2.5.17

Delírios de grandeza

Tenho duas grandes fantasias na minha cabeça:

Na primeira, eu estou em um lugar público.
Pode ser uma praça, um aeroporto ou um ônibus, não interessa. Um transeunte bota a mão no peito, solta um urro e cai.
As pessoas ao redor ficam perplexas. Pedem socorro, se amontoam em cima da pessoa, ninguém sabe o que fazer direito.

Nisso, eu chego e falo "Calma, gente! Dá licença, deixa ele respirar!".
Vou passando por entre as pessoas. Alguém reclama e eu digo, firme: "Eu sei o que eu tô fazendo!"

Eu faço os primeiros socorros. A pessoa não melhora de primeira, mas com muita massagem cardíaca e esforço ela melhora, antes mesmo da ambulância chegar.

A pessoa levanta, com lágrimas nos olhos, abre os braços para a multidão, mostrando que ela é um milagre vivo, e aponta pra mim.
Eu digo "Que é isso, gente, era o mínimo que alguém poderia fazer".

Aviões caças passam pelo céu com manobras de guerra e fogos de artifício estouram iluminando o rosto de todo mundo que assistiu a cena, enquanto eles aplaudem.

(A história permite uma certa variação. Não precisa necessariamente ser um ataque cardíaco, pode ser até uma pessoa engasgando num amendoim que eu salvo enfiando uma caneta Bic na goela.
Inclusive, a situação ideal mesmo seria um parto: eu ajudaria a criança a nascer e a mãe, num momento de gratidão, daria o meu nome para o filho enquanto a multidão aplaude.)

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A segunda cena que eu gosto de imaginar é menos heroica, mas igualmente pomposa:

Eu sou convidado para uma festa na casa de alguém que eu conheço pouco. Chegando lá, as pessoas não me dão muita trela e eu acabo ficando sem ter com quem conversar. Enquanto faço amizade com o cachorro, eu vejo a saída: um piano no canto da sala.

Caminho discretamente até lá. Olho ao redor, puxo o banquinho e estralo os dedos. Começo a tocar.

A festa para. A intensidade quase sexual do piano irrompe pela sala e todos os olhos se viram para mim.
"Pensaram que eu era chato, né?", eu sorrio com o canto da boca enquanto toco piano como se o próprio Rachmaninoff tivesse tomado o meu corpo.

Quando a música acaba eu levanto, desinteressado, retomando o copo de cerveja de onde parei como se nada tivesse acontecido.

Vale mencionar que eu não estou apto a nenhum procedimento médico mais profundo do que segurar o lenço para alguém assoar o nariz e que meu conhecimento musical não vai além de tocar Oh Minas Gerais no teclado, bem devagarinho e errando a cada duas notas.

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Se perguntassem pra mim, um tempo atrás, qual o meu maior medo, eu responderia na lata: "Ser desinteressante."

Não que eu não tenha medo de uma guerra nuclear ou de um apocalipse zumbi, mas já pensou que horrível um zumbi correr até você, olhar bem na sua cara, fazer "Nah" e partir pra pessoa do lado? Não há autoestima que resista.

Não dá pra ser interessante sem fazer muito esforço.
Ler as revistas do dia, assistir os programas que o povo assiste, refinar a língua pra ter sempre um comentário engraçado pra fazer... Isso é o mínimo.

Depois, tem que saber ler linguagem corporal, se interessar pelo que os outros tem pra dizer, saber engajar uma conversa com qualquer um, aprender a sorrir na hora certa e mostrar-se simpático.

Isso tudo feito, você sai com uma luzinha em cima de você que as pessoas gostam de chamar de carisma.

É importante se esforçar bastante para que isso pareça natural.

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Fazer esse esforço social tem suas vantagens, mas a piada às vezes vai sair errado, a puxada de papo não vai dar em nada e você não vai receber nenhum sorriso de aprovação.

Aceitar isso é frustrante, mas ninguém consegue ser interessante o tempo todo. Não há assunto nem energia para isso e, mesmo se houvesse, ninguém seria mais chato do que uma pessoa com algo interessante para dizer o tempo todo.

Um dia que me caiu a ficha. Ninguém me conhecia de verdade. Ninguém sabia o que realmente estava acontecendo comigo, só a última piada que eu contei.  Eu entretinha as pessoas, não conversava com elas.

Talvez eu fosse uma ótima companhia pro boteco, mas eu não era uma pessoa.

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Por isso as fantasias de salvar alguém na rua ou tocar piano espantosamente bem.
Quem tem problemas com autoestima sabe como a gente inventa fantasias em que a gente prova pro mundo que tem valor. Como se gritasse "Eu presto!" pro universo inteiro.


Pff, como se o universo estivesse prestando atenção.--

Não consegui me desligar do esforço para ser legal. Eu ainda não sei o que faz alguém atrair pessoas sem fazer esforço. Não sei como alguém consegue ser amado de graça, sem uma camada de performance por cima.

Mas já aprendi que tentar ser incrível não funciona.
Deixa a grandeza pro delírio. Me desinteressei.

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