Divino

"Eu não acredito em Deus. Eu juro que eu queria muito, muito acreditar, mas eu não consigo, não existe razão para acreditar. Isso me faz sofrer."

Minha paciente estava com a voz angustiada.
"Não acreditar em Deus te faz sofrer?" - perguntei.
"Não. Ter passado tantos anos dedicando a minha vida a uma igreja me faz sofrer. Me iludiram. Eu sofro por decepção."

--

"Problema mental é falta de Deus no coração", uns dizem.

Olha, eu tenho alguma experiência em fé.

Fui criado como testemunha de Jeová, depois me aproximei do espiritismo, frequentei a umbanda e estudei um monte de outras coisas.
Em algum momento, cada uma dessas filosofias me fez um pouco de bem - e cada uma delas me fez um pouco de mal.

Já hoje... Hoje eu não tenho uma resposta.

Às vezes eu faço uma prece pedindo pelo bem de alguém.
Às vezes eu tenho certeza que a vida se limita ao que a gente vê e que isso já é coisa pra caramba.
Às vezes eu vejo alguma coisa superbonita acontecer e penso que não pode ser coincidência.
Às vezes fica difícil acreditar que tenha alguém cuidando do mundo depois do terceiro caso de abuso sexual que eu atendo no dia.

Nem sei se uso Deus em maiúscula ou minúscula nesse texto.

O que me incomoda é o seguinte:
Por que tanta gente age com tanta certeza - e uma certeza tantas vezes agressiva - a respeito de um assunto em que é impossível ter certeza alguma?

-

Talvez a resposta seja simples.

Afinal de contas, a vida é uma experiência muito dura.
Ninguém se livra do sofrimento: a gente erra, falta grana, falta emprego, fica doente, é enganado, perde quem a gente ama e morre.
Não tenho certeza se é exatamente esse o ciclo da vida que a gente aprende na terceira série, com o desenho de uma galinha e seus pintinhos, mas na prática é assim mesmo.

Olhando friamente, a vida é desesperadora. Não é fácil para absolutamente ninguém. Por isso, crentes e descrentes compartilham uma angústia.

Alguns reagem à grande angústia da finitude investindo profundamente na fé como uma possibilidade de resgate, para não perder tempo com um mundo iníquo.
Alguns reagem à essa mesma angústia existencial resolvendo trabalhar só com o que temos de evidente e observável, para não perder tempo com um mundo de fantasia.

Mas tudo tem a mesma origem: todos buscando suas próprias maneiras de enfrentar a dor de ser gente.

Por isso cutucar a fé ou ausência de fé de uma pessoa gera reações tão exaltadas. Mexer nessa ferida é mexer com toda a estratégia de sobrevivência de alguém.
Assusta. Machuca. Fere. Mas faz parte de estar vivo.

--

Aliás, muita gente esquece o quanto a experiência do ateísmo é solitária (pelo menos em um primeiro momento).

Se você é criado acreditando que existe um ser que vai te cuidar, te garantir amor e te recompensar pelos bons feitos, e de repente tem uma experiência (seja um trauma ou uma leitura, o que for) que te faz duvidar de tudo isso, você sofre.

Você precisa reconstruir uma vida a partir de um ponto de vista objetivamente mais duro. A finitude fica exposta na sua cara e você - como a paciente do começo do texto - precisa se reconstruir não só da angústia compartilhada por cada ser humano, mas também do trauma de ter passado tanto tempo envolvido com uma crença que lhe prometeu respostas sem cumprir.

--

E aí, mais Deus na vida de uma pessoa ajuda ou atrapalha?

Estar na religião dos meus pais foi uma experiência que me fez sofrer, mas isso é meu. Para eles, aquilo faz bem. Eles precisam disso pra viver.
No caso deles, mais Deus é mais felicidade.

Agora, alguém que tem uma experiência negativa com religião não vai encontrar conforto algum nela. Forçar alguém sem crença alguma a aderir à alguma visão religiosa não vai tornar ninguém mais feliz.
Nesse caso, mais Deus é mais tristeza.

--

Para uma pessoa estar bem, ela precisa estar satisfeita em quatro eixos: biológico, psicológico, social e espiritual. Sim, espiritual.

Isso quer dizer que o homem precisa de Deus?
Não necessariamente. O que o ser humano precisa é de sentido.
Espiritual, nesse caso, quer dizer propósito. Pulsão de vida, desejo, fogo no rabo, pau duro, paixão.

O sentido pode ter caráter religioso, o sentido pode ter caráter científico... Cacete, o sentido pode até ser mesquinho e egoísta.

Eu conheci uma mulher que só morreu depois que conseguiu tomar de volta a coleção de Pyrex, que era de sua falecida mãe, da irmã. Ela queria muito deixar aquela preciosidade de herança para a filha, e só se permitiu morrer depois de infernizar todo mundo o suficiente para alcançar seu objetivo.
Olha só: sentido! Espiritualidade. Era o que lhe dava forças pra viver.

A paciente do começo do texto, aliás, sabia discorrer brilhantemente sobre o trabalho científico que realizava. Era apaixonante.

--

Por isso que não é trabalho do psicólogo julgar ou tentar mudar a fé de ninguém: a gente trabalha com a verdade de cada um e ponto. A partir da experiência daquela pessoa, a gente se permite prestar atenção ao que funciona ou não na vida dela - e para por aí.

Com fé ou não, o ser humano murcha se não tiver a busca por um objetivo nobre, uma causa maior que do que si.

Todo mundo merece viver seu próprio sentido sem ser julgado, respeitando as liberdades individuais. Cada um sabe o que faz sua própria vida valer a pena.

Se todo mundo aprendesse a procurar o sentido da própria vida respeitando o sentido do outro... isso seria divino.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Te faço mal, mas te amo

Sobre morar com pessoas

Chimia, geléia e outras doçuras