7.2.17

No pequeno e no grande

"E por acaso esse motel
É o mesmo que me trouxe na lua de mel
É o mesmo que você me prometeu o céu
E agora me tirou o chão"

Duvido que uma parcela muito grande da população brasileira tenha encontrado o marido no motel com outra e oferecido cinquenta reais para ajudar a pagar a conta, mas essa foi uma das músicas mais tocadas do país no último ano.

Não é que a gente se conecte com a situação em si.
A gente se conecta com as sensações (de traição, de desamor, de dúvida) e entende muito bem a dor de quem tá cantando.

É que quanto mais íntimo é um problema, mais universal ele é.

Por isso que as músicas que mais fazem sucesso, os livros mais vendidos, as histórias mais pungentes são aquelas que parecem mais íntimas e mais pessoais.

O encontro da arte com a emoção acontece quando a gente vê no "isso só acontece comigo" do outro aquilo que a gente só achava que acontecia com a gente também.

Por isso que música de sofrência faz tanto sucesso (e sim, eu tô chamando a Naiara Azevedo de artista profunda que toca corações, se discordou me bata).

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O íntimo é universal, e isso vale pra arte e pra vida.

O que acontece no mundo, em grande escala, é mesma coisa que acontece microscopicamente nas nossas salas de estar.

A única diferença entre um barco que afunda com refugiados de guerra e um filho mandado embora de casa por não satisfazer as expectativas dos pais é a escala.

Coloque uma lupa numa discussão de casal e você vai ver algo muito parecido com um tiroteio em Gaza (talvez com um pouco mais de violência).

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As angústias que eu tenho recebido em consultório, principalmente nas pessoas mais jovens, beiram o desespero.

"Você sabe o que é não ter perspectiva nenhuma? Eu deixo meu chefe cagar na minha cabeça por mil e duzentos reais por mês, e eu tenho sorte de ter esse emprego. Se eu sair da vaga vão contratar outro por mil e cem, e eu vou ficar sem nada. Eu moro num lugar ruim, não vou ter como pagar por um lugar melhor tão cedo, não consigo guardar dinheiro, não tenho tempo pra lazer e não tenho nem tempo pra um relacionamento, quanto mais grana pra sair conhecer alguém. O que eu faço?"

Me fala sobre a sua mãe, colega, porque eu preciso de um tempo pra digerir isso tudo também.

Mas enquanto isso, amplifica essa situação vezes trezentos milhões e você vai entender porque o Brasil está em crise.

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Estamos com protótipos de ditadores em praticamente todas as esferas da vida pública.
Vamos botar isso no microscópio: como estamos lidando democraticamente com as nossas questões pessoais?

Você, liberal, paz e amor, se bota em uma posição de abertura e escuta quando seu pai quer liberar o armamento? Escuta de verdade, em vez de manter uma postura rígida e agressiva?

Você, firmeza e linha dura, é capaz de manter a ordem e a paz quando se sente desafiado pelo grito de liberdade do seu filho gay? Ou perde a cabeça e prova que não sabe lidar com a diferença?

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No macro, a população está insatisfeita, revoltada e em silêncio porque, no micro, nós estamos aborrecidos, raivosos e calados com nossas questões pessoais.

Nossos grandes problemas são estruturais, mas são reflexos desses pequenos dissabores com os quais não sabemos lidar.

Esse é o primeiro passo (e talvez o único que possamos dar) para mudar os problemas grandões desse mundo assustador e sombrio: conhecendo melhor nossos pequenos medos e sombras.

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Se tem algo de bom nesse mundo seco, cruel e de crise é que ele nos oferece a oportunidade experimentar a nossa vida interior de ângulos desafiadores.

Afinal, a gente só aprende em com o que a gente erra ou com o que a gente sofre, em primeira pessoa. Empatia se aprende de dentro pra fora.

Sofrimento e erro a gente tem bastante, e angústia também.
É justamente isso que pode nos curar, e é bem isso que me faz achar que um pouco mais de psicoterapia pode mudar o mundo.  You may say I'm a dreamer... 

Toma aqui os cinquenta reais.

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