6.4.17

Pânico e prisão

Às vezes eu me dou conta que meus dedos estão presos. Eles sempre estão presos, nenhuma novidade nisso. É pra isso que servem os sapatos, afinal. Mas às vezes eu me dou conta disso, e isso me incomoda. Tento abrir e fechar meus dedos e não consigo. O movimento fica limitado. Eles estão presos e isso é horrível. E, como se fosse questão de vida ou morte, eu preciso sentir que posso abrir e fechar meus dedos do pé. O calçado incomoda. A garganta aperta e eu não consigo pensar em outra coisa. Eu estou preso. As coisas aumentam de proporção, como se eu entrasse em contato com uma realidade maior. Está tudo errado, estamos todos numa gaiola, estamos todos presos e esses calçados são um sinal de tudo isso, e eu preciso me libertar. Aí eu tiro o sapato e tudo bem. -- Não me sinto bem quando chega o inverno. O inverno bravo, aquele mês e pouco em que a temperatura fica perto do zero e o incômodo não é mais só na hora de ir tomar banho. Você não consegue fingir que não está frio, nem que só por um momento. É frio fora de casa, é frio dentro de casa. É frio na parte do pescoço que fica fora do cobertor à noite, é tudo frio, você passa o mês fugindo de morrer de frio. Sentir calor é como sentir-se amado, você não consegue imaginar como é até que o sinta. Ou você tem acesso ao calor ou está distante dele até como conceito. A sensação de frio não incomoda tanto quanto a sensação de que eu nunca vou sentir calor novamente. -- Meus dedos não estão presos para sempre. Eles só estão dentro de um sapato. Eu não vou sentir frio para sempre. É só esperar a Terra percorrer milhões de quilômetros através do espaço e ajustar sua inclinação em relação ao Sol e o calor vai ser insuportável novamente. Os perigos não são reais. A sensação sufocante de uma prisão eterna é. -- Um ataque de pânico é como isso: às vezes nem existe perigo real, mas a sensação é de morte iminente. A respiração encurta, o mundo parece pequeno, as estruturas que sustentam quem se é vão implodindo e caindo umas sobre as outras no peito, como se um prédio desabasse dentro da gente. Na raiz de tudo isso, a sensação de estar preso. -- Quem sofre de pânico em geral acomoda muito mais as necessidades dos outros do que as próprias. Cala-se quando devia falar, cede quando devia teimar e aceita quando devia dizer, gritando que não, de jeito nenhum. Não se reage, o outro é quem tem o poder. O outro é que comanda. O outro está julgando. E uma hora o corpo se dá conta de que pode nunca sair dessa situação. De que a vida não faz nenhum sentido se for sempre presa desse jeito - e viver sem sentido é olhar para a morte. Nessa situação, nada é mais inteligente do que surtar. -- Em geral, para quem sofre de pânico, a sensação de que uma crise pode vir a qualquer momento é pior do que a crise em si. Infelizmente, sem mudar o padrão de abaixar a cabeça e colocar a exigência dos outros antes da própria necessidade, as crises vão continuar necessárias. A solução? Buscar o calor. Tirar os sapatos. Libertar-se. Não é fácil. Ninguém está preso porque quer. Escapar de uma prisão sempre vai ser considerado um crime. Mas para quem esteve preso durante tanto tempo, nenhum julgamento importa mais quando se conhece a liberdade. -- Um dia ainda vou trabalhar descalço. Espero que não esteja frio.

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