5.3.17

Suavignon

Venhamos e convenhamos, a gente não nasce tão inteligente assim.
Se tiver sorte, a gente vai se sofisticando e aprendendo ao longo da vida. 

É essa capacidade de evoluir que permite que a morra diferente de como nasceu, é isso que deixa a gente se deixar de ser um adolescente que bebe Fanta Uva com vodka de garrafa pet pra virar um quarentão que faz bochecho com vinho e fala cabernê sovinhôun fazendo biquinho.

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Meu disco preferido aos quatro anos de idade era do Fofão. 
Se eu não me engano, era um que vinha de brinde com o Caldo Maggi. Você comprava um número x de caldos e ganhava a oportunidade de contaminar seu filho com música infantil dos anos 80 e glutamato monossódico ao mesmo tempo.

Aos doze anos, meu gosto musical já tinha mudado. 
Grudado na MTV, eu assistia uma estreia de clipe da Christina Aguilera com o mesmo encantamento que uma senhora católica com uma máquina do tempo assistiria a ascenção de Jesus Cristo aos céus.

Lá pelos quinze, eu me sofistiquei.
Descobri as maravilhas do download ilegal e pus as mãos em tudo de mais nobre que eu pudesse encontrar. Cartola, Elis, Joni Mitchell, Chico, Cole Porter, decorei cada letra de cada música de cada gênio que eu pudesse encontrar.
Que ninguém chegasse perto de mim falando de música pop, eu estava acima disso.

Hoje, aos vinte e seis, eu tô cantarolando Simone e Simaria desde que acordei.
Sem vergonha nenhuma.

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Algum sábio (não sei se foi o Dalai Lama, o Paulo Coelho ou a Glória Kalil) disse que a maior sofisticação que existe é ser simples.

A vida, então, seguiria uma ordem de aprender as regras, dominar o refinamento e depois deixar tudo pra trás para viver apenas de acordo com a sua própria alegria.

Acho mesmo que exista um tipo de iluminação que a gente atinge e nos permite ver que tudo tem o mesmo valor, que tudo tem sua beleza, que aquilo que a gente achava que era lixo também pode ser muito bonito.

Afinal, é uma grande prova de inteligência perceber que refinamento não é tudo. Só se aprende a gostar e aceitar tudo depois de se constituir uma grande capacidade intelectual.

É mais ou menos nessa hora que a gente fica burro novamente.

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É tudo parte da grande estrutura circular da vida.

Se você é uma criança que não ri de piada de pum, tem algo de errado aí.
Se você é um jovem adulto que ainda depende de piadas de pum pra conseguir rir, tem algo de errado aí.

Mas, muito mais grave, se você é uma pessoa crescida e adulta que não consegue rir de alguém soltando pum... Talvez já seja tarde demais para consertar o que há de errado aí. 
Você ficou imaturo pra sempre.

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