14.2.17

Último andar

Que papel ridículo.

Cabeça baixa, terno, gravata, o buquê de flores na mão, caminhando por entre os cubículos de fórmica daquela empresa, apressando o passo e tentando não pensar que todos ali o olhavam com pena.

Mas como ele poderia imaginar? Depois de dois anos de namoro, mil jantares juntinhos, conhecer a família, ser apresentado e aceito pelos amigos dela... Depois de comprar flores, de contratar um violinista, de criar coragem, de aparecer no trabalho dela, se ajoelhar e fazer o pedido...

Como imaginar que isso ia terminar em um não, cacete?

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Aquele corredor parecia que não ia acabar nunca, mas acabou.
Pelo menos agora, no hall do elevador, as pessoas não tinham visto o que aconteceu e não olhavam com aquela cara nojenta fingindo que não achou engraçado o que viu, com aquele jeitinho hipócrita que diz "sinto muito! eu não vou sair contando do pedido de casamento frustrado para todo mundo que eu encontrar hoje, nem falar dessa sua cara de choro, tá?".

Aquele monte de gente esperando o elevador e ele só sentia náusea e vontade de sair correndo.
Viu um rosto similar se formando entre as pessoas e caminhando em sua direção.
Era o cunhado.
Filho da puta, o que ele estava fazendo ali? Olhou ao redor para ver se tinha como sair correndo. Nada seria pior que encontrar o (ex-)cunhado e explicar o que tinha acabado de acontecer.

Deu sorte.
O elevador parou e alguém disse "sobe!".
O plano era descer, mas a oportunidade de fuga era boa demais para desperdiçar.

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Último andar.
Apertou o botão como se estivesse querendo ir pra lá o tempo todo. Desceu sozinho.

Botou reparo na vista da cidade: os prédios parecendo maquete, as pessoas formigando lá embaixo.

"Se eu tivesse coragem...", pensou, "eu me atirava daqui e ela ia ver só o que fez comigo."
Aí imaginou a mãe, já velhinha, chorando debruçada no seu caixão e mudou de ideia.

Sem contar que a Carol ia se sentir culpada o resto da vida. Sentiu raiva de ainda sentir amor por aquela vaca.

Depois se sentiu mal de tê-la xingado mentalmente. Ela não era vaca nenhuma, só não quis se casar com ele.

Aquela vaca.

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Respirou fundo o ar gelado do andar alto quando escutou algo diferente..
"Uuugh".

Era um suspiro estranho, como de alguém que não queria ser ouvido, como o de quem chora pra dentro. Olhou ao redor. Nada.

Ouviu um passo, ou o som de algo mais tímido que um passo. Um protótipo de passo, o deslize suave de uma sola de borracha sobre um chão de concreto.

"Tem alguém aí?", perguntou.
Nenhuma resposta.

"Tô delirando. Só o que faltava, rejeitado e maluco.", e foi percorrendo o caminho de volta rumo ao elevador.

Caminhava devagar quando ouviu a voz de um homem:
"VÁ EMBORA!", a voz gritava, com tom de quem pede pra ficar.

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Incrível a capacidade de uma voz de dizer justamente o contrário do que as palavras que emite falam.

O noivo-frustrado olhou ao redor e tentou encontrar a origem da voz.
Ia perguntar alguma coisa, mas logo reparou no vulto que passou entre um vão de janela e outro.
"Merda. Só me faltava essa."

Correu para a janela e esticou o pescoço para fora.

Olhou para o lado e bem na linha dos olhos viu um par de canelas finas e peludas se apoiando num par de All Star brancos.

O moço que se apoiava no brevíssimo parapeito usava bermuda jeans com dobrinhas costuradas logo acima do joelho e camiseta polo branca de ir para a balada quando não se tem nada melhor pra usar.

Dialogou mentalmente e concluiu resignado que a atividade do momento ia ter que ser essa agora, acudir um suicida. Que dia.
"Garoto, sai daí! Volta pra dentro, cê tá maluco?"

O moço do parapeito respondeu tentando ser firme, mas deixando escapar um tom de me-arrependi-me-segura-eu-quero-a-minha-mãe.
"Me deixa em paz!"

O quase-noivo sentiu uma calma que até lhe surpreendeu.
"Vem se apoiando até aqui, moço, não faz isso! Eu te seguro você e você entra."

O projeto de suicida não gostou da ideia.
"SAI DAQUI! EU QUERO MORRER."

(Suicidas são ingênuos: ninguém quer morrer. No máximo não quer continuar levando a mesma merda de vida e sente que não vai conseguir mudar nada.)

"Que é isso, moço, tudo pode melhorar!", o quase-noivo tentando fazer voz de otimismo.

"É fácil dizer, todo arrumadinho que nem você.", disse o rapaz no parapeito. "Você não sabe o que é sofrer. Cê tem a vida ganha."

Parecia deboche.
O pior dia da vida dele, começado cheio de esperança e depois recheado de chute na bunda, agora temperado com um moleque sem vergonha que não dava conta nem de continuar vivendo tirando sarro da cara dele.

Explodiu:
"Olha aqui, moleque, cê não me conhece! Meu dia foi uma bosta, meu grande amor acabou de me esnobar na frente da empresa inteira e eu tô perdendo o meu tempo dando atenção pra uma pessoa que não tem nem respeito comigo!"

--

Uma pequena multidão já se formava na rua.

Dezenas de formigas humanas torciam o pescoço pra tentar entender o que se passava lá em cima.

Uns torcendo pro rapaz desistir dessa ideia maluca, porque se um de nós se mata a vida de todo mundo passa a fazer menos sentido.
Outros, torcendo pro rapaz pular de uma vez, pra satisfazer um pouquinho a sede de sangue que todo ser humano finge não ter.

Todos pensando "Caramba, alguém devia chamar os bombeiros".
Ninguém chamando.

--

"Tá vendo?" - disse o aspirante a suicida. - "Se nem você que tá com a vida ganha tá com a vida boa, que merda eu vou fazer aqui?"

O quase-noivo tentou apelar pro racional:
"Moço, você pode se matar a hora que você quiser. Mas tenta dar só mais uma chancezinha! Cinco minutos! Entra aqui e a gente conversa. Se você quiser se matar depois, você volta pro parapeito e pula. Simples."

Racional não tem espaço numa hora dessas. O moço respondeu:
"Caralho, mais um querendo dar lição pra mim? Porra, eu sei que a vida é bonita pra um monte de gente, mas caralho do céu, pra mim não está sendo. Agora tá difícil demais e pra mim não dá!" Suspirou fundo, a respiração tremendo. "Não dá."

Balançou para a frente.
O quase-noivo tensionou o corpo inteiro, mas se acalmou quando por fim as canelas finas se equilibraram. "Ele é mais teimoso que a Carol", pensou.

Tentou argumentar mais uma vez:
"Moço, olha aqui. Me dá uma chance. Volta aqui e a gente conversa, por favor!"

Ele jamais esqueceria o olhar que recebeu naquele momento.
"Não", disse o outro moço, e se soltou para a frente.

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A multidão na rua se acotovelava para ver o moço caído, que formava uma suástica de braços e pernas no chão.

Todos muito preocupados, as sirenes já soando ao longe, o clima grave pesando nos ombros. Uns, mais sensíveis, chorando por lembrarem que não estavam muito longe de fazer a mesma coisa.

No alto do prédio, ninguém para consolar o quase-noivo, rascunho de herói que deu errado.
Ele respirou fundo.

"Que dia", e soltou o ar, como se o que tinha acontecido fosse a coisa mais normal do mundo. "Que buceta de dia."

Dois nãos bem definitivos em uma tarde.
O suficiente pra acreditar que nunca mais alguém lhe diria um "sim" novamente.

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Olhou perdidamente para a vista, olhou novamente para as pessoas amontoadas na rua.

"Pelo menos ninguém vai lembrar do fora que eu levei."

E pegou o elevador.

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