28.4.17

Carta Aberta em Defesa ao Presidente

Excelentíssimo Senhor Presidente Michel Temer:

Tenho lido diversas críticas ao senhor nessa rede social nos últimos tempos. Desejo, por meio desta, manifestar todo o meu carinho e respeito à sua pessoa. 

Como podem criticar um homem que faz mudanças tão grandes na nossa sociedade! Coisas necessárias! Não importa o que o senhor faça, sr. Presidente, sempre vão reclamar! O senhor generosamente acaba com as nossas aposentadorias e precariza nossas relações de trabalho e depois o malvado é você?
Gente ingrata.

Não sabem pelo que um homem como o senhor passa. 
Um homem tão bom amigo, como o senhor! Um homem que agregou tantas pessoas em seu ministério que, sem essa oportunidade, estariam sendo investigadas por corrupção sem o direito humano básico de um foro privilegiado.

--

Um homem firme, íntegro, que jamais venderia sua alma para se manter no poder. Um homem que nem tem alma, pra evitar o risco!

Um homem que, casado com uma mulher 43 anos mais nova que ele, inspira toda uma classe de pessoas! No caso, outros homens que também querem uma mulher 43 anos mais nova e são julgados pela sociedade só porque eles mesmos tem só 50 anos.

O problema é que as pessoas não respeitam mais a verdade, senhor presidente!
"Ela tem idade pra ser sua filha", dizem sobre sua esposa. Mentirosos! Ela é dez anos mais nova do que a sua filha caçula! Ela poderia ser sua neta!

"Ele não se preocupa com o futuro", dizem.
As crianças não são nosso futuro? Como podem dizer que o senhor não se importa com as crianças, sendo que a sua própria esposa preenche todos os critérios para ser uma paquita?
Um homem que tanto se identifica com as crianças que escreve poesias que claramente poderiam ter sido escritas por uma!

--

O senhor é um homem de visão!
Onde alguns veem crise, o senhor vê oportunidade! Onde alguns veem desemprego, o senhor vê possibilidade! E, com seus esforços, o senhor fez essa possibilidade chegar a mais de 14 milhões de brasileiros!

Podem dizer que o senhor tem aprovação baixa, de apenas quatro por cento, mas veja só: o leite é considerado integral quando tem apenas 3% de gordura! Se o senhor fosse leite, sua aprovação seria mais do que integral!
O leite estaria azedo, mas não é disso que estamos falando.

--

Golpe, eles dizem! 
Um homem que seria incapaz de golpear uma mosca! Por não ter força física pra tanto.

Greve! 
Como ousam falar de greve? Achar que uma pessoa como o senhor não valoriza o trabalho?
Um homem que se aposentou aos 55 anos, não gostou da experiência e por isso quer garantir que ninguém passe pela mesma tortura?

Dizem que o senhor é um presidente ilegítimo por não ter tido voto, senhor.
Pois sabem quem foi eleito democraticamente? O ex-presidente da Alemanha Paul von Hindemburg. Sabe quem é? Exato! Ninguém sabe. Agora, sabem quem subiu ao poder com elaboradas maquinações políticas? Hitler. E dele todo mundo lembra. 

O que eu estou querendo dizer, senhor, é que o senhor será lembrado!

--

A humildade é a qualidade dos sábios, senhor presidente. 
Como pode um povo que se diz cristão ser contra um homem como o senhor, que faz tanto esforço para que a nossa população se mantenha a mais humilde possível?

Um homem que tem seus propósitos alinhados com Deus! Que é o motivo de tantos brasileiros terem voltado a rezar todos os dias!

--

Comparam o senhor a Satanás, presidente, e eu não consigo ver isso como algo negativo.
Afinal, essa criatura começou sem nada, oferecendo frutas para sobreviver. E hoje é tão influente em todo o mundo. 

Inclusive, rogo a Vossa Excelência que continue se inspirando em Lúcifer.
Afinal de contas, ele tem muito mais apoiadores que o Senhor.

Deixo aqui meus votos de apreço.
Carinhosamente,
Flávio

25.4.17

Encostos

Eu acredito em encosto.
Não acredito em fantasma, mas acredito em encosto.

Você tem um. Certeza que tem. Tem alguma pessoa que assombra você.
Uma assombração viva.


É nessa pessoa que você pensa quando responde o aceno de alguém que não estava acenando pra você. É ela que observa as suas vergonhas. É ela o fantasma que você quer agradar.

E, engraçado, nem sempre é alguém tão importante assim. Às vezes é uma pessoa que a gente nem conviveu direito.

--

Meu primeiro encosto foi um menino do ensino médio.

Pele bem branca, cabelo bem preto, jeito de atleta, super gente boa.
Foi bater o olho nele pra ele virar minha referência pra tudo.

Sem saber, ele me controlava. Quando minha voz saía muito alta sem querer, eu me constrangia. Certeza que ele achava isso ridículo. Quando eu fazia uma piada sem graça, era ele o critério. Se ele não ria, estava decretada minha falta de graça.

Perto dele, fui falando cada vez menos e mais baixo.
Com o tempo, fiquei assim mesmo longe dele, como se só imaginar o que ele pensaria da situação fosse suficiente para eu querer me controlar.

Lembro que ele descansava os braços nos quadris quando ficava em pé.
Eu não tinha o hábito de fazer um gesto feminino como esse, jamais me permitiria.
Mas ele fazia isso com tanta naturalidade que... eu me permiti fazer também. Até hoje tenho essa mania.

--

Eu sou assombrado por um tipo de encosto muito específico, porque o mais recente tinha o mesmo perfil: pele bem branca, cabelo bem preto, jeito de atleta, super gente boa.

Tivemos um rolo que não deu certo e que me deixou com um gosto amargo de, por um fiozinho só, não ter sido bom o suficiente.
Foi o que bastou pra ele se mudar de mala e cuia pra minha neurose.

Se eu fosse sair de casa, ele estava na roupa que eu usava. Vai que eu topava com ele no supermercado?
Se eu fosse ficar em casa, ele ficava no canto com cara de pena:
"Sabe onde eu tô? Na balada. Me divertindo. Chega a dar dó de você aí."

Às vezes ele me jogava um osso:
"Cueca nova, é? Nada mal, Flavinho, nada mal. Quem sabe um dia..."

Mas eu não me empolgava.
Quase-aprovação é pior do que aprovação nenhuma. Nada pior do que estar na beira de agradar alguém e não conseguir.

--

Não há registros na história humana de um encosto positivo.
Seria uma maravilha ser perseguido por pensamentos de aceitação e comentários agradáveis.

A gente teria pensamentos bonitos com ele: "Escolhi bem a roupa de hoje, Encosto ia achar bonito."

"Percebo que você comeu seus vegetais hoje. Que sucesso!", diria o encosto do bem.

Estão certas as crianças, que tem amigo imaginário em vez de uma assombração.

--

O problema não é querer ser aceito. Pode ser bom mirar numa pessoa que você admira pra tentar melhorar também.

O que mata é querer ser aceito por um fantasma.
Querer o aplauso de uma plateia que nunca vai poder te aplaudir, simplesmente porque não está nem olhando para a sua vida.
Pior, conviver o tempo todo com a sensação de ser vaiado.

É a gente que se obsedia quando enfia um padrão na cabeça de como deve se comportar para ser bom o suficiente.

--

Coitados dos meninos. Pensa que responsabilidade, você morar na cabeça de uma pessoa sem saber?
Virar parâmetro pra tudo?

Muito bem. Estão libertos. O encosto era eu.
Agora, alguém me ensina onde compra água benta?

18.4.17

13 baleias why

SOBRE O DESAFIO DA BALEIA AZUL
ou
SOBRE 13 REASONS WHY
ou
SOBRE O QUE VOCÊ QUISER:

Eu sei que você não suporta mais ver textão a respeito dessas coisas.

Eu também não, e eu honestamente acho que a maior parte do que tem sido dito a respeito está um pouco fora de foco.

Transtornos mentais e suicídio são muito mais complexos do que parecem.

--

Situação 1:
Eu tinha oito anos e alguns vendedores ambulantes começaram a vender bonequinhos de bexigas recheadas de farinha na porta da escola. Alguém começou a soltar o boato de que dentro das bexigas tinha cocaína.

Pânico.

Os pais exigiram providências. A escola mandou um dos bonequinhos pra análise.
A polícia apareceu. Os vendedores foram tocados dali. Afinal de contas, ninguém quer que crianças em idade escolar usem cocaína.
Isso é para adultos.

A análise de laboratório voltou com o resultado chocante: os bonequinhos de vinte e cinco centavos não continham cocaína nenhuma.
Pena, seriam um ótimo investimento.

--

Situação 2:

Minha mãe sempre teve confiança o bastante em mim para não ficar perguntando o tempo todo onde eu ia e o que eu ia fazer, mas uma coisa a deixava apavorada: o perigo de entrar para uma gangue.

Não sei se ela me achava sociável demais ou se ela assistia muitos filmes do Spike Lee, mas a rotina para sair de casa era a seguinte:

"Mãe, vou sair!"
"Tá... Leva uma blusa... A mãe te ama, tá? Não esquece disso."
"Tá bom, mãe."
"Ah, filho", ela fazia a cara mais suplicante do universo, "E não entre em gangues, por favor."

--

É óbvio que crianças não se viciariam em drogas só porque brincaram com um brinquedo "batizado". O problema da toxicodependência é muito mais complexo do que isso.

É óbvio que eu não entraria ou deixaria de entrar numa gangue só porque minha mãe mandou eu me cuidar. Primeiro porque não existiam gangues em Pato Branco, vá lá, mas segundo porque a tendência grupal do adolescente é muito mais complexa do que um aviso de mãe pode abarcar.

Da mesma forma:
É óbvio que uma criança não vai se matar só por causa de um desafio de internet ou de um seriado.

Adolescentes se matam quando se sentem profundamente sozinhos.
Adolescentes se matam quando se sentem profundamente incompreendidos.
Adolescentes se matam quando já estão se sentindo mortos.

Não vai adiantar conversar com o seu filho sobre o desafio da baleia azul, não vai adiantar proibir (ou obrigar) seu filho a ver um seriado de TV que fale sobre suicídio.

A única coisa que pode ajudar a prevenir uma tragédia é permitir que seu filho se sinta seguro para conversar, respeitado nas suas individualidades e recebendo limites honestos.

--

Uma coisa que certamente vai fazer mal é fingir que a vida é o que não é.
Tentar encaixar todas as angústias de um jovem suicida em um seriado ou um jogo é desprezar alguém que já se sente profundamente desprezado.

Por isso mesmo precisamos falar de depressão, tristeza, morte e suicídio - diabos, precisamos falar sobre tudo! - com todas as letras e com muita atenção.
Escutando de verdade as tristezas e angústias daquela pessoa tão vulnerável que está ali.

Assim, quem sabe, a gente consiga diminuir o risco de que um jovem se suicide.
Ou use cocaína.
Ou entre numa gangue.

Todo mundo sai ganhando.

12.4.17

Carros

Um cara de roupa social impecável estacionou aqui na frente do escritório e desceu do carro.

Tirou uma flanelinha do bolso de trás da calça e, juro por Deus, tá fazendo carinho no carro faz pelo menos meia hora. Isso que carro já tava um brinco quando ele parou.

Se você quer que um homem te ame de verdade, esquece o silicone.

Implanta logo um pneu em cada membro e começa a fazer vrum-vrum com a boca porque, por algum motivo, isso é irresistível.

--

O automóvel representa pro homem* tudo o que um namorado representa para uma mulher**.

(*estereotipado e clichê
**estereotipada e clichê, como eu estou fazendo muito esforço de deixar claro para não puxarem minha orelha depois)

O primeiro carro ele nunca esquece.
O primeiro namorado ela nunca esquece.

Ele se sente seguro no carro.
Ela se sente segura com o namorado.

Ele senta no carro e vira um bicho, obedecendo seus mais loucos instintos.
Ela senta...enfim, cês entenderam.

--

Na época da faculdade, meu TCC foi sobre isso: o que as pessoas tanto viam nos seus carros que faziam esses vínculos tão profundos de identificação acontecer.

Numa das entrevistas, fui aplicar o questionário em um menino de uns 18 anos.
"Qual a primeira palavra que vem à mente quando você pensa em carros?"
"SEXO", disse ele.

"Que experiências um automóvel proporciona que afetam sua visão de si mesmo?"
"SEXO", disse ele.

"Quais fatores de um carro você sente que podem ser ligados à personalidade do dono?"
"SEXO", disse ele.

Ele tornou a minha análise de dados muito complicada.

--

Hoje em dia a gente compra menos carros. Eles dão despesa, a crise tá feia e o litro de gasolina tá o mesmo preço que o do Chandon.

Não é mais tão fácil ter o próprio carro pra parar na rua e ficar polindo.

Deve ser por isso que tem tanta gente com tara de transar com o motorista do Uber.

11.4.17

Os abusáveis

Relacionamentos abusivos são o assunto do dia.
Que bom.  
Quer dizer, que pena que eles existam tanto a ponto dessa discussão ser tão necessária, mas já que existem... Que bom que estamos conversando.

Nessa conversa, a gente fala bastante sobre o abusador. Isso ajuda bastante na hora de perceber o que é uma situação de abuso e o que não é.

Ainda assim - pelo medo de não ser amada e pelos truques do inconsciente - uma pessoa num relacionamento abusivo dificilmente vai conseguir identificar o seu parceiro ali.

E agora, sem olhar para o outro, como identificar se o seu relacionamento é abusivo?

Olhando para dentro.

--

Se existem traços de personalidades que caracterizam os abusadores, também existem características que indicam uma personalidade "abusável".
São elas:

1 - Pessoas que sofrem abuso são muito responsáveis.
Pessoas com uma personalidades abusáveis costumam ser muito eficientes. Antecipam a necessidade do outro antes que ele diga qualquer coisa, trabalham com gana nos olhos, fazem o possível para terem uma vida decente. 
A frase mais comum para sair da boca de uma vítima de abuso é "Eu me recuso a ser vítima".

Por baixo dessa atitude - tão nobre! - de ter queixo erguido e aceitar as dificuldades da vida como são, mora um aviso interior de "É proibido reclamar". 

Nessa de "a vida é dura mas eu sou forte", um relacionamento abusivo se entranha sem parecer tão cruel, só pelos ocasionais momentos de prazer que oferece. 
Para essa pessoa, só um pouquinho de prazer já basta.

2 - Pessoas que sofrem abuso tendem a se sabotar. 
Pessoas em relacionamentos abusivo muitas vezes encontrar um esquema genial para se manterem ali: cometer erros que possam, ao seu ver, equilibrar a balança do abuso. Por exemplo: Um homem trai uma mulher várias vezes e tem a traição descoberta. Sob a justificativa de vingança ou de esquecer o homem que a traiu, ela sai num encontro com outro rapaz. Nem gosta do encontro. Mal dá um beijo na boca. Ainda assim, na primeira oportunidade, briga com o seu parceiro e despeja "Mas eu também te traí!".

Por fora, a lógica é a de "Não vou sair perdendo!". Por dentro, o raciocínio inconsciente é "Agora estamos quites, fiz uma cagada também. Por favor, fique comigo".
O parceiro, que já deve ser um manipulador de primeira, sai da história cheio de munição para sair da posição de traidor e se colocar como vítima.

Geralmente há uma falsa simetria nessa história, e a pessoa abusada não se dá conta de que o que ela fez é muito menor do que o conjunto dos atos da outra pessoa. Por exemplo "Ele me empurrou, mas também... eu mexi no celular dele!".
É a velha história do "vocês não entendem, fui eu que provoquei!".

3 - Todo abusado é uma pessoa legal.
Sabe essas pessoas chatas, que cobram presença o tempo todo? Essas pessoas grudentas? Normalmente elas são a ex do abusador. 
A pessoa abusada, por sua vez, não é assim. 
Ela é legal. Ela entende. Ela é super parceira.
Ela não é aquela pessoa que fica louca só porque o companheiro deixou de telefonar um dia. Quem é que não tem um dia ocupado?
Quem é que nunca perdeu a cabeça?
Quem é que nunca deu um empurrão numa hora de briga?

Compreensivo desse jeito, o abusado não exige nada. 
Por trás disso, uma autoestima baixíssima que lhe diz "Se você exigir, a pessoa vai embora. Seja grato de ter alguém que goste de você, ruim desse jeito".

4 - Todo abusado escuta mal.
Hora de tomar responsabilidade: para fugir de uma sensação de abandono que a persegue, a pessoa abusada manipula cuidadosamente tudo o que escuta para convencer-se de que é amada.

Se a outra pessoa fala "Eu não quero um relacionamento sério agora", a pessoa com personalidade abusável vai focar no "agora", e não no "eu não quero um relacionamento".

Se a pessoa ouve um "Desculpa, tá tudo tão corrido, nem deu pra te mandar uma mensagem", escuta "Estive pensando em você o tempo todo, e se não fosse minha ocupação terrível que me ocupou todos os segundos da semana, eu te procuraria." 
Enquanto isso, o verdadeiro subtexto era "Tenho muitas outras atividades na minha vida que são mais importantes que você". 
Isso o abusado se recusa a ouvir.

5 - Todo abusado tem pressa de ser amado.
Não vou dizer que a pessoa que sofre abuso é carente porque isso todo mundo é, até o abusador.  O que diferencia a pessoa com tendência a sofrer em relacionamentos abusivos das outras é a pressa que ela tem. Cansada e solitária, a pessoa se abre facilmente para alguém que lhe trate como alguém desejável. 

"Eu te desejo", para uma pessoa carente, é equivalente a um abracadabra. Ela se sente tão largada quanto uma lata jogada na rua. Se alguém lhe ajunta ali, é como se dissesse "Se você me deseja, pode me levar, sou sua", com a maior gratidão do mundo.

Infelizmente, um coração escancarado é um prato cheio para alguém manipulador.

--

Claro que possuir esses traços não é, de maneira nenhuma, motivo para sentir culpa de ter estado em um relacionamento assim. Nenhuma dessas características é ruim. 
Ainda assim, elas facilitam para que uma pessoa com má intenção se aproxime e faça a festa.

Se você tem um histórico de relacionamentos abusivos, pode ser hora de olhar para a sua personalidade, para os seus hábitos e para as suas carências.

Não para se julgar (provavelmente você já se julga demais), mas para atender ao que você precisa com o carinho que tem faltado na sua vida. Para ganhar de si aquilo que se busca no outro.

Quem sabe aí você possa escolher o relacionamento que você deseja em vez de tentar desesperadamente transformar em amor aquele relacionamento que lhe cruzou o caminho.

Precisando de ajuda, estamos aqui.

6.4.17

Pânico e prisão

Às vezes eu me dou conta que meus dedos estão presos. Eles sempre estão presos, nenhuma novidade nisso. É pra isso que servem os sapatos, afinal. Mas às vezes eu me dou conta disso, e isso me incomoda. Tento abrir e fechar meus dedos e não consigo. O movimento fica limitado. Eles estão presos e isso é horrível. E, como se fosse questão de vida ou morte, eu preciso sentir que posso abrir e fechar meus dedos do pé. O calçado incomoda. A garganta aperta e eu não consigo pensar em outra coisa. Eu estou preso. As coisas aumentam de proporção, como se eu entrasse em contato com uma realidade maior. Está tudo errado, estamos todos numa gaiola, estamos todos presos e esses calçados são um sinal de tudo isso, e eu preciso me libertar. Aí eu tiro o sapato e tudo bem. -- Não me sinto bem quando chega o inverno. O inverno bravo, aquele mês e pouco em que a temperatura fica perto do zero e o incômodo não é mais só na hora de ir tomar banho. Você não consegue fingir que não está frio, nem que só por um momento. É frio fora de casa, é frio dentro de casa. É frio na parte do pescoço que fica fora do cobertor à noite, é tudo frio, você passa o mês fugindo de morrer de frio. Sentir calor é como sentir-se amado, você não consegue imaginar como é até que o sinta. Ou você tem acesso ao calor ou está distante dele até como conceito. A sensação de frio não incomoda tanto quanto a sensação de que eu nunca vou sentir calor novamente. -- Meus dedos não estão presos para sempre. Eles só estão dentro de um sapato. Eu não vou sentir frio para sempre. É só esperar a Terra percorrer milhões de quilômetros através do espaço e ajustar sua inclinação em relação ao Sol e o calor vai ser insuportável novamente. Os perigos não são reais. A sensação sufocante de uma prisão eterna é. -- Um ataque de pânico é como isso: às vezes nem existe perigo real, mas a sensação é de morte iminente. A respiração encurta, o mundo parece pequeno, as estruturas que sustentam quem se é vão implodindo e caindo umas sobre as outras no peito, como se um prédio desabasse dentro da gente. Na raiz de tudo isso, a sensação de estar preso. -- Quem sofre de pânico em geral acomoda muito mais as necessidades dos outros do que as próprias. Cala-se quando devia falar, cede quando devia teimar e aceita quando devia dizer, gritando que não, de jeito nenhum. Não se reage, o outro é quem tem o poder. O outro é que comanda. O outro está julgando. E uma hora o corpo se dá conta de que pode nunca sair dessa situação. De que a vida não faz nenhum sentido se for sempre presa desse jeito - e viver sem sentido é olhar para a morte. Nessa situação, nada é mais inteligente do que surtar. -- Em geral, para quem sofre de pânico, a sensação de que uma crise pode vir a qualquer momento é pior do que a crise em si. Infelizmente, sem mudar o padrão de abaixar a cabeça e colocar a exigência dos outros antes da própria necessidade, as crises vão continuar necessárias. A solução? Buscar o calor. Tirar os sapatos. Libertar-se. Não é fácil. Ninguém está preso porque quer. Escapar de uma prisão sempre vai ser considerado um crime. Mas para quem esteve preso durante tanto tempo, nenhum julgamento importa mais quando se conhece a liberdade. -- Um dia ainda vou trabalhar descalço. Espero que não esteja frio.

Encontrando caminhos

Ele era uma constante distante nas sessões da minha paciente. Quer dizer, ele sempre aparecia nos fundos de alguma história, ou como motivaç...