24.1.17

Questão de Valor

Às vezes eu tento lembrar o que me fez cursar psicologia.

Entre outros motivos (parentes malucos, falta de noção financeira, vontade de trabalhar sentado), a história a que eu chego é a seguinte:

Eu sempre gostei de escrever. A opção lógica seria fazer jornalismo (trabalha sentado, check, falta de noção financeira, check), porque isso ia me tornar um escritor melhor.

Comentei isso com um amigo jornalista, provavelmente frustrado com o curso, e ele me disse: "Se você quer ser escritor e não repórter, não faça jornalismo. Vai arrancar todo traço de estilo que você tiver."

Ouvi o conselho, afinal eu não gostaria de virar um escritor-jornalista frio, técnico e sem estilo, como o Luís Fernando Veríssimo ou o Machado de Assis.

Achando que ia aprender mais sobre as pessoas e assim criar personagens melhores, assinalei Psicologia no vestibular e segui em frente.

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O que eu esqueci de levar em conta é que eu não fazia ideia do que um psicólogo fazia.

Quer dizer, já tinha visto na TV, já tinha ido na psicóloga algumas vezes ("Desenhar minha família? Vou fazer de qualquer jeito, o que deve contar mesmo é a história que eu conto, né?", eu falava, enganado), mas não tinha muita ideia de como era essa profissão enquanto carreira.

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Foi só na faculdade que eu fui perceber o fetiche que as pessoas tem com a psicologia.
Todo mundo que se apresentava dizia que sempre sonhou com o curso, que sempre quis "ajudar os outros", "se conhecer melhor".

Pobrezinhos deles. Antes tivessem vendido rifa pra igreja e feito, porque só se ajuda quem pede e só se entende quem vai estudar a si mesmo. Bem mais barato, inclusive.

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O curso em si é fácil de fazer (ah vá, colega, é bem mais fácil entender estímulo e resposta do que aprender engenharia de aviões), o assunto é absurdamente interessante e, quando você se firma na clínica (o graal da maioria dos estudantes), você pode tirar um salário decente, trabalha no ar condicionado e um e outro ainda vai te chamar de doutor, podendo usufruir da vaidade de se achar especialista em tudo.

E basta olhar pra carteirinha profissional de psicólogo para alguém surgir de trás de uma pedra e dizer "Nossa, um dia ainda vou fazer psico. É um curso lindo!".

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"Porra, Flávio, cê tá detonando a nossa profissão!"
Calma, é bem o oposto que eu quero falar.

Depois de formado, a realidade financeira me atingiu em cheio e eu fui ver como a área é difícil.

Por existir tanto psicólogo em atividade por aí, a profissão ficou meio diluída.
Tem muita gente (muito boa, inclusive!) disputando e conquistando espaços em um mercado que já anda numa crise brava.

E aí vem as "soluções" que a gente escuta:
"Atende mais barato! Trinta reais numa sessão é melhor do que nada, né?"
"Essa vaga paga 900 reais por mês, mas pelo menos é na área, né?"

Ao mesmo tempo, os pedidos que a gente recebe:
"Psicólogo ajudaria muito mais gente se cobrasse menos!"
"Dá pra fazer por menos? Eu tenho convênio!" - Mesmo que ninguém atenda seu convênio porque ele paga nove reais por uma sessão de trinta minutos!
"Vocês querem ganhar dinheiro demais em cima das pessoas!"

Eu entendo, sério. Eu também ganho pouco.
Mas a gente precisa conversar melhor sobre isso.

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A maior parte dos terapeutas faz alguns atendimentos a preço popular quando pode. O engraçado é que a pessoa que está ali porque realmente aprecia o tratamento, por mais que peça desconto, realmente tenta pagar o melhor possível dentro dos seus meios, porque aquilo, para ela, tem valor.

Se eu ganhasse um real pra cada pessoa que aparece de carro do ano e pede um desconto de 60% na sessão porque tá sem grana, eu já ganharia mais do que eu tiro por mês no consultório.

Não tô querendo ser juiz da situação financeira de ninguém, mas também não sou um frei Franciscano pra sair por aí promovendo a saúde mental em troca de um prato de comida.

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Psicoterapia não é caro.
Não mais caro do que, sei lá, qualquer outra coisa na vida.
Academia, passagem de ônibus, comida, tá tudo caro, mas eu nunca vi alguém pechinchar o quilo do pão no caixa do supermercado.

A questão é bem básica: Qual é a prioridade que você tem na sua vida?
Estar bem ou estar com a vaidade em dia?
Vale tão pouco assim a sua saúde mental?

A gente até está disposto a facilitar o acesso, mas a gente paga caro para estudar, caro para ser membro de uma ordem profissional, caro para se manter atualizado, caro para poder atender num lugar com dignidade, caro para poder sobreviver na área até se estabilizar...

A gente paga caro para poder trabalhar. Não é possível fazê-lo sem cobrar preço algum.

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"Eu concordo, mas é injusto! Eu tenho pouco dinheiro e quero poder fazer uma terapia!"

Não desista ainda! Se você quer fazer terapia e não tem renda, há algumas opções:

O governo tende a focar seus investimentos em Psicologia Social, que abrange um público maior e tem um escopo diferente do atendimento clínico. Bem sinceramente, é difícil conseguir fazer terapia por qualquer meio público. De qualquer forma, os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) podem servir como referência.

Faculdades de psicologia também costumam ter atendimento terapêutico a preços populares, feito pelos alunos da instituição e supervisionado pelos professores. Pode ser uma boa opção encontrar uma na sua região.

Muitos profissionais também aceitam negociar seus preços se você explicar sua situação e concordar em encontrar um meio termo acessível para os dois enquanto você não puder pagar o preço cheio. 

E você pode cobrar também! Dos seus representantes políticos, do seu plano de saúde, do seu empregador... enfim, você pode fazer barulho para que sua necessidade de atendimento seja atendida.

A gente vai fazendo nosso barulho por aqui também.

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Não me arrependo da escolha que eu fiz. Gosto muito do que eu faço.

É um prazer acompanhar as pessoas enquanto elas reveem seus valores, descobrem seu valor e aprendem a se valorizar. É um processo difícil e demorado, que exige muita responsabilidade e que não há jeito de fazer de graça. 

O trabalho é lindo mas não dá pra viver de lindeza. 
Sabe como é... Questão de valor.

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