19.6.17

Eufemismos

Eufemismos são lindos.

A ação é a mesma, mas por que diabos uma pessoa que fala "Vou fazer xixi" soa tão fofa e uma que fala "Vou mijar" parece tão invasiva?

E a pessoa que "tira água do joelho" ou "lava a louça com mangueira", que já termina a frase praticamente com um certificado de humorista?

Nem vou entrar no mérito de "fazer pipi", porque fazer pipi é a única justificativa que eu concordo para a pena de morte.

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É incrível a diferença que um pouquinho de sutileza na hora de falar faz.

Num dia menos inspirado, o Djavan não cantaria "Um dia frio, um bom lugar pra ler um livro e o pensamento lá em você" , e sim "Tô de jaqueta, cagando de pau duro com um Paulo Coelho na mão".

Talvez não tão diretamente. O Djavan provavelmente é do tipo que fala "pênis" e não "pau".

Pelo menos não é pingolim. Pingolim é o caralho.

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A Gabriela era a menina mais popular da turma.
Os olhos claros, o sorriso impecável e uma sensação vaga de ausência de personalidade combinavam com seus dezesseis anos perfeitamente.

Rainha do primeiro ano, ela não descia frequentemente do trono para falar com o meu grupo. Por isso eu me surpreendi tanto quando a vi conversando com minha melhor amiga na escada do colégio.

"Não tenho, desculpa!", minha amiga estava respondendo.

Eu, que sempre fui metido, me enfiei no papo:
"Não tem o quê?"

Ela não respondeu. Pôxa, ser popular e não andar comigo tudo bem, mas me ignorar na minha cara?
"O que você precisa?"

Ela fez "nada", com os lábios, numa expressão que implorava pra eu ficar quieto.

Confrontei.
"Porra, se você falar pra mim quem sabe eu posso te ajudar!"

Ela só mexeu os lábios, em silêncio:
"U - A - SO - EN - TE"

Eu já estava puto:
"O quê? Fala direito!"

"EU PRECISO DE UM ABSORVENTE!", ela berrou num grito-sussurro que deve ter prejudicado as suas cordas vocais até hoje.

"Pra quê?", e aí eu já estava implicando de propósito.

Ela respondeu numa frequência que só cães ouvem, enunciando todas as vogais como se fossem a letra "i".
"Eu tô menstruada!"

A força que ela fez pra falar deve ter feito sair todo o sangue de uma vez só.
"Ah", respondi. "Não tenho."

Não foi maldade. Eu não tinha mesmo.

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Às vezes a linguagem quer botar um óculos falso e um bigode pra disfarçar o que precisa dizer.

A gente falece pra fingir que não morre e diz que está lotado de coisas pra fazer quando quer tirar uma soneca. A gente até separa nossos eufemismos de acordo com onde está, e diz que teve "um problema pessoal" no trabalho enquanto "levou um pé na bunda" para os amigos.

Mas fazer charminho na hora de falar é uma maneira de se colocar no mundo. Cada palavra que você escolhe revela um pouco das suas crenças, escolhas e seu jeito de ver a vida.

Por isso a depressão e a comédia andam de mãos dadas.
Se divertir usando palavras é uma maneira de tornar a vida mais aceitável. Quanto mais sofre uma pessoa, mais ela precisa colorir a sua linguagem para lidar com a realidade.

Isso não precisa ser exclusividade dos sofredores. Uma expressão divertida não precisa ser um disfarce. Pode ser só... um tempero.

Um jeito de tornar a vida um pouquinho mais imprevisível, mesmo quando a rotina se repete.

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Por mais apreciador da linguagem colorida que eu seja, eu nunca consigo entender o que querem me dizer quando a ideia é ser sutil.

Uma vez, quando eu trabalhava num escritório, um colega me escutou passar pela porta do banheiro e chamou baixinho.
"Flávio, é você?"
"Sim", respondi pra voz do além. A voz respondeu com um tom suplicante:
"Viu, traz peagá?"

Não entendi.
"Hã?"
"Pê agá!"

"Quem?"
"Acabou o peagá, pega um rolo pra mim!"

"Cuma?"
"PÊ AGÁ, CARALHO. PAPEL HIGIÊNICO. TRAZ PAPEL QUE EU TÔ TODO CAGADO AQUI, IRMÃO".

Putz. Me senti culpado por não ter essa elegância toda, mas levei o papel.
Pelo menos dessa vez eu pude ajudar. De quebra, aprimorei meu vocabulário.

16.6.17

Aceitação

Se existe um mandamento bíblico fácil de seguir, é o de amar ao próximo como a si mesmo. Jesus foi marotíssimo na hora de soltar essa porque, se a gente conferir bem, não existe nenhum outro jeito de tratar as pessoas.

Só é possível tratar outra pessoa da mesma maneira que você se trata.

Enquanto alguém não ama a si mesmo, vai continuar tendo problemas para aceitar os outros do jeito que são.

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De todas as frases que eu falo no consultório, nenhuma gera tanta cara feia como "Será que é possível aceitar isso, em vez de tentar mudar?".

Para quem está pagando um profissional por hora para tentar mudar aquilo que lhe incomoda, a sugestão de deixar tudo como está é sentida como um bofetão na cara.

"Eu estou infeliz do jeito que eu estou", diz o paciente, "eu prefiro morrer do que viver assim."

E seguem calçando sapatos muito menores ou maiores do que o próprio pé e reclamando por não conseguir andar.

"E se você calçasse seu próprio número?", eu pergunto, antes do sapato ser atirado na minha cabeça.

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Normalmente a gente tenta mudar aquilo que a gente é criticado por ser.

Só esquecemos de conferir o motivo da crítica.
Pode ser que a crítica que você recebe por falar demais venha de alguém que se sente ameaçado diante de alguém comunicativo, ou que sua timidez seja criticada por gente que não sabe lidar com o próprio silêncio.

Mas em vez de falar "foda-se, migo lindo", damos ouvido à crítica e seguimos investindo toda a força que temos para ficamos calmos, quando somos agitados. Sutis, quando somos porretas. Pudicos, quando somos ousados.

Não conseguimos.
Já tentou botar um body de natação num cachorro, prender os braços dele e o jogar na água, pra ver se ele vira uma foca?

Por mais que a situação requeira isso dele, ele não vai conseguir nadar, não vai conseguir quicar uma bola de plástico no focinho e sua festa na piscina vai estar arruinada.

Hipoteticamente, claro.

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Quanto mais você se controla para ser o que não é, mais os outros te irritam.

A pessoa que não se controla como você é uma louca, a colega que não está de dieta (enquanto você briga com o seu corpo) é uma descontrolada.

Todas as pessoas passam a ser tão erradas quanto tentar fazer um cachorro morto dentro de um body de natação virar uma piñata pra animar uma festa na piscina que não está dando certo.

Você aponta o dedo, critica, se mói por dentro. Enche o saco da porra do próximo, como enche a si mesmo.

Pentelho.

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O problema é que tanta gente espera que aceitar a si mesmo seja igual a um comercial de Dove.
Não é.

Você não vai aceitar sua aparência por olhar no espelho e dizer "Eu sou bonito. Eu sou bonito. Eu sou bonito." até que a Fada da Aceitação apareça como a Loira do Banheiro e te abençoe com o dom de se achar belo.

A aceitação não vem de olhar a parte bonita do que se tem. Ninguém precisa aceitar uma coisa boa.

Aceitação vem de olhar para a parte difícil, suja e até então inaceitável de si mesmo e falar "Ok, é isso mesmo. Eu não sou do jeito que eu acho que deveria ser. Eu sou assim. Desisto."

É nessa hora que os ombros descem, relaxando da tensão acumulada por anos.
É nessa hora que você sente uma energia renovada, depois de tanto brigar para ser o que não era.

É nessa hora que você vê que aquilo que era tão importante se tornar não era tão importante assim.

Que, para ser aceito no portão onde só entram as pessoas com valor, você não precisava mudar. Só... aceitar o convite.

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É como teimar em insistir que a Terra é plana.

Depois de passar anos tentando encontrar o fim da Terra e ir parar sempre no mesmo lugar, a pessoa cansa, pára de brigar com o óbvio e... aceita que estava errada.

Agora ela pode dedicar sua vida a algo mais importante, como fundar um instituto que promova a segurança de cachorros em festas na piscina.

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O mais engraçado de tudo isso é que, depois de aceitar que você tem alguma característica que não gosta e parar de brigar consigo por causa dela... você muda.

Quando você deixa de fingir que uma situação não existe, você passa a lidar com o real dela. Passa a fazer o que pode, e isso basta.

Aí, só de sacanagem, você começa a sentir saudades de como era antes, e começa a achar bonito quem é do jeito que você tanto odiava.

E consegue amar o próximo, porque o aceita.
Porque, veja só, você se aceitou.

7.6.17

Bueiro

Eu já contei pra vocês do dia que eu caí num bueiro?
Não, né, porque isso acabou de acontecer.

Pra essa história valer a pena você precisa saber que:
1- Eu sempre tive medo de cair num bueiro.
2 - Eu vou ao supermercado quando quero desestressar.
3 - Eu sempre quis comprar um vidro de ovo de codorna.

Então, tive um intervalinho no consultório e resolvi dar um pulo no mercado pra esvaziar a cabeça antes do próximo paciente. Até falei pra minha colega que não tinha nada pra fazer lá, só queria mudar o cenário.

Pois bem.
Cheguei no mercado e não tinha nada que eu precisasse comprar. Eu tenho estado estressado ultimamente, então a despensa tem sido bem recheada.
Fui passeando pelos corredores até encontrar um vidro de ovos de codorna.

Eu amo ovos de codorna, eles são a coisa que eu mais como quando vou numa churrascaria, pra mim eles são sinal de ostentação e grandeza. Ainda assim, eu nunca comprei um vidro inteiro antes porque me parecia... vulgar. Seria estragar uma coisa especial.

Mas hoje não.
Hoje eu merecia uma coisa especial. Peguei o vidro com os ovos e fui pagar no caixa. A atendente, conhecida minha, quis reforçar a sacola.
Eu falei que não precisava, o consultório é bem pertinho dali, não ia ter problema. Ela insistiu. Eu falei "Imagina, não vou derrubar não, de jeito nenhum".
"Olha, olha", ela respondeu, "se cuida!".

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Muito que bem, saí do supermercado e juro por Deus que não são nem 100 metros do caixa até onde eu precisava ir.
Estava andando com os ovos na mão e pluft.

Eu caí, mas não estava no chão.
Eu estava mais embaixo.

Preciso dizer que ontem Curitiba estava debaixo de uma tempestade terrível, a água arrastou tudo o que pôde inclusive a tampa do bueiro da esquina do supermercado.

Bastou pisar nele que ele escorregou e eu desci.

Por sorte, foi com uma perna só.
Eu abri um espacate com uma perna bueiro adentro, uma perna no chão e os braços pro lado, na posição clássica de um mosquito depois de uma chinelada.

Não pensei no perigo de me machucar.
Não pensei no medo de escorregar inteiro pra dentro do bueiro e ter que passar o resto da minha vida lá.
Tudo o que eu conseguia pensar era "PUTA QUE PARIU, DERRUBEI MEUS OVO DE CODORNA".

Ô atendente praguenta.

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Graças a Deus não me machuquei além de uns ralados, mas tá tudo doendo.

Já vim pra casa, já tomei um banho bem longo pra tirar toda a meleca da perna e eu acho que tá tudo bem.
Ainda assim, se eu virar um mutante anfíbio ou o Homem-Barata, vocês já sabem por quê.

O mais importante dessa história, e o motivo de eu estar contando ela pra vocês, é que O VIDRO DOS OVOS NÃO QUEBROU.
Inclusive tô comendo eles agora, enquanto digito isso pra vocês.

A moral da história eu não sei qual é.
Na dúvida, nunca discorde da caixa do supermercado.
E olhe bem por onde anda.
E só pra garantir, nunca desista dos seus sonhos. Porque os ovinhos tão uma delícia.

Mania

O que podemos aprender com a história do menino que foi preso após tentar se passar por médico e foi encontrado morto?
Além de mostrar o absurdo que é a legislação brasileira não considerar Grey's Anatomy como uma formação válida para medicina (ok, talvez não), essa história pode ensinar muito sobre saúde mental.

Claro que não dá pra saber o diagnóstico do menino só por ler duas notícias, e eu posso estar bastante errado, mas o caso dele me lembra muito transtorno bipolar.

Sim, transtorno bipolar.
O mesmo que muita gente diz que tem só porque esteve feliz e triste no mesmo dia.

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Talvez seja um dos transtornos mentais menos compreendidos pela população em geral.

A oscilação de humor existe, mas ela é bem característica: numa fase, chamada de mania, a pessoa está muito animada, com autoestima muito elevada e a certeza de que não tem problema nenhum, alternada com uma fase de "cair na real" e entrar em depressão profunda.

Na mania a pessoa se sente invencível.
Os projetos dela vão dar certo, ela tem muita capacidade, e a cautela vai por água abaixo. Ela dirige acelerada, ela gasta dinheiro que está longe de ter, ela faz mudanças intensas.

Era nessa fase que, me parece, o menino estava quando invadiu o hospital.
Pra ter uma ideia de como funciona a cabeça de alguém em mania, ele não precisaria ter tido alucinação nenhuma para acreditar que era formado em medicina por assistir TV. Pode ter bastado alguém brincar que "Nossa, você podia trabalhar num hospital de tanto assistir essa série" pra ele embarcar numa aventura dessas.

Aí, depois de pego no pulo e ter virado piada pública, veio a fase de depressão. Perceber como ele estava errado fez sentir o tombo do pedestal onde ele se pôs na fase maníaca.
Obstinado como ele era, deu no que deu.
Suicidou-se.

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A coisa mais difícil de lidar com pessoas com transtorno bipolar não é a depressão. É a saída dela.
É quando a pessoa se dá conta, devagar, que a hora em que ela começa a melhorar é um momento de cautela. Que ela pode estar se sentindo mais feliz, mas que isso significa redobrar a atenção ao que sente para não cair na tentação de se empolgar de novo.

O padrão que o transtorno bipolar leva ao extremo é bem comum na vida de muita gente: os projetos começam com força, ânimo e intensidade até que não dão certo, são abandonados e deixam um trilho de tristeza e frustração.

E como a pessoa tenta sair dessa fase de tristeza? Se empolgando muito com outra coisa. Aí repete o processo.
É por isso que é tão importante aprender a ver a vida em nuances mais delicadas. Sem tanto preto e branco, sem tanto certo e errado.

Lidando com nuances a gente não precisa se pautar por extremos. Aí a gente pode estar um pouco triste ou um pouco feliz, e não oscilar o tempo todo entre onipotente e impotente.
Isso é promover saúde.

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Talvez se as pessoas conhecessem um pouco melhor o que são os transtornos mentais, casos como esse poderiam ser evitados.

Os sinais podem ser confusos para fechar um diagnóstico claro, mas para isso existem os profissionais.

Ninguém precisa ser profissional de saúde para diagnosticar um resfriado ou uma dor de barriga. A gente simplesmente aprendeu os sintomas e sabe o momento certo de uma pessoa buscar ajuda.
Vale prestar um pouco de atenção.

Esses diagnósticos não aparecem no Grey's Anatomy, mas podem salvar uma vida ou outra.

4.6.17

Bolas de pus

"Eu me sinto usado", eu disse pra minha amiga enquanto tomávamos vinho.

"Eu estive lá quando ele não era assumido. Eu estive lá quando a mãe dele desligava quando era eu que estava no telefone."

Era a primeira vez que eu me abria depois do fim daquele relacionamento. Eu caí num choro daqueles que faz parecer menos doloroso cortar a cabeça no meio pra arrancar as lágrimas direto da fonte.

"Eu falava pra ele. Eu pedia tanto para ele ir morar sozinho, pra ele se assumir, dei tanta força. Eu apresentei ele pros meus amigos. Eu perdoei tanta coisa, eu aceitei tanta coisa, e pra quê?"

Minha amiga me olhou com ternura.

"Agora tem outra pessoa usufruindo disso. Ele finalmente saiu de casa, e é outra pessoa que dorme com ele. Ele finalmente se abriu pra família, e é outra pessoa que é chamada pra almoçar junto com eles no domingo. Eu fiquei pra trás."

Deus, como eu me senti burro.

"Eu fiz o esforço. Eu ajudei ele, eu me entreguei pra ele, e agora ele está bem sem mim. Ele fez todas as mudanças que ele não pôde fazer por mim, mas fez por outra pessoa. Ele roubou isso de mim, isso era pra ser meu!"

Foi uma noite muito dolorosa, mas eu me senti mais leve.
A manhã seguinte também foi difícil, com as ressacas do choro e do vinho.

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As pessoas que querem compromisso sério, em geral, se sentem mais maduras do que as que não querem.

Afinal de contas, elas estão prontas. Elas querem constituir família, que é o que um adulto teoricamente precisa fazer. Elas estão prontas para assumir um papel que lhes outorgaria o título de adultos felizes.

Do outro lado, as pessoas que não querem isso. Que querem ter um senso mais forte de si, uma noção maior do mundo, e preferem dar ouvidos à curiosidade e à aventura em vez do medo da solidão.

Mas são só dois lados do mesmo trauma emocional: de um lado, os que querem a dedicação integral de alguém, do outro, os que tem medo de serem engolidos pelo comprometimento que um relacionamento requer.

São dois tipos de pessoa fugindo da mesma coisa, correndo para lados diferentes e - inexplicável, trágica e comicamente - se encontrando.

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No porre de vinho com a minha amiga, o que mais me doeu não foi o que ele fez comigo, apesar disso ter sido o que eu repeti enquanto desabava de chorar.

Foi o que eu fiz comigo.

Deus, eu lembro exatamente o momento que senti uma pontada no ventre me dizendo "Hora de parar", logo nos primeiros sinais de que ele não sabia o que queria. Lembro exatamente do olhar dele me pedindo outra chance.

Me lembro exatamente que eu sabia que aquilo ia dar errado. Do espaço que eu abri entre meu coração e o que eu acreditava naquele momento. De como segui em frente, engolindo absurdos cada vez mais cruéis e aumentando esse espaço até a distância ser grande demais pra uma parte de mim ajudar a outra.

Eu sabia que, para crescer, ele precisava explorar a vida que queria, se divertir, descobrir as opções que tinha antes de se decidir por alguma coisa.
Por egoísmo, por me achar pronto para viver algo sério, quis cercá-lo para que ele não fugisse de mim.

Não adiantou.
Nadar contra o fluxo natural da vida só serve pra cansar os braços.

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Quando a gente assume para os pais que é gay (ou sei lá, que quer fazer arquitetura em vez de direito, que vai usar o cabelo do jeito que prefere, qualquer ruptura), a culpa bate com força.

A sensação é a de trair o sonho de quem te deu a vida e te nutriu fazendo das tripas dinheiro pra te sustentar.

Como se o Pinóquio tivesse crescido, olhado pro Gepeto e falado "Agora que você me amou e eu sou um menino de verdade, vou dar dois chutes no seu saco e vender sua televisão pra trocar por crack."

Mas é importante não assumir para si a responsabilidade da expectativa do outro. Que sonhou, sonhou porque quis, porque viu em outra pessoa a possibilidade de realizar os sonhos que não pôde realizar por si.
Sonhar demais é inflamação. É doença. É uma bola de pus que uma hora precisa estourar.

Sem estourá-la, a dor só vai continuar enquanto o problema aumenta e aumenta e aumenta.

Não vale a pena poupar o sonho do outro. Antes pôr fim nele e deixar a bola de pus estourar de uma vez.
A frustração pode ser um presente e uma libertação.

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Ainda não sou uma pessoa dessas iluminadas, que não desenvolvem apego por alguém que amaram.

Ainda evito as ruas em que posso cruzar com ele.
Ainda dói lembrar que outra pessoa está usufruindo da propriedade que eu acreditava plenamente ter usucapião.
Ainda incomoda perceber que, se o fim não tivesse vindo contra a minha vontade, eu teria prolongado aquilo por ainda mais tempo.

Me resta respirar fundo e esperar a ardência das feridas deixadas acalmar, lembrando que eu fui tão responsável por fazê-las assim como sou por curá-las.
Ficar atento para, da próxima vez, ajustar as expectativas.

Não deixar de tê-las, mas tê-las por mim, pra mim, de mim.
Não depositá-las no outro.
De outra pessoa, só se pode esperar a vontade de ficar, e aceitar se a vontade for outra, ainda que remover essa inflamação doa.

Até lá, nada que uma garrafa de vinho e uma boa amiga não resolvam.
Pelo menos o tratamento pode ser divertido.

1.6.17

Gente fantasiada

Eu gosto de quem não sabe usar rede social do jeito certo.

A internet virou claramente um lugar pra se promover, com regras implícitas de como se deve agir.

Eu gosto de quem não entendeu a regra.
De quem posta uma foto de comida não porque foi no restaurante cool da semana, mas porque a mãe dela fez um quibe cru delicioso e ela quis mostrar pra todo mundo.

Aí faz aquela foto meio tremida, tirada com resolução baixa, de um prato Duralex marrom com uma lasca no ladinho, o quibe meio desmontado, um garfo com a parte de plástico derretidinha porque esqueceram numa panela quente, a toalha de mesa manchada aparecendo no canto...

Dá um gostinho de realidade. Aquilo não foi compartilhado pra fazer charme.
É só porque tava gostoso mesmo.

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Nem precisa ser uma coisa alegre.

Cês não fazem ideia do número de desconhecidas de meia idade que eu mantenho na timeline só pelo prazer de ver o que elas postam.

Aquelas postagens com 45 fotos quase iguais na frente do espelho do guarda-roupa, como se fosse impossível escolher uma, o cabelo ainda escorrendo água do banho, os olhos meio fechados, a barriga visivelmente encolhida.

Não importa se ela realmente se acha bonita ou não, o legal é ver como é transparente o esforço para que ela seja.

Ela não tem a luz ideal nem um bom aplicativo pra fazer retoques, mas tem um espelho carcomido pelo tempo e bastante confiança.

Ela tem um comentário da tia falando "ta cada dia mais linda minha menina beijo".
Ela tem um crush meio iletrado falando "nossa mas se eu te pego hein kkkk".

E ela curte isso.

Tem coisa mais singela?

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Uma cliente me contou, e me deixou recontar, a história de quando era criança e foi a uma festa de aniversário. Já na entrada, deu de cara com um marmanjo com roupa de Pato Donald dando boas vindas às crianças.

Dá pra imaginar uma fantasia de Pato Donald nos anos 80, né? Mais assustadora que um boleto a pagar.

Ela quis correr, ela chorou. ela esperneou querendo ir embora, mas sua mãe não deixou.
Ficou ao lado dela falando "Querida, olha bem. Olha bem certinho pra ele."

Ergueu a cabeça da filha e a obrigou a ver o medo de frente.
"Consegue ver, filha? É só uma pessoa fantasiada."

Ela olhou, desconfiada.
"Olha com calma até perceber que é só uma pessoa fantasiada."

Ela percebeu. Parou de chorar.
Nunca mais teve medo de fantasia nenhuma.

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Com a quantidade de imagens minuciosamente calculadas ao nosso redor, é normal ficar intimidado.

Por isso é importante lembrar o quanto é bom sorrir grandão, ainda que nosso dente seja torto.
Não porque fica lindo na foto, mas porque é gostoso.

Tudo bem querer compartilhar uma alegria que não é perfeita.
Em tempos de alegria fabricada, ostentação de verdade é ter orgulho de ser feliz com pouco.

Tem gente sarada e saudável e bem sucedida e em Paris toda semana? Tem sim.
Mas são só pessoas fantasiadas.

Olha bem que você percebe. Não precisa chorar não.

25.5.17

Prostituição

Meu supervisor clínico sempre dizia pra não sair contando os sonhos que a gente tem pra todo mundo. Ele falava que isso era prostituir o nosso inconsciente.
Mas eu não posso fazer se o meu inconsciente é uma prostituta empoderada e que tem orgulho do que faz, e inclusive gosta de umas coisas bizarras, porque tem umas maluquices nesses sonhos que não me deixam outra opção senão prostituir.

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Eu sonhei que estava com a Lady Gaga na casa dos meus pais (até aí tudo bem, super comum) mas ela estava muito estranha, como se alguma coisa estivesse incomodando ela.
Só fui entender o porquê quando a Kylie Minogue apareceu e começou a fazer um show na sala da TV. A Gaga ficou putíssima, porque se sentiu super invadida e tudo mais.
Aí a Gaga começou a fazer planos e queria minha ajuda pra sabotar o show da Kylie, só que eu não queria atrapalhar a Kylie, ela parecia super legal.
Eu fiquei meio sem jeito e nem respondi, até que a Kylie percebeu e veio cantar no meu colo, super simpática, a pessoa mais fofa da humanidade.
Nisso a Gaga some e a Kylie chama uma pessoa da plateia pra cantar com ela, e quem era? A Shania Twain. Até ela estranhava, tipo "Que que eu tô fazendo aqui, eu sou não mais relevante".
Aí elas faziam um dueto numa música romântica anos noventa e fim.

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Foi o sonho mais gay que eu tive desde a vez que eu sonhei que tinha que levar a Beyoncé no colo até o palco do Rock in Rio porque ela tava triste que o disco que ela tinha lançado em coreano flopou.
Isso que eu nem escuto tanta música pop.
Mas sonho com artista tem bastante.
Tipo semana passada, que eu morri num acidente de carro porque o Humberto Gessinger não sabia fazer curva.

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Cacete, eu sou psicólogo junguiano.
Eu devia estar sonhando com arquétipos foda, cobras comendo o próprio corpo, mandalas que se movem, carruagens carregando o Sol rumo ao reino da noite, essas coisas profundas e mitológicas que a gente estuda.
Não deu.
Minha mitologia pessoal é baseada em divas pop.

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E ai de quem vier me dizer que o Humberto Gessinger não é uma diva pop, porque ele é: cabelo loiro icônico, atitudes excêntricas, voz fácil de reconhecer, aparentemente precisa de um motorista...
Bota uns agudos e um vestido tubinho nele, que ele se torna perfeitamente a Mariah Carey brasileira.
Só espero não sonhar com isso.
Mas, se eu sonhar, pode deixar que eu venho contar pra vocês.
A prostituição é um caminho sem volta.

23.5.17

Sofrimentos visíveis

Olha, se existe uma posição fácil na vida é a de ser cronista de psicologia.

O assunto é vasto, o material é rico, as possibilidades são lindas e as pessoas interessadas.

Junte isso com uma ou duas frases de efeito por texto, falando de amor e sofrimento, e muita gente vai te achar muito sábio.

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Agora, se existe uma posição difícil na vida é tentar falar sobre o que se sente quando se está muito mal.

A sensação é confusa, a esperança acabou e você quer chorar, vomitar, ficar sozinho no quarto, apagar a luz, fechar a porta, se fechar, pagar qualquer preço pra não precisar se abrir.

Você prefere morrer do que continuar assim. Literalmente.

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E é nessa hora que eu, o psicólogo cronista cheio das frases de efeito, lembro que a realidade não é tão simples quanto parece.

Que quando eu falo "a gente realmente precisa escutar as pessoas na sua individualidade e angústia", eu não estou pensando na pessoa que está literalmente gritando e batendo no chão, sentindo dores físicas de tão insuportável que a angústia ficou.

Que quando eu digo "um remédio não vai solucionar todos os seus problemas a longo prazo", não lembro do tamanho da vontade que eu tenho de poder aplicar uma injeção de acalmar elefante quando alguém entra em surto na minha frente.

Que quando eu falo, tão cheio de mim, que "se você sobreviver à depressão, você vai ver como ainda vai ser possível inventar uma vida nova", eu esqueço da pessoa que realmente está em risco de não sobreviver à depressão porque sente que já morreu.

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A gente faz muito esforço, como profissão, pra mostrar pras pessoas o quanto os transtornos mentais podem ser invisíveis, e como uma pessoa que aparenta estar bem pode ter um universo de sofrimento silencioso dentro de si.

Mas nem sempre é assim.

Para uma família que lida com um filho esquizofrênico que surta madrugada adentro, o transtorno mental é visível.

Para uma pessoa que percebe que uma fase pesadíssima do seu distúrbio bipolar está pra chegar, o sofrimento é visível.

Existe a dor sutil e sob a pele, e ela merece muita atenção.

Mas eu fico pensando: o quanto a gente fala que o sofrimento invisível precisa ser visto pra se distrair de ver aquela que se recusa a ser invisível?

Porque existe também, e sempre vai existir, o sofrimento bruto, a dor destilada, a loucura que escorre pelos poros e se recusa, aos gritos, a não ser ouvida.

Os transtornos mentais não são, nem de perto, tão limpinhos como a gente gosta de pensar.

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Não que não valha a pena continuar escrevendo e tentando dar respostas um pouco mais práticas para sofrimentos tão comuns a todos nós. Para algumas pessoas, uma dose de esperança que vem de um texto na internet basta.

Para outras, só o trabalho duro e pouquíssima recompensa.

Elas precisam trabalhar duro para hoje - e somente hoje - você não acabar com a sua vida.
Fazem um esforço do cão para conseguir pentear o cabelo, mesmo sabendo que vão se sentir exaustas e destruídas depois.
Arrancam de dentro de si um trabalho hercúleo, com remédios, terapia e um torque impressionante do motor interno, pra tentar funcionar da maneira que se espera de uma pessoa.
Tudo isso pra funcionar mais ou menos como um ser humano, apesar de se sentir constantemente quebrado e ferido.

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Não tenho mensagem de esperança nesse texto, nem uma piadinha pra oferecer. A vida é comicamente sem graça nesses assuntos.

Só quero dizer, pra você que sofre muito: Alguém está pensando em você.

E gostaria muito de ajudar, mas mesmo sendo um pretenso especialista, nem sempre sabe como. O que quer dizer que você não está tão errado em sofrer: sua resposta não é fácil mesmo.

E que você não está sozinho.
E, quem sabe, uma hora as coisas possam melhorar e você tenha a sorte de ter um sofrimento desses invisíveis, que melhoram um pouco com um texto de internet.

Até lá... Te desejo força.

E, mesmo sendo só um estranho da internet, alguém quer muito que você fique bem... e ama você.

15.5.17

Sobre ser amado

Eu não quero me precipitar, mas acho que estou apaixonado.

Vocês não vão conhecer ele ainda, porque a gente tá tentando manter nosso caso secreto...
Eu o conheci de um jeito inusitado. Ele tem um canal do Youtube, e ele só aparece de vez em quando nos vídeos, e tem uma personalidade bem irritante, quase parei de assistir... e aí gamei.

Ah, sim, ele é de outro país. E não faz ideia de quem diabos eu sou. E é hétero.
Mas caralhos, a gente precisa dar uma chance pro amor.

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Pergunta pra uma pessoa que está buscando um relacionamento amoroso por que ela quer isso.
Provavelmente a resposta vai ser "Para me sentir amada".

Não acho que seja assim. O que as pessoas querem mesmo é amar.

Lindo, né? Você pensa que a pessoa tá querendo receber alguma coisa e na verdade ela está querendo dar. Pois isso é muito mais egoísta do que parece.

Amar alguém é, invariavelmente, um ato egoísta.

O amor romântico é o atalho mais fácil para uma percepção de propósito na vida. Amar alguém tem propósito. Amar alguém produz sentido, ser amado não.

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Amar é um ato egoísta porque não admite rejeição. Você ama e pronto.
O seu amor pode ser recusado, mas seu ato de amar depende só de você.

Amar é mais simples. A transação está sob seu controle: você vai até o seu coração, pega um punhado de emoção e entrega para a pessoa.

Ser amado, por sua vez, é um risco. Ser amado é estar vulnerável.

Ser amado envolve deixar os caminhos para o seu coração abertos, para que outra pessoa consiga entrar nesse espaço e te conhecer sem filtros, ainda que esta seja sua área mais delicada e vulnerável.
Ser amado por alguém é admitir que em algum momento isso pode acabar e te fazer sentir na carne os efeitos da falta.

Precisa-se de mais maturidade para ser amado do que para amar.
Enquanto amar é depositar em alguém a expectativa de satisfação das suas expectativas, ser amado requer aceitar que você pode ser a fonte de decepção de alguém. 

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Uma vez eu fiquei dez minutos flertando discretamente com um rapaz que me olhava fixamente num bar. Dei uma ajeitadinha na lente de contato antes de jogar um sorriso e percebi que meu pretendente era só um luminoso de propaganda de cerveja e uma cadeira virada na minha direção.
Com mais meia hora e duas tequilas, certeza, eu estaria pronto pro casamento.

É possível amar (ou pensar que ama) uma imagem inventada de alguém.
O impossível é ser amado por essa projeção. Ser amado só pode acontecer no nível cru e cruel da realidade.

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A maior parte das pessoas não faz ideia de como agir quando são amadas.
Há quem, no primeiro sinal de estar sendo amado, multiplique a entrega de carinhos.

Como quem diz "Você me ama? Pois eu te amo mais!", cobre a pessoa de afetos, tentando evitar ser vítima de um amor que lhe faça se sentir em dívida.

Também tem quem, por se sentir uma fraude, tente desqualificar quem lhe ama com base na lógica do "Se eu sou um lixo e você me ama, ou você é burro ou também é lixo."

Olhar outra pessoa se atrair pela fraude que somos e não achar que essa pessoa é fraca ou facilmente enganável é um sinal de maturidade.

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Retribuir o amor que se recebe é mais difícil do que amar de graça.
Amar em retribuição ao amor que alguém lhe deu é uma forma de aceitar que seus defeitos sejam aceitáveis.

O jogo das projeções é complexo e sem fim, mas conhecer e pensar que conhece alguém, sentir-se conhecido e sentir-se a ilusão de alguém são partes essenciais de como a gente consegue experimentar o amor. 

Permitir ser amado é superar a baixa autoestima, é aceitar ser vulnerável, é aceitar que ser adulto também é se desmontar por outra pessoa de vez em quando.

Se você está nesse estado e outra pessoa superar o egoísmo de amar sozinha e aceitar ser amada também, a festa está pronta.

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O que eu quero dizer é que, se eu sumir por um tempo, é porque eu fui preso nos Estados Unidos por aparecer pelado no quarto de um youtuber.

Por favor me ajudem com a fiança.

9.5.17

Toddy

Se você gosta de chocolate ao leite em vez de comer 99% amargo ou lamber a própria fruta do cacau, sua opinião sobre chocolate não conta. Se o seu café não é 100% tipo exportação e mais denso que um barril de petróleo, você não entende nada de café. Se não botar pimenta na comida até nascer uma hemorróida no seu olho esquerdo, você não é homem. Ai de você se gostar de vinho suave. Povo dá soco no ser humano que torce pra outro time de futebol. Povo briga pra ver se inverno é melhor que verão. Povo briga pra ver quem é o mais justo e igualitário. Depois foi a política que deixou as pessoas extremistas. -- Só sei que as vidas devem estar muito desorganizadas e vazias de afeto. Se não for por isso, por que alguém precisaria tanto se prender a uma opinião - por um assunto bobo que seja - pra se sentir seguro? -- Um dia eu vou inventar uma elitização pra alguma coisa bem específica. Sei lá, tomar Toddy com leite azedo. A pessoa na cozinha, bem na dela, e eu chego: "Nossa, cê tá tomando Toddy?" "Sim, sim, é meu vício!" "Mas COM LEITE?" "É desnatado, né? Pelo menos eu tento cuidar..." "Mas é azedo, né?" "Como?" Aí eu chego perto e cheiro a caneca da pessoa. "Credo, você toma Toddy com leite fresco?" A pessoa não entende, eu faço cara de nojo e pena: "Cada doido com sua mania, né?" Não dou um mês pra ter uma galera tomando Toddynho azedo de nariz empinado e se fazendo de entendida na internet.

2.5.17

Delírios de grandeza

Tenho duas grandes fantasias na minha cabeça:

Na primeira, eu estou em um lugar público.
Pode ser uma praça, um aeroporto ou um ônibus, não interessa. Um transeunte bota a mão no peito, solta um urro e cai.
As pessoas ao redor ficam perplexas. Pedem socorro, se amontoam em cima da pessoa, ninguém sabe o que fazer direito.

Nisso, eu chego e falo "Calma, gente! Dá licença, deixa ele respirar!".
Vou passando por entre as pessoas. Alguém reclama e eu digo, firme: "Eu sei o que eu tô fazendo!"

Eu faço os primeiros socorros. A pessoa não melhora de primeira, mas com muita massagem cardíaca e esforço ela melhora, antes mesmo da ambulância chegar.

A pessoa levanta, com lágrimas nos olhos, abre os braços para a multidão, mostrando que ela é um milagre vivo, e aponta pra mim.
Eu digo "Que é isso, gente, era o mínimo que alguém poderia fazer".

Aviões caças passam pelo céu com manobras de guerra e fogos de artifício estouram iluminando o rosto de todo mundo que assistiu a cena, enquanto eles aplaudem.

(A história permite uma certa variação. Não precisa necessariamente ser um ataque cardíaco, pode ser até uma pessoa engasgando num amendoim que eu salvo enfiando uma caneta Bic na goela.
Inclusive, a situação ideal mesmo seria um parto: eu ajudaria a criança a nascer e a mãe, num momento de gratidão, daria o meu nome para o filho enquanto a multidão aplaude.)

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A segunda cena que eu gosto de imaginar é menos heroica, mas igualmente pomposa:

Eu sou convidado para uma festa na casa de alguém que eu conheço pouco. Chegando lá, as pessoas não me dão muita trela e eu acabo ficando sem ter com quem conversar. Enquanto faço amizade com o cachorro, eu vejo a saída: um piano no canto da sala.

Caminho discretamente até lá. Olho ao redor, puxo o banquinho e estralo os dedos. Começo a tocar.

A festa para. A intensidade quase sexual do piano irrompe pela sala e todos os olhos se viram para mim.
"Pensaram que eu era chato, né?", eu sorrio com o canto da boca enquanto toco piano como se o próprio Rachmaninoff tivesse tomado o meu corpo.

Quando a música acaba eu levanto, desinteressado, retomando o copo de cerveja de onde parei como se nada tivesse acontecido.

Vale mencionar que eu não estou apto a nenhum procedimento médico mais profundo do que segurar o lenço para alguém assoar o nariz e que meu conhecimento musical não vai além de tocar Oh Minas Gerais no teclado, bem devagarinho e errando a cada duas notas.

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Se perguntassem pra mim, um tempo atrás, qual o meu maior medo, eu responderia na lata: "Ser desinteressante."

Não que eu não tenha medo de uma guerra nuclear ou de um apocalipse zumbi, mas já pensou que horrível um zumbi correr até você, olhar bem na sua cara, fazer "Nah" e partir pra pessoa do lado? Não há autoestima que resista.

Não dá pra ser interessante sem fazer muito esforço.
Ler as revistas do dia, assistir os programas que o povo assiste, refinar a língua pra ter sempre um comentário engraçado pra fazer... Isso é o mínimo.

Depois, tem que saber ler linguagem corporal, se interessar pelo que os outros tem pra dizer, saber engajar uma conversa com qualquer um, aprender a sorrir na hora certa e mostrar-se simpático.

Isso tudo feito, você sai com uma luzinha em cima de você que as pessoas gostam de chamar de carisma.

É importante se esforçar bastante para que isso pareça natural.

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Fazer esse esforço social tem suas vantagens, mas a piada às vezes vai sair errado, a puxada de papo não vai dar em nada e você não vai receber nenhum sorriso de aprovação.

Aceitar isso é frustrante, mas ninguém consegue ser interessante o tempo todo. Não há assunto nem energia para isso e, mesmo se houvesse, ninguém seria mais chato do que uma pessoa com algo interessante para dizer o tempo todo.

Um dia que me caiu a ficha. Ninguém me conhecia de verdade. Ninguém sabia o que realmente estava acontecendo comigo, só a última piada que eu contei.  Eu entretinha as pessoas, não conversava com elas.

Talvez eu fosse uma ótima companhia pro boteco, mas eu não era uma pessoa.

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Por isso as fantasias de salvar alguém na rua ou tocar piano espantosamente bem.
Quem tem problemas com autoestima sabe como a gente inventa fantasias em que a gente prova pro mundo que tem valor. Como se gritasse "Eu presto!" pro universo inteiro.


Pff, como se o universo estivesse prestando atenção.--

Não consegui me desligar do esforço para ser legal. Eu ainda não sei o que faz alguém atrair pessoas sem fazer esforço. Não sei como alguém consegue ser amado de graça, sem uma camada de performance por cima.

Mas já aprendi que tentar ser incrível não funciona.
Deixa a grandeza pro delírio. Me desinteressei.

28.4.17

Carta Aberta em Defesa ao Presidente

Excelentíssimo Senhor Presidente Michel Temer:

Tenho lido diversas críticas ao senhor nessa rede social nos últimos tempos. Desejo, por meio desta, manifestar todo o meu carinho e respeito à sua pessoa. 

Como podem criticar um homem que faz mudanças tão grandes na nossa sociedade! Coisas necessárias! Não importa o que o senhor faça, sr. Presidente, sempre vão reclamar! O senhor generosamente acaba com as nossas aposentadorias e precariza nossas relações de trabalho e depois o malvado é você?
Gente ingrata.

Não sabem pelo que um homem como o senhor passa. 
Um homem tão bom amigo, como o senhor! Um homem que agregou tantas pessoas em seu ministério que, sem essa oportunidade, estariam sendo investigadas por corrupção sem o direito humano básico de um foro privilegiado.

--

Um homem firme, íntegro, que jamais venderia sua alma para se manter no poder. Um homem que nem tem alma, pra evitar o risco!

Um homem que, casado com uma mulher 43 anos mais nova que ele, inspira toda uma classe de pessoas! No caso, outros homens que também querem uma mulher 43 anos mais nova e são julgados pela sociedade só porque eles mesmos tem só 50 anos.

O problema é que as pessoas não respeitam mais a verdade, senhor presidente!
"Ela tem idade pra ser sua filha", dizem sobre sua esposa. Mentirosos! Ela é dez anos mais nova do que a sua filha caçula! Ela poderia ser sua neta!

"Ele não se preocupa com o futuro", dizem.
As crianças não são nosso futuro? Como podem dizer que o senhor não se importa com as crianças, sendo que a sua própria esposa preenche todos os critérios para ser uma paquita?
Um homem que tanto se identifica com as crianças que escreve poesias que claramente poderiam ter sido escritas por uma!

--

O senhor é um homem de visão!
Onde alguns veem crise, o senhor vê oportunidade! Onde alguns veem desemprego, o senhor vê possibilidade! E, com seus esforços, o senhor fez essa possibilidade chegar a mais de 14 milhões de brasileiros!

Podem dizer que o senhor tem aprovação baixa, de apenas quatro por cento, mas veja só: o leite é considerado integral quando tem apenas 3% de gordura! Se o senhor fosse leite, sua aprovação seria mais do que integral!
O leite estaria azedo, mas não é disso que estamos falando.

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Golpe, eles dizem! 
Um homem que seria incapaz de golpear uma mosca! Por não ter força física pra tanto.

Greve! 
Como ousam falar de greve? Achar que uma pessoa como o senhor não valoriza o trabalho?
Um homem que se aposentou aos 55 anos, não gostou da experiência e por isso quer garantir que ninguém passe pela mesma tortura?

Dizem que o senhor é um presidente ilegítimo por não ter tido voto, senhor.
Pois sabem quem foi eleito democraticamente? O ex-presidente da Alemanha Paul von Hindemburg. Sabe quem é? Exato! Ninguém sabe. Agora, sabem quem subiu ao poder com elaboradas maquinações políticas? Hitler. E dele todo mundo lembra. 

O que eu estou querendo dizer, senhor, é que o senhor será lembrado!

--

A humildade é a qualidade dos sábios, senhor presidente. 
Como pode um povo que se diz cristão ser contra um homem como o senhor, que faz tanto esforço para que a nossa população se mantenha a mais humilde possível?

Um homem que tem seus propósitos alinhados com Deus! Que é o motivo de tantos brasileiros terem voltado a rezar todos os dias!

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Comparam o senhor a Satanás, presidente, e eu não consigo ver isso como algo negativo.
Afinal, essa criatura começou sem nada, oferecendo frutas para sobreviver. E hoje é tão influente em todo o mundo. 

Inclusive, rogo a Vossa Excelência que continue se inspirando em Lúcifer.
Afinal de contas, ele tem muito mais apoiadores que o Senhor.

Deixo aqui meus votos de apreço.
Carinhosamente,
Flávio

25.4.17

Encostos

Eu acredito em encosto.
Não acredito em fantasma, mas acredito em encosto.

Você tem um. Certeza que tem. Tem alguma pessoa que assombra você.
Uma assombração viva.


É nessa pessoa que você pensa quando responde o aceno de alguém que não estava acenando pra você. É ela que observa as suas vergonhas. É ela o fantasma que você quer agradar.

E, engraçado, nem sempre é alguém tão importante assim. Às vezes é uma pessoa que a gente nem conviveu direito.

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Meu primeiro encosto foi um menino do ensino médio.

Pele bem branca, cabelo bem preto, jeito de atleta, super gente boa.
Foi bater o olho nele pra ele virar minha referência pra tudo.

Sem saber, ele me controlava. Quando minha voz saía muito alta sem querer, eu me constrangia. Certeza que ele achava isso ridículo. Quando eu fazia uma piada sem graça, era ele o critério. Se ele não ria, estava decretada minha falta de graça.

Perto dele, fui falando cada vez menos e mais baixo.
Com o tempo, fiquei assim mesmo longe dele, como se só imaginar o que ele pensaria da situação fosse suficiente para eu querer me controlar.

Lembro que ele descansava os braços nos quadris quando ficava em pé.
Eu não tinha o hábito de fazer um gesto feminino como esse, jamais me permitiria.
Mas ele fazia isso com tanta naturalidade que... eu me permiti fazer também. Até hoje tenho essa mania.

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Eu sou assombrado por um tipo de encosto muito específico, porque o mais recente tinha o mesmo perfil: pele bem branca, cabelo bem preto, jeito de atleta, super gente boa.

Tivemos um rolo que não deu certo e que me deixou com um gosto amargo de, por um fiozinho só, não ter sido bom o suficiente.
Foi o que bastou pra ele se mudar de mala e cuia pra minha neurose.

Se eu fosse sair de casa, ele estava na roupa que eu usava. Vai que eu topava com ele no supermercado?
Se eu fosse ficar em casa, ele ficava no canto com cara de pena:
"Sabe onde eu tô? Na balada. Me divertindo. Chega a dar dó de você aí."

Às vezes ele me jogava um osso:
"Cueca nova, é? Nada mal, Flavinho, nada mal. Quem sabe um dia..."

Mas eu não me empolgava.
Quase-aprovação é pior do que aprovação nenhuma. Nada pior do que estar na beira de agradar alguém e não conseguir.

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Não há registros na história humana de um encosto positivo.
Seria uma maravilha ser perseguido por pensamentos de aceitação e comentários agradáveis.

A gente teria pensamentos bonitos com ele: "Escolhi bem a roupa de hoje, Encosto ia achar bonito."

"Percebo que você comeu seus vegetais hoje. Que sucesso!", diria o encosto do bem.

Estão certas as crianças, que tem amigo imaginário em vez de uma assombração.

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O problema não é querer ser aceito. Pode ser bom mirar numa pessoa que você admira pra tentar melhorar também.

O que mata é querer ser aceito por um fantasma.
Querer o aplauso de uma plateia que nunca vai poder te aplaudir, simplesmente porque não está nem olhando para a sua vida.
Pior, conviver o tempo todo com a sensação de ser vaiado.

É a gente que se obsedia quando enfia um padrão na cabeça de como deve se comportar para ser bom o suficiente.

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Coitados dos meninos. Pensa que responsabilidade, você morar na cabeça de uma pessoa sem saber?
Virar parâmetro pra tudo?

Muito bem. Estão libertos. O encosto era eu.
Agora, alguém me ensina onde compra água benta?

18.4.17

13 baleias why

SOBRE O DESAFIO DA BALEIA AZUL
ou
SOBRE 13 REASONS WHY
ou
SOBRE O QUE VOCÊ QUISER:

Eu sei que você não suporta mais ver textão a respeito dessas coisas.

Eu também não, e eu honestamente acho que a maior parte do que tem sido dito a respeito está um pouco fora de foco.

Transtornos mentais e suicídio são muito mais complexos do que parecem.

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Situação 1:
Eu tinha oito anos e alguns vendedores ambulantes começaram a vender bonequinhos de bexigas recheadas de farinha na porta da escola. Alguém começou a soltar o boato de que dentro das bexigas tinha cocaína.

Pânico.

Os pais exigiram providências. A escola mandou um dos bonequinhos pra análise.
A polícia apareceu. Os vendedores foram tocados dali. Afinal de contas, ninguém quer que crianças em idade escolar usem cocaína.
Isso é para adultos.

A análise de laboratório voltou com o resultado chocante: os bonequinhos de vinte e cinco centavos não continham cocaína nenhuma.
Pena, seriam um ótimo investimento.

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Situação 2:

Minha mãe sempre teve confiança o bastante em mim para não ficar perguntando o tempo todo onde eu ia e o que eu ia fazer, mas uma coisa a deixava apavorada: o perigo de entrar para uma gangue.

Não sei se ela me achava sociável demais ou se ela assistia muitos filmes do Spike Lee, mas a rotina para sair de casa era a seguinte:

"Mãe, vou sair!"
"Tá... Leva uma blusa... A mãe te ama, tá? Não esquece disso."
"Tá bom, mãe."
"Ah, filho", ela fazia a cara mais suplicante do universo, "E não entre em gangues, por favor."

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É óbvio que crianças não se viciariam em drogas só porque brincaram com um brinquedo "batizado". O problema da toxicodependência é muito mais complexo do que isso.

É óbvio que eu não entraria ou deixaria de entrar numa gangue só porque minha mãe mandou eu me cuidar. Primeiro porque não existiam gangues em Pato Branco, vá lá, mas segundo porque a tendência grupal do adolescente é muito mais complexa do que um aviso de mãe pode abarcar.

Da mesma forma:
É óbvio que uma criança não vai se matar só por causa de um desafio de internet ou de um seriado.

Adolescentes se matam quando se sentem profundamente sozinhos.
Adolescentes se matam quando se sentem profundamente incompreendidos.
Adolescentes se matam quando já estão se sentindo mortos.

Não vai adiantar conversar com o seu filho sobre o desafio da baleia azul, não vai adiantar proibir (ou obrigar) seu filho a ver um seriado de TV que fale sobre suicídio.

A única coisa que pode ajudar a prevenir uma tragédia é permitir que seu filho se sinta seguro para conversar, respeitado nas suas individualidades e recebendo limites honestos.

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Uma coisa que certamente vai fazer mal é fingir que a vida é o que não é.
Tentar encaixar todas as angústias de um jovem suicida em um seriado ou um jogo é desprezar alguém que já se sente profundamente desprezado.

Por isso mesmo precisamos falar de depressão, tristeza, morte e suicídio - diabos, precisamos falar sobre tudo! - com todas as letras e com muita atenção.
Escutando de verdade as tristezas e angústias daquela pessoa tão vulnerável que está ali.

Assim, quem sabe, a gente consiga diminuir o risco de que um jovem se suicide.
Ou use cocaína.
Ou entre numa gangue.

Todo mundo sai ganhando.

12.4.17

Carros

Um cara de roupa social impecável estacionou aqui na frente do escritório e desceu do carro.

Tirou uma flanelinha do bolso de trás da calça e, juro por Deus, tá fazendo carinho no carro faz pelo menos meia hora. Isso que carro já tava um brinco quando ele parou.

Se você quer que um homem te ame de verdade, esquece o silicone.

Implanta logo um pneu em cada membro e começa a fazer vrum-vrum com a boca porque, por algum motivo, isso é irresistível.

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O automóvel representa pro homem* tudo o que um namorado representa para uma mulher**.

(*estereotipado e clichê
**estereotipada e clichê, como eu estou fazendo muito esforço de deixar claro para não puxarem minha orelha depois)

O primeiro carro ele nunca esquece.
O primeiro namorado ela nunca esquece.

Ele se sente seguro no carro.
Ela se sente segura com o namorado.

Ele senta no carro e vira um bicho, obedecendo seus mais loucos instintos.
Ela senta...enfim, cês entenderam.

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Na época da faculdade, meu TCC foi sobre isso: o que as pessoas tanto viam nos seus carros que faziam esses vínculos tão profundos de identificação acontecer.

Numa das entrevistas, fui aplicar o questionário em um menino de uns 18 anos.
"Qual a primeira palavra que vem à mente quando você pensa em carros?"
"SEXO", disse ele.

"Que experiências um automóvel proporciona que afetam sua visão de si mesmo?"
"SEXO", disse ele.

"Quais fatores de um carro você sente que podem ser ligados à personalidade do dono?"
"SEXO", disse ele.

Ele tornou a minha análise de dados muito complicada.

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Hoje em dia a gente compra menos carros. Eles dão despesa, a crise tá feia e o litro de gasolina tá o mesmo preço que o do Chandon.

Não é mais tão fácil ter o próprio carro pra parar na rua e ficar polindo.

Deve ser por isso que tem tanta gente com tara de transar com o motorista do Uber.

11.4.17

Os abusáveis

Relacionamentos abusivos são o assunto do dia.
Que bom.  
Quer dizer, que pena que eles existam tanto a ponto dessa discussão ser tão necessária, mas já que existem... Que bom que estamos conversando.

Nessa conversa, a gente fala bastante sobre o abusador. Isso ajuda bastante na hora de perceber o que é uma situação de abuso e o que não é.

Ainda assim - pelo medo de não ser amada e pelos truques do inconsciente - uma pessoa num relacionamento abusivo dificilmente vai conseguir identificar o seu parceiro ali.

E agora, sem olhar para o outro, como identificar se o seu relacionamento é abusivo?

Olhando para dentro.

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Se existem traços de personalidades que caracterizam os abusadores, também existem características que indicam uma personalidade "abusável".
São elas:

1 - Pessoas que sofrem abuso são muito responsáveis.
Pessoas com uma personalidades abusáveis costumam ser muito eficientes. Antecipam a necessidade do outro antes que ele diga qualquer coisa, trabalham com gana nos olhos, fazem o possível para terem uma vida decente. 
A frase mais comum para sair da boca de uma vítima de abuso é "Eu me recuso a ser vítima".

Por baixo dessa atitude - tão nobre! - de ter queixo erguido e aceitar as dificuldades da vida como são, mora um aviso interior de "É proibido reclamar". 

Nessa de "a vida é dura mas eu sou forte", um relacionamento abusivo se entranha sem parecer tão cruel, só pelos ocasionais momentos de prazer que oferece. 
Para essa pessoa, só um pouquinho de prazer já basta.

2 - Pessoas que sofrem abuso tendem a se sabotar. 
Pessoas em relacionamentos abusivo muitas vezes encontrar um esquema genial para se manterem ali: cometer erros que possam, ao seu ver, equilibrar a balança do abuso. Por exemplo: Um homem trai uma mulher várias vezes e tem a traição descoberta. Sob a justificativa de vingança ou de esquecer o homem que a traiu, ela sai num encontro com outro rapaz. Nem gosta do encontro. Mal dá um beijo na boca. Ainda assim, na primeira oportunidade, briga com o seu parceiro e despeja "Mas eu também te traí!".

Por fora, a lógica é a de "Não vou sair perdendo!". Por dentro, o raciocínio inconsciente é "Agora estamos quites, fiz uma cagada também. Por favor, fique comigo".
O parceiro, que já deve ser um manipulador de primeira, sai da história cheio de munição para sair da posição de traidor e se colocar como vítima.

Geralmente há uma falsa simetria nessa história, e a pessoa abusada não se dá conta de que o que ela fez é muito menor do que o conjunto dos atos da outra pessoa. Por exemplo "Ele me empurrou, mas também... eu mexi no celular dele!".
É a velha história do "vocês não entendem, fui eu que provoquei!".

3 - Todo abusado é uma pessoa legal.
Sabe essas pessoas chatas, que cobram presença o tempo todo? Essas pessoas grudentas? Normalmente elas são a ex do abusador. 
A pessoa abusada, por sua vez, não é assim. 
Ela é legal. Ela entende. Ela é super parceira.
Ela não é aquela pessoa que fica louca só porque o companheiro deixou de telefonar um dia. Quem é que não tem um dia ocupado?
Quem é que nunca perdeu a cabeça?
Quem é que nunca deu um empurrão numa hora de briga?

Compreensivo desse jeito, o abusado não exige nada. 
Por trás disso, uma autoestima baixíssima que lhe diz "Se você exigir, a pessoa vai embora. Seja grato de ter alguém que goste de você, ruim desse jeito".

4 - Todo abusado escuta mal.
Hora de tomar responsabilidade: para fugir de uma sensação de abandono que a persegue, a pessoa abusada manipula cuidadosamente tudo o que escuta para convencer-se de que é amada.

Se a outra pessoa fala "Eu não quero um relacionamento sério agora", a pessoa com personalidade abusável vai focar no "agora", e não no "eu não quero um relacionamento".

Se a pessoa ouve um "Desculpa, tá tudo tão corrido, nem deu pra te mandar uma mensagem", escuta "Estive pensando em você o tempo todo, e se não fosse minha ocupação terrível que me ocupou todos os segundos da semana, eu te procuraria." 
Enquanto isso, o verdadeiro subtexto era "Tenho muitas outras atividades na minha vida que são mais importantes que você". 
Isso o abusado se recusa a ouvir.

5 - Todo abusado tem pressa de ser amado.
Não vou dizer que a pessoa que sofre abuso é carente porque isso todo mundo é, até o abusador.  O que diferencia a pessoa com tendência a sofrer em relacionamentos abusivos das outras é a pressa que ela tem. Cansada e solitária, a pessoa se abre facilmente para alguém que lhe trate como alguém desejável. 

"Eu te desejo", para uma pessoa carente, é equivalente a um abracadabra. Ela se sente tão largada quanto uma lata jogada na rua. Se alguém lhe ajunta ali, é como se dissesse "Se você me deseja, pode me levar, sou sua", com a maior gratidão do mundo.

Infelizmente, um coração escancarado é um prato cheio para alguém manipulador.

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Claro que possuir esses traços não é, de maneira nenhuma, motivo para sentir culpa de ter estado em um relacionamento assim. Nenhuma dessas características é ruim. 
Ainda assim, elas facilitam para que uma pessoa com má intenção se aproxime e faça a festa.

Se você tem um histórico de relacionamentos abusivos, pode ser hora de olhar para a sua personalidade, para os seus hábitos e para as suas carências.

Não para se julgar (provavelmente você já se julga demais), mas para atender ao que você precisa com o carinho que tem faltado na sua vida. Para ganhar de si aquilo que se busca no outro.

Quem sabe aí você possa escolher o relacionamento que você deseja em vez de tentar desesperadamente transformar em amor aquele relacionamento que lhe cruzou o caminho.

Precisando de ajuda, estamos aqui.

6.4.17

Pânico e prisão

Às vezes eu me dou conta que meus dedos estão presos. Eles sempre estão presos, nenhuma novidade nisso. É pra isso que servem os sapatos, afinal. Mas às vezes eu me dou conta disso, e isso me incomoda. Tento abrir e fechar meus dedos e não consigo. O movimento fica limitado. Eles estão presos e isso é horrível. E, como se fosse questão de vida ou morte, eu preciso sentir que posso abrir e fechar meus dedos do pé. O calçado incomoda. A garganta aperta e eu não consigo pensar em outra coisa. Eu estou preso. As coisas aumentam de proporção, como se eu entrasse em contato com uma realidade maior. Está tudo errado, estamos todos numa gaiola, estamos todos presos e esses calçados são um sinal de tudo isso, e eu preciso me libertar. Aí eu tiro o sapato e tudo bem. -- Não me sinto bem quando chega o inverno. O inverno bravo, aquele mês e pouco em que a temperatura fica perto do zero e o incômodo não é mais só na hora de ir tomar banho. Você não consegue fingir que não está frio, nem que só por um momento. É frio fora de casa, é frio dentro de casa. É frio na parte do pescoço que fica fora do cobertor à noite, é tudo frio, você passa o mês fugindo de morrer de frio. Sentir calor é como sentir-se amado, você não consegue imaginar como é até que o sinta. Ou você tem acesso ao calor ou está distante dele até como conceito. A sensação de frio não incomoda tanto quanto a sensação de que eu nunca vou sentir calor novamente. -- Meus dedos não estão presos para sempre. Eles só estão dentro de um sapato. Eu não vou sentir frio para sempre. É só esperar a Terra percorrer milhões de quilômetros através do espaço e ajustar sua inclinação em relação ao Sol e o calor vai ser insuportável novamente. Os perigos não são reais. A sensação sufocante de uma prisão eterna é. -- Um ataque de pânico é como isso: às vezes nem existe perigo real, mas a sensação é de morte iminente. A respiração encurta, o mundo parece pequeno, as estruturas que sustentam quem se é vão implodindo e caindo umas sobre as outras no peito, como se um prédio desabasse dentro da gente. Na raiz de tudo isso, a sensação de estar preso. -- Quem sofre de pânico em geral acomoda muito mais as necessidades dos outros do que as próprias. Cala-se quando devia falar, cede quando devia teimar e aceita quando devia dizer, gritando que não, de jeito nenhum. Não se reage, o outro é quem tem o poder. O outro é que comanda. O outro está julgando. E uma hora o corpo se dá conta de que pode nunca sair dessa situação. De que a vida não faz nenhum sentido se for sempre presa desse jeito - e viver sem sentido é olhar para a morte. Nessa situação, nada é mais inteligente do que surtar. -- Em geral, para quem sofre de pânico, a sensação de que uma crise pode vir a qualquer momento é pior do que a crise em si. Infelizmente, sem mudar o padrão de abaixar a cabeça e colocar a exigência dos outros antes da própria necessidade, as crises vão continuar necessárias. A solução? Buscar o calor. Tirar os sapatos. Libertar-se. Não é fácil. Ninguém está preso porque quer. Escapar de uma prisão sempre vai ser considerado um crime. Mas para quem esteve preso durante tanto tempo, nenhum julgamento importa mais quando se conhece a liberdade. -- Um dia ainda vou trabalhar descalço. Espero que não esteja frio.

31.3.17

Timeline

Vou descendo pela timeline da rede social e vejo a vida de vocês.
Vejo vocês casando.
Tendo um filho. Tendo o segundo.
Caindo, levantando, erguendo a cabeça.
Comemorando um diploma.
 Entrando num curso novo.
Viajando pra fora do país.

--

A gente não costuma dizer aqui quando está triste.
Aqui é a edição dos melhores momentos da nossa história, e a gente até estranha quando compara a cena dos nossos bastidores com o que vê na timeline.

--

Aí alguém vem me chamar em particular e me confidencia que não tá tão bem.
Que o relacionamento tá acabando.
Que o trabalho tá difícil. Que a mãe está doente. Que perdeu a fé.
E que se sente uma fraude por causa disso.

--

Nesses momentos eu queria mostrar suas redes sociaos pra vocês.
Não pra se sentirem uma fraude perto da felicidade que está estampada ali, mas pra lembrarem que vocês já conquistaram muita coisa.
Amaram.
Tiveram um filho. Tiveram o segundo.
Estudaram, ralaram, conseguiram um diploma.
Caíram e levantaram - e daí se caíram de novo? Vocês já fizeram muita coisa.
Merecem o crédito.
Eu fico aqui, descendo a timeline e olhando.

--

A parte exibida e narcisista da gente é necessária.
Quando a gente tá na pior, é justamente com ela que a gente mais briga, por ter prometido uma felicidade que a gente não pode cumprir.
Mas a gente pode chamar essa força num momento ruim pra nos lembrar que a gente já esteve bem. Superbem. De dar inveja.

E pode voltar a ficar assim.

29.3.17

Como pedir um favor

Você é gentil.
Você se esforça para ser uma pessoa com algo a oferecer pra sociedade. Você trabalha para ter amigos.

E você consegue! Você tem habilidades e muitas pessoas ao seu redor. Parabéns!

E aí alguém te pede um favor.

--

Não que isso seja ruim. É ótimo poder fazer um favor pra alguém.
Você valida todos os esforços que já fez e ainda consegue ganhar uma delícia de "muito obrigado" depois do serviço feito.

Isso se a pessoa que te pediu o favor tiver o mínimo de boa vontade.

Me recuso a acreditar que quem abusa de um favor o faça por má vontade.
Minha cabeça não aceita que alguém seja inconveniente com alguém que tem algo a lhe oferecer de propósito.

Mas tem gente assim, como tem. Então eu vou tentar ser didático.
Eis aqui meu guia de como pedir um favor sem ser um idiota.

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Pra começar, cuide de como você vai abordar a pessoa a quem você vai pedir o favor. Lembre-se, você precisa dela. Ela está na vantagem.
a) "Faz café pra mim" - Ruim até se você estiver pagando.
b) "Faz um café pra gente, por favor?" - Melhor.
c) "O que você acha de fazer um café? Amanhã eu faço pra nós!" - Bom.
d) Levantar e fazer o próprio café de uma vez - Ideal!

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A pessoa de quem você quer alguma coisa tem todo o direito de dizer não. Provavelmente o seu pedido vai exigir algum esforço dela e ela não é uma pessoa ruim se lhe negar.

Mas suas chances aumentam muito se você tiver alguma intimidade. Se a sua última conversa foi:
a) ontem: você pode começar com um "oi" e ser um pouco mais direto.
b) há uma semana: comece perguntando como a pessoa está. Depois de ela responder, pergunte se pode pedir algo dela.
c) há mais de um mês: peça desculpa pela inconveniência. Pergunte como ela está. Pergunte alguma coisa que seja do interesse dos dois. Só então peça o favor.
d) há mais de um ano: não peça um favor.

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Claro que o que você está pedindo é importante pra você, e você tem interesse em ver aquilo feito. Mas, se você não está pagando, tente exercitar a fofura.
Na hora de cobrar o favor:
a) Não seja direto demais: "Cadê o relatório?"
b) Nem pressione demais: "E aí, deu tempo de fazer?"
c) Não dê ordens: "Eu preciso disso pra ontem!"
d) Seja sutil. Pergunte com a delicadeza de um dente de leão caindo num pijama recém-lavado:
"Desculpa ficar cobrando, mas cê conseguiu fazer aquele negócio que eu te pedi?"

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Mas o mais importante de tudo é como você vai agir depois do favor.
a) Agradecer bastante e se oferecer para retribuir quando a pessoa precisar - Ótimo!
b) Fazer um gesto singelo, mas considerado, agradecendo o que a pessoa te fez - Lindo!
c) Lembrar do favor tempos depois, ainda com alguma gratidão - Maravilhoso! Você merece um boquete do próprio anjo Gabriel.
d) Agradecer e sumir - Ok, só não peça outro favor tão cedo, que isso magoa.
e) Aparecer seis meses depois pedindo outro favorzinho, bem de amigo - Considere engasgar até a morte na sua saliva.

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Agora, a dica mais importante: Quem estabelece as condições para como o favor vai ser feito é a pessoa que faz o favor, não a que pede.

Se você diz "Me empresta aquele seu livro do Jorge Amado?" e a outra pessoa responde que sim, sua resposta obrigatoriamente deve ser:
"Ótimo, obrigado! Quando fica bom pra eu ir pegar?".

Nunca, jamais, responda:
"Ok, leva pra mim no meu trabalho? Eu vou estar lá na primeira quarta-feira do mês, das oito às oito e cinco da manhã. Passe pelos seis seguranças do portão dizendo que quer falar comigo, se eu demorar pra abrir a porta é porque eu me atrasei. Te espero!".

A coisa que o ser humano mais odeia fazer é esforço. Se você está pedindo um favor, deixe o mínimo de esforço pra outra pessoa fazer.

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Seguindo essas regrinhas, fica tudo bem mais fácil. Ninguém sofre.

Ninguém vive sozinho. Todo mundo precisa dos outros, e pedir favores é normal.
Ter medo demais de incomodar também é ruim. Todo mundo gosta de fazer algo por outra pessoa. Se você quer muito algo de outra pessoa, não tenha medo. Peça! Só tente ter um pouco de noção.

Por favor.

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Eufemismos são lindos. A ação é a mesma, mas por que diabos uma pessoa que fala "Vou fazer xixi" soa tão fofa e uma que fa...