19.1.17

Desconfiados

Uma vez minha mãe estava achando o meu irmão e o melhor amigo dele grudados demais. Amizade adolescente normal, aquela coisa de um não sair da casa do outro.

"Parece que tá namorando com ele, credo!", ela disse.
"E se eu estivesse, que que tem?", meu irmão respondeu.

O mundo da minha mãe caiu.

"JEOVÁ DO CÉU, MEU FILHO É GAY!", gritou ela, do jeito mais dramático possível, "Eu sempre soube, mãe nunca erra!".

Ela tava errada.
Meu irmão, na verdade, fingia que ia na casa do amigo para tentar provocar uma gravidez adolescente numa colega de escola.
Eu, o verdadeiro filho gay, sentei no cantinho imaginando como seria quando chegasse a minha vez de ter essa conversa.

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Pessoas desconfiadas sempre acham que tem uma intuição ótima.
O maior prazer de um desconfiado é dizer "Ah, nunca fui com a cara dessa pessoa mesmo" quando alguém faz algo de errado.

Só sinto que essa intuição não tem valor nenhum se essa é a impressão que você tem sobre QUALQUER pessoa que passa pelo seu caminho.

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É impossível criar uma relação de confiança com um desconfiado.
As ações corretas e honestas que você tem não passam de um "hoje passa", um passe temporário para a vida dessa pessoa enquanto a mancada não vem (porque ela vem, o desconfiado tem certeza que ela vem!).

Mas não acredite no pequeno voto de confiança. O desconfiado sempre vai viver no tudo ou nada: basta uma atitude que ele reprove para ser julgado pelo resto da vida, mesmo se for uma coisa pequena.

Se não for pequeno, tudo bem. O desconfiado até gosta quando se fode, só pra poder dizer a si mesmo que "Ah, eu sabia!".

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Sem contar que a gente vê nos outros o que a gente tem.
A pessoa desconfiada vive na retranca, analisando e colecionando mentalmente as possíveis intenções ruins dos outros para que ela se sinta justificada em botar em prática as suas próprias.

Não é nem a desconfiança em si que me incomoda.
É a conjectura. Meu deus, como o desconfiado gosta de imaginar as intenções do outro.


Duas pessoas que passam muito tempo juntas só podem estar tendo um caso.
Um colega que fica amigo do chefe não é porque tem coisas em comum com ele. Só pode ser um puxa-saco querendo subir na vida.
O desconfiado não pode ganhar uma bala sem acreditar que tem alguma intenção por trás.

Ele não consegue acreditar que alguém possa fazer algo de boa vontade.
Uma pena. Se estivesse mais aberto, talvez recebesse algo de bom e pudesse se esforçar para cultivar essa qualidade em si mesmo.

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Pior de tudo, o desconfiado é um metido.
Porque de tanto achar que as pessoas estão tramando contra ela, ela se bota no centro do universo.
O mundo é um perigo e ela é o alvo.

Por trás disso, a baixa autoestima e uma profunda sensação de fragilidade.
"Qualquer um me derruba."
"Sou incapaz."
"Não vou deixar ninguém chegar perto o suficiente pra me ferir."

Para se proteger, o desconfiado não se expõe, não se aproxima, não troca. De tanto querer se preservar, o desconfiado se impede de crescer.

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Claro que é importante tomar precauções.
As pessoas são imprevisíveis e podem nos ferir profundamente, mas passar a vida pensando no que o outro pode estar querendo não ajuda ninguém a se proteger.
Agindo desse jeito, o desconfiado se prende entre duas opções: correr o risco de ser enganado ou viver sozinho. Em nenhuma delas ele é feliz.

A melhor maneira para se proteger é aceitando que as pessoas tem nuances, deixando de acreditar que uma pessoa só pode ser 100% boa ou má. Assim, é possível se relacionar de verdade com as pessoas, pelo que elas são.

Isso é uma libertação dupla: para o desconfiado, que deixa de viver como se todo mundo fosse uma ameaça, e para quem está ao seu redor, que se livra da obrigação de ser um santo.

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Em defesa do desconfiado, alguma coisa o deixou assim.
Em algum momento ele confiou demais, e expôs uma parte sensível de si para alguém que não soube respeitar a beleza disso. Doeu tanto que ele nunca mais deixou ninguém chegar perto dali.

Mas a cura da ferida que faz o desconfiado enxergar todo mundo como um possível aproveitador é justamente ter um contato próximo, real e honesto com alguém - bem o que a desconfiança impede que aconteça.

Resta o esforço de aprender a baixar a guarda novamente, um pouquinho por dia. Se é possível voltar a acreditar em água fria depois de ter sido escaldado?

Desconfio que sim.

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