26.3.17

Cheiroso

Resolvi estudar pra concurso público.

Quer dizer, todos os sábados eu vou à casa de uma amiga. Nós almoçamos, passamos uma hora e meia filosofando sobre a vida e reclamando da nossa situação financeira e depois estudamos umas duas horinhas antes de abrir uma cerveja.

Afinal de contas, é preciso se dedicar pra melhorar de vida.

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Toda vez que eu chego na casa dessa amiga, tem três rapazes sentados na frente do prédio. Eles bebem muita cachaça e fazem muito barulho, e tem dois cachorros que avançam em qualquer criatura que se mexe pela rua, então nem todo mundo gosta deles.

Minha amiga não se importa. Cumprimenta, conversa com eles rapidinho e vai pra casa.

Um dos rapazes é o Cheiroso. O Cheiroso ganhou esse apelido porque fede muito. Os três fedem, mas o Cheiroso foi abençoado com o dom de ter a própria presença identificada a vinte metros de distância.

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A namorada da minha amiga chegou em casa comentando:
"Fui entrar com o carro na garagem e o Cheiroso tava dormindo bem na entrada. Tive que tirar um fino da parede pra conseguir desviar. Foda, viu?"

Concordamos que sim, era foda. 
Onde já se viu isso, dormir onde quer, sem a menor consideração com os outros?

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No dia seguinte, ele continuava lá. O pessoal da farmácia da esquina estranhou e foi conferir. Logo depois, o carro do IML levou o Cheiroso embora. 

Os cachorros latiam, corriam, tentavam avançar. As pessoas paravam pra olhar.
"Ah, é um mendigo", e seguiam caminhando.

Poucas coisas destroem mais o coração de uma pessoa do que alcoolismo e solidão. Ele já estava morto há algum tempo. 

Ninguém reparou no cheiro.

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Esse homem teve uma vida inteira. 

Ele sentiu, ele sofreu, ele se preocupou com o futuro, ele fez refeições. 
Passou por nós mil vezes e a gente nunca pensou em perguntar se ele queria entrar e tomar um banho. Seria um importuno muito grande.

Não era nosso problema.
Que merda, quando foi que ficou normal uma pessoa viver na rua e a gente esquecer que ela é gente? 

A sociedade fede.

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Queria saber mais da vida do Cheiroso pra contar aqui.

Só sei que ele passava os dias do lado de fora, com dois amigos, dois cachorros, várias garrafas de cana e alguns sonhos que só ele sabia quais eram.

E que enquanto isso, do lado de dentro, eu reclamava da vida, comia e estudava pro Tribunal de Justiça. 

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