1.3.17

Schadenfreude

Olha, eu não sou nenhum gênio (não que alguém estivesse sugerindo isso), mas tem gente que me surpreende com a pouca inteligência.

Não digo mal informado, não digo mal educado, não digo com problemas cognitivos.

Digo de ter aquele cérebro disposto a fazer conclusões absurdas com coisas muito elementares.
De ter todas as informações ali, na frente, uma do lado da outra... e não conseguir deduzir o óbvio.

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Fui viajar pro carnaval. De ônibus, porque eu sou rico.

Me distraí da viagem escutando os dois adolescentes que conversavam no banco de trás, e não tive outra opção senão registrar a conversa que estava inspiradora demais.

Eles falaram de carreira:
"Já tem médico demais. Eu quero ser psicólogo. Você aprende a saber quando uma pessoa tá mentindo."
"Jura? Eu fui numa psicóloga uma vez e ela era muito ruim. Eu menti um monte e ela nem percebeu."
"Mas eles ganham bem, né? Eu fiz o cálculo, atendendo quarenta e quatro pessoas eles ganham quinze mil por semana!"
"Nem todos ganham bem. Eu conheço uma que só ganha cinco mil."

Eles falaram de genética:
"Minha mãe por parte de vó é polonesa."
"Mas você não tem olho claro."
"É que eu nasci no Brasil! Ele só fica claro quando vai chover."

Eles falaram de relações internacionais:
"Eu queria ir pra Europa... Ou pra Suíça, porque tá muito fácil ir pra Europa."
"Ah, é. Parece que até Portugal faz parte da Europa agora, né?"

Eles falaram de literatura:
"Você tem cara de nerd, você gosta de ler?"
"Sim, eu li um livro na escola uma vez e gostei."

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Minha cabeça também dá tela azul de vez em quando.

Uma vez eu esqueci completamente o que significava a palavra árvore. Fiquei repetindo "árvore... árvore..." na minha cabeça e achando super engraçado o som daquilo, sem saber exatamente o que aquilo queria dizer.
Tinha uma árvore bem na minha frente enquanto isso.

Pode ter sido um momento de superação do eu, de meditação intensa, um vazio mental que só os monges mais dedicados conseguem atingir.

Ou foi, como eu gosto de chamar, só um peido cerebral mesmo.

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Na volta, eu tinha certeza que nada ia superar os futuros vencedores do Nobel da viagem de ida, mas eu subestimei o universo.

Primeira parada do ônibus, a mulher ao meu lado fala:
"Meu cinto de segurança não abre!"
"Como assim?"
"Não abre! Tá estragado! Isso só acontece comigo!"
"Você aperta o botão e ele não solta?"
"Você acha que eu sou burra? NÃO FUNCIONA."

Nisso ela afrouxou o cinto, passou todo o corpo por debaixo dele, ficou em pé no encosto reclinado da cadeira e saiu:
"Absurdo, mesmo!"

Eu olhei para a presilha do cinto, apertei o botão vermelho e... Click! Soltou.
Testei de novo algumas vezes, funcionou certinho.

Mostrar isso pra ela não foi o suficiente pra impedir que, pelo resto da viagem, ela fizesse uma acrobacia pra se arrastar por debaixo do cinto, ficasse em pé no encosto do banco e fizesse escândalo toda vez que fosse ao banheiro.

"Não sei por que essas coisas só acontecem comigo!", ela disse.
Eu acho que tenho uma ideia, amiga.

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Sabe como tem algumas palavras em algumas línguas que são difíceis de traduzir porque definem sentimentos muito específicos?

Vocês que são poliglotas me respondam: existe algum idioma com uma palavra que defina a sensação de dó, carinho e indignação que a gente tem quando encontra uma pessoa muito muito burra?
Um schadenfreude, uma saudade, um serendipity da estupidez?

Porque se não existir, a gente precisa inventar.
Ou não. Ninguém vai saber usar a palavra direito...

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