7.2.17

Direitos e polícias

Isso já faz vários anos.

Meu ex-mas-na-época-ainda-namorado estava fazendo aniversário e me convidou pra festa, um churrasco na casa da irmã dele. Primeira vez que eu ia conhecer a família dele, aquelas pressões todas. Ele me alertou:
"Só não dá muita moral pro meu cunhado, que ele é um idiota."

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Quando chegou a hora da festa, sem conhecer muita gente, puxei assunto com um cara sobre um carro que estava estacionado e engatei num papo.

Uma cerveja. Duas. Oito.
Ele era policial. Me contou como é difícil a vida na corporação, como sentia seu esforço desvalorizado e como se sentia humilhado de precisar trabalhar tanto para sustentar a filha pequena tendo que dizer não pra tudo que ela pedia.

Gente boníssima, o cara.
Era o tal do cunhado.

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Na época eu trabalhava com Direitos Humanos.
Mais precisamente, trabalhando pelo direito das pessoas privadas de liberdade.

Sim, eu sou daqueles que defendem bandido.

Direitos humanos simplesmente quer dizer que você concorda que todos devam ter igualdade de condições de viver uma vida digna.

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O que as pessoas reclamam tanto é porque vêem um lado só da história.

A gente defende que a pessoa que cometeu um crime:
1 - tenha a chance de se defender dignamente;
2 - tenha a chance de ser reinserido na sociedade;
3 - tenha como pena apenas aquilo a que foi condenado, sem ter um tratamento humilhante e indigno.

Por quê?
Primeiro porque são pessoas e todo mundo merece ser tratado com respeito.
Segundo porque violência barata não funciona.

Quem é tratado como se não tivesse valor entende que a própria vida não tem valor, e a partir daí nenhuma vida passa a ter valor.

Por isso mesmo lembrar que quem comete um crime é um ser humano é um bom negócio.

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Agora, a gente também defende, e muito, um tratamento digno da polícia.

Amigos policiais, a gente sabe o quanto é horrível para vocês.

O quanto vocês viram noites trabalhando em plantões mal remunerados.
O quanto vocês arriscam a vida por serem obrigados a cumprir funções mal planejadas de quem deveria planejar a segurança pública.

Mais do que tudo, a gente sabe que vocês são tratados como se a vida de vocês não tivesse valor - seja por quem tem o crime combatido por vocês, seja por quem lhes paga o salário.

E a gente concorda muito que vocês tenham dignidade.

Um bom salário, uma jornada digna e a oportunidade de não ter um cotidiano de guerrilha.

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Sem contar que, se a gente for roubado, pode ter certeza que a gente vai querer contar com a ajuda de vocês.

Na medida do que pudermos (a gente é super de humanas, atendimento psicológico e assistência social são uma certeza) a gente quer poder ajudar vocês também.

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Por mais que a mídia queira os colocar como inimigos, os militantes dos direitos humanos e os policiais tem um objetivo em comum: que o mínimo possível de gente morra em função de violência.

E é uma boa ideia um escutar o outro, cada qual com sua vivência e experiência, pra gente planejar como fazer isso.

Se possível, convencendo quem está no alto da hierarquia governamental a nos escutar ninguém.

Estamos todos lutando pelo direito de ser gente.

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No fim daquela noite, o cunhado policial até nos deu uma carona pra casa, dizendo pro meu ex o quanto eu era gente boa.

Quando ficamos à sós, pela primeira vez, ele disse que me amava.

Um comentário:

Biscoito

 Alguém comenta sobre qualquer coisa de decente que fez na vida e lá vem o comentário: "Tá querendo biscoito?" Algo tipo "...