31.3.17

Timeline

Vou descendo pela timeline da rede social e vejo a vida de vocês.
Vejo vocês casando.
Tendo um filho. Tendo o segundo.
Caindo, levantando, erguendo a cabeça.
Comemorando um diploma.
 Entrando num curso novo.
Viajando pra fora do país.

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A gente não costuma dizer aqui quando está triste.
Aqui é a edição dos melhores momentos da nossa história, e a gente até estranha quando compara a cena dos nossos bastidores com o que vê na timeline.

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Aí alguém vem me chamar em particular e me confidencia que não tá tão bem.
Que o relacionamento tá acabando.
Que o trabalho tá difícil. Que a mãe está doente. Que perdeu a fé.
E que se sente uma fraude por causa disso.

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Nesses momentos eu queria mostrar suas redes sociaos pra vocês.
Não pra se sentirem uma fraude perto da felicidade que está estampada ali, mas pra lembrarem que vocês já conquistaram muita coisa.
Amaram.
Tiveram um filho. Tiveram o segundo.
Estudaram, ralaram, conseguiram um diploma.
Caíram e levantaram - e daí se caíram de novo? Vocês já fizeram muita coisa.
Merecem o crédito.
Eu fico aqui, descendo a timeline e olhando.

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A parte exibida e narcisista da gente é necessária.
Quando a gente tá na pior, é justamente com ela que a gente mais briga, por ter prometido uma felicidade que a gente não pode cumprir.
Mas a gente pode chamar essa força num momento ruim pra nos lembrar que a gente já esteve bem. Superbem. De dar inveja.

E pode voltar a ficar assim.

29.3.17

Como pedir um favor

Você é gentil.
Você se esforça para ser uma pessoa com algo a oferecer pra sociedade. Você trabalha para ter amigos.

E você consegue! Você tem habilidades e muitas pessoas ao seu redor. Parabéns!

E aí alguém te pede um favor.

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Não que isso seja ruim. É ótimo poder fazer um favor pra alguém.
Você valida todos os esforços que já fez e ainda consegue ganhar uma delícia de "muito obrigado" depois do serviço feito.

Isso se a pessoa que te pediu o favor tiver o mínimo de boa vontade.

Me recuso a acreditar que quem abusa de um favor o faça por má vontade.
Minha cabeça não aceita que alguém seja inconveniente com alguém que tem algo a lhe oferecer de propósito.

Mas tem gente assim, como tem. Então eu vou tentar ser didático.
Eis aqui meu guia de como pedir um favor sem ser um idiota.

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Pra começar, cuide de como você vai abordar a pessoa a quem você vai pedir o favor. Lembre-se, você precisa dela. Ela está na vantagem.
a) "Faz café pra mim" - Ruim até se você estiver pagando.
b) "Faz um café pra gente, por favor?" - Melhor.
c) "O que você acha de fazer um café? Amanhã eu faço pra nós!" - Bom.
d) Levantar e fazer o próprio café de uma vez - Ideal!

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A pessoa de quem você quer alguma coisa tem todo o direito de dizer não. Provavelmente o seu pedido vai exigir algum esforço dela e ela não é uma pessoa ruim se lhe negar.

Mas suas chances aumentam muito se você tiver alguma intimidade. Se a sua última conversa foi:
a) ontem: você pode começar com um "oi" e ser um pouco mais direto.
b) há uma semana: comece perguntando como a pessoa está. Depois de ela responder, pergunte se pode pedir algo dela.
c) há mais de um mês: peça desculpa pela inconveniência. Pergunte como ela está. Pergunte alguma coisa que seja do interesse dos dois. Só então peça o favor.
d) há mais de um ano: não peça um favor.

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Claro que o que você está pedindo é importante pra você, e você tem interesse em ver aquilo feito. Mas, se você não está pagando, tente exercitar a fofura.
Na hora de cobrar o favor:
a) Não seja direto demais: "Cadê o relatório?"
b) Nem pressione demais: "E aí, deu tempo de fazer?"
c) Não dê ordens: "Eu preciso disso pra ontem!"
d) Seja sutil. Pergunte com a delicadeza de um dente de leão caindo num pijama recém-lavado:
"Desculpa ficar cobrando, mas cê conseguiu fazer aquele negócio que eu te pedi?"

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Mas o mais importante de tudo é como você vai agir depois do favor.
a) Agradecer bastante e se oferecer para retribuir quando a pessoa precisar - Ótimo!
b) Fazer um gesto singelo, mas considerado, agradecendo o que a pessoa te fez - Lindo!
c) Lembrar do favor tempos depois, ainda com alguma gratidão - Maravilhoso! Você merece um boquete do próprio anjo Gabriel.
d) Agradecer e sumir - Ok, só não peça outro favor tão cedo, que isso magoa.
e) Aparecer seis meses depois pedindo outro favorzinho, bem de amigo - Considere engasgar até a morte na sua saliva.

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Agora, a dica mais importante: Quem estabelece as condições para como o favor vai ser feito é a pessoa que faz o favor, não a que pede.

Se você diz "Me empresta aquele seu livro do Jorge Amado?" e a outra pessoa responde que sim, sua resposta obrigatoriamente deve ser:
"Ótimo, obrigado! Quando fica bom pra eu ir pegar?".

Nunca, jamais, responda:
"Ok, leva pra mim no meu trabalho? Eu vou estar lá na primeira quarta-feira do mês, das oito às oito e cinco da manhã. Passe pelos seis seguranças do portão dizendo que quer falar comigo, se eu demorar pra abrir a porta é porque eu me atrasei. Te espero!".

A coisa que o ser humano mais odeia fazer é esforço. Se você está pedindo um favor, deixe o mínimo de esforço pra outra pessoa fazer.

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Seguindo essas regrinhas, fica tudo bem mais fácil. Ninguém sofre.

Ninguém vive sozinho. Todo mundo precisa dos outros, e pedir favores é normal.
Ter medo demais de incomodar também é ruim. Todo mundo gosta de fazer algo por outra pessoa. Se você quer muito algo de outra pessoa, não tenha medo. Peça! Só tente ter um pouco de noção.

Por favor.

26.3.17

Cheiroso

Resolvi estudar pra concurso público.

Quer dizer, todos os sábados eu vou à casa de uma amiga. Nós almoçamos, passamos uma hora e meia filosofando sobre a vida e reclamando da nossa situação financeira e depois estudamos umas duas horinhas antes de abrir uma cerveja.

Afinal de contas, é preciso se dedicar pra melhorar de vida.

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Toda vez que eu chego na casa dessa amiga, tem três rapazes sentados na frente do prédio. Eles bebem muita cachaça e fazem muito barulho, e tem dois cachorros que avançam em qualquer criatura que se mexe pela rua, então nem todo mundo gosta deles.

Minha amiga não se importa. Cumprimenta, conversa com eles rapidinho e vai pra casa.

Um dos rapazes é o Cheiroso. O Cheiroso ganhou esse apelido porque fede muito. Os três fedem, mas o Cheiroso foi abençoado com o dom de ter a própria presença identificada a vinte metros de distância.

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A namorada da minha amiga chegou em casa comentando:
"Fui entrar com o carro na garagem e o Cheiroso tava dormindo bem na entrada. Tive que tirar um fino da parede pra conseguir desviar. Foda, viu?"

Concordamos que sim, era foda. 
Onde já se viu isso, dormir onde quer, sem a menor consideração com os outros?

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No dia seguinte, ele continuava lá. O pessoal da farmácia da esquina estranhou e foi conferir. Logo depois, o carro do IML levou o Cheiroso embora. 

Os cachorros latiam, corriam, tentavam avançar. As pessoas paravam pra olhar.
"Ah, é um mendigo", e seguiam caminhando.

Poucas coisas destroem mais o coração de uma pessoa do que alcoolismo e solidão. Ele já estava morto há algum tempo. 

Ninguém reparou no cheiro.

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Esse homem teve uma vida inteira. 

Ele sentiu, ele sofreu, ele se preocupou com o futuro, ele fez refeições. 
Passou por nós mil vezes e a gente nunca pensou em perguntar se ele queria entrar e tomar um banho. Seria um importuno muito grande.

Não era nosso problema.
Que merda, quando foi que ficou normal uma pessoa viver na rua e a gente esquecer que ela é gente? 

A sociedade fede.

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Queria saber mais da vida do Cheiroso pra contar aqui.

Só sei que ele passava os dias do lado de fora, com dois amigos, dois cachorros, várias garrafas de cana e alguns sonhos que só ele sabia quais eram.

E que enquanto isso, do lado de dentro, eu reclamava da vida, comia e estudava pro Tribunal de Justiça. 

23.3.17

Exigências

Eu sou um romântico.

(Romântico: uma pessoa que, por aparência ou gosto, não se dá bem com encontros casuais mas ainda quer ter relações sexuais ou cafunés com frequência.)

Como meu cupido tem TDAH, tenho uma certa estrada de microromances ou histórias de amor platônicas de três dias. Todo mundo na minha idade tem.

Quando mais novo, eu reparava que, quando acontecia de me enrolar com algum cara mais próximo dos trinta anos, todos eles tinham uma característica em comum: qualquer mancada justificava o fim do papo. 

Os que não tinham essa característica eram os desesperados por um relacionamento, ainda mais assustadores.

Se eu ficava dois dias sem conversar? Fim de papo.
Se eu puxava assunto duas vezes no mesmo dia? Fim de jogo.
Se eu penteava a franja pra esquerda em dia de lua cheia? Inaceitável. Nunca mais.

Machucados por experiências desagradáveis, eles decidiam cortar o mal pela raiz logo que ele começasse a aparecer, não importa qual mal fosse.

Eles não me pareciam felizes. Eu prometi pra mim mesmo nunca ficar daquele jeito.

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Passaram-se os anos e ahora estoy aqui, igualzinho. 

Ter entrado em relacionamentos sérios e ter apanhado as surras que só um envolvimento profundo sabe dar me ensinou o quanto a parada é séria. Hoje eu sei o quanto um relacionamento torto machuca. 

Por Deus, até relacionamento bom machuca. Nessa altura da vida, estar sozinha é gostoso, e precisa ser muito bom pra compensar o risco de se envolver.

Assim, a altura mínima necessária pra embarcar na montanha russa enferrujada aqui foi ficando cada vez maior. Não que eu exija excelência, mas são muitos os critérios básicos:

Não precisa ser atleta, mas tem que fazer uma flexão de vez em quando.
Não precisa ser um acadêmico, mas não pode confundir mais com mas.
Não precisa ser um gênio, mas precisa me fazer rir.
Não precisa ser rico, mas precisa ser independente.
Não precisa ser um grude, mas precisa dar um sinalzinho de vida todos os dias.
Precisa ser safado, mas sem trair.

É exagero? Não acho. É um mínimo de segurança que um coração machucado pede para conseguir se envolver.

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Não sei se isso facilita as aproximações. Algumas qualidades (e defeitos!) só se conhecem bem depois do período de avaliação inicial.

Não adianta, o amor é a ciência do enrosco.
Se não se abrir uma chance para o enrosco, ainda que dolorido, não há chance do amor acontecer.

Talvez essas exigências sejam o jeito de um coração romântico dizer que não quer um relacionamento no momento. A gente sabe como é difícil achar alguém que caiba no molde que a gente coloca, e ainda assim escolhe não se envolver tão fácil, porque sabe que dar o coração sem cobrar nada em troca não deu certo. 

É coisa de quem nunca botou preço no amor que dava e agora tá querendo exigir fortuna. Saudável: nisso a gente empurra a possibilidade de encontrar uma pessoa mais pra frente, depois das feridas se curarem.

E aí, quem sabe, o amor apareça de fininho, sem expectativas, do jeito que ele gosta de aparecer. Completando exigências que nem sabia que se tinha e superando diferenças que pareciam inconciliáveis.

Pronto pra machucar tudo de novo - e a gente achar ótimo.

15.3.17

Elogios

Topei com um amigo que eu não via há mais de um ano. Colocamos o papo em dia:

- Pô, Flávio, que bonito que você tá!
- Ah, brigado! - eu fico sem jeito com elogios, mas deixei ele continuar porque sou movido a elogios baratos.
- Sério mesmo, cê emagreceu, né?
- Na verdade eu até ganhei peso, mas tô tentando cuidar mais da alimen--
- Emagreceu sim! Sua barriga tá muito menor!

E começou a se empolgar no elogio:
- E esse rosto, Flávio? Tá diferente!

Comecei a ficar desconfortável. Ele continuou:
- Acho que é porque você emagreceu, tem bem menos bochecha que da última vez que eu te vi! Tá fazendo academia? 
- Comecei a fazer cross-- 

Não me deixou falar:
- Tá musculosinho! A postura tá melhor, tá andando mais reto!

Eu não sabia se ficava feliz pelos elogios ou de luto, já que eu não fazia ideia que eu era um corcunda bochechudo acima do peso.

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Elogiar uma pessoa exige certos cuidados.
Nunca se sabe o que pode ser visto como elogio e o que pode machucar. Acho - e só acho - que detonar tudo o que a pessoa era antes talvez não seja a melhor das estratégias. 

A pessoa de antigamente ainda está ali, debaixo da pele renovada, tentando dizer pra si mesma que quem sabe agora ela tenha algum valor.  

Afinal, até aquela pessoa tinha momentos em que se olhava no espelho e falava "Pô, até que tô bem". Se ela não estava antes, como vai se sentir bem agora, se a própria avaliação não significa nada?

Um elogio mal colocado revela a fraude por trás de qualquer autoestima.

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Você só sabe quais características suas os outros acham ruins depois que deixa de tê-las. 
Céus, eu nem sabia que as minhas bochechas eram um problema. 

Tenho medo de encontrar esse meu amigo na rua daqui a um ano e a conversa ser mais ou menos assim:

- Pô, Flávio, que bom te ver! Tá bem vestido hein?
- Obrigado?
- Largou aqueles trapos velhos! Ficou rico?
- Na verdade eu...
- E esse cabelo? Caramba, resolveu dizer tchau praquele ninho de marmota que você usava na cabeça?
- Ei, pera--
- E ESSE HÁLITO, FLÁVIO? Muito melhor! Cê tá usando fio dental? 

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É engraçado o mecanismo revisionista que a cabeça da gente tem.

Se hoje você se acha enorme de gordo, daqui a cinco anos você vê uma foto e pensa "Nossa, eu era um palito!".

Se existe algum consolo no fato da vida ser uma corrida ladeira abaixo, é que o corpo que a gente tem vergonha hoje pode ficar retroativamente gostoso amanhã.

Aliás, tá aí uma boa filosofia de vida: Imaginar que você está vinte anos mais velho e com quarenta centímetros a mais na cintura, encontrou uma máquina do tempo, e decidiu voltar o relógio para aproveitar o corpo que tem hoje.

Nada melhor pra autoestima do que paquerar como se fosse o exterminador do futuro.

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É claro que a gente quer estar melhor a cada dia. Ilusão, mas a gente se esforça. Se não é possível ser o Benjamin Button, a gente mira na Paula Toller e torce para manter a juventude o máximo possível.

(Se bem que, se a natureza for justa, algum dia a Paula Toller vai envelhecer tudo de uma vez e acordar a cara da Wanderléa. Aliás, isso também seria injusto, porque a Wanderléa tem 70 anos nas costas e continua com coxas suculentas como as de um peru de natal.)

Ainda assim, é estranho quando elogiam a Paula Toller falando que ela não envelhece. É que nem falar "Nossa, você nem parece que é velha!" e querer que ela se sinta lisonjeada. 

Ainda assim, quero envelhecer como ela. 
Uh, como eu quero.

10.3.17

Divino

"Eu não acredito em Deus. Eu juro que eu queria muito, muito acreditar, mas eu não consigo, não existe razão para acreditar. Isso me faz sofrer."

Minha paciente estava com a voz angustiada.
"Não acreditar em Deus te faz sofrer?" - perguntei.
"Não. Ter passado tantos anos dedicando a minha vida a uma igreja me faz sofrer. Me iludiram. Eu sofro por decepção."

--

"Problema mental é falta de Deus no coração", uns dizem.

Olha, eu tenho alguma experiência em fé.

Fui criado como testemunha de Jeová, depois me aproximei do espiritismo, frequentei a umbanda e estudei um monte de outras coisas.
Em algum momento, cada uma dessas filosofias me fez um pouco de bem - e cada uma delas me fez um pouco de mal.

Já hoje... Hoje eu não tenho uma resposta.

Às vezes eu faço uma prece pedindo pelo bem de alguém.
Às vezes eu tenho certeza que a vida se limita ao que a gente vê e que isso já é coisa pra caramba.
Às vezes eu vejo alguma coisa superbonita acontecer e penso que não pode ser coincidência.
Às vezes fica difícil acreditar que tenha alguém cuidando do mundo depois do terceiro caso de abuso sexual que eu atendo no dia.

Nem sei se uso Deus em maiúscula ou minúscula nesse texto.

O que me incomoda é o seguinte:
Por que tanta gente age com tanta certeza - e uma certeza tantas vezes agressiva - a respeito de um assunto em que é impossível ter certeza alguma?

-

Talvez a resposta seja simples.

Afinal de contas, a vida é uma experiência muito dura.
Ninguém se livra do sofrimento: a gente erra, falta grana, falta emprego, fica doente, é enganado, perde quem a gente ama e morre.
Não tenho certeza se é exatamente esse o ciclo da vida que a gente aprende na terceira série, com o desenho de uma galinha e seus pintinhos, mas na prática é assim mesmo.

Olhando friamente, a vida é desesperadora. Não é fácil para absolutamente ninguém. Por isso, crentes e descrentes compartilham uma angústia.

Alguns reagem à grande angústia da finitude investindo profundamente na fé como uma possibilidade de resgate, para não perder tempo com um mundo iníquo.
Alguns reagem à essa mesma angústia existencial resolvendo trabalhar só com o que temos de evidente e observável, para não perder tempo com um mundo de fantasia.

Mas tudo tem a mesma origem: todos buscando suas próprias maneiras de enfrentar a dor de ser gente.

Por isso cutucar a fé ou ausência de fé de uma pessoa gera reações tão exaltadas. Mexer nessa ferida é mexer com toda a estratégia de sobrevivência de alguém.
Assusta. Machuca. Fere. Mas faz parte de estar vivo.

--

Aliás, muita gente esquece o quanto a experiência do ateísmo é solitária (pelo menos em um primeiro momento).

Se você é criado acreditando que existe um ser que vai te cuidar, te garantir amor e te recompensar pelos bons feitos, e de repente tem uma experiência (seja um trauma ou uma leitura, o que for) que te faz duvidar de tudo isso, você sofre.

Você precisa reconstruir uma vida a partir de um ponto de vista objetivamente mais duro. A finitude fica exposta na sua cara e você - como a paciente do começo do texto - precisa se reconstruir não só da angústia compartilhada por cada ser humano, mas também do trauma de ter passado tanto tempo envolvido com uma crença que lhe prometeu respostas sem cumprir.

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E aí, mais Deus na vida de uma pessoa ajuda ou atrapalha?

Estar na religião dos meus pais foi uma experiência que me fez sofrer, mas isso é meu. Para eles, aquilo faz bem. Eles precisam disso pra viver.
No caso deles, mais Deus é mais felicidade.

Agora, alguém que tem uma experiência negativa com religião não vai encontrar conforto algum nela. Forçar alguém sem crença alguma a aderir à alguma visão religiosa não vai tornar ninguém mais feliz.
Nesse caso, mais Deus é mais tristeza.

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Para uma pessoa estar bem, ela precisa estar satisfeita em quatro eixos: biológico, psicológico, social e espiritual. Sim, espiritual.

Isso quer dizer que o homem precisa de Deus?
Não necessariamente. O que o ser humano precisa é de sentido.
Espiritual, nesse caso, quer dizer propósito. Pulsão de vida, desejo, fogo no rabo, pau duro, paixão.

O sentido pode ter caráter religioso, o sentido pode ter caráter científico... Cacete, o sentido pode até ser mesquinho e egoísta.

Eu conheci uma mulher que só morreu depois que conseguiu tomar de volta a coleção de Pyrex, que era de sua falecida mãe, da irmã. Ela queria muito deixar aquela preciosidade de herança para a filha, e só se permitiu morrer depois de infernizar todo mundo o suficiente para alcançar seu objetivo.
Olha só: sentido! Espiritualidade. Era o que lhe dava forças pra viver.

A paciente do começo do texto, aliás, sabia discorrer brilhantemente sobre o trabalho científico que realizava. Era apaixonante.

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Por isso que não é trabalho do psicólogo julgar ou tentar mudar a fé de ninguém: a gente trabalha com a verdade de cada um e ponto. A partir da experiência daquela pessoa, a gente se permite prestar atenção ao que funciona ou não na vida dela - e para por aí.

Com fé ou não, o ser humano murcha se não tiver a busca por um objetivo nobre, uma causa maior que do que si.

Todo mundo merece viver seu próprio sentido sem ser julgado, respeitando as liberdades individuais. Cada um sabe o que faz sua própria vida valer a pena.

Se todo mundo aprendesse a procurar o sentido da própria vida respeitando o sentido do outro... isso seria divino.

8.3.17

Fanfics políticas

Fanfic política n.º 1: Tchubalula "Você não vai conseguir se eleger sem uma primeira dama, presidente." As palavras do assessor são dolorosas para Lula, mas ele sabe que ter alguém ao seu lado pode ajudar a descansar entre um momento de campanha e outro. Mas quem poderia ter carisma e saber admirar a beleza de um homem como ele? Pouco depois, ele conhece a Mallu Magalhães, que se encanta por aquele homão. Os dois vivem um romance tórrido. Marcelo Camelo volta a compôr bem. O Brasil prospera. -- Fanfic política n.º2: Pedaladas da Paixão Discretamente visitando o Brasil, Hillary Clinton avista uma elegante senhora andando de bicicleta. "Foda-se", ela pensa, "não preciso mais me segurar em nada. Sou livre." O sentimento é compartilhado pela ciclista misteriosa, Dilma Rousseff. As duas se mudam para o Uruguai, onde cultivam hortênsias e alimentam patos. Duas mulheres, apaixonadas, vivendo a terceira idade uma na garupa da outra. -- Fanfic política n.º 3: Malhação Presidentes Em uma visita ao Canadá, Luís Inácio Lula da Silva encontra um grande amigo no primeiro ministro Justin Trudeau. Um amigo que lhe desperta sensações que ele nunca teria sonhado por conta própria. Um amor que nasce aos poucos e sem ciúmes: o relacionamento aberto acolhe uma haitiana com necessidades especiais e um refugiado sírio trans. Um amor que comove e muda o mundo, mas sofre dificuldades quando Donald Trump deseja se envolver com o casal poliamoroso. Uma história de guerra, paixão, justiça e bronzeamento artificial. -- Fanfic política n.º4: Ciro Me Deu um Tiro Ainda sofrendo de saudades de sua ex, Patricia Pillar, Ciro Gomes se sente despreparado emocionalmente para uma campanha presidencial - mas encontra uma substituta em que pode confiar: Ana Furtado. Enciumada, Patricia Pillar volta para a vida de Ciro e deixa seus sentimentos em conflito - ainda mais quando surge um quarto elemento, José Serra, que a transforma em uma vampira. -- Fanfic política n.º5: Uma História de Terror Aécio Neves é eleito. O vice é do PMDB. Por sorte, inicia-se um apocalipse zumbi.

5.3.17

Suavignon

Venhamos e convenhamos, a gente não nasce tão inteligente assim.
Se tiver sorte, a gente vai se sofisticando e aprendendo ao longo da vida. 

É essa capacidade de evoluir que permite que a morra diferente de como nasceu, é isso que deixa a gente se deixar de ser um adolescente que bebe Fanta Uva com vodka de garrafa pet pra virar um quarentão que faz bochecho com vinho e fala cabernê sovinhôun fazendo biquinho.

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Meu disco preferido aos quatro anos de idade era do Fofão. 
Se eu não me engano, era um que vinha de brinde com o Caldo Maggi. Você comprava um número x de caldos e ganhava a oportunidade de contaminar seu filho com música infantil dos anos 80 e glutamato monossódico ao mesmo tempo.

Aos doze anos, meu gosto musical já tinha mudado. 
Grudado na MTV, eu assistia uma estreia de clipe da Christina Aguilera com o mesmo encantamento que uma senhora católica com uma máquina do tempo assistiria a ascenção de Jesus Cristo aos céus.

Lá pelos quinze, eu me sofistiquei.
Descobri as maravilhas do download ilegal e pus as mãos em tudo de mais nobre que eu pudesse encontrar. Cartola, Elis, Joni Mitchell, Chico, Cole Porter, decorei cada letra de cada música de cada gênio que eu pudesse encontrar.
Que ninguém chegasse perto de mim falando de música pop, eu estava acima disso.

Hoje, aos vinte e seis, eu tô cantarolando Simone e Simaria desde que acordei.
Sem vergonha nenhuma.

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Algum sábio (não sei se foi o Dalai Lama, o Paulo Coelho ou a Glória Kalil) disse que a maior sofisticação que existe é ser simples.

A vida, então, seguiria uma ordem de aprender as regras, dominar o refinamento e depois deixar tudo pra trás para viver apenas de acordo com a sua própria alegria.

Acho mesmo que exista um tipo de iluminação que a gente atinge e nos permite ver que tudo tem o mesmo valor, que tudo tem sua beleza, que aquilo que a gente achava que era lixo também pode ser muito bonito.

Afinal, é uma grande prova de inteligência perceber que refinamento não é tudo. Só se aprende a gostar e aceitar tudo depois de se constituir uma grande capacidade intelectual.

É mais ou menos nessa hora que a gente fica burro novamente.

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É tudo parte da grande estrutura circular da vida.

Se você é uma criança que não ri de piada de pum, tem algo de errado aí.
Se você é um jovem adulto que ainda depende de piadas de pum pra conseguir rir, tem algo de errado aí.

Mas, muito mais grave, se você é uma pessoa crescida e adulta que não consegue rir de alguém soltando pum... Talvez já seja tarde demais para consertar o que há de errado aí. 
Você ficou imaturo pra sempre.

3.3.17

Academia e Terapia

"Eu tô fazendo terapia há cinco meses, e até gosto, mas não sei se está fazendo tanta diferença assim na minha vida."

Já ouvi isso de bastante gente e a dúvida é genuína.
Você é esforçado, vai à terapia toda semana mas ainda está esperando por mudanças na sua vida... Será que vale a pena continuar indo ou é melhor redirecionar o investimento? Ficar numa terapia que não deu resultado ainda ou usar a grana para umas cervejinhas a mais no fim de semana ou comprar umas roupas novas?

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A melhor maneira que eu tenho pra responder isso é fazendo uma comparação com uma coisa que muita gente faz.

Estar em terapia é como fazer academia. Olha só:

- Repetição é importante:
Sabe como, na academia, você repete o mesmo movimento muitas vezes antes de ficar com a bunda da Nicole Bahls? Na terapia é igual: você vai passar pela mesma questão várias vezes antes de ficar com a bunda da Nicole Bahls.
Falando sério: olhar para um mesmo tema de várias maneiras pode ser fundamental para entender onde é que aquilo realmente "pega" em você e de que maneira você pode se desvincilhar (ou se adaptar) de um problema.

- É importante se "alimentar" corretamente:
Se você for para a academia sem ter comido, provavelmente seu rendimento não vai ser dos melhores. Você só consegue trabalhar com o corpo que você leva, certo?
Da mesma forma na terapia: o terapeuta só vai poder trabalhar com o conteúdo que você leva, então procure se preparar. Observe como vai sua vida. Fique atento aos seus sonhos. Perceba o que te faz se sentir bem ou mal no dia-a-dia. Separe questões da sua vida que deseje comentar a respeito.
Não que você precise levar um caderninho de anotações para o seu terapeuta - a espontaneidade é muito importante - mas tente ir "alimentado" para aproveitar melhor o seu tempo.

- Faça os movimentos sem forçar a barra:
Se um iniciante tenta fazer supino com cinquenta quilos de cada lado no seu primeiro dia, provavelmente vai sair machucado. É normal ficar ansioso e querer falar tudo de uma vez só, mas calma! Forçar a barra vai doer mais. Abra o seu coração no seu ritmo e deixe que os assuntos encontrem sua própria ordem de importância. É importante respeitar seus limites.

- Desenvolva um prazer em se cercar do assunto:
Sabe como tem gente que se empolga quando começa a fazer exercício e só falta tatuar a palavra Crossfit na testa? Provavelmente essa pessoa levou a sério o benefício do exercício e está sentindo prazer no desenvolvimento que tem percebido em si mesma. Não que eu esteja recomendando que você leve isso ao pé da letra e compre uma camiseta com a escrita "TERAPIA GAMES 2017" nela, mas não há nada de errado em adotar um estilo de vida voltado à promoção da sua saúde mental.
São muitas coisas que você pode fazer que vão estimular seu esforço. Você pode ler livros de psicologia (e até de autoajuda, se quiser, não tem nada de errado com isso. Depois você vai pra terapia e confere se o que leu no livro faz sentido pra você, ora bolas,),
Você pode achar artigos na internet que reflitam sua situação, encontrar grupos de apoio mútuo, se desafiar a passar por experiências diferentes para sair da sua zona de conforto. As opções são inúmeras. Você vai ver que, rapidinho, isso vai enriquecer sua vida e te dar bastante prazer.

E, mais do que tudo:

- Aceite que você não vai ficar forte do dia pra noite:
Na vida corrida que a gente leva, é fácil ficar emocionalmente sedentário, desacostumado a olhar para si. Como no começo de uma academia, em que mesmo treinando super certinho e se alimentando bem, você vai demorar um bom tempo para adquirir o corpo que idealizou ter, na terapia os resultados também podem levar tempo. As dores nunca vão embora por inteiro, não existe cura para a vida - mas você vai ganhando força aos poucos e, quando menos perceber, vai estar com uma força que não imaginava ser possível.

E mesmo que demore, isso não lhe impede de se olhar no espelho e falar "Estou gostando cada dia mais do que eu vejo". De pouquinho em pouquinho, você vai ver como se transformou numa pessoa melhor.

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Os resultados das duas atividades também são parecidos.

Na musculação, você vai suar, você vai cansar, vai querer desistir.
Os outros vão notar alguma diferença em você. Alguns vão gostar, outros vão reclamar que você está ficando grande demais.
No fim das contas, você vai ficar bem feliz com as mudanças que teve e vai querer continuar nesse caminho.

Na terapia é igual.
Agora vem, monstro.

1.3.17

Schadenfreude

Olha, eu não sou nenhum gênio (não que alguém estivesse sugerindo isso), mas tem gente que me surpreende com a pouca inteligência.

Não digo mal informado, não digo mal educado, não digo com problemas cognitivos.

Digo de ter aquele cérebro disposto a fazer conclusões absurdas com coisas muito elementares.
De ter todas as informações ali, na frente, uma do lado da outra... e não conseguir deduzir o óbvio.

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Fui viajar pro carnaval. De ônibus, porque eu sou rico.

Me distraí da viagem escutando os dois adolescentes que conversavam no banco de trás, e não tive outra opção senão registrar a conversa que estava inspiradora demais.

Eles falaram de carreira:
"Já tem médico demais. Eu quero ser psicólogo. Você aprende a saber quando uma pessoa tá mentindo."
"Jura? Eu fui numa psicóloga uma vez e ela era muito ruim. Eu menti um monte e ela nem percebeu."
"Mas eles ganham bem, né? Eu fiz o cálculo, atendendo quarenta e quatro pessoas eles ganham quinze mil por semana!"
"Nem todos ganham bem. Eu conheço uma que só ganha cinco mil."

Eles falaram de genética:
"Minha mãe por parte de vó é polonesa."
"Mas você não tem olho claro."
"É que eu nasci no Brasil! Ele só fica claro quando vai chover."

Eles falaram de relações internacionais:
"Eu queria ir pra Europa... Ou pra Suíça, porque tá muito fácil ir pra Europa."
"Ah, é. Parece que até Portugal faz parte da Europa agora, né?"

Eles falaram de literatura:
"Você tem cara de nerd, você gosta de ler?"
"Sim, eu li um livro na escola uma vez e gostei."

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Minha cabeça também dá tela azul de vez em quando.

Uma vez eu esqueci completamente o que significava a palavra árvore. Fiquei repetindo "árvore... árvore..." na minha cabeça e achando super engraçado o som daquilo, sem saber exatamente o que aquilo queria dizer.
Tinha uma árvore bem na minha frente enquanto isso.

Pode ter sido um momento de superação do eu, de meditação intensa, um vazio mental que só os monges mais dedicados conseguem atingir.

Ou foi, como eu gosto de chamar, só um peido cerebral mesmo.

--

Na volta, eu tinha certeza que nada ia superar os futuros vencedores do Nobel da viagem de ida, mas eu subestimei o universo.

Primeira parada do ônibus, a mulher ao meu lado fala:
"Meu cinto de segurança não abre!"
"Como assim?"
"Não abre! Tá estragado! Isso só acontece comigo!"
"Você aperta o botão e ele não solta?"
"Você acha que eu sou burra? NÃO FUNCIONA."

Nisso ela afrouxou o cinto, passou todo o corpo por debaixo dele, ficou em pé no encosto reclinado da cadeira e saiu:
"Absurdo, mesmo!"

Eu olhei para a presilha do cinto, apertei o botão vermelho e... Click! Soltou.
Testei de novo algumas vezes, funcionou certinho.

Mostrar isso pra ela não foi o suficiente pra impedir que, pelo resto da viagem, ela fizesse uma acrobacia pra se arrastar por debaixo do cinto, ficasse em pé no encosto do banco e fizesse escândalo toda vez que fosse ao banheiro.

"Não sei por que essas coisas só acontecem comigo!", ela disse.
Eu acho que tenho uma ideia, amiga.

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Sabe como tem algumas palavras em algumas línguas que são difíceis de traduzir porque definem sentimentos muito específicos?

Vocês que são poliglotas me respondam: existe algum idioma com uma palavra que defina a sensação de dó, carinho e indignação que a gente tem quando encontra uma pessoa muito muito burra?
Um schadenfreude, uma saudade, um serendipity da estupidez?

Porque se não existir, a gente precisa inventar.
Ou não. Ninguém vai saber usar a palavra direito...

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