20.7.17

Encontrando caminhos

Ele era uma constante distante nas sessões da minha paciente. Quer dizer, ele sempre aparecia nos fundos de alguma história, ou como motivação para algum comportamento, mas poucas vezes chegava a entrar no assunto como personagem principal.

Com algum tempo de prática, é fácil identificar quais são esses assuntos: na primeira menção, todo disfarçada de elemento casual, já se identifica a força de sucção desse buraco negro – que, em geral, a pessoa trata como assunto resolvido.

Felizmente, o inconsciente não deixa assuntos importantes passarem batidos, e nunca se sabe onde se encontrará com um caminho para chegar a eles.



Ana era particularmente dedicada aos seus sonhos.

A cada sessão, traz um pequeno calhamaço de papéis rabiscados, contando das jornadas intensas que fazia todas as noites.

Cada dia uma jornada, cada jornada abrindo uma porta para o passado, mas algo se mantinha entre quase todos os seus sonhos: caminhos perigosos, escuros, e a necessidade de chegar em algum lugar.



Depois de algumas sessões, no meio da interpretação de um sonho, Ana mencionou novamente, como quem não quer nada, o rapaz.

Era hora de atacar.

“Me fala mais sobre ele! Como foi a história de vocês?”, eu disse, também com um quê de quem não quer nada.

“Bem… Nós nos vimos por algum tempo. O sexo era muito bom, mas depois eu entrei em uma crise terrível. Eu quis morrer. Ele tinha namorada, sabe?”

“Isso te incomodava?”

“Muito. Eu estava no motel com ele, um dia, quando me dei conta do que estava fazendo. Eu não era aquela pessoa, eu quis morrer. Cortei todo o contato com ele, mas foi terrível. Fiquei um bom tempo sofrendo. Me sentia culpada de ter feito ele trair a namorada.”

Deixei passar a oportunidade de perguntar sobre a culpa. Ainda não era hora.
“Você ainda pensa nele?”

“Não muito. Mas tem uma coisa estranha… Ele me levava para tomar café, em um café desses mais arrumadinhos, de rico. Eu ficava impressionada, aquele mundo não parecia ser meu, eu ainda na faculdade, sem grana… Até hoje eu procuro por esse café, acredita? Eu sei que fica perto de onde eu moro hoje, mas eu já passei mil vezes pela rua e não encontro. Nunca mais achei onde fica, não é engraçado?”

Ela falou do assunto rapidamente, e eu não quis me prolongar muito.
Quando a ferida dói muito, a gente limpa com toquezinhos delicados em vez de esfregar com bucha.





Algumas sessões depois, Ana chegou ansiosa.

“Você acredita que ele me ligou? Anos sem falar com esse homem, e ele me ligou do nada! Ele perguntou alguma coisa sobre trabalho, mas parecia que era desculpa. Eu aproveitei a situação e pedi para ele me responder algumas coisas.”

“Algumas coisas?”

“Perguntei se ele tinha traído a namorada novamente. Você acredita que sim? E, se eu não tivesse falado pra ele que não tinha interesse, teria traído novamente!”

“Como você se sentiu?”

“Aliviada. Livre. Não fui eu que provoquei a traição. Ele teria feito isso de qualquer jeito, com qualquer pessoa. Foi como se eu não tivesse mais culpa.”

Ana contou a história com a alegria de quem conquista algo importante. Continuou:
“Ah, e você acredita que eu achei o café essa semana? Estava passando pela rua, tão pertinho de casa, e finalmente encontrei o café novamente, depois de tanto tempo!”

Como o inconsciente é lindo. Só depois de se livrar da culpa de levar um homem para o caminho da traição naquele café, ela pode encontrar o caminho para lá novamente.



Sonhou, dessa vez, com caminhos fechados.

“Eu subia escadas, mas não conseguia passar por elas. Trocava de corredor e isso se repetia, até que cheguei em um lugar alto e bonito, e eu via um pôr do sol lindo. Eu ficava contente.”

“Você sente que chegou num lugar positivo?”, perguntei.

“Sinto. Mas então, eu me virei e encontrava um elevador que...”

O sonho continuava. Sua história ainda não acabava ali.
Ainda assim, ela já havia encontrado um caminho.


(Alguns nomes e situações foram alterados para preservar a identidade do paciente, que autorizou a publicação desse texto.)

17.7.17

Em semi-círculo

Você já assistiu essa cena:
Um educador bem intencionado, que quer que seus estudantes se engajem um pouco mais, junta todos eles numa sala e avisa:
"Hoje a aula vai ser diferente!", fala como se isso fosse algo que os alunos gostam de ouvir, "por favor, façam um semicírculo."

Depois de meia hora de gente arrastando cadeiras, ele decide que é hora de começar.
"Hoje nós vamos discutir uma questão polêmica. Aborto!"

Vinte minutos depois, começa a terceira guerra mundial.

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Já estamos tão acostumados com isso que parece que o bate-boca é parte essencial de qualquer discussão.

Talvez o erro seja estarmos tentando avançar logo para a questão polêmica, sem olhar para o que vem antes dela (justamente onde podem haver mais pontos de convergência entre os dois lados da conversa).

Ser a favor ou contra a legalização do aborto (ou da maconha, ou reforma trabalhista, o assunto que for) é a ponta de uma lança muito comprida. Muitas perguntas precisam anteceder essa. Não adianta - mesmo com as melhores intenções - juntar pessoas para discutir aborto sem antes discutir profundamente sobre temas muito mais básicos do que ele, como a liberdade individual, liberação sexual, o papel da mulher na sociedade...

Mas a gente pula etapas, e quando vê... a discussão complexa que um tema como polêmico requer vira uma briga infantil com gente gritando "Assassino de crianças!" de um lado e "Você odeia as mulheres" do outro.

Temos pressa demais para chegar no final das questões, e não querer perder tempo com o básico só atrapalha nossa capacidade de empatia.

Até uma discussão precisa de tempo e preparo para começar.
Se botar uma criança com bicicletas de rodinhas pra fazer manobras radicais, o tombo é certo.
E olha, pode até ser divertido de assistir... mas não vai ser produtivo.

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Lembro de uma discussão que tive em sala de aula, ainda na faculdade de psicologia.

Uma aluna evangélica fez alguns comentários preconceituosos bem primários sobre homossexualidade.

A professora, um gênio, doutora pela USP, ativista na área há décadas, tentou argumentar. Um argumento de cá, uma resposta de lá, e... a professora não aguentou.
Mandou a menina embora da sala. A turma, que estava em peso do lado da professora, murchou. A atitude só serviu pra reforçar a ideia de que quem é liberal é intolerante.

Acontece. Mesmo uma pessoa muito preparada acaba perdendo a cabeça.
Uma pessoa super educada e capaz de aprofundar-se nos assuntos a que se dedica não é obrigada a perder tempo escutando argumentos de gente que não quer ouvir...

Mas, se não for pra ouvir os argumentos do outro lado, pra quê entrar num debate?

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Só existe um modo de sobreviver ao Método SuperPop de Abordagem a Assuntos Polêmicos, e é tratar o outro lado com a paciência e a didática de um professor de jardim de infância.

Deixar o outro lado berrar um pouquinho e responder, na voz mais calma do mundo, um argumento extremamente simples, apelando pros fundamentos mais básicos da questão. Pelo menos você aparenta ter um pouco mais de classe. 

Ser um pouco mais frio e condescendente, tirando o elemento emocional da conversa, parece ser errado, ainda mais quando estamos falando de um assunto que mexe muito conosco. Mas só assim se coleta o benefício de conseguir permanecer plácido enquanto o outro lado esbraveja sozinho até conseguir perceber, sozinho, que está sendo ignorante.

Senão é o Jean Willys cuspindo no Bolsonaro tudo de novo. 
Catártico, mas superficial.

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Saber dar um passo para trás e fazer a pergunta por trás da pergunta é uma das habilidades mais importantes de se aprender na vida.

Conter o impulso de erguer a voz e perguntar para si mesmo "O que eu quero com essa discussão?".
É ganhar o argumento? É promover um ponto? É que a outra pessoa deixe de te ver como um inimigo? É parecer malvado?

Com essa resposta nas mãos, você vai saber direcionar seu argumento para onde você deseja, em vez de para onde a emoção manda.

Se o outro lado ainda assim não quiser te ouvir... Tente ignorá-lo.
Se não der... Desce a porrada. Violência mesmo. Conflito nem sempre é tão ruim assim.

Depois marque um novo debate. 
Dessa vez, sobre a importância da paz.

8.7.17

Está vindo

Quem passa a vida pulando entre uma cordinha de sanidade mental e outra, como um Tarzan tentando não cair num matagal de loucura, sabe de duas coisas: um, a próxima crise sempre vem; e dois, você pode prevê-la.

Os sinais são claros.

Você começa a sentir uma coisa que não é bem a crise, mas sim o prenúncio da crise, como uma dorzinha no pescoço precede uma crise de enxaqueca.
Fecha os olhos e enxerga, de leve, a imagem de si mesmo na cama, como se já estivesse com o pensamento de terror ao pensar em levantar no outro dia - mas o pensamento ainda não está lá.  Você só tem a imagem dele.
Sente o seu cheiro. Escuta seus passos.

A crise vem, você sabe que ela vem.

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Os pensamentos negativos surgem e desparecem como os faróis de um carro que cruza o seu caminho à noite. Sussurros se divertem ao lhe torturar dizendo "está tudo dando errado" no seu ouvido pra depois sair correndo.

E você ainda está bem.
Você está funcionando, você ainda consegue acreditar que o próximo dia pode ser bom.

Mas a crise vem, você sabe que ela vem.

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Você tenta fazer algo a respeito.

Tenta agendar uma saída com os amigos, uma corrida no parque, um macarrão com queijo e um copo de vinho, qualquer coisa que tire a sua cabeça da sensação de que a qualquer momento um avalanche vai acontecer te soterrando em toneladas de depressão acumulada.

Tenta dizer pra si mesmo "coisa da minha cabeça". Tenta racionalizar e pensar que, quem sabe, perceber que esses sinais todos são sinais pra você se controlar um pouco mais e evitar que a crise venha. Não é pra isso que serve aprender a ler os sinais?
Ainda assim, você se prepara.

Porque a crise vem, você sabe que ela vem.

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E você resiste.

Pega um livro e folheia como se conseguisse se enganar que está lendo.
Escova os dentes, toma um banho. Evita olhar demais o espelho, pra não começar a se achar uma pessoa desprezível ainda.
Ouve uma música, joga paciência. Tenta ganhar tempo.

Porque a crise ainda não começou, mas você sabe que ela vem.
E ela está vindo.

Pelo menos não vai ser de surpresa.

5.7.17

Não me calo

Passei os últimos meses com um caco de vidro enfiado no pé.

Meu hábito de quebrar copos e meu hábito de caminhar descalço se uniram e, não sei bem quando, comecei a sentir alguma coisa estranha no meu pé.

Toda vez que eu pisava, doía.

Eu não entendia o motivo até fazer a matemática: É claro que eu devia ter pisado em algum caquinho bem pequeno e aí continuei a caminhar como se nada tivesse acontecido.

Como a dor começou pequena, eu não dei bola.

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Passei as semanas seguintes me gabando da minha dor pras pessoas. Alguém comentava "Ai, tô com azia" e eu já respondia na lata:
"E eu, que tô com um caco de vidro há meses no meu pé e nem ao médico fui?".

Eu mesmo me surpreendia com a minha resistência, porque o bicho foi doendo mais e mais e eu não estava nem aí. Ia pra academia, saía correr, andava torto mas usava meu pé doendo como uma medalha de guerra.

Até tentei abrir o pedaço de pele inchada com um estilete pra ver se conseguia tirar o caco, sem sucesso.

Cancela o budismo, gente, porque eu venci a dor humana.
Eu sou muito forte.

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Hoje minha amiga comentou que precisava pegar um atestado e eu aproveitei a companhia para ir ao médico também. Comentei do caco de vidro na triagem com a enfermeira e já recebi uma pulseirinha dizendo que meu caso tinha alguma urgência, apesar de não muita.

Afinal, não era qualquer coisinha, meu caco de vidro de estimação.

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Cheguei na sala e repeti pra médica toda a história: provavelmente-pisei-num-caco-de-vidro-e-só-reparei-depois-que-tinha-uma-cicatriz-por-cima-mas-agora-tá-doendo-bastante-afinal-até-heróis-sofrem.

Ela me pediu para tirar o calçado e examinou.
Pediu onde era.

Apertou.
Eu gemi.
Apertou de novo.
Eu urrei.
Apertou de novo.
Eu falei PISA MENOS, DOUTORA.

Ela parou de apertar. Olhou pra mim com cara de "Não acredito que tô gastando meu tempo com isso" e disse:
"Você tem um calo."

Quê?
"Isso é um calo. Você tem um calo no pé, só isso."

As minhas perguntas seguintes foram algo entre "por que isso dói tanto?" e "mas isso mata?".

Enquanto isso, ela procurou no Google um nome de um creminho esfoliante da Granado que, segundo ela, resolve tudo. Aconselhou colocar um protetorzinho na palmilha e... pronto.

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Bem, tem algumas pessoas que eu preciso me retratar.
Eu não tinha um caco de vidro no meu pé, ok? Desculpa aí.
Como diria a Folha de São Paulo, erramos.

Mas sabe na Bíblia, que tem todo um mistério porque o apóstolo Paulo dizia sofrer de um "espinho na carne", que as pessoas não sabem até hoje o que é?
Aí inventam histórias desde ele ser homossexual até que ele tinha lepra?

Eu acho que ele tinha um calo no pé mesmo.
Aquelas sandalinhas romanas não deviam ser muito confortáveis.

Isso explica porque ele dava tanta lição de moral, também, porque eu fiquei insuportável com essa experiência.

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Quer dizer, não é porque minha dorzinha veio de uma coisa banal que eu não vou usar ela filosoficamente pra me sentir melhor que os outros.

Todo mundo que eu encontro eu já arranjo um clichê pra meter na conversa.
A pessoa ali, paradinha, e eu já chego puxando assunto:
"Tomando café?"
"Sim", diz a pessoa.

Eu já respondo julgando.
"Bem... cada um sabe onde o calo aperta, não é?"
"Como?"
"Olha, olha! Não pisa no meu calo!"

A pessoa acha estranho.
"Cê não tá falando nada com nada, Flávio"
"Ah, é? Antes de me julgar caminhe um quilômetro com meus pés!", e saio revoltado.

Podem reclamar o quanto quiser.
Não me calo.

2.7.17

Longe eu posso ser ninguém

"Eu preciso mudar de vida. Nada acontece, nada melhora. Eu me sinto preso aqui."
A pessoa faz uma pausa, respira fundo, pensa e completa:
"Eu vou embora daqui."

Já escutei isso de tantos pacientes que nem vou pedir autorização de nenhum em particular para mencionar a fala. Aliás, meus amigos todos falam a mesma coisa depois da segunda cerveja.

Diabos, até meus pais, aos cinquenta e cinco anos de idade, botaram as malas no carro, dirigiram quatro mil quilômetros e saíram do interior do Paraná - quase Argentina - para morar numa cidade pequena no sertão do Ceará em que não ocnheciam ninguém.

Todos temos a fantasia de uma vida nova em um outro lugar.
Por que o desejo de ir pra longe aparece tão forte em momentos de desespero?

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"Navegar é preciso
Viver não é preciso"
(Fernando Pessoa, Caetano Veloso, uns navegadores romanos e ninguém sabe direito mais quem)

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Primeiro porque o movimento literal representa a sensação de movimento na vida.

Quando as frustrações da rotina se empilham alto demais, o impulso de fazer uma grande mudança na vida surge como uma possibilidade de resgate.

Viajar depois de um problema grande é o equivalente a cortar o cabelo depois do fim de um relacionamento: uma grande mudança que mostra pra gente mesmo que pelo menos se está tomando uma atitude para fugir do grande problema que nos persegue.

Alguma coisa está sendo feita. A vida não está sendo desperdiçada.

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"Onde é que eu fui parar?
Aonde é esse aqui?
Não dá mais pra voltar
Por que eu fiquei tão longe?"
(Arnaldo Antunes)

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Sem contar que estar em um lugar novo é uma chance e tanto pra se assumir uma nova personalidade.

Não que você vá mudar seu nome pra Milady e andar de um lado pro outro carregando uma xícara de chá, mas dá pra mudar o jeito de ser sem criar tanto estranhamento.  Uma mulher que cresceu sob a sombra de uma irmã que chamava toda a atenção para si, por exemplo, em um lugar novo pode experimentar uma nova personalidade.

Agora ela pode ser a pessoa aberta, sorridente e extrovertida que nunca conseguiu antes por esse lugar já estar ocupado.

Na ausência de um ponto de referência, o ponto de referência precisa ser você mesmo. Você é obrigado a crescer.
E cresce, pelo menos até voltar para casa.

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Também tem todo o movimento migratório que acontece por desespero político.

Num cenário como o de hoje, em que cada notícia é um deboche às custas de quem tenta levar uma vida honesta, a vontade de ir para outro lugar bate fundo no instinto de autodefesa.

"Não posso ser um idiota. Esse país é governado por gorilas que querem nos fazer de idiotas. Eu não vou ser idiota aqui. Me recuso a aceitar o deboche."

Na esperança de se sentir tratado com mais respeito, a pessoa se sente no impulso de abandonar tudo o que tem de familiar para desbravar um lugar novo, mesmo que precise começar do zero.

O senso de desafio que aparece no peito de quem se sente menosprezado é um combustível fortíssimo para mudar tudo.

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"Longe eu posso ser ninguém
Pois longe ser ninguém é OK
Novo chão, velha constelação"

(Paula Toller)

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Agora, mais forte do que isso tudo, mudar radicalmente de lugar é uma maneira de jogar fora as expectativas, dos outros e nossas, do que deveríamos ter para nos considerarmos um sucesso.

Longe, você não precisa mais ser tão bem sucedido.
Você não precisa ser o primo que ganha vinte mil por mês se você já é o primo que mora no Canadá. Seja uma expectativa própria ou dos outros, você já garantiu sua grande conquista só por ter ido parar do outro lado do mundo.

Para os outros, você se deu bem porque sempre se imagina a grama mais verde do outro lado, e você vai estar desse outro lado.
Para si, porque a batalha de se firmar num lugar desconhecido, enfrentar a solidão e começar do zero vão te convencer que você fez bastante por si - mesmo que não tenha virado o neurocirurgião foda ou o empresário milionário que sempre pensou que ia ser.

Você vai ter aprendido que as pequenas conquistas também tem valor.

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A distância não resolve tudo para sempre. Depois de se aprender a ser independente e viável num novo território, você vai precisar aprender a exercer a vulnerabilidade outra vez.

Se a distância trouxe a independência, passa a ser hora de encontrar algo que supra outra necessidade vital do ser humano: a proximidade, e é muito mais difícil lidar com a proximidade do que com a distância.

Abandonar o reflexo de se afastar toda vez que se toca em uma parte vulnerável da gente exige um esforço imenso, mas é um passo importantíssimo para conseguir se sentir verdadeiramente em casa em algum lugar - ou em alguém.

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"Se acaso numa curva eu me lembro do meu mundo
Eu piso mais fundo, corrijo num segundo
Não posso parar."
(Roberto e Erasmo Carlos)

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A bagagem mais pesada que se pode levar ao se mudar para outro canto são as histórias que cada pessoa carrega.

As rejeições, os medos e as ansiedades que já se viveram ficam dobradas e guardadas no peito, prontas para serem utilizadas assim que uma situação parecida acontecer. Quando algo assustador acontece, você precisa lidar com as memórias, com os velhos hábitos, com o problema em si e com a ansiedade de estar em um novo lugar.

"Eu sou uma nova pessoa agora. Eu sou uma nova pessoa agora", você tenta se convencer, enquanto o coração acelera.

Começar uma vida nova em outro lugar é como tentar desenhar numa folha de papel que estava embaixo de outra que já foi desenhada. A folha pode estar em branco, mas tem rabiscos em relevo impossíveis de apagar.

Ainda assim, é um terreno muito mais convidativo para fazer um novo desenho do que a folha anterior.

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Escolher ir para longe é um contrato de alto risco.
Não há garantias de sucesso, voltar é sempre difícil e você pode não se sentir mais em casa nem no lugar de onde veio, nem no lugar para onde foi.

Talvez porque o mundo tenha se tornado sua casa, talvez por nunca ter partido de verdade.

Com sorte, o contrato compensa e as coisas dão certo:
Você vai estar longe de tudo, mas mais perto de si.

28.6.17

Como escrever um texto meu

Introdução a um assunto qualquer que tenha a ver com a vida das pessoas. 

Talvez uma opiniãozinha polêmica, pra chamar a atenção das pessoas para o texto.

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(dois tracinhos pra quebrar o texto em várias partes, pro leitor com déficit de atenção resetar o cérebro e continuar lendo)

Mudança brusca de assunto.
Uma anedota engraçadinha da infância.

Detalhe um pouco triste da história.
Piadinha pra não ficar muito pesado.

Sensação agridoce.

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Voltando pro tema inicial, falando que as coisas não são tão simples assim.
Lugar pra enfiar alguma coisa que lembre as pessoas que eu sou psicólogo.

Pausa pra ver como mesmo quando fazem um monte de cagada, as pessoas são lindas.
Momento fofura.

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Uma reflexão mais madura sobre a historinha da infância.
Uma frase um pouco mais de impacto pras pessoas copiarem e colarem no Facebook na hora de compartilhar.

Uma piadinha voltando atrás na opinião da frase anterior, pra não ficar muito autoajuda e dizer que as coisas não são tão simples como parecem.

Frases e parágrafos curtos, porque as pessoas já estão cansadas a essa altura do texto.

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Hora de dizer que o assunto não precisa ser levado tão a sério.

Sugestão de um meio-termo possível entre levar o tema do texto a ferro e fogo e deixar ele pra lá.
Uma frase rápida, retomando o começo do texto e dando uma alfinetada.
Um gracejo curto.

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Cristo pai, eu preciso me renovar.

22.6.17

Sem cinismo

Uma criança brinca. Corre como se não tivesse limites, desbrava a sala como se fosse um campo de guerra e cai no chão como quem cai numa emboscada.
Fez dodói. Tá ardendo.

A mãe aparece, pega a criança no colo, beija sua ferida, aperta o filho contra o corpo e diz "Não se preocupe, meu amor. Vai passar. Tá tudo bem.".

A criança acredita, o choro vai embora.
Não sei o que mora no abraço de uma mãe que consegue aplacar as angústias mais profundas, mas deve ser algo mágico.

--

É fácil se acostumar com esse afeto capaz de curar todas as dores.
De repente, chega a vida adulta e você se vê de cara com um problema imenso que não tem mais mãe que dê conta de acalmar no colo.

A gente se revolta.
O cinismo entra no corpo como um ferrão de abelha, e a ferida inflama.
A gente fica amargo.
Descobre que não existe Fada dos Dentes nem Papai Noel, e começa a duvidar de Deus.

De repente, a janela bonita para onde a gente olhava cheio de esperança vira só um adesivo numa parede de concreto.

E a gente entra em crise.
Não está tudo bem. Era mentira da mamãe.

Como ousa uma pessoa sã, nessa merda toda, juntar o próprio corpo contra o seu e falar que está tudo bem? Que vai passar?

Não era magia, era mentira. Só alguém muito iludido, mesmo, pra acreditar em alguém que fala essas besteiras.

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O maior perigo do cinismo é o prazer que ele causa.
É gostoso saber que estamos acima de todos os outros. É reconfortante saber que, apesar de parecerem felizes, os esperançosos são todos bobos e ignorantes da própria situação.

O sofrimento não passa, mas é quase uma libertação poder achar que tá todo mundo muito afundado na merda e que ninguém tem saída mesmo. Ser pessimista e ter a consciência de que o mundo é cheio de merda é muito fácil. Há um alto grau de onipotência na impotência.

Infelizmente, consolar a si mesmo por enfiar o pé na jaca da angústia não é uma boa estratégia a longo prazo.

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Melhorar exige fé.
Ok, talvez fé seja uma palavra com significados demais para ser usada assim, impunemente, mas de que forma uma pessoa vai conseguir melhorar de um problema que tem se ela nem acredita que isso é possível?

Só melhora quem aceita que pode ficar tudo bem, quem tem tanta confiança que a dor vai passar que a encara como uma mãe que diz "Já passou" ao filho que está chorando.

Repara bem: quando você sente dor, a dor é percebida por uma parte sua que só assiste a dor, mas não participa dela. Você sente a dor, mas você não é a dor.
A sua parte que não é dor está bem.

Repara mais um pouco: Toda dor é suportável temporariamente, e o tempo passa tão descaradamente que apaga a dor até da perda mais violenta.
Diabos, a gente passa, a vida passa, o mundo passa. É claro que seu problema também vai passar.

Você só precisa de paciência, resignação e um abraço. Talvez uma canja de galinha.
Sua mãe já tinha a receita.

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No meio do sofrimento, vale a pena ter um pouco de humildade e tentar se ver como uma criança machucada, que não sabe de tudo.
Aí que entra em ação a sua parte que precisa aprender a ser sua própria mãe.

Na ausência de um abraço carinhoso, cada um é responsável por aprender a se tratar com a firmeza e o carinho de uma mãe. Aprender a se abraçar na hora da dor, mandar secar as próprias lágrimas e tentar outra vez, com a paciência e os recursos que tiver à mão.

Com os ânimos aplacados, é possível ver a situação difícil do tamanho que ela realmente é. Quase sempre ela é menor do que se pensava. Aí sim, dá pra acreditar que é possível fazer alguma coisa e tomar uma atitude adulta a respeito do que se passa.

Claro que não vai ficar tudo perfeito... Mas tá tudo bem. Vai passar.
Beijinho na ferida e segue em frente.

Deixa o cinismo pra lá. Ele é um brinquedo de criança mimada.

19.6.17

Eufemismos

Eufemismos são lindos.

A ação é a mesma, mas por que diabos uma pessoa que fala "Vou fazer xixi" soa tão fofa e uma que fala "Vou mijar" parece tão invasiva?

E a pessoa que "tira água do joelho" ou "lava a louça com mangueira", que já termina a frase praticamente com um certificado de humorista?

Nem vou entrar no mérito de "fazer pipi", porque fazer pipi é a única justificativa que eu concordo para a pena de morte.

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É incrível a diferença que um pouquinho de sutileza na hora de falar faz.

Num dia menos inspirado, o Djavan não cantaria "Um dia frio, um bom lugar pra ler um livro e o pensamento lá em você" , e sim "Tô de jaqueta, cagando de pau duro com um Paulo Coelho na mão".

Talvez não tão diretamente. O Djavan provavelmente é do tipo que fala "pênis" e não "pau".

Pelo menos não é pingolim. Pingolim é o caralho.

--

A Gabriela era a menina mais popular da turma.
Os olhos claros, o sorriso impecável e uma sensação vaga de ausência de personalidade combinavam com seus dezesseis anos perfeitamente.

Rainha do primeiro ano, ela não descia frequentemente do trono para falar com o meu grupo. Por isso eu me surpreendi tanto quando a vi conversando com minha melhor amiga na escada do colégio.

"Não tenho, desculpa!", minha amiga estava respondendo.

Eu, que sempre fui metido, me enfiei no papo:
"Não tem o quê?"

Ela não respondeu. Pôxa, ser popular e não andar comigo tudo bem, mas me ignorar na minha cara?
"O que você precisa?"

Ela fez "nada", com os lábios, numa expressão que implorava pra eu ficar quieto.

Confrontei.
"Porra, se você falar pra mim quem sabe eu posso te ajudar!"

Ela só mexeu os lábios, em silêncio:
"U - A - SO - EN - TE"

Eu já estava puto:
"O quê? Fala direito!"

"EU PRECISO DE UM ABSORVENTE!", ela berrou num grito-sussurro que deve ter prejudicado as suas cordas vocais até hoje.

"Pra quê?", e aí eu já estava implicando de propósito.

Ela respondeu numa frequência que só cães ouvem, enunciando todas as vogais como se fossem a letra "i".
"Eu tô menstruada!"

A força que ela fez pra falar deve ter feito sair todo o sangue de uma vez só.
"Ah", respondi. "Não tenho."

Não foi maldade. Eu não tinha mesmo.

--

Às vezes a linguagem quer botar um óculos falso e um bigode pra disfarçar o que precisa dizer.

A gente falece pra fingir que não morre e diz que está lotado de coisas pra fazer quando quer tirar uma soneca. A gente até separa nossos eufemismos de acordo com onde está, e diz que teve "um problema pessoal" no trabalho enquanto "levou um pé na bunda" para os amigos.

Mas fazer charminho na hora de falar é uma maneira de se colocar no mundo. Cada palavra que você escolhe revela um pouco das suas crenças, escolhas e seu jeito de ver a vida.

Por isso a depressão e a comédia andam de mãos dadas.
Se divertir usando palavras é uma maneira de tornar a vida mais aceitável. Quanto mais sofre uma pessoa, mais ela precisa colorir a sua linguagem para lidar com a realidade.

Isso não precisa ser exclusividade dos sofredores. Uma expressão divertida não precisa ser um disfarce. Pode ser só... um tempero.

Um jeito de tornar a vida um pouquinho mais imprevisível, mesmo quando a rotina se repete.

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Por mais apreciador da linguagem colorida que eu seja, eu nunca consigo entender o que querem me dizer quando a ideia é ser sutil.

Uma vez, quando eu trabalhava num escritório, um colega me escutou passar pela porta do banheiro e chamou baixinho.
"Flávio, é você?"
"Sim", respondi pra voz do além. A voz respondeu com um tom suplicante:
"Viu, traz peagá?"

Não entendi.
"Hã?"
"Pê agá!"

"Quem?"
"Acabou o peagá, pega um rolo pra mim!"

"Cuma?"
"PÊ AGÁ, CARALHO. PAPEL HIGIÊNICO. TRAZ PAPEL QUE EU TÔ TODO CAGADO AQUI, IRMÃO".

Putz. Me senti culpado por não ter essa elegância toda, mas levei o papel.
Pelo menos dessa vez eu pude ajudar. De quebra, aprimorei meu vocabulário.

16.6.17

Aceitação

Se existe um mandamento bíblico fácil de seguir, é o de amar ao próximo como a si mesmo. Jesus foi marotíssimo na hora de soltar essa porque, se a gente conferir bem, não existe nenhum outro jeito de tratar as pessoas.

Só é possível tratar outra pessoa da mesma maneira que você se trata.

Enquanto alguém não ama a si mesmo, vai continuar tendo problemas para aceitar os outros do jeito que são.

--

De todas as frases que eu falo no consultório, nenhuma gera tanta cara feia como "Será que é possível aceitar isso, em vez de tentar mudar?".

Para quem está pagando um profissional por hora para tentar mudar aquilo que lhe incomoda, a sugestão de deixar tudo como está é sentida como um bofetão na cara.

"Eu estou infeliz do jeito que eu estou", diz o paciente, "eu prefiro morrer do que viver assim."

E seguem calçando sapatos muito menores ou maiores do que o próprio pé e reclamando por não conseguir andar.

"E se você calçasse seu próprio número?", eu pergunto, antes do sapato ser atirado na minha cabeça.

--

Normalmente a gente tenta mudar aquilo que a gente é criticado por ser.

Só esquecemos de conferir o motivo da crítica.
Pode ser que a crítica que você recebe por falar demais venha de alguém que se sente ameaçado diante de alguém comunicativo, ou que sua timidez seja criticada por gente que não sabe lidar com o próprio silêncio.

Mas em vez de falar "foda-se, migo lindo", damos ouvido à crítica e seguimos investindo toda a força que temos para ficamos calmos, quando somos agitados. Sutis, quando somos porretas. Pudicos, quando somos ousados.

Não conseguimos.
Já tentou botar um body de natação num cachorro, prender os braços dele e o jogar na água, pra ver se ele vira uma foca?

Por mais que a situação requeira isso dele, ele não vai conseguir nadar, não vai conseguir quicar uma bola de plástico no focinho e sua festa na piscina vai estar arruinada.

Hipoteticamente, claro.

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Quanto mais você se controla para ser o que não é, mais os outros te irritam.

A pessoa que não se controla como você é uma louca, a colega que não está de dieta (enquanto você briga com o seu corpo) é uma descontrolada.

Todas as pessoas passam a ser tão erradas quanto tentar fazer um cachorro morto dentro de um body de natação virar uma piñata pra animar uma festa na piscina que não está dando certo.

Você aponta o dedo, critica, se mói por dentro. Enche o saco da porra do próximo, como enche a si mesmo.

Pentelho.

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O problema é que tanta gente espera que aceitar a si mesmo seja igual a um comercial de Dove.
Não é.

Você não vai aceitar sua aparência por olhar no espelho e dizer "Eu sou bonito. Eu sou bonito. Eu sou bonito." até que a Fada da Aceitação apareça como a Loira do Banheiro e te abençoe com o dom de se achar belo.

A aceitação não vem de olhar a parte bonita do que se tem. Ninguém precisa aceitar uma coisa boa.

Aceitação vem de olhar para a parte difícil, suja e até então inaceitável de si mesmo e falar "Ok, é isso mesmo. Eu não sou do jeito que eu acho que deveria ser. Eu sou assim. Desisto."

É nessa hora que os ombros descem, relaxando da tensão acumulada por anos.
É nessa hora que você sente uma energia renovada, depois de tanto brigar para ser o que não era.

É nessa hora que você vê que aquilo que era tão importante se tornar não era tão importante assim.

Que, para ser aceito no portão onde só entram as pessoas com valor, você não precisava mudar. Só... aceitar o convite.

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É como teimar em insistir que a Terra é plana.

Depois de passar anos tentando encontrar o fim da Terra e ir parar sempre no mesmo lugar, a pessoa cansa, pára de brigar com o óbvio e... aceita que estava errada.

Agora ela pode dedicar sua vida a algo mais importante, como fundar um instituto que promova a segurança de cachorros em festas na piscina.

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O mais engraçado de tudo isso é que, depois de aceitar que você tem alguma característica que não gosta e parar de brigar consigo por causa dela... você muda.

Quando você deixa de fingir que uma situação não existe, você passa a lidar com o real dela. Passa a fazer o que pode, e isso basta.

Aí, só de sacanagem, você começa a sentir saudades de como era antes, e começa a achar bonito quem é do jeito que você tanto odiava.

E consegue amar o próximo, porque o aceita.
Porque, veja só, você se aceitou.

7.6.17

Bueiro

Eu já contei pra vocês do dia que eu caí num bueiro?
Não, né, porque isso acabou de acontecer.

Pra essa história valer a pena você precisa saber que:
1- Eu sempre tive medo de cair num bueiro.
2 - Eu vou ao supermercado quando quero desestressar.
3 - Eu sempre quis comprar um vidro de ovo de codorna.

Então, tive um intervalinho no consultório e resolvi dar um pulo no mercado pra esvaziar a cabeça antes do próximo paciente. Até falei pra minha colega que não tinha nada pra fazer lá, só queria mudar o cenário.

Pois bem.
Cheguei no mercado e não tinha nada que eu precisasse comprar. Eu tenho estado estressado ultimamente, então a despensa tem sido bem recheada.
Fui passeando pelos corredores até encontrar um vidro de ovos de codorna.

Eu amo ovos de codorna, eles são a coisa que eu mais como quando vou numa churrascaria, pra mim eles são sinal de ostentação e grandeza. Ainda assim, eu nunca comprei um vidro inteiro antes porque me parecia... vulgar. Seria estragar uma coisa especial.

Mas hoje não.
Hoje eu merecia uma coisa especial. Peguei o vidro com os ovos e fui pagar no caixa. A atendente, conhecida minha, quis reforçar a sacola.
Eu falei que não precisava, o consultório é bem pertinho dali, não ia ter problema. Ela insistiu. Eu falei "Imagina, não vou derrubar não, de jeito nenhum".
"Olha, olha", ela respondeu, "se cuida!".

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Muito que bem, saí do supermercado e juro por Deus que não são nem 100 metros do caixa até onde eu precisava ir.
Estava andando com os ovos na mão e pluft.

Eu caí, mas não estava no chão.
Eu estava mais embaixo.

Preciso dizer que ontem Curitiba estava debaixo de uma tempestade terrível, a água arrastou tudo o que pôde inclusive a tampa do bueiro da esquina do supermercado.

Bastou pisar nele que ele escorregou e eu desci.

Por sorte, foi com uma perna só.
Eu abri um espacate com uma perna bueiro adentro, uma perna no chão e os braços pro lado, na posição clássica de um mosquito depois de uma chinelada.

Não pensei no perigo de me machucar.
Não pensei no medo de escorregar inteiro pra dentro do bueiro e ter que passar o resto da minha vida lá.
Tudo o que eu conseguia pensar era "PUTA QUE PARIU, DERRUBEI MEUS OVO DE CODORNA".

Ô atendente praguenta.

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Graças a Deus não me machuquei além de uns ralados, mas tá tudo doendo.

Já vim pra casa, já tomei um banho bem longo pra tirar toda a meleca da perna e eu acho que tá tudo bem.
Ainda assim, se eu virar um mutante anfíbio ou o Homem-Barata, vocês já sabem por quê.

O mais importante dessa história, e o motivo de eu estar contando ela pra vocês, é que O VIDRO DOS OVOS NÃO QUEBROU.
Inclusive tô comendo eles agora, enquanto digito isso pra vocês.

A moral da história eu não sei qual é.
Na dúvida, nunca discorde da caixa do supermercado.
E olhe bem por onde anda.
E só pra garantir, nunca desista dos seus sonhos. Porque os ovinhos tão uma delícia.

Mania

O que podemos aprender com a história do menino que foi preso após tentar se passar por médico e foi encontrado morto?
Além de mostrar o absurdo que é a legislação brasileira não considerar Grey's Anatomy como uma formação válida para medicina (ok, talvez não), essa história pode ensinar muito sobre saúde mental.

Claro que não dá pra saber o diagnóstico do menino só por ler duas notícias, e eu posso estar bastante errado, mas o caso dele me lembra muito transtorno bipolar.

Sim, transtorno bipolar.
O mesmo que muita gente diz que tem só porque esteve feliz e triste no mesmo dia.

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Talvez seja um dos transtornos mentais menos compreendidos pela população em geral.

A oscilação de humor existe, mas ela é bem característica: numa fase, chamada de mania, a pessoa está muito animada, com autoestima muito elevada e a certeza de que não tem problema nenhum, alternada com uma fase de "cair na real" e entrar em depressão profunda.

Na mania a pessoa se sente invencível.
Os projetos dela vão dar certo, ela tem muita capacidade, e a cautela vai por água abaixo. Ela dirige acelerada, ela gasta dinheiro que está longe de ter, ela faz mudanças intensas.

Era nessa fase que, me parece, o menino estava quando invadiu o hospital.
Pra ter uma ideia de como funciona a cabeça de alguém em mania, ele não precisaria ter tido alucinação nenhuma para acreditar que era formado em medicina por assistir TV. Pode ter bastado alguém brincar que "Nossa, você podia trabalhar num hospital de tanto assistir essa série" pra ele embarcar numa aventura dessas.

Aí, depois de pego no pulo e ter virado piada pública, veio a fase de depressão. Perceber como ele estava errado fez sentir o tombo do pedestal onde ele se pôs na fase maníaca.
Obstinado como ele era, deu no que deu.
Suicidou-se.

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A coisa mais difícil de lidar com pessoas com transtorno bipolar não é a depressão. É a saída dela.
É quando a pessoa se dá conta, devagar, que a hora em que ela começa a melhorar é um momento de cautela. Que ela pode estar se sentindo mais feliz, mas que isso significa redobrar a atenção ao que sente para não cair na tentação de se empolgar de novo.

O padrão que o transtorno bipolar leva ao extremo é bem comum na vida de muita gente: os projetos começam com força, ânimo e intensidade até que não dão certo, são abandonados e deixam um trilho de tristeza e frustração.

E como a pessoa tenta sair dessa fase de tristeza? Se empolgando muito com outra coisa. Aí repete o processo.
É por isso que é tão importante aprender a ver a vida em nuances mais delicadas. Sem tanto preto e branco, sem tanto certo e errado.

Lidando com nuances a gente não precisa se pautar por extremos. Aí a gente pode estar um pouco triste ou um pouco feliz, e não oscilar o tempo todo entre onipotente e impotente.
Isso é promover saúde.

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Talvez se as pessoas conhecessem um pouco melhor o que são os transtornos mentais, casos como esse poderiam ser evitados.

Os sinais podem ser confusos para fechar um diagnóstico claro, mas para isso existem os profissionais.

Ninguém precisa ser profissional de saúde para diagnosticar um resfriado ou uma dor de barriga. A gente simplesmente aprendeu os sintomas e sabe o momento certo de uma pessoa buscar ajuda.
Vale prestar um pouco de atenção.

Esses diagnósticos não aparecem no Grey's Anatomy, mas podem salvar uma vida ou outra.

4.6.17

Bolas de pus

"Eu me sinto usado", eu disse pra minha amiga enquanto tomávamos vinho.

"Eu estive lá quando ele não era assumido. Eu estive lá quando a mãe dele desligava quando era eu que estava no telefone."

Era a primeira vez que eu me abria depois do fim daquele relacionamento. Eu caí num choro daqueles que faz parecer menos doloroso cortar a cabeça no meio pra arrancar as lágrimas direto da fonte.

"Eu falava pra ele. Eu pedia tanto para ele ir morar sozinho, pra ele se assumir, dei tanta força. Eu apresentei ele pros meus amigos. Eu perdoei tanta coisa, eu aceitei tanta coisa, e pra quê?"

Minha amiga me olhou com ternura.

"Agora tem outra pessoa usufruindo disso. Ele finalmente saiu de casa, e é outra pessoa que dorme com ele. Ele finalmente se abriu pra família, e é outra pessoa que é chamada pra almoçar junto com eles no domingo. Eu fiquei pra trás."

Deus, como eu me senti burro.

"Eu fiz o esforço. Eu ajudei ele, eu me entreguei pra ele, e agora ele está bem sem mim. Ele fez todas as mudanças que ele não pôde fazer por mim, mas fez por outra pessoa. Ele roubou isso de mim, isso era pra ser meu!"

Foi uma noite muito dolorosa, mas eu me senti mais leve.
A manhã seguinte também foi difícil, com as ressacas do choro e do vinho.

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As pessoas que querem compromisso sério, em geral, se sentem mais maduras do que as que não querem.

Afinal de contas, elas estão prontas. Elas querem constituir família, que é o que um adulto teoricamente precisa fazer. Elas estão prontas para assumir um papel que lhes outorgaria o título de adultos felizes.

Do outro lado, as pessoas que não querem isso. Que querem ter um senso mais forte de si, uma noção maior do mundo, e preferem dar ouvidos à curiosidade e à aventura em vez do medo da solidão.

Mas são só dois lados do mesmo trauma emocional: de um lado, os que querem a dedicação integral de alguém, do outro, os que tem medo de serem engolidos pelo comprometimento que um relacionamento requer.

São dois tipos de pessoa fugindo da mesma coisa, correndo para lados diferentes e - inexplicável, trágica e comicamente - se encontrando.

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No porre de vinho com a minha amiga, o que mais me doeu não foi o que ele fez comigo, apesar disso ter sido o que eu repeti enquanto desabava de chorar.

Foi o que eu fiz comigo.

Deus, eu lembro exatamente o momento que senti uma pontada no ventre me dizendo "Hora de parar", logo nos primeiros sinais de que ele não sabia o que queria. Lembro exatamente do olhar dele me pedindo outra chance.

Me lembro exatamente que eu sabia que aquilo ia dar errado. Do espaço que eu abri entre meu coração e o que eu acreditava naquele momento. De como segui em frente, engolindo absurdos cada vez mais cruéis e aumentando esse espaço até a distância ser grande demais pra uma parte de mim ajudar a outra.

Eu sabia que, para crescer, ele precisava explorar a vida que queria, se divertir, descobrir as opções que tinha antes de se decidir por alguma coisa.
Por egoísmo, por me achar pronto para viver algo sério, quis cercá-lo para que ele não fugisse de mim.

Não adiantou.
Nadar contra o fluxo natural da vida só serve pra cansar os braços.

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Quando a gente assume para os pais que é gay (ou sei lá, que quer fazer arquitetura em vez de direito, que vai usar o cabelo do jeito que prefere, qualquer ruptura), a culpa bate com força.

A sensação é a de trair o sonho de quem te deu a vida e te nutriu fazendo das tripas dinheiro pra te sustentar.

Como se o Pinóquio tivesse crescido, olhado pro Gepeto e falado "Agora que você me amou e eu sou um menino de verdade, vou dar dois chutes no seu saco e vender sua televisão pra trocar por crack."

Mas é importante não assumir para si a responsabilidade da expectativa do outro. Que sonhou, sonhou porque quis, porque viu em outra pessoa a possibilidade de realizar os sonhos que não pôde realizar por si.
Sonhar demais é inflamação. É doença. É uma bola de pus que uma hora precisa estourar.

Sem estourá-la, a dor só vai continuar enquanto o problema aumenta e aumenta e aumenta.

Não vale a pena poupar o sonho do outro. Antes pôr fim nele e deixar a bola de pus estourar de uma vez.
A frustração pode ser um presente e uma libertação.

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Ainda não sou uma pessoa dessas iluminadas, que não desenvolvem apego por alguém que amaram.

Ainda evito as ruas em que posso cruzar com ele.
Ainda dói lembrar que outra pessoa está usufruindo da propriedade que eu acreditava plenamente ter usucapião.
Ainda incomoda perceber que, se o fim não tivesse vindo contra a minha vontade, eu teria prolongado aquilo por ainda mais tempo.

Me resta respirar fundo e esperar a ardência das feridas deixadas acalmar, lembrando que eu fui tão responsável por fazê-las assim como sou por curá-las.
Ficar atento para, da próxima vez, ajustar as expectativas.

Não deixar de tê-las, mas tê-las por mim, pra mim, de mim.
Não depositá-las no outro.
De outra pessoa, só se pode esperar a vontade de ficar, e aceitar se a vontade for outra, ainda que remover essa inflamação doa.

Até lá, nada que uma garrafa de vinho e uma boa amiga não resolvam.
Pelo menos o tratamento pode ser divertido.

1.6.17

Gente fantasiada

Eu gosto de quem não sabe usar rede social do jeito certo.

A internet virou claramente um lugar pra se promover, com regras implícitas de como se deve agir.

Eu gosto de quem não entendeu a regra.
De quem posta uma foto de comida não porque foi no restaurante cool da semana, mas porque a mãe dela fez um quibe cru delicioso e ela quis mostrar pra todo mundo.

Aí faz aquela foto meio tremida, tirada com resolução baixa, de um prato Duralex marrom com uma lasca no ladinho, o quibe meio desmontado, um garfo com a parte de plástico derretidinha porque esqueceram numa panela quente, a toalha de mesa manchada aparecendo no canto...

Dá um gostinho de realidade. Aquilo não foi compartilhado pra fazer charme.
É só porque tava gostoso mesmo.

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Nem precisa ser uma coisa alegre.

Cês não fazem ideia do número de desconhecidas de meia idade que eu mantenho na timeline só pelo prazer de ver o que elas postam.

Aquelas postagens com 45 fotos quase iguais na frente do espelho do guarda-roupa, como se fosse impossível escolher uma, o cabelo ainda escorrendo água do banho, os olhos meio fechados, a barriga visivelmente encolhida.

Não importa se ela realmente se acha bonita ou não, o legal é ver como é transparente o esforço para que ela seja.

Ela não tem a luz ideal nem um bom aplicativo pra fazer retoques, mas tem um espelho carcomido pelo tempo e bastante confiança.

Ela tem um comentário da tia falando "ta cada dia mais linda minha menina beijo".
Ela tem um crush meio iletrado falando "nossa mas se eu te pego hein kkkk".

E ela curte isso.

Tem coisa mais singela?

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Uma cliente me contou, e me deixou recontar, a história de quando era criança e foi a uma festa de aniversário. Já na entrada, deu de cara com um marmanjo com roupa de Pato Donald dando boas vindas às crianças.

Dá pra imaginar uma fantasia de Pato Donald nos anos 80, né? Mais assustadora que um boleto a pagar.

Ela quis correr, ela chorou. ela esperneou querendo ir embora, mas sua mãe não deixou.
Ficou ao lado dela falando "Querida, olha bem. Olha bem certinho pra ele."

Ergueu a cabeça da filha e a obrigou a ver o medo de frente.
"Consegue ver, filha? É só uma pessoa fantasiada."

Ela olhou, desconfiada.
"Olha com calma até perceber que é só uma pessoa fantasiada."

Ela percebeu. Parou de chorar.
Nunca mais teve medo de fantasia nenhuma.

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Com a quantidade de imagens minuciosamente calculadas ao nosso redor, é normal ficar intimidado.

Por isso é importante lembrar o quanto é bom sorrir grandão, ainda que nosso dente seja torto.
Não porque fica lindo na foto, mas porque é gostoso.

Tudo bem querer compartilhar uma alegria que não é perfeita.
Em tempos de alegria fabricada, ostentação de verdade é ter orgulho de ser feliz com pouco.

Tem gente sarada e saudável e bem sucedida e em Paris toda semana? Tem sim.
Mas são só pessoas fantasiadas.

Olha bem que você percebe. Não precisa chorar não.

25.5.17

Prostituição

Meu supervisor clínico sempre dizia pra não sair contando os sonhos que a gente tem pra todo mundo. Ele falava que isso era prostituir o nosso inconsciente.
Mas eu não posso fazer se o meu inconsciente é uma prostituta empoderada e que tem orgulho do que faz, e inclusive gosta de umas coisas bizarras, porque tem umas maluquices nesses sonhos que não me deixam outra opção senão prostituir.

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Eu sonhei que estava com a Lady Gaga na casa dos meus pais (até aí tudo bem, super comum) mas ela estava muito estranha, como se alguma coisa estivesse incomodando ela.
Só fui entender o porquê quando a Kylie Minogue apareceu e começou a fazer um show na sala da TV. A Gaga ficou putíssima, porque se sentiu super invadida e tudo mais.
Aí a Gaga começou a fazer planos e queria minha ajuda pra sabotar o show da Kylie, só que eu não queria atrapalhar a Kylie, ela parecia super legal.
Eu fiquei meio sem jeito e nem respondi, até que a Kylie percebeu e veio cantar no meu colo, super simpática, a pessoa mais fofa da humanidade.
Nisso a Gaga some e a Kylie chama uma pessoa da plateia pra cantar com ela, e quem era? A Shania Twain. Até ela estranhava, tipo "Que que eu tô fazendo aqui, eu sou não mais relevante".
Aí elas faziam um dueto numa música romântica anos noventa e fim.

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Foi o sonho mais gay que eu tive desde a vez que eu sonhei que tinha que levar a Beyoncé no colo até o palco do Rock in Rio porque ela tava triste que o disco que ela tinha lançado em coreano flopou.
Isso que eu nem escuto tanta música pop.
Mas sonho com artista tem bastante.
Tipo semana passada, que eu morri num acidente de carro porque o Humberto Gessinger não sabia fazer curva.

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Cacete, eu sou psicólogo junguiano.
Eu devia estar sonhando com arquétipos foda, cobras comendo o próprio corpo, mandalas que se movem, carruagens carregando o Sol rumo ao reino da noite, essas coisas profundas e mitológicas que a gente estuda.
Não deu.
Minha mitologia pessoal é baseada em divas pop.

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E ai de quem vier me dizer que o Humberto Gessinger não é uma diva pop, porque ele é: cabelo loiro icônico, atitudes excêntricas, voz fácil de reconhecer, aparentemente precisa de um motorista...
Bota uns agudos e um vestido tubinho nele, que ele se torna perfeitamente a Mariah Carey brasileira.
Só espero não sonhar com isso.
Mas, se eu sonhar, pode deixar que eu venho contar pra vocês.
A prostituição é um caminho sem volta.

Encontrando caminhos

Ele era uma constante distante nas sessões da minha paciente. Quer dizer, ele sempre aparecia nos fundos de alguma história, ou como motivaç...