mão, é melhor não cumprimentar ninguém.

No máximo, ao cruzar com um conhecido na rua, assentir com a cabeça e falar um constrangido "Opa!".

E morrer um pouquinho por dentro.

8.10.17

Você não precisa melhorar

"Mas eu vou melhorar isso. Vou me controlar mais."

O paciente me solta uma dessas e olha pra mim com uma carinha de quem quer aprovação, de quem quer ver em mim um pai que diga "Isso! Faça esforço! Trabalhe duro e se controle! Bom garoto!".

Me recuso a fazer esse papel. Não estou no mercado de melhoramento de pessoas. Encontre outro terapeuta se é isso que você quer.

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Não quero dizer que aprimorar suas qualidades seja uma coisa ruim. Não é, não é mesmo.

Mas se você trabalha pela lógica do "Eu preciso melhorar, eu preciso me controlar mais", você está caminhando justamente para direção oposta de uma melhora.

"Tô me obrigando a ser mais paciente."
Se você precisa se obrigar, você não está sendo paciente. Adianta estar com aparência de calma e carcomido por dentro, cheio de vontade de empurrar alguém escada abaixo?

Por que não se deixar sentir a impaciência? Por que não senti-la profundamente, escutando o motivo de ela estar ali? Tentando ver o que esse sentimento te lembra, quando ele começou e deixando ele simplesmente existir?

Por que não sentir o sentimento que está ali, gritando dentro em você, até o fim e então aprender a lição que ele te traz?

Não.
Você quer forçar a barra: "EU VOU SER PACIENTE AGORA!".
Sem paciência nenhuma consigo mesmo, olha que ironia.

Certeza que vai dar certo, amigão. É bem desse jeito que você vai se tornar uma pessoa melhor: no grito.

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Provavelmente o que te torna impaciente, ou ansioso, ou depressivo - entre um milhão de outros fatores, favor contextualizar um pouco antes de jogar pedra aqui no tio - é essa olimpiadização da vida: não importa viver, importa ganhar o pódio.

Melhorei, agora eu sou paciente! Cadê minha medalha de ouro?

Talvez compense mais ver a vida como um passeio, sem um objetivo final, mas aproveitado a cada passo, do que vê-la como uma corrida, com um objetivo específico que precisa ser atingido o mais rápido possível mas que - apesar de todo o foco e disciplina exigidos para chegar lá - só vai te levar pro túmulo mais rápido?

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"Mas eu preciso melhorar! Isso me faz mal!"

Calma aí.
Só de acreditar que você tem coisas a melhorar, provavelmente, você já está melhorando. Só por estar atento. Só de estar passeando com calma e olhando por onde anda, seus passos vão ser mais corretos.

É devagar, mas é um processo. Não se afobe.

Se você acredita que precisa melhorar, e bate a cabeça pra chegar em algum ponto de suposta felicidade, sem nunca parar pra apreciar as pequenas evoluções do caminho... Você está correndo quando deveria estar passeando.

Está todo esbaforido, jogando uma perna na frente da outra com a intenção de chegar rápido em um lugar quando é justamente o andar cuidadoso que vai te fazer entender o caminho.

De tanto queremos ter paciência, calma, e hábitos melhores, acabamos ansiosos. E, com isso, acabamos jogando toda possibilidade de evolução fora.

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Anunciar "Estou aprendendo a ser paciente", enquanto olha para cada perda de paciência que se tem pelo caminho, é mais rico do que "Preciso ser paciente" que se obriga a fingir tranquilidade onde existe turbilhão.

Ter paciência - ou ser um melhor ouvinte, ou comer melhor, ou desenvolver o hábito da leitura - se aprende justamente pelo processo de tentar ter essa qualidade.

Se você tentar ensinar qualquer coisa para uma criança com agressividade e pressa, você vai ter uma criança assustada e desinteressada, incapaz de absorver mesmo um conceito simples.

Com carinho, entretanto, se ensina qualquer coisa - mesmo que se leve um pouquinho mais de tempo. Então por que não ser carinhoso consigo mesmo na hora de tentar adquirir uma qualidade?

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Você não "precisa" melhorar. Você quer melhorar.
O desejo tem muito mais força do que a obrigação.

Juntando o desejo com um pouquinho de carinho, você chega em qualquer lugar.
Enquanto isso, aproveite o passeio.

2.10.17

Gratidão não é amor

Qual a pior parte de ter um filho?
Pensa aí, rapidinho. Qual seria a parte mais difícil de ser pai ou mãe de alguém?

Preocupação demais? Muito gasto? Ter uma criança irritante e incômoda sob os seus cuidados vinte e quatro horas por dia?

Gosto de fazer essa pergunta aos meus pacientes, mas nem sempre para investigar o que elas acham sobre paternidade. É que sensação que se tem sobre ter filhos quase sempre reflete aquilo que a gente sente que foi para os pais.

Se você sente que ter filhos é uma preocupação constante, talvez tenha sentido que seus pais não tiveram paz ao te criar, cheios de preocupações.

Se você sente que ter filhos é um trabalho horrível, irritante e do qual é melhor fugir, talvez você tenha tido a sensação de que seus pais achavam lidar contigo algo irritante e do qual eles preferiam estar longe.

Não é uma regra, mas pode ser útil para explorar qual sentimento que tínhamos ao receber o amor de nossos pais - já que, para uma criança, tudo o que se recebe dos pais é encarado como amor.

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Normalmente quem sente que foi um grande trabalho para os próprios pais responde a isso com um grande sentimento de gratidão por eles.

Quer dizer, todo mundo se sente grato aos pais, já que é impossível criar alguém sem muito sacrifício, mas onde existe um sentimento muito grande de gratidão pelo amor recebido, existe também uma crença de que esse esforço precisa ser retribuído. E é aí que mora o problema.

A resposta natural para o amor não é a gratidão. Amor, quando sentido livremente, traz consigo uma sensação natural de alegria e tranquilidade, junto com desejo de se transmitir amor para o mundo. Para todos, não apenas para de onde esse amor inicial veio.

Ou seja: quem recebe amor puro retribui com amor puro, não com meio-amor-meio-gratidão.

A gratidão é uma resposta para quando se sente que alguém fez um esforço por você. Um esforço que você, talvez, sinta não ter merecido.

Por isso que gratidão demais faz mal: ela pode esconder sensações profundas de baixa autoestima.

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É importante olhar para como nos sentimos em relação aos nossos pais porque esse tipo de sensação costuma se repetir em outros relacionamentos.

Se a sensação maior for a de gratidão, os relacionamentos tendem a ser vistos como baseados em trocas. Você fez algo por mim, eu faço algo por você em compensação.

O complicado é que amar com base no “Você demonstrou carinho por mim, então eu preciso lhe retribuir com alguma coisa” é a semente mais comum para relacionamentos abusivos.

Porque quanto maior a sensação de gratidão por um pedaço de carinho, menor precisa ser o carinho recebido para se sentir envolvido com alguém. A partir disso, as exigências ficam cada vez menores e as tolerâncias, cada vez maiores.

Excesso de gratidão é o que faz alguém acreditar que pode apanhar de vez em quando, porque a outra pessoa também tem seus problemas e, veja só, é uma pessoa tão boa quando está bem. Basta um mínimo de carinho ocasional para justificar todo um relacionamento.

A gratidão prega que “Eu mereço ser amado enquanto fizer algo”, e lutar contra isso é muito trabalhoso. Para amar além da gratidão, é preciso acreditar que é possível ser amado sem estar fazendo um esforço constante por isso - como um filho desejado que não precisa fazer nada além de existir para ser amado pelos pais.

Amar mesmo é acreditar que só existir basta, que você merece ser amado mesmo quando não pode fazer algo pelo outro (ainda que fazer coisas por quem se ama seja ótimo!).

Viver assim abre a porta para relacionamentos mais maduros. Sem ingratidão e sem a ausência de esforço mas fazendo pelo outro e recebendo coisas dele por outros motivos além do dever: Por desejo. Por vontade.

Por falta de palavra melhor, por amor.

27.9.17

Voo

Acabei de fazer minha primeira viagem de avião.

Por alguns anos, isso me incomodava.
Sonhava direto que estava prestes a embarcar pra algum lugar e opa!, cadê a passagem?, ou opa!, cadê o passaporte?, ou opa! desculpe, o Edson Arantes do Nascimento comprou todos os lugares desse voo e você vai ter que voltar.

A vontade era grande, mas o orçamento não deixava.
"Pôxa, vinte e três anos e eu nunca viajei de avião na vida?", eu reclamava.

E então vinte e quatro. vinte e cinco; os amigos conhecendo o mundo; vinte e seis, vinte e sete e pronto!
Risca a listinha, viagem feita.

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Não fiquei nervoso na hora. Queria ter ficado.

Queria ter sentido frio na barriga, medo, uma emoção forte. É uma primeira vez, cacete, e quantas primeiras vezes ainda restam depois de uma certa idade? Tem que aproveitar bem quando aparece uma.
Sei lá quando tinha sido a última vez que eu tive uma primeira vez de alguma coisa.

Mas fiquei frustrantemente tranquilo.
A única sensação forte mesmo foi de que eu precisava de um Dramin. Ninguém me avisou que quando o avião balança de um lado pro outro, você balança junto.

Agora, olha... o mundo é bonito, de cima. E bem pequeno.
E bem rápido.

Guardei o lanchinho de bordo para comer mais tarde. Comi tudo dez minutos depois do desembarque.
É que eu sei esperar, mas não muito.

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Sou um péssimo agente de viagens pra mim mesmo e escolhi o voo mais barato que consegui comprar, o que resultou num intervalo de oito horas entre o primeiro voo e a conexão que vem depois.
Oito horas é muito tempo.

Já passeei por Viracopos inteiro.
Já pesquisei por que é que o aeroporto tem esse nome (muito tempo atrás teve uma briga numa festa de igreja, o padre ficou bem puto e se referia ao incidente como "aquele viracopos maldito").

Andei na esteira rolante. Andei na esteira rolante no sentido oposto ao movimento da esteira rolante.
Apostei corrida na esteira rolante com a minha amiga. Apostei corrida de carrinhos de carregar mala.
Apostei corrida de carrinhos de carregar mala na esteira rolante.

Tomei um café que custou quinze reais.

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Também tive uma ideia para um livro.

Escrevi cinco páginas para ele, que, a partir de agora, se trata de um Projeto Oficial™, o que provavelmente quer dizer que essas cinco páginas vão ser tudo o que realmente vai ser escrito dele.

A ideia é contar as melhores histórias que eu tenho dos meus avós pra tentar entender o que é que eu tenho em comum com eles, duas gerações depois.

Sempre achei que os avós são uma maneira muito mais carinhosa para explicar uma pessoa do que os seus pais. Histórias com pais dão muita treta, os avós costumam ser um tipo de amor mais pacífico.

O livro ia chamar "De onde vem a voz".
Pegou? Pegou? A voz, avós, a voz?

Imaginem um livro bem bom, porque foi assim que eu imaginei, e é bem possível que ele fique só na imaginação mesmo.

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Tentei tirar uma soneca, mas o café de quinze reais tá fazendo valer o seu preço e me impediu.
Agora estou aqui, exausto e ligadaço, escrevendo esse boletim especial de acontecimentos irrelevantes, e ainda tenho mais três horas pela frente.

Quem sabe o próximo voo traga a emoção que o primeiro não trouxe.
Talvez voar seja que nem transar, que a primeira vez não é tudo aquilo e depois vai melhorando.

Talvez eu passe o tempo todo dormindo, porque até lá esse bendito café já deve ter dado efeito rebote.

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De qualquer forma, estou oficialmente de férias. Não tem avião suficiente no mundo, nem horas de espera suficientes pra tirar a alegria disso.

Por enquanto, eu não preciso ter foco nenhum. Acho que vou correr mais um pouco na esteira rolante pra passar o resto do tempo.

Tomara que o segurança não venha brigar comigo. Mas, se reclamar, já tenho a resposta pronta:
"É minha primeira vez, não sabia que não pode!"

Alguma vantagem precisa ter pra quem é novato.

Insatisfeitos

Nós somos seres insatisfeitos.
Desde o momento em que você chorou no berço e não foi prontamente atendido, seu cérebro ativou um sistema de sobrevivência: a fantasia.

Pra lidar com a opressora realidade de não ser cem por cento compreendido (se já é difícil para um adulto, imagine para um bebê), você começa a imaginar como seria ser plenamente amado.
Surge um personagem na sua cabeça, o de alguém que te entende e te ama sem reservas.
Alguém que te faz apenas bem e antecipa todos os seus desejos, além cujo único objetivo de vida é te deixar contente - sem falhas!

O mecanismo da fantasia existe por instinto de sobrevivência emocional: a fantasia é a reserva do nosso tanque de combustível, permitindo que sigamos em frente mesmo sem sentir amor.

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Por isso mesmo, ela vai nos acompanhar por toda a vida - mesmo quando estamos muito bem, só por via das dúvidas.

Você pode estar solteiro, imaginando alguém que esteja ao seu lado, namorando com essa pessoa todas as noites ao deitar a cabeça no travesseiro, por mais que pessoas não imaginárias que te amem apareçam e você não as deseje.

Você pode estar muito bem casado e imaginar que aquela pessoa que ficou no passado poderia ser a verdadeira melhor opção pra você (e, se tivesse se casado com ela, estaria fantasiando a mesma coisa a respeito da pessoa com quem realmente se casou).

Imaginar um afeto constante é o equivalente emocional da fome. É uma maneira de manter o cérebro ligado para não esquecer de encontrar recursos que o mantenham vivo.

Você pode estar super bem alimentado mas vai salivar ao pensar numa refeição bem preparada.
Mesmo enquanto está comendo, pode acontecer de alguém falar de outra comida e te dar vontade de comer aquela. Isso não quer dizer que sua refeição de agora seja ruim.

Jogar tudo para o alto a cada pequeno sinal de insatisfação só prova que não evoluímos muito do bebê que abriu o berreiro ao não ser prontamente atendido pela mãe.
Estar um pouquinho insatisfeito não quer dizer que você precisa mudar tudo na sua vida.
Só quer dizer que você está vivo - e lutando para sobreviver.

22.9.17

Popstars

É fácil entender o sucesso de programa Popstar, na Globo.

Atores, apresentadores, artistas bem sucedidos em outras áreas se amontoam e se estapeiam pra soltar a voz em público. A cada canção bem recebida, choram como se não tivessem tido outro sonho na vida a não ser cantar.

E, realmente, talvez não tivessem.
Eu também, famoso fosse, ia querer estar lá, fazendo karaokê de Tim Maia e soltando minha voz grave e rouca pelo ar.

Todos nós tivemos nossas grandes paixões profissionais.
Se desse certo pra todo mundo, seríamos todos rockstars, astros de Hollywood ou o Neymar.

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É importante saber separar o saber do ofício.

Um arquiteto com um grande interesse em pessoas pode saber muito mais profundamente sobre a psicologia humana do que um psicólogo formado, ainda que não saiba praticar psicoterapia.

Um pedreiro com um grande interesse em música pode sentir muito mais profundamente um solo de guitarra do que um músico formado, ainda que não saiba explicar as escalas pelas quais o guitarrista passa.

Um cineasta com um grande interesse por matemática pode não saber resolver equações avançadíssimas, mas vai sentir uma emoção tremenda ao entender como um grande cálculo se executa do começo ao fim que talvez um matemático não saiba perceber.

Um dentista pode amar poesia. Um poeta, quem vai dizer que não?, pode achar lindo um tratamento de canal.

Um psicólogo com um grande interesse em música pode cantar muito mal, mas te indicar uns discos pouco conhecidos bacanas e... Tá, nesse caso não se aplica.

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Essa compreensão profunda e amor pela arte por quem não é artista acontece porque a distância - a falta, a sensação de não poder realmente alcançar o que ama - traz uma angústia que aprofunda as experiências que residem brevemente nos sentidos antes de voltar ao mundo dos sonhos.

Em tempos de escolher uma carreira aos dezessete anos, com a pressão de ganhar dinheiro e fazer o que ama pelo resto da vida, saber que o que se toma de ofício não é necessariamente uma garantia de amor eterno pode parecer pesado.

Mas saber que tornar da paixão um ofício pode trazer angústia e frustração - não financeiramente, como todos os pais pregam, mas na alma, por trazer o seu amor para perto demais, sob uma ótica muito real e cruel, capaz de desmontar as ilusões - pode ser libertador.

É como casar com a pessoa dos seus sonhos: o casamento começa e os sonhos acabam.
Amar à distância pode fazer o amor ficar muito mais interessante. Se o objetivo for manter o sonho, melhor guardar as alianças para si.

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Talvez meu conselho para quem está procurando uma profissão seja esse: faça o que ama, mas não dependa disso totalmente.

Case-se com um ofício que lhe seja fácil e pouco desgastante e persiga sua paixão como quem persegue um amor com astúcia: cuidadosamente, sem se mostrar disponível demais, sem depositar todas as suas expectativas e dando ocasional bote, quando a situação ideal aparecer.

Quem sabe você tenha sorte e sua tórrida paixão mantenha-se luxuriosa e intensa por anos a fio.
Quem sabe sua grande paixão seja melhor como uma amizade para toda a vida.

Amores mudam pela vida, ainda que haja amores duradouros.
Seu ofício pode não ser o que você sempre sonhou, mas pode ser aquele amor que te esquenta os pés no fim da noite e te faz se sentir satisfeito.

Aí, de vez em quando, você masturba sua imaginação botando um bom disco pra tocar e canta junto a plenos pulmões, se sentindo uma estrela do rock. Não há nada de errado em fantasiar com uma grande paixão enquanto se vive um amor maduro.

18.9.17

Cura gay

Como as pessoas pensam que ir a um psicólogo pra tratar sobre a sexualidade é:
"Eu sou gay e quero deixar de ser."
"MAS QUE ABSURDO! Gay é lindo, gay é vida, experimenta esse sapato!"

E seguem-se várias sessões rumo a uma inscrição no RuPaul's Drag Race.

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Como as pessoas querem que ir a um psicólogo pra tratar sobre a sexualidade seja:
"Eu sou gay e quero deixar de ser."
"Ótimo. Olhe bem para essa piroca e prenda a respiração. Você precisa associar a visão de um pênis a falta de oxigenação no cérebro."
"Eu vou deixar de ser gay?"
"Não, mas vai desmaiar toda vez que ver uma rôla."

E seguem-se várias sessões pra aprender a cuspir no chão, coçar o saco e decorar a escalação do time do Curíntia.

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Como ir a um psicólogo pra tratar sobre sexualidade realmente é:
"Eu sou gay e quero deixar de ser."
"Me conta sobre isso... Como você se sente sobre ser gay?"

E seguem-se várias sessões verdadeiramente escutando a pessoa, prestando atenção nos ditos e desditos do seu desejo, facilitando a própria escuta sobre suas vontades e medos e aumentando a autonomia dela sobre as próprias decisões.

Então, e só então, segue-se para a inscrição no RuPaul's Drag Race.

17.9.17

A favor de ser trouxa


Eu sempre tive uma fascinação por aquelas pessoas que fazem todo mundo cair a seus pés. As Frida Kahlos, Marylin Monroes e Marlon Brandos do mundo, aquelas pessoas que fazem todo mundo se apaixonar por elas enquanto elas, impassíveis, estão nem aí.

Quando um amigo qualquer reclamava que tinha alguém no seu pé o tempo todo, como se isso fosse a coisa mais chata do mundo, meus olhos brilhavam de admiração. Quanto poder, né? Ter alguém te querendo muito enquanto você faz cara de blasé e prefere ficar em casa cortando a unha. Eu, trouxa por formação e vocação, morria de inveja.

"Ah, mas é meio chato, não rola, sabe?", dizia a pessoa independente e feliz.
"Dá uma chance pra ele! É um chato bonzinho!", eu respondia, advogando por nós trouxas.

Afinal, eu sempre ocupei o papel de estar no pé dos outros, e achava isso muito, muito chato.
Não conseguia entender a capacidade de alguém negar um amor que estava ali, tão de graça.

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Precisei de um bom tempo de trouxice (suficiente pra uma faculdade bem longa, pós-graduação e mestrado), pra chegar num ponto de exaustão.

Algo perdeu o encanto. Até aquelas pessoas que, em outro momento, eu mataria pra ter uma chance, chegavam perto e me davam vontade de sair correndo pra casa, pra ficar quieto e sozinho, lendo um livro que eu já li antes e coçando a orelha.

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Mas adivinha o que acontece quando você chega nesse ponto? TODO MUNDO QUER NAMORAR CONTIGO.

Que tipo de sensor é esse, de pegar a pessoa mais machucada e aversa a relacionamentos que pode encontrar e falar "É esse!", e investir tudo o que pode?

Como sempre fui eu do outro lado desse cabo-de-guerra, fiquei feliz. Quer dizer, sair do papel de pessoa que quer muito ter alguém ao seu lado só pode ser uma evolução, certo?

Acontece que ser a pessoa indisponível pode até te dar mais poder, mas não te dá mais prazer.
Não é só auto-suficiência. Você quer sentir o contato próximo e o amor de alguém, mas alguma coisa te impede, como uma azia violenta que te dá ânsia só de olhar pro seu prato favorito.

E quando você se força a baixar um pouco a guarda... Vem uma gastrite violenta.

Tá ruim, sai de perto, preciso de ar.

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Pode ser muito divertido experimentar esse poder.
Aprendi muita coisa vendo a minha trouxitude refletida no outro.

Eu, que sempre me dobrei em cinco pra tentar agradar quem estava comigo, me surpreendi com como você pode ser cuzão e ainda assim ser atendido.

"Te trouxe flores", diz a pessoa, feliz, fazendo o papel que devia ser o meu.
"Ah, valeu. Eu tenho um pouco de rinite.", eu respondo, escroto.
"Nossa, desculpa, eu troco, eu trago outras coisas, quer chocolate?"

Ei, eu conheço esse sentimento de pedir desculpa por ter feito algo legal! Que coisa besta!

"Não, não, tá bom.", eu respondo, sorrindo.
"Nossa, mas eu vou te recompensar por essa... Não sabia que você não podia com flor."
"..."
"Desculpa, tá?"

Jesus Cristo, eu já fui assim.

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Ser indiferente ao carinho alheio não é sinal de força. É casca grossa, calo, fachada.
Tudo coisa de quem está machucado demais e não está disposto a se arriscar outra vez. Fica indiferente ao amor quem tenta se curar dele. Fica com azia quem se recusa a digerir a dor dos amores que deram errado.

Porque o amor dói e te faz de besta, mas é justamente isso que faz ser muito gostoso quando ele é retribuído.

É ser trouxa de vez em quando que faz encontrar um amor dar aquela sensação de ter ganho na loteria.

Exigir sair por cima toda vez que está com alguém é uma defesa que tira toda a graça de viver. Se privar de um sentimento é se privar de todos.

Há uma grande lição em aceitar que perder o poder às vezes pode ser bom. Você exercita um pouco o masoquismo, volta a ter emoções novamente e lembra o motivo de ser tão gostoso amar.

Marlon Brando que me perdoe. Ser fatal é lindo no papel, mas ser trouxa não é tão ruim.

(Até você ser bem trouxa outra vez. Aí é uma bosta. Mas aguenta, quem quis amar foi você.)

15.9.17

O que as coisas sugerem

Faz um mês e meio que eu estou morando em algo que eu posso considerar "o meu apartamento".
Quer dizer, é alugado e é dividido, mas fazia muito tempo que eu não morava em um lugar em que eu não precisasse marcar as paredes com urina pra marcar propriedade.

Até agora, foram uns tempos alugando quarto e dois anos morando no sótão do consultório, um lugar agradável e ameno onde a temperatura média é setecentos e vinte graus. Foi bom enquanto durou.

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Já morei sozinho antes disso, mas faz tempo. Agora eu divido o apartamento com uma colega dos tempos da faculdade, a Amanda.

Recomendo a todo mundo morar sozinho pelo menos uma vez da vida, pela liberdade e pelo autoconhecimento.  Depois disso, recomendo a todo mundo morar com a Amanda pelo menos uma vez na vida, porque ela faz um ovo mexido muito bom.

O legal de se sentir responsável por um lugar é que até limpar a casa vira uma rotina gostosa, já que você tá cuidando do que é seu.

Minha tarefa preferida é lavar louça, que é divertida pela recompensa imediata de ver o serviço pronto, seguida por lavar roupa, que é basicamente jogar a roupa na máquina e ficar no computador por duas horas e meia esperando a máquina fazer o serviço e falando "Já respondo, tô lavando roupa..." pras pessoas no Whatsapp.

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A rotina da vida adulta cria umas relações interessantes com as coisas.

Meu micro-ondas, por exemplo, apita sozinho na função Pudim. Tô ali, na cozinha, cuidando da minha vida, e o micro-ondas (que horrível escrever desse jeito) sai da sua condição de objeto inanimado pra me gritar PUDIM e me lembrar da importância dos prazeres na vida.

Nunca fiz pudim nele, mas eu aceito o recado e vou comprar um na padaria.

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A quantidade de atitudes humanas que meus objetos tem tido só seriam justificáveis se eu estivesse com uma severa esquizofrenia, que é um diagnóstico que eu prefiro deixar quietinho por enquanto.

Não vou nem levar em conta as sugestões do corretor do celular (manda uma foto do seu pai, diz ele), que eu já considero manifestações do meu inconsciente e que me fazem pensar duas vezes no que eu mando pras pessoas.

Prefiro acreditar que meus objetos me dão conselhos, mesmo.

Meu celular me assusta todos os dias mudando o horário exibido pra uma hora mais tarde. Depois do mini ataque cardíaco por achar que estou perdendo um compromisso, eu vou conferir e vejo o erro: O celular mudou o fuso horário pra Fernando de Noronha.

Todo. Santo. Dia. O fuso muda pra Fernando de Noronha.

Meu celular é um objeto de alta tecnologia e, como tal, sabe das coisas. Por isso, assim que eu tiver o orçamento, vou obedecê-lo.
Comendo pudim.

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Agora, de todas as manifestações que meus objetos inanimados tem, nenhuma bate a de quando eu deixei o celular desbloqueado no bolso e o movimento das minhas pernas, sozinho:
1 - Abriu o aplicativo do Whatsapp;
2 - Foi nas configurações de perfil;
3 - Clicou em "Trocar foto de perfil";
4 - Selecionou, de todas as fotos da galeria, um meme do cara de chapéu mostrando a piroca;

Foram dias com essa foto lá, exposta pra todos meus amigos e pacientes, até meu irmão me mandar uma mensagem perguntando que porra era aquela.

Se o microondas quer que eu aproveite a vida comendo pudim e o fuso horário quer que eu aproveite a vida indo pra Fernando de Noronha, o que o meme da piroca na foto do perfil está querendo me sugerir?

Fica em aberto.

10.9.17

Viver é urgente

Enquanto você for um ser humano, tudo o que é humano é seu. Toda a experiência humana lhe pertence.

Cada ato heróico e cada vergonha da história estão na sua conta. Se um humano fez, você teria sido capaz de também ter feito. Somos feitos da mesma coisa, não?

Se a autoestima estiver baixa, basta lembrar que é feito do mesmo material que os gênios. Você é feito de Ghandi e de Buda. Você é feito de Martin Luther King Jr. e de Gilberto Gil.

Da mesma forma, você é feito de Paulo Maluf e de Bandido da Luz Vermelha, e lembrar disso ajuda a segurar a onda de se achar muito santo.

Você é feito da mesma coisa que o cara que te xingou no trânsito ou que roubou seu celular, e talvez teria agido muito parecido nas mesmas condições que ele.

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Por isso não faz sentido isolar os criminosos da sociedade. Ok, nos protejamos, façamos justiça,  mas manter um canal de comunicação aberta pode ajudar a todos.

Um assassino pode ensinar muito sobre humanidade, mesmo para a pessoa mais altruísta.
Pode ensiná-lo, por exemplo, quais situações e pensamentos podem levar alguém a matar, e o altruísta pode conhecer e dominar melhor sua porção assassina da qual nem fazia ideia que existia.

Da mesma forma, a convivência com vários tipos de pessoas pode lembrar quem está na cadeia de que eles não são feitos de farinha de criminoso, e sim com a mesma receita de gente que todos os outros seres humanos, e por isso mesmo podem ter experiências muito maiores do que as que conhecem, tendo a oportunidade pra tanto.

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Se tudo que é de um humano é de todos, das conquistas aos erros, podemos procurar aprender com as diferenças em vez de nos afastarmos por elas.

Você pisou na Lua e morreu de fome. Você alimentou os órfãos e assassinou Jesus.
Você é o Alfa e o Ômega, a Ivete Sangalo e a Claudia Leitte.
Você é cada uma das oito bilhões de pessoas que estão vivas nesse momento.

Olhando assim, cada experiência se enriquece muito. Há muito ao que estar atento. Conhecer o outro é conhecer uma parte sua.

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Se todas as vidas que existem são suas, e nunca se viveu tanto e de tantas formas únicas, viver se torna urgente.

Viver é urgente porque é fugaz, porque somos todos feitos do mesmo pó vivo e todo mundo está na mesma. Viver é urgente porque você é único e porque o outro também é você.
Viver é urgente porque você é tão gente quanto um assassino, e o Papa é tão gente quanto os dois.
Viver é urgente porque há muito o que conhecer sobre si mesmo, ainda que através do outro.

Viver é urgente porque existe muita gente por aí. Muita gente diferente, e todos iguais, porque todos são... você.
Sem separação e sem medo.

4.9.17

A importância do fundo do poço

ou: Abandonar também é amar

Se alguém perto de você está cometendo os mesmos erros várias e várias vezes, é natural querer ajudar. Também é natural insistir na ajuda, ainda mais quando se trata de alguém que você ama muito.

Mas, se você está tentando muito evitar que alguém sofra, ou caia no mesmo padrão de erros que repetiu muitas vezes, deixo uma sugestão: Abandone.

Não por falta de amor, mas por amar.

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Na solidão e sofrimento inevitáveis que o fundo do poço traz reside uma capacidade de ganhar lucidez que estar protegido e guardado de chegar lá não permite. Tirar carinhosamente a mão de uma pessoa que insiste em tentar tocar o fogo nunca vai ensiná-la a não fazê-lo mais. A dor e o arrependimento de uma queimadura são professores muito melhores.

Abandonar alguém aos seus próprios recursos é justamente o que faz essa pessoa questionar se realmente tem os recursos que acredita ter: sem alguém para recuperar ou protegê-la, e sem capacidade de realmente mudar por conta própria, cai a última barreira da vaidade e pode surgir um sincero - ainda que sofrido - pedido de ajuda.

Aí, com autorização, é possível estar ao lado da pessoa enquanto ela reavalia suas atitudes. Ao lado, não à frente e não empurrando: é importante que a pessoa esteja plenamente consciente do seu próprio desespero e fundo do poço enquanto tenta melhorar.

Não faz bem consolá-la disso. É no desespero e no cansaço que a motivação permanece.
O desespero e a sensação de morte causada pelo fundo do poço é o que vai lembrá-la de que ela precisa de outras pessoas e que ela precisa tomar responsabilidade pelo que faz.

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É um processo muito doloroso para quem está ao lado. Abandonar alguém que está sofrendo questiona todas as teorias de que precisamos ser pessoas boas, samaritanos sempre dispostos a ajudar, e derruba a ideia de que amar é estar ao lado da pessoa que sofre.
Mas é essencial.

Amar é ter um preço. Amar é se afastar quando os requisitos básicos do amor não são cumpridos. Amar é permitir que a pessoa lide consigo mesma, abandonando qualquer tentativa de protegê-la de suas próprias atitudes.

Quem ama aguenta muita coisa, simplesmente pela ignorância que o amor dá. O amor é muito fantasiado como um processo de acolhimento interminável, e isso está registrado fundo no nosso próprio medo instintivo de sermos abandonados.

Por isso mesmo, abandonar alguém que está em um padrão doentio precisa ser um processo racional. Precisa ser um ato calculado, preciso e limpo de afastamento, que resista às tentações dramáticas de uma reconciliação que interrompa o - tão necessário - fundo do poço da outra pessoa.

E, como alguém que está apaixonado multiplica o desejo que tem pela outra pessoa depois de uma rejeição, uma pessoa abandonada aos próprios recursos percebe que ela mesma foi sua algoz e abandonadora, e pode encontrar, exatamente nisso, uma esperança de amor por si mesma.

Se, depois disso, vai tentar conquistar a si mesma ou não, isso depende só dela.

3.9.17

Experiência e sentido

“Você nunca viu seu rosto.”

Vi essa frase em algum lugar bobo da internet e fiquei encucado. Fora meu nariz largo, que aparece na frente dos olhos a todo momento, e minha bochecha, que tem pele sobrando como se eu fosse um cachorro sharpei e dá pra puxar pra frente do olho, eu nunca vi minha própria fuça.

Sorte, porque se eu não consigo passar na frente de um espelho sem ajeitar o cabelo, se eu tivesse contato constante com a minha aparência eu estaria perdido.

Engraçado como a gente passa a vida toda numa obsessão com uma aparência que a gente nunca vê, apenas percebe através da projeção no espelho e na reação do outro.

Mas tudo bem: o resto da gente, a gente conhece em primeira pessoa.  Ou não?

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As redes sociais estragaram a experiência.
Quer dizer, elas deram uma mãozinha pro narcisismo que já imperava, mas não conseguia ir muito além da casa da vizinha que se interessava pela sua vida. A competição era mais direta.

Agora não: é a nossa vida contra a do mundo. Todos enxergam todos e e tá todo mundo querendo ganhar. Não basta mais viver, é preciso mostrar evidências.

Pictures or it didn’t happen.

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Um grande sinal de que uma pessoa está se sentindo vazia é o registro constante do que se passa em sua vida*.
(*Querido diário, acabei de perceber a ironia. Um abraço!)

A ausência de verdadeiro contato consigo mesmo é o que cria a sensação de vazio, quer dizer, não sentir a vida pelo lado de dentro cria a necessidade de criar provas, para si mesmo, de que se está vivo.

E aí começam as fotos, os check-ins, as loucuras de fim de semana feitas sob encomenda para que alguém se sinta vivo, ainda que seu pulso emocional esteja fraquejando. Ter o feedback do outro, por exemplo em uma rede social, ajuda a acalmar a angústia desse vazio.

“ESTOU VIVO?”, grita alguém, postando uma foto de uma cerveja na sexta-feira, legendada com “Começando os trabalhos”.
“Vivíssimo!”, responde quem curte.

Que alívio.


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Foi isso que estragou o ato de viajar.

Viajar já foi o símbolo do crescimento pessoal, do momento em que uma pessoa renuncia a sua vida cotidiana para mergulhar no mundo da experiência plena.

As pessoas ainda acreditam nisso, mas o mercado já percebeu o potencial disso faz tempo. Agora, viagens são vendidas como experiências - mas experiências úteis, registráveis, comprováveis, compartilháveis.

Porque ninguém vai postar fotos de um passeio pelo transporte público de Osasco, ainda que essa experiência possa ser tão transformadora quanto um fim de semana no Tibet.

Da mesma forma que é absolutamente proibido praticar ioga sem a presença de uma câmera.

É o cúmulo do fetiche pelo registro: o momento de experimentar a si mesmo pelo mundo só é válido quando registrável. Se gerar inveja, melhor ainda.

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O registro da experiência é menor do que a experiência, mas é vendável.

É o que faz a Taylor Swift ganhar mais do que uma professora que canta para seus alunos de pré-escola. Ela é mais registrável. Sua emoção é mais fácil de identificar, empacotar e vender. É emoção mais destilada mesmo, pra consumo bruto, pra entrar na veia e dar sensação de vida.

É daí que surge essa angústia que tanta gente tem sentido: viver em busca de experiências registráveis é competitivo demais. Se o registro da experiência do outro é mais impactante do que o meu, a minha experiência não vale nada - por mais que eu tenha gostado dela.

E aí é necessário ter o corpo melhor. A viagem mais fotografável. O namoro mais instagramicamente adequado.

Não é por nada que quase toda criança hoje em dia sonha ser Youtuber, porque não basta mais registrar a própria vida. É preciso ter plateia. E a plateia anda cada vez mais escassa, preocupada em fazer seus próprios registros para mostrar pro mundo.

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Pra escapar disso, só se precisa lembrar que o feedback mais importante que temos da nossa vida é nossa própria experiência.

Lá dentro, longe dos likes e próximo do próprio gosto.

Porque o gostar lá de dentro é sempre simples. Se contenta com um bom amigo e um dia de sol deitado na grama. Só existindo, só sentindo, só sendo.

Não é necessário enxergar o próprio rosto para saber que ele está lá.

Basta sentir para encontrar sentido.

30.8.17

Prezado Paciente Difícil


Resolvi escrever uma carta pra você porque, bem, nas sessões é você quem fala.

E como fala! Eu gosto de você falar tanto, porque facilita meu trabalho, mas olha… Às vezes eu acho que você poderia me escutar um pouquinho mais.

Aliás, vamos concordar, você tem dois extremos: ou você fala muito e sem parar, durante a sessão toda, sem escutar uma palavra do que eu digo, ou você fica em completo silêncio.

E olha, eu até lido bem com o silêncio, mas me sinto tão na obrigação de te movimentar que começo a fazer show de variedades:

“E como foi a semana?"
“Ok.”
“Você ainda está gripado?”
“Uhun.”
“O que você acha que baixou sua imunidade?”
“Sei lá.”
“Anitta ou Ludmilla?”
“Ahn?”
"Pra quem você tira o chapéu?"

Ok, bem honestamente, eu prefiro quando você fala bastante.

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Mas mesmo quando você fala bastante, eu tenho minhas dificuldades.

Eu sei que você jura por Deus que não tem resistência nenhuma, mas eu posso provar que tem sim.  Você não sabe, mas nas últimas semanas eu tenho te testado, pra ver se você presta atenção no que eu falo.

Você, todo verborrágico, dizia:
“... e aí eu falava pra ele, sempre falei pra ele, na verdade, que quando ele me procurava só pra transar eu me sentia feito no Grey’s Anatomy e…”

Eu, com a cara séria e profissional, olhava fundo no seu rosto e dizia:
“Estrogonofe”.

Você, nem aí, continuava:
“... e sabe quando tem a cena do acidente de avião, e a Arizona grita sem parar?”

“Jiripoca”, eu observava.

“Exato! Eu me sentia daquele jeito, e tipo, eu gosto da minha perna. Você acha que ele entendeu?”

“Churrasquinho.”

“É, ele nunca me entende! Ele não me ouve, esse é o problema!”

Eu e uma planta ali seríamos a mesma coisa.

Faz parte do trabalho, eu sei. Já aprendi a lidar com isso, mas como o ego dói!
Dói mais que a perna da Arizona Robbins.

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Paciente difícil, meu querido, eu sei que você está me odiando nesse momento

Eu falei algumas coisas pesadas na última sessão, mas você estava precisando.
Eu sei que você esperava de mim a aprovação total e o carinho infinito, e eu te frustrei, mas você precisa confiar em mim. Antes você me botava num pedestal imenso, e agora acha que eu não faço ideia do que eu tô fazendo, principalmente quando eu piso no seu calo.

Mas, de novo, confia em mim: pode ser dolorido, mas a pisada no calo foi muito calculada e é pra ser terapêutica.

Eu preciso te fazer me odiar de vez em quando, pra dar um gás no seu processo de mudança. Só se trabalha com emoções a partir de emoções, e nem sempre lidar com as emoções é fácil. É por isso que você me paga.

E, como qualquer ser humano, odeio que alguém não goste de mim. Se eu estou te fazendo me odiar, é porque te amo.

Aliás, eu estou até segurando de te cobrar por esses dois meses e meio de sessões atrasadas, primeiro porque eu sei que você pretende me pagar regularmente… Mas agora eu tô preocupado de você ficar puto comigo e não me pagar mais nada.

Só que, mais do que com o pagamento, eu me preocupo com você.

Porque mesmo eu precisando de oito horas de descanso toda vez que eu termino um atendimento contigo, eu acredito muito que você pode melhorar.

Aliás, Paciente, eu quero que você saiba que, por mais que essa carta seja direcionada a você, ela não é só sobre você. Se mil pacientes meus lerem essa carta, pelo menos novecentos vão ter certeza de que ela foi escrita exclusivamente para eles.

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Paciente, querido, às vezes eu tenho raiva de você. Às vezes eu quero desmarcar a sessão. Tem dias que eu olho para o relógio a cada meia hora, pra ver que só passaram cinco minutos. Tem dias que eu quero te esganar.

E que isso não quer dizer que eu não goste de você. Só quer dizer que, de tanto acreditar que você pode ser mais feliz, eu me enrosquei e criei algumas expectativas também.

Não se preocupe, não vou lhe cobrar por expectativas minhas. Essas coisas eu trabalho com o meu próprio terapeuta.

Ele também tem um paciente muito difícil…

PS: Me desculpe por aquele dia que eu joguei uma almofada na sua cara quando você disse que voltou para o seu ex-namorado que te batia. Foi reflexo.

19.8.17

Amar é frustrar

Pais machucam filhos.

Essa é uma lei da natureza tão certeira quanto a de que pais botam filhos no mundo.
Duas certezas biológicas: a da reprodução e a da produção de traumas.

Agora, pobre do pai que acredita que pode se poupar de machucar um filho.
Todo pai que age cheio de dedos para evitar causar traumas futuros em seu filho não o faz pelo bem do filho: o faz pela vaidade de ser considerado um bom pai.

Ironicamente, os bons pais são odiados,
Bons pais incomodam, bons pais tem defeitos horríveis, bons pais dão a seus filhos o presente de, desde cedo, saber lidar com situações difíceis.

Um bom pai precisa criar, pelo menos, três bons traumas em seus filhos por semana.

Menos do que isso é negligência.

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Filhos machucam seus pais.

Aliás, bons filhos machucam seus pais.

É necessário não ceder às suas expectativas e botar alguma ordem nessa bagaça. Sim, eles mandam em casa, mas eles não mandam na vida de todo mundo.
Muito menos na vida de um bom filho.

Quer ver um filho ruim? É aquele que vai com a mãe na igreja, que leva o pai ao supermercado e que deixa o salário inteiro em casa no fim do mês. É aquele que paga com a própria gastrite pela mania de limpeza da mãe.

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Um bom filho presenteia sua mãe kardecista com uma tatuagem do Belzebú, pra ela aprender a ter tolerância religiosa.

Um bom filho presenteia seu pai vascaíno com uma bandeira do Flamengo na porta do próprio quarto, pra ele aprender que seu amor pelo filho supera tudo.

Um filho ótimo aparece com um neto de presente para os pais assim que completa quatorze anos.
Ah, quanta coisa esses pais vão aprender com isso!

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É no embate entre pais e filhos que acontecem os maiores crescimentos nessa relação.
Na hora do colo e cafuné tudo é muito bonito, mas pobre da família que só tem amor e carinho.

Família serve pra entender a ambiguidade de amar e odiar a mesma pessoa.
Pra gritar no almoço de domingo e pra ferrar com todas as possibilidades
Pra ser tão ruim, tão ruim, a ponto de uma pessoa aprender que os horrores de ser independente e se ferrar na vida não são tão ruins assim,

Família serve pra ferir, pra pedir perdão e seguir amando.
Pra ensinar que, mesmo causando danos horríveis à vida de outro ser humano, é possível ser amado incondicionalmente.

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Pra chegar nesse nível de evolução, só soltando o cinto de segurança e deixando a própria personalidade correr solta, por mais que ela possa causar acidentes no trajeto.

Frustrar não é falta de amor. Frustrar é, justamente, amar.
Frustrar é mostrar a possibilidade de um mundo real e libertar a outra pessoa da infantilidade de viver desejando um mundo ideal.

Seja de pais para filhos, seja de filhos pra pais.

Todos feridos, todos frustrados, todos banhados de amor.

Aceitações

Nós, que andamos pelo mundo acordando cedo, andando com nossas próprias pernas e reclamando quando temos gripe, somos um seleto grupo de abe...