22.2.17

Únicos

A maior prova da falta de humildade do ser humano é que a gente sempre acredita que é o primeiro a passar pelas mudanças que passa.  Não importa quantos trilhões de pessoas já tenham nascido, crescido, metido e batido as botas, a gente sempre acha que nosso ponto de vista é inédito.

Com todo mundo:
O adolescente que acha que é o primeiro a perceber que precisa se rebelar contra o mundo;
O jovem adulto que acha que é o primeiro a se frustrar com os sonhos que teve;
A pessoa de meia idade que acha que é pioneira na ideia de simplificar a vida e dar uma moderada nas expectativas em busca de menos estresse;
O idoso que acha que a geração seguinte é a primeira que não tem compasso moral.

Nada de novo debaixo do Sol: nossas histórias se repetem.
O que não quer dizer que não sejam dignas de ser vividas.

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A gente vive sob a ilusão de ser único.

Não que a gente não seja capaz de entender que o mundo é um formigueiro imenso, todo mundo com as suas frustrações. E, a bem da verdade, tentar se colocar no lugar de todo mundo que pode estar sofrendo ao mesmo tempo é uma experiência opressora.

Mas nós somos obviamente limitados: pra quem só consegue existir em um lugar por vez, só existe o lugar onde se está.

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Quem sabe ajudasse se a gente tirasse nossos bilhões de cabeças preocupadas com seus bilhões de si-mesmos e tentasse se perceber mais como colônia do que como seres individuais.

Um grande Ser Humano, o conjunto de bilhões de pessoinhas, tentando fazer sentido como um todo, cada pequeno insight contribuindo para o mundo inteiro.

Claro: pra quem é criado para ser o melhor aluno da turma, a pessoa que mais se destaca, que encontra uma pessoa específica que seja um grande amor na sua vida... Pode ser difícil sentir-se menos importante para ganhar na escala.

Mas esse movimento pode ser fundamental para aprendermos a ser mais livres, mais generosos e - quem sabe - mais felizes.

Mais entusiasmados, por sabermos nosso papel num grande sistema.
Menos autocríticos, por sabermos que não estamos trabalhando sozinhos.

Mais capazes de aceitar que somos bem comuns, bem pequenininhos, bem iguais uns aos outros.
E, por isso mesmo, únicos.

20.2.17

Pegadinhas

Domingo à tarde.
Eu estava sentado no parque, de pés descalços, olhando pro horizonte e tentando tirar uma selfie que preste.

Um garoto caminha e fica em pé, parado, atrás de mim. 
Tem uns 18 anos, tênis de marca, todo arrumadinho na moda. Tira o telefone do bolso e começa a falar bem alto:
"Tô do lado de um menino com cara de baitola! Isso, vem rápido."

Prestei atenção.
"É, de bermuda preta. Listrada. Camiseta branca. Cara de baitola."

Olhei pra baixo pra ver se eu estava vestindo isso mesmo. Estava.
A cara de baitola eu não tinha como conferir, mas provavelmente estava usando também.

Ele estava falando de mim.  

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Tentei decidir rápido. 
Ficar parado? Enfrentar o menino? Ir embora? Ele continuou falando:
"Um com bastante cara de baitola. Vem rápido."

Gato escaldado é foda. Depois da minha adolescência, de precisar sair correndo de gente me chamando de viado dezenas de vezes, eu resolvi zarpar.
"Ele tá colocando a meia. Corre aqui."

Eu tentando demonstrar calma.
"Tá botando o tênis. Vem logo."

Botei o tênis, fiz cara de tranquilo e tentei sair devagar.

O moço veio correndo atrás de mim:
"Moço, calma! Moço! Espera aí!"

Olhei pra ele. Ele abriu um sorriso:
"É pegadinha!"

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Vocês viram a desculpa da mulher que assassinou o irmão do Kim Jong-un?

Ela disse que foi contratada como atriz, pra fazer uma pegadinha. Ela teria que abordar homens e atirar água na cara deles. Coisa engraçadíssima, né?

Ela já tinha feito isso quatro vezes quando mostraram o irmão do Kim pra ela e falarem que esse era a próxima vítima.

Vítima de verdade, porque dessa vez o frasquinho de água tinha veneno.

Quem caiu na pegadinha foi ela.

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Depois da pegadinha, eu fiquei pelo menos uns três minutos tremendo. A adrenalina que uma sensação de perigo provoca é uma merda.

O menino era carismático mesmo, sorrisão enorme, boa pinta. Puxou papo comigo:
"E aí, como é que foi? Você ficou nervoso?"

Eu respondi:
"Olha, não é a situação mais confortável do mundo, ainda mais pra quem é baitola mesmo."

Ele parou por um segundo.
"É, pra eles deve ser ruim mesmo...". Meu Deus, que anta. "Você deixa eu usar sua imagem?"

Deixei. Nunca fui de esconder meus constrangimentos. 

Ele me entregou um cartão de visita do canal no Youtube (achei engraçado, uma mídia tão moderna divulgada pelo método mais antigo do mundo) e foi embora.

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Chegando em casa, fui conferir os outros vídeos dele.
Nada muito incrível. Tinha um vídeo dele chegando no açougue e perguntando se dez quilos de carne "Dá pra 20 comer?".

Tinha um chamado "Apagando pessoas na rua" 
Nesse ele seguia pessoas numa rua deserta falando "não é pra passar aqui, vou te apagar!" e depois saía correndo atrás da pessoa com um apagador na mão. 

Péssimo, mas eu ri de verdade.

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Ser vítima de uma pegadinha é um exercício de perdão (a não ser no caso do irmão do Kim Jong-un, que foi um exercício em desencarne mesmo).

Perdoar o outro por ter feito você passar por um momento de pânico, por ter um humor tão raso e besta. perdoar a si mesmo por ter caído numa brincadeira tão óbvia, perdoar quem quer que tenha feito a situação original que se repetiu ali tão traumática.

Mas até que ponto você pode falar "Pegadinha!" depois de fazer algo ruim com alguém e apagar os efeitos negativos causados por aquilo?
Até que ponto a graça vale a pena?

Porque se depois que você pegar a pessoa, ela te pegar também, e com raiva... Não dá pra reclamar muito, não.

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O menino da pegadinha agora está no porta-malas do meu carro.
Daqui a um ou dois dias, eu vou falar "Agora é só jogar pros rotweillers!" e abrir a porta.

Pegadinha! 
Vão ser pitbulls.

Tá, essa última parte não é verdade. Eu nem tenho carro. 
Mas que me faria rir bastante, faria. 

17.2.17

Mas tem que pagar?

No primeiro semestre da faculdade de psicologia, a turma deve ter tido umas quinze desistências.

Alguns porque não gostavam do curso, alguns porque moravam muito longe, mas a grande maioria largou o curso porque descobriu que psicólogo não podia dar palpite na vida do outro.

Infelizmente, ainda não há faculdade que ensine a saber mais da vida da outra pessoa do que ela mesma.
O que não impede que muita gente exerça essa atividade informalmente.

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Quase todo dia alguém vem pedir uma sessão comigo e pergunta se tem de pagar.
Eu estranho, mas não posso falar nada. Me faço a mesma pergunta toda vez que recebo a fatura do cartão de crédito.

Comentei isso no Facebook e pelo visto essa história de querer um serviço sem pagar por ele é epidêmica.

Muita gente contou suas histórias, a conversa foi evoluindo, e alguns contaram outros tipos de absurdos que escutam dos seus "clientes". Selecionei algumas para ilustrar esse texto aqui.

Ficam duas perguntas:

Por que as pessoas acham que devemos trabalhar de graça?
Por que elas acham que entendem melhor do nosso trabalho do que a gente?

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Não apenas o outro sabe o que é melhor pra mim, como também se julga capaz de entender minhas necessidades e dizer do que eu realmente preciso.

Tinha uma amiga da minha vó que fazia isso. Chegava no portão e falava "Cê sabe da Elaine, que se separou do marido? Tá vivendo de pensão, coitada. Mas antes de despertar qualquer empatia, já emendava:
"Mas ela tava no mercado agora e o carrinho tava como? Cheio de pizza congelada. Nem julgo de ser desquitada, mas comprar pizza com dinheiro de pensão?"

E, sei lá, às vezes a mulher comprava pizza porque era o que dava pra comer rapidinho entre um emprego e outro.

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Mas se:
1 - Eu quero o que o outro tem a me oferecer,
2 - Eu não quero pagar pelo serviço e
3 - Eu ainda quero teimar que eu entendo mais do que ele,

A lógica se resume a um "Eu acho que o outro vale menos do que eu".

Então, se você é uma dessas pessoas, eu entendo você.

É uma ótima forma de se pensar: não só você se sente bem por se achar melhor que todo mundo, você evita de lembrar que não é um pedaço de carne mortal como qualquer outra pessoa.
Além disso, ainda tem a chance de alguém ter autoestima baixa o suficiente para concordar com a sua proposta de trabalho gratuito.

Realmente, você é especial. Exceto pelo fato de ser um escroto.

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A situação se resolveria se todo mundo soubesse duas coisas:

Primeiro, que nós somos protagonistas das nossas próprias vidas.
Ou seja, que tudo bem a gente se priorizar e cuidar mais do nosso quintal mesmo, e isso inclui dizer não para coisas que não vão nos trazer vantagem (e não, "mostrar o seu trabalho" não é vantagem).

Segundo, que os outros também são protagonistas das vidas deles.
Precisam pagar suas contas, tem seus desafios para superar e não podem ficar fazendo o que os outros pedem apenas por amor a alguma causa.

Cada um vivendo a sua vida com respeito aos limites dados pelo outro, poderíamos exercer mais a confiança: o outro só está tentando fazer o trabalho dele - e se ele diz que isso vale alguma coisa, veja só, pode ser que valha mesmo.

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Mas não vale a pena se exaltar.

Pra gente resolver essas diferenças com mais calma, sugiro uma prática que desenvolva a tolerância. Quando alguém lhe der um palpite sobre o seu trabalho, sugira um mantra:
"A vida do outro não me diz respeitooooohmmmmm, a vida do outro não me diz respeitoooooooohmmmm".

Pra repetir até atingir a iluminação.

Se não adiantar, dá até pra evoluir pra um:
"O serviço dos outros é pago em dinheirOOOOHMMMMM".

Se ainda assim a pessoa insistir, resta resolver a questão dentro de si mesmo. Na mesma hora, repita o seguinte mantra na frente da pessoa:
"VAI TOMAR NO CUUUUOHMMMMMM".

É tiro e queda.

16.2.17

Direto ao ponto

PROLIXO:  Facundo; loquaz; palavroso; verboso. Que fala ou escreve usando mais palavras do que o necessário. Que se expressa, falando ou escrevendo, através do uso excessivo de palavras; que não consegue resumir uma ideia ou encurtar um pensamento. Que se perde em explicações supérfluas. Definido como entediante; que se estende demoradamente; enfadonho. Que se desenvolve em demasia.

IRONIA: O dicionário precisar de onze expressões diferentes para definir a palavra "prolixo".

Se você sobreviveu à definição gigante, parabéns! Você vai sobreviver ao resto desse texto.

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Eu sei que muita gente deixa de ler o que eu escrevo por causa do tamanho dos textos.

Mas fazer o quê? O tempo que as coisas demoram pra ser ditas é... o tempo que elas demoram para ser ditas.

Eu até poderia ser mais curto e grosso e ir direto ao ponto de uma só vez, mas qual a graça de uma história se ela não dá algumas voltinhas? Aliás, dizem que todas as histórias já foram contadas, então... resta colorir o jeito de contar.

Sim, às vezes acontece de se passar por Goiânia tentando ir de Porto Alegre a Florianópolis, mas pode acontecer dessa viagem ser divertida.

A gente se perde? Às vezes.
Mas faz parte do charme.

A diferença do prolixo para o divertido é apenas o borogodó.

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Mas sabe o que dá raiva?

Essas pessoas que tem o dom de falar muito em poucas palavras. Pra mim, isso equivalente a projetar teias de aranha pela munheca - no poder que isso confere e na raridade de acontecer com um ser humano.

Não adianta, uma frase afiada sempre vai ser mais potente do que uma elocubração interminável.

Um "Yes, we can" do Obama pode até ser raso, mas inspira mais - e mais rápido - do que qualquer discurso de 12 horas do Fidel. Livros esclarecem mentes, mas slogans elegem presidentes e vendem cerveja.

Isto é, fazem o que realmente importa.

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Agora, não há uma criatura no planeta mais dotada para a prolixidade do que um pedinte.
Não posso nem julgar. É tanta rejeição, o tempo todo, que eles se preparam para contornar qualquer desconfiança com o discurso.

Apesar da testa franzida pedindo piedade, o tom de voz tende a ser sempre o mesmo: você sentiria mais emoção escutando o Google tradutor lendo a lista telefônica.

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O pedinte te chama no portão:
"Oi, com licença! Você poderia me dar um minutinho do seu tempo para eu lhe contar minha história?"

Dá vontade de falar logo que não tem dinheiro, mas
1 - ele não te dá tempo de falar nada;
2 - fica parecendo que você é preconceituoso por supor que ele vá pedir dinheiro, por mais certeza que você tenha que é isso que ele vai fazer;
3 - olha só como eu sou prolixo, fiz listinha numérica até pras desculpas pra não dar dinheiro pro pedinte.


Ele continua recitando o texto:
"É que eu trabalhava de carrinheiro, e eu peguei uma bactéria quando mexia no lixo e saíram essas feridas", mostrando várias feridas pelo corpo, "e eu preciso passar uma pomada que custa setenta e cinco reais. Estou aqui trabalhando, eu tiro mato do chão, eu cuido de grama, faço de tudo, minha esposa tá grávida, eu moro ali no bairro da Roça Morta, estou sempre aqui na região, e é com todo o respeito que eu venho aqui te pedir para, como um irmão mesmo, você escutar e poder me fazer um pequeno favor, que é o que eu te peço..."

(primeira pausa que ele faz pra respirar)

"... que é ir comigo ao supermercado e comprar um pacote de fralda."

Aí, entre a grana curta e a pressa pra pegar o ônibus, não dá pra responder outra coisa senão
"Desculpa, moço, vai ter que ficar pra outro dia".

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Cinco minutos depois passa outro pedinte, mais direto:
"Moço, dá um real pra eu comprar pinga?", com um um sorrisão.

Vantagens de ir direto ao ponto: é ele quem leva o um real que estava no seu bolso.
E leva rindo, porque na verdade ele tá indo é comprar fralda mesmo.

14.2.17

Último andar

Que papel ridículo.

Cabeça baixa, terno, gravata, o buquê de flores na mão, caminhando por entre os cubículos de fórmica daquela empresa, apressando o passo e tentando não pensar que todos ali o olhavam com pena.

Mas como ele poderia imaginar? Depois de dois anos de namoro, mil jantares juntinhos, conhecer a família, ser apresentado e aceito pelos amigos dela... Depois de comprar flores, de contratar um violinista, de criar coragem, de aparecer no trabalho dela, se ajoelhar e fazer o pedido...

Como imaginar que isso ia terminar em um não, cacete?

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Aquele corredor parecia que não ia acabar nunca, mas acabou.
Pelo menos agora, no hall do elevador, as pessoas não tinham visto o que aconteceu e não olhavam com aquela cara nojenta fingindo que não achou engraçado o que viu, com aquele jeitinho hipócrita que diz "sinto muito! eu não vou sair contando do pedido de casamento frustrado para todo mundo que eu encontrar hoje, nem falar dessa sua cara de choro, tá?".

Aquele monte de gente esperando o elevador e ele só sentia náusea e vontade de sair correndo.
Viu um rosto similar se formando entre as pessoas e caminhando em sua direção.
Era o cunhado.
Filho da puta, o que ele estava fazendo ali? Olhou ao redor para ver se tinha como sair correndo. Nada seria pior que encontrar o (ex-)cunhado e explicar o que tinha acabado de acontecer.

Deu sorte.
O elevador parou e alguém disse "sobe!".
O plano era descer, mas a oportunidade de fuga era boa demais para desperdiçar.

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Último andar.
Apertou o botão como se estivesse querendo ir pra lá o tempo todo. Desceu sozinho.

Botou reparo na vista da cidade: os prédios parecendo maquete, as pessoas formigando lá embaixo.

"Se eu tivesse coragem...", pensou, "eu me atirava daqui e ela ia ver só o que fez comigo."
Aí imaginou a mãe, já velhinha, chorando debruçada no seu caixão e mudou de ideia.

Sem contar que a Carol ia se sentir culpada o resto da vida. Sentiu raiva de ainda sentir amor por aquela vaca.

Depois se sentiu mal de tê-la xingado mentalmente. Ela não era vaca nenhuma, só não quis se casar com ele.

Aquela vaca.

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Respirou fundo o ar gelado do andar alto quando escutou algo diferente..
"Uuugh".

Era um suspiro estranho, como de alguém que não queria ser ouvido, como o de quem chora pra dentro. Olhou ao redor. Nada.

Ouviu um passo, ou o som de algo mais tímido que um passo. Um protótipo de passo, o deslize suave de uma sola de borracha sobre um chão de concreto.

"Tem alguém aí?", perguntou.
Nenhuma resposta.

"Tô delirando. Só o que faltava, rejeitado e maluco.", e foi percorrendo o caminho de volta rumo ao elevador.

Caminhava devagar quando ouviu a voz de um homem:
"VÁ EMBORA!", a voz gritava, com tom de quem pede pra ficar.

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Incrível a capacidade de uma voz de dizer justamente o contrário do que as palavras que emite falam.

O noivo-frustrado olhou ao redor e tentou encontrar a origem da voz.
Ia perguntar alguma coisa, mas logo reparou no vulto que passou entre um vão de janela e outro.
"Merda. Só me faltava essa."

Correu para a janela e esticou o pescoço para fora.

Olhou para o lado e bem na linha dos olhos viu um par de canelas finas e peludas se apoiando num par de All Star brancos.

O moço que se apoiava no brevíssimo parapeito usava bermuda jeans com dobrinhas costuradas logo acima do joelho e camiseta polo branca de ir para a balada quando não se tem nada melhor pra usar.

Dialogou mentalmente e concluiu resignado que a atividade do momento ia ter que ser essa agora, acudir um suicida. Que dia.
"Garoto, sai daí! Volta pra dentro, cê tá maluco?"

O moço do parapeito respondeu tentando ser firme, mas deixando escapar um tom de me-arrependi-me-segura-eu-quero-a-minha-mãe.
"Me deixa em paz!"

O quase-noivo sentiu uma calma que até lhe surpreendeu.
"Vem se apoiando até aqui, moço, não faz isso! Eu te seguro você e você entra."

O projeto de suicida não gostou da ideia.
"SAI DAQUI! EU QUERO MORRER."

(Suicidas são ingênuos: ninguém quer morrer. No máximo não quer continuar levando a mesma merda de vida e sente que não vai conseguir mudar nada.)

"Que é isso, moço, tudo pode melhorar!", o quase-noivo tentando fazer voz de otimismo.

"É fácil dizer, todo arrumadinho que nem você.", disse o rapaz no parapeito. "Você não sabe o que é sofrer. Cê tem a vida ganha."

Parecia deboche.
O pior dia da vida dele, começado cheio de esperança e depois recheado de chute na bunda, agora temperado com um moleque sem vergonha que não dava conta nem de continuar vivendo tirando sarro da cara dele.

Explodiu:
"Olha aqui, moleque, cê não me conhece! Meu dia foi uma bosta, meu grande amor acabou de me esnobar na frente da empresa inteira e eu tô perdendo o meu tempo dando atenção pra uma pessoa que não tem nem respeito comigo!"

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Uma pequena multidão já se formava na rua.

Dezenas de formigas humanas torciam o pescoço pra tentar entender o que se passava lá em cima.

Uns torcendo pro rapaz desistir dessa ideia maluca, porque se um de nós se mata a vida de todo mundo passa a fazer menos sentido.
Outros, torcendo pro rapaz pular de uma vez, pra satisfazer um pouquinho a sede de sangue que todo ser humano finge não ter.

Todos pensando "Caramba, alguém devia chamar os bombeiros".
Ninguém chamando.

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"Tá vendo?" - disse o aspirante a suicida. - "Se nem você que tá com a vida ganha tá com a vida boa, que merda eu vou fazer aqui?"

O quase-noivo tentou apelar pro racional:
"Moço, você pode se matar a hora que você quiser. Mas tenta dar só mais uma chancezinha! Cinco minutos! Entra aqui e a gente conversa. Se você quiser se matar depois, você volta pro parapeito e pula. Simples."

Racional não tem espaço numa hora dessas. O moço respondeu:
"Caralho, mais um querendo dar lição pra mim? Porra, eu sei que a vida é bonita pra um monte de gente, mas caralho do céu, pra mim não está sendo. Agora tá difícil demais e pra mim não dá!" Suspirou fundo, a respiração tremendo. "Não dá."

Balançou para a frente.
O quase-noivo tensionou o corpo inteiro, mas se acalmou quando por fim as canelas finas se equilibraram. "Ele é mais teimoso que a Carol", pensou.

Tentou argumentar mais uma vez:
"Moço, olha aqui. Me dá uma chance. Volta aqui e a gente conversa, por favor!"

Ele jamais esqueceria o olhar que recebeu naquele momento.
"Não", disse o outro moço, e se soltou para a frente.

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A multidão na rua se acotovelava para ver o moço caído, que formava uma suástica de braços e pernas no chão.

Todos muito preocupados, as sirenes já soando ao longe, o clima grave pesando nos ombros. Uns, mais sensíveis, chorando por lembrarem que não estavam muito longe de fazer a mesma coisa.

No alto do prédio, ninguém para consolar o quase-noivo, rascunho de herói que deu errado.
Ele respirou fundo.

"Que dia", e soltou o ar, como se o que tinha acontecido fosse a coisa mais normal do mundo. "Que buceta de dia."

Dois nãos bem definitivos em uma tarde.
O suficiente pra acreditar que nunca mais alguém lhe diria um "sim" novamente.

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Olhou perdidamente para a vista, olhou novamente para as pessoas amontoadas na rua.

"Pelo menos ninguém vai lembrar do fora que eu levei."

E pegou o elevador.

10.2.17

Passional

Bem de frente pra janela da sala onde eu trabalho fica uma árvore na rua. Uma quaresmeira.

Linda, toda cor-de-rosamente florida, a estampa perfeita pra uma roupa de verão da Frida Kahlo.

O ritual é o seguinte:
Uma pessoa passa apressada pela rua. Três passos depois da árvore, interrompe a caminhada e fica parado olhando o nada por uns segundinhos. Calcula a própria vergonha, faz a divisão pelo desejo e decide.

Volta os três passos. Tira o celular do bolso. Arruma o cabelo sem dar muito na cara. Estica o braço. Sorri. Tira a selfie.
Vai embora com a mesma pressa de antes.

Com a cara de que pelo menos o dia não passou em branco.
Uma árvore cor de rosa lhe deu um pouquinho de alegria tão raro que mereceu ser fotografado.

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Numa das primeiras vezes que eu voltei pra casa dos meus pais depois de mudar de cidade, estava colocando a chave na porta para entrar quando botei reparo na plantinha no canteiro ali do lado.

Senti um misto de surpresa e culpa. Eu tinha esquecido que ela existia. Eu oficialmente não era mais dali, já estava esquecendo dos detalhes do que já foi minha casa.

Aquela plantinha me viu crescer, caramba. Já saí e cheguei de casa milhões de vezes passando por ela, a maior testemunha de tudo o que eu já fiz. Parei um segundo pra olhar para ela. Fui sentindo um carinho tão grande, tão grande...

Pode me chamar de maluco, e eu juro que não tinha fumado maconha, mas a planta me respondeu.

Foi como se uma névoa branca saísse dela e me abraçasse. Nunca tinha visto nada similar antes, nunca vi nada similar depois.

Me emocionei como se tivesse ganho um abraço de um velho amigo.

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Algumas pessoas não se contentam com uma selfie com o pé de Frida Kahlo: param e arrancam um galho ou uma flor.
Querem levar pra casa um pedacinho da coisa bonita que encontraram.

Outras pessoas passam com o cachorro e ficam olhando para a árvore enquanto o bicho caga, pra fingir que não viram o cocô do bicho no chão e ir embora sem limpar.

Outras nem dão bola e foda-se se a árvore tá rosa ou verde ou cinza.

Do lado de dentro, eu só observo, com cara de planta.

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Desde o meu envolvimento emocional interespécies, peguei a mania de encostar nas plantas pelas quais eu passo.

Sabe quando cê cruza com um cachorro e precisa passar a mão nele como quem diz "Ooooi, fofura!"?
Eu digo "Oi, fofura!" pras plantas.

Dependendo da bicho-grilice do dia, se não tiver ninguém olhando dou até um abraço (se alguém me questionar isso pessoalmente vou negar).

É engraçado com uma plantinha pode deixar a gente feliz. Não é à toa que a gente dá flor pra quem a gente gosta, e pra quem tá doente.

Não sou muito de ter planta.
Não dou conta desse negócio de possuir um ser vivo, seja bicho ou planta ou lombiga. Não possuo nem a mim mesmo direito.

Mas se eu morrer encostando numa lagarta venenosa, cês já sabem. Foi uma morte passional.

7.2.17

Direitos e polícias

Isso já faz vários anos.

Meu ex-mas-na-época-ainda-namorado estava fazendo aniversário e me convidou pra festa, um churrasco na casa da irmã dele. Primeira vez que eu ia conhecer a família dele, aquelas pressões todas. Ele me alertou:
"Só não dá muita moral pro meu cunhado, que ele é um idiota."

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Quando chegou a hora da festa, sem conhecer muita gente, puxei assunto com um cara sobre um carro que estava estacionado e engatei num papo.

Uma cerveja. Duas. Oito.
Ele era policial. Me contou como é difícil a vida na corporação, como sentia seu esforço desvalorizado e como se sentia humilhado de precisar trabalhar tanto para sustentar a filha pequena tendo que dizer não pra tudo que ela pedia.

Gente boníssima, o cara.
Era o tal do cunhado.

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Na época eu trabalhava com Direitos Humanos.
Mais precisamente, trabalhando pelo direito das pessoas privadas de liberdade.

Sim, eu sou daqueles que defendem bandido.

Direitos humanos simplesmente quer dizer que você concorda que todos devam ter igualdade de condições de viver uma vida digna.

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O que as pessoas reclamam tanto é porque vêem um lado só da história.

A gente defende que a pessoa que cometeu um crime:
1 - tenha a chance de se defender dignamente;
2 - tenha a chance de ser reinserido na sociedade;
3 - tenha como pena apenas aquilo a que foi condenado, sem ter um tratamento humilhante e indigno.

Por quê?
Primeiro porque são pessoas e todo mundo merece ser tratado com respeito.
Segundo porque violência barata não funciona.

Quem é tratado como se não tivesse valor entende que a própria vida não tem valor, e a partir daí nenhuma vida passa a ter valor.

Por isso mesmo lembrar que quem comete um crime é um ser humano é um bom negócio.

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Agora, a gente também defende, e muito, um tratamento digno da polícia.

Amigos policiais, a gente sabe o quanto é horrível para vocês.

O quanto vocês viram noites trabalhando em plantões mal remunerados.
O quanto vocês arriscam a vida por serem obrigados a cumprir funções mal planejadas de quem deveria planejar a segurança pública.

Mais do que tudo, a gente sabe que vocês são tratados como se a vida de vocês não tivesse valor - seja por quem tem o crime combatido por vocês, seja por quem lhes paga o salário.

E a gente concorda muito que vocês tenham dignidade.

Um bom salário, uma jornada digna e a oportunidade de não ter um cotidiano de guerrilha.

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Sem contar que, se a gente for roubado, pode ter certeza que a gente vai querer contar com a ajuda de vocês.

Na medida do que pudermos (a gente é super de humanas, atendimento psicológico e assistência social são uma certeza) a gente quer poder ajudar vocês também.

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Por mais que a mídia queira os colocar como inimigos, os militantes dos direitos humanos e os policiais tem um objetivo em comum: que o mínimo possível de gente morra em função de violência.

E é uma boa ideia um escutar o outro, cada qual com sua vivência e experiência, pra gente planejar como fazer isso.

Se possível, convencendo quem está no alto da hierarquia governamental a nos escutar ninguém.

Estamos todos lutando pelo direito de ser gente.

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No fim daquela noite, o cunhado policial até nos deu uma carona pra casa, dizendo pro meu ex o quanto eu era gente boa.

Quando ficamos à sós, pela primeira vez, ele disse que me amava.

No pequeno e no grande

"E por acaso esse motel
É o mesmo que me trouxe na lua de mel
É o mesmo que você me prometeu o céu
E agora me tirou o chão"

Duvido que uma parcela muito grande da população brasileira tenha encontrado o marido no motel com outra e oferecido cinquenta reais para ajudar a pagar a conta, mas essa foi uma das músicas mais tocadas do país no último ano.

Não é que a gente se conecte com a situação em si.
A gente se conecta com as sensações (de traição, de desamor, de dúvida) e entende muito bem a dor de quem tá cantando.

É que quanto mais íntimo é um problema, mais universal ele é.

Por isso que as músicas que mais fazem sucesso, os livros mais vendidos, as histórias mais pungentes são aquelas que parecem mais íntimas e mais pessoais.

O encontro da arte com a emoção acontece quando a gente vê no "isso só acontece comigo" do outro aquilo que a gente só achava que acontecia com a gente também.

Por isso que música de sofrência faz tanto sucesso (e sim, eu tô chamando a Naiara Azevedo de artista profunda que toca corações, se discordou me bata).

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O íntimo é universal, e isso vale pra arte e pra vida.

O que acontece no mundo, em grande escala, é mesma coisa que acontece microscopicamente nas nossas salas de estar.

A única diferença entre um barco que afunda com refugiados de guerra e um filho mandado embora de casa por não satisfazer as expectativas dos pais é a escala.

Coloque uma lupa numa discussão de casal e você vai ver algo muito parecido com um tiroteio em Gaza (talvez com um pouco mais de violência).

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As angústias que eu tenho recebido em consultório, principalmente nas pessoas mais jovens, beiram o desespero.

"Você sabe o que é não ter perspectiva nenhuma? Eu deixo meu chefe cagar na minha cabeça por mil e duzentos reais por mês, e eu tenho sorte de ter esse emprego. Se eu sair da vaga vão contratar outro por mil e cem, e eu vou ficar sem nada. Eu moro num lugar ruim, não vou ter como pagar por um lugar melhor tão cedo, não consigo guardar dinheiro, não tenho tempo pra lazer e não tenho nem tempo pra um relacionamento, quanto mais grana pra sair conhecer alguém. O que eu faço?"

Me fala sobre a sua mãe, colega, porque eu preciso de um tempo pra digerir isso tudo também.

Mas enquanto isso, amplifica essa situação vezes trezentos milhões e você vai entender porque o Brasil está em crise.

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Estamos com protótipos de ditadores em praticamente todas as esferas da vida pública.
Vamos botar isso no microscópio: como estamos lidando democraticamente com as nossas questões pessoais?

Você, liberal, paz e amor, se bota em uma posição de abertura e escuta quando seu pai quer liberar o armamento? Escuta de verdade, em vez de manter uma postura rígida e agressiva?

Você, firmeza e linha dura, é capaz de manter a ordem e a paz quando se sente desafiado pelo grito de liberdade do seu filho gay? Ou perde a cabeça e prova que não sabe lidar com a diferença?

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No macro, a população está insatisfeita, revoltada e em silêncio porque, no micro, nós estamos aborrecidos, raivosos e calados com nossas questões pessoais.

Nossos grandes problemas são estruturais, mas são reflexos desses pequenos dissabores com os quais não sabemos lidar.

Esse é o primeiro passo (e talvez o único que possamos dar) para mudar os problemas grandões desse mundo assustador e sombrio: conhecendo melhor nossos pequenos medos e sombras.

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Se tem algo de bom nesse mundo seco, cruel e de crise é que ele nos oferece a oportunidade experimentar a nossa vida interior de ângulos desafiadores.

Afinal, a gente só aprende em com o que a gente erra ou com o que a gente sofre, em primeira pessoa. Empatia se aprende de dentro pra fora.

Sofrimento e erro a gente tem bastante, e angústia também.
É justamente isso que pode nos curar, e é bem isso que me faz achar que um pouco mais de psicoterapia pode mudar o mundo.  You may say I'm a dreamer... 

Toma aqui os cinquenta reais.

3.2.17

Enxaqueca

Você já teve enxaqueca? Sabe como é?

Na definição padrão: "é uma dor, geralmente em um dos lados da cabeça, latejante ou pulsátil, que dura de 4 a 72 horas e pode vir acompanhada de náuseas e/ou vômitos, tonturas, intolerância à luz (fotofobia), barulho (fonofobia), cheiros (osmofobia) e movimentos (cinetofobia)."

Se homofobia também estivesse na lista, eu acho que entenderia melhor os Bolsonetes, porque essa definição não traduz nem de perto o horror que é uma crise de enxaqueca. Se você quer entender como é, pode deixar que eu explico.

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Quer dizer, é diferente para cada pessoa, mas pra mim a sensação é como a de um prego no meio da testa. Um prego que dá choques elétricos e fica se mexendo lá dentro e de vez em quando chama um amigo para entrar na minha nuca também.

Normalmente eu durmo e a dor passa, mas nem sempre é fácil dormir e nem sempre isso adianta.

Luz incomoda. Qualquer luz. Qualquer maldita frestinha. Se a própria Fada Sininho aparecer querendo te dar a juventude eterna, você mata ela porque ela brilha.

Comida incomoda, cheiro incomoda, água incomoda, pensar incomoda. Tudo incomoda. Seu cérebro se transforma num velho rabugento, e todas as coisas do mundo são crianças jogando bola e gritando no seu quintal.

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Enxaqueca é um negócio engraçado porque ela é debilitante e não é ao mesmo tempo. A cabeça dói mas quer continuar funcionando, e está super atenta, e se você quiser muito até consegue desempenhar tarefas... Até o prego na cabeça virar uma britadeira.

Parece que o corpo se sente excluído da dor de cabeça e começa a querer participar de tudo.

Os ombros resolvem falar "Sabe alguma posição confortável pra eu ficar? Porque eu não conheço nenhuma. Assim eu tô desconfortável."
E você mexe. "Assim também tá ruim", ele fala, e você mexe. "Assim também", e você chora.

O estômago fica tipo uma criança de seis anos que tá cansada, e fica te cutucando.
"Tô mal", ele diz, e você fala "Tá bem, querido, já passa...", "MAS EU TÔ MUITO MAL", ele diz, e você pega no colo e tenta fazer carinho, e aí ele vomita bile.

O maxilar fica tenso, e você abre e fecha a boca tentando relaxar. Ele entende a missão e quer ajudar, mas não consegue, então ele fica mais tenso, e você tenta apertar ele um pouco mais pra ver se forçando vai, mas aí ele trava e fica mais tenso ainda, e você começa a fantasiar que está recebendo o suave carinho de uma serra elétrica na cara.

O intestino fica afobado, tipo: "Quer que eu faça alguma coisa? Eu posso participar? Eu não sei o que fazer? Quer que eu doa também? Tá bom, vou doer também!".

A cabeça quer descansar, e dói de tão cansada, mas ela precisa administrar tudo, e isso mantém ela tão acordada quanto uma criança com cólica que levou um choque elétrico.

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As causas da enxaqueca podem variar desde passar tempo demais no Sol até comer chocolate, passando por ter ficado muito tempo no computador ou ter acordado sob a desgraça divina.

Os possíveis remédios vão de uma simples dipirona até bater com a cabeça várias vezes na parede (não tenho certeza desse último, mas é o que dá vontade de fazer quando a enxaqueca vem).

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Numa crise de enxaqueca, você reavalia toda a sua vida.
Agradece por estar saudável, e fica pensando como seria fraco fraco fraco se estivesse com câncer num hospital, com um problema que não vai parar de doer em um dia ou dois.
Se sente culpado por ter não ter baixado o volume da música aquela vez que sua mãe teve enxaqueca e pediu silêncio.
Você ensa na lista de pessoas que você vai ter que pedir desculpas no dia seguinte por ter cancelado todos os combinados.
Reflete sobre como você não perdoaria alguém que te desse um cano e desse a desculpa de uma dor de cabeça.

Uma enxaqueca é realmente uma das experiências mais educativas que uma pessoa pode ter.
Ensina humildade, ensina paciência, ensina empatia, ensina a entender quem quer eutanásia...

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E de repente você dorme.
E, dessa vez, você acorda normal.
Aliás, você acorda ótimo. Nem você acredita que estava mal antes. Daqui pra frente, nunca mais. Você vai tomar todas as medidas pra não ter isso de novo.

Como se adiantasse alguma coisa... Tudo volta ao normal até a enxaqueca seguinte.
Só que não seja logo, por favor.

1.2.17

Estrutura

Você está no pior momento da sua vida.
Nada parece ter sentido.

O desespero é o maior assassino de preconceitos, e você toma coragem para marcar uma sessão de terapia. Pior não deve ficar.

Nervoso, ansioso e um pouco contra a vontade, você ocupa a poltrona que lhe apontam e olha pro desconhecido à sua frente como quem diz "Por favor, me ajude a não precisar mais vir aqui".

E o filho da puta do psicólogo não fala uma única palavra, como se estivesse tirando sarro da sua vulnerabilidade naquele momento.

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Muitos terapeutas fazem isso, do silêncio desde o começo, como uma técnica terapêutica.

A sua maneira de lidar com aquele desconforto inicial, a sua disposição de falar, tudo passa por aquele começo silencioso de uma sessão. É horrível, mas funciona - pelo menos em alguns casos.

Eu não costumo agir desse jeito. Sim, eu acho importante que o paciente peça claramente pelo que precisa. Mas será que vir até o meu consultório já não é uma maneira de pedir ajuda?
Ou ainda, será que deixar uma pessoa sozinha com aquilo que ela te procurou para ajudar a lidar é o que a gente deveria fazer, como profissional da escuta?

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Ir para a terapia é lidar com o próprio não-saber.

Ser terapeuta é lidar com o próprio não-saber, com o não-saber do outro, e com o não-saber sobre o como lidar com a mistura dos dois.

"Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana", disse Jung, cunhando a frase que todo psicólogo tem gravada na caneca.

A incerteza é uma característica humana e é impossível que ela não apareça numa relação terapêutica. Ainda assim, no começo da carreira de um psicólogo, a gente sente um certo pânico e se apega à teoria com toda a força. "Como assim só ficar na frente de uma pessoa e ver o que acontece? Quero dominar a técnica, cacilda!"

Mas a sugestão do Jung não é um pedido para deixar a técnica de lado, é um "Colega, larga de ser besta. A técnica é um canivete suíço que serve pra muita coisa, mas primeiro você vai ter de se meter no meio do mato escuro para saber qual ferramenta usar".

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Nem sempre nós terapeutas sabemos qual ferramenta usar.

Algumas pesquisas (não acredito que eu vou fazer citação científica num textão de Facebook, mas lá vai: Cooper & Norcross, 2015) indicam o quanto, na maioria das vezes, os psicólogos tem uma ideia muito diferente do paciente sobre o que foi importante na terapia.

Pra evitar guiar a sessão para um lado que o paciente não julgue importante, a gente cai no perigo de se omitir e deixar que ele faça o serviço por conta. Outro erro. A mesma pesquisa demonstra que a maior parte dos pacientes prefere uma sessão mais estruturada pelo terapeuta.

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Eu tenho ímã pra pacientes silenciosos. Até meus colegas costumam lembrar de mim quando tem de indicar alguém que é muito tímido e fala pouco.

De novo, se a gente não sabe exatamente o que está se passando na cabeça do nosso paciente, como julgar alguém silencioso como alguém desmotivado?
E, pior, como julgar alguém desmotivado como alguém menos merecedor de tratamento?

Para a sessão com esses pacientes mais quietos funcionar, no começo, me baixava a Marília Gabriela cruzada com o Silvio Santos e eu fazia show de variedades com os meus pacientes.
Cada pergunta era espremida até a última gota de suco.

O bom é que qualquer pergunta pode ser desdobrada horrores, olha:
"Como você está?"
"Bem."
"Como é estar bem?"
"Ah, é... é uma coisa boa"
"E com que frequencia você se sente assim?"
"Ah, direto..."
"Em que momentos você não se sente bem?"
"Ah, varia..."
"Nesse momento, é importante para você falar a respeito disso?"
"Ah, acho que é..."
"O que tem mais importância que isso para você agora?"
"Ah, não sei..."

E aí, no final da sessão, a pessoa vira pra você e fala:
"Caramba, eu acho que eu nunca me abri tanto assim com alguém na minha vida."

E você vai dizer que essa sessão não funcionou?

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Com um pouco de acolhimento, atenção e carinho, chega uma hora em que as pessoas começam a se abrir mais e a trazer mais as suas próprias questões. Aí é importante saber quando dar um passo pra trás e deixar que o silêncio corra.

Um bom psicólogo tem que saber fazer malabares (imagina que louco se eu terminasse a frase aqui) com as seguintes coisas:

1 - Um arsenal de possibilidades de trabalho para cada pessoa;
2 - Confiança e capacidade suficiente para deixar o silêncio falar e causar angústia quando for preciso;
3 - Atenção para perceber quando permitir que a angústia corra solta e quando tentar acolhê-la;
4 - Humildade de se colocar à prova e permitir feedback do paciente;
5 - Aceitar que mesmo com feedback a gente pode sair sem saber muita coisa.

E, pelo menos no meu caso,:
6 - De vez em quando aceitar que CARALHO DE ASA, EU NÃO SEI NADA NESSA VIDA.

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No fim das contas, tudo fica na conexão. Na sensação de qual é o passo que você pode dar e no espaço que você pode deixar vazio para que venham até você.

A gente pode sentir, perceber, ouvir o que for, e às vezes até ver mais coisas que precisam de atenção do que o paciente, mas é sempre ele que vai discernir o que ele quer ver, com o direito de usufruir da liberdade de manter algumas questões intactas - por mais que a gente queira meter o dedo lá.

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Ser terapeuta é como ajudar uma pessoa que está com as mãos amarradas a construir um castelo de areia.

Você pode ajudá-la a sentir-se capaz, a acreditar que merece usar as mãos, a criar um método para se desamarrar... Mas se ela decidir arrastar a cara na areia para fazer montinhos, não nos cabe apontar o dedo.
No máximo, perguntar porque ela escolheu estar com a cara à milanesa.

Ainda assim, no fim do dia, ela vai ter construído alguma coisa.

Se a gente teve alguma coisa a ver com essa conquista ou não, nem sempre dá pra saber - mas já dá pra ficar contente.

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