15.3.17

Elogios

Topei com um amigo que eu não via há mais de um ano. Colocamos o papo em dia:

- Pô, Flávio, que bonito que você tá!
- Ah, brigado! - eu fico sem jeito com elogios, mas deixei ele continuar porque sou movido a elogios baratos.
- Sério mesmo, cê emagreceu, né?
- Na verdade eu até ganhei peso, mas tô tentando cuidar mais da alimen--
- Emagreceu sim! Sua barriga tá muito menor!

E começou a se empolgar no elogio:
- E esse rosto, Flávio? Tá diferente!

Comecei a ficar desconfortável. Ele continuou:
- Acho que é porque você emagreceu, tem bem menos bochecha que da última vez que eu te vi! Tá fazendo academia? 
- Comecei a fazer cross-- 

Não me deixou falar:
- Tá musculosinho! A postura tá melhor, tá andando mais reto!

Eu não sabia se ficava feliz pelos elogios ou de luto, já que eu não fazia ideia que eu era um corcunda bochechudo acima do peso.

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Elogiar uma pessoa exige certos cuidados.
Nunca se sabe o que pode ser visto como elogio e o que pode machucar. Acho - e só acho - que detonar tudo o que a pessoa era antes talvez não seja a melhor das estratégias. 

A pessoa de antigamente ainda está ali, debaixo da pele renovada, tentando dizer pra si mesma que quem sabe agora ela tenha algum valor.  

Afinal, até aquela pessoa tinha momentos em que se olhava no espelho e falava "Pô, até que tô bem". Se ela não estava antes, como vai se sentir bem agora, se a própria avaliação não significa nada?

Um elogio mal colocado revela a fraude por trás de qualquer autoestima.

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Você só sabe quais características suas os outros acham ruins depois que deixa de tê-las. 
Céus, eu nem sabia que as minhas bochechas eram um problema. 

Tenho medo de encontrar esse meu amigo na rua daqui a um ano e a conversa ser mais ou menos assim:

- Pô, Flávio, que bom te ver! Tá bem vestido hein?
- Obrigado?
- Largou aqueles trapos velhos! Ficou rico?
- Na verdade eu...
- E esse cabelo? Caramba, resolveu dizer tchau praquele ninho de marmota que você usava na cabeça?
- Ei, pera--
- E ESSE HÁLITO, FLÁVIO? Muito melhor! Cê tá usando fio dental? 

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É engraçado o mecanismo revisionista que a cabeça da gente tem.

Se hoje você se acha enorme de gordo, daqui a cinco anos você vê uma foto e pensa "Nossa, eu era um palito!".

Se existe algum consolo no fato da vida ser uma corrida ladeira abaixo, é que o corpo que a gente tem vergonha hoje pode ficar retroativamente gostoso amanhã.

Aliás, tá aí uma boa filosofia de vida: Imaginar que você está vinte anos mais velho e com quarenta centímetros a mais na cintura, encontrou uma máquina do tempo, e decidiu voltar o relógio para aproveitar o corpo que tem hoje.

Nada melhor pra autoestima do que paquerar como se fosse o exterminador do futuro.

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É claro que a gente quer estar melhor a cada dia. Ilusão, mas a gente se esforça. Se não é possível ser o Benjamin Button, a gente mira na Paula Toller e torce para manter a juventude o máximo possível.

(Se bem que, se a natureza for justa, algum dia a Paula Toller vai envelhecer tudo de uma vez e acordar a cara da Wanderléa. Aliás, isso também seria injusto, porque a Wanderléa tem 70 anos nas costas e continua com coxas suculentas como as de um peru de natal.)

Ainda assim, é estranho quando elogiam a Paula Toller falando que ela não envelhece. É que nem falar "Nossa, você nem parece que é velha!" e querer que ela se sinta lisonjeada. 

Ainda assim, quero envelhecer como ela. 
Uh, como eu quero.

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