4.6.17

Bolas de pus

"Eu me sinto usado", eu disse pra minha amiga enquanto tomávamos vinho.

"Eu estive lá quando ele não era assumido. Eu estive lá quando a mãe dele desligava quando era eu que estava no telefone."

Era a primeira vez que eu me abria depois do fim daquele relacionamento. Eu caí num choro daqueles que faz parecer menos doloroso cortar a cabeça no meio pra arrancar as lágrimas direto da fonte.

"Eu falava pra ele. Eu pedia tanto para ele ir morar sozinho, pra ele se assumir, dei tanta força. Eu apresentei ele pros meus amigos. Eu perdoei tanta coisa, eu aceitei tanta coisa, e pra quê?"

Minha amiga me olhou com ternura.

"Agora tem outra pessoa usufruindo disso. Ele finalmente saiu de casa, e é outra pessoa que dorme com ele. Ele finalmente se abriu pra família, e é outra pessoa que é chamada pra almoçar junto com eles no domingo. Eu fiquei pra trás."

Deus, como eu me senti burro.

"Eu fiz o esforço. Eu ajudei ele, eu me entreguei pra ele, e agora ele está bem sem mim. Ele fez todas as mudanças que ele não pôde fazer por mim, mas fez por outra pessoa. Ele roubou isso de mim, isso era pra ser meu!"

Foi uma noite muito dolorosa, mas eu me senti mais leve.
A manhã seguinte também foi difícil, com as ressacas do choro e do vinho.

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As pessoas que querem compromisso sério, em geral, se sentem mais maduras do que as que não querem.

Afinal de contas, elas estão prontas. Elas querem constituir família, que é o que um adulto teoricamente precisa fazer. Elas estão prontas para assumir um papel que lhes outorgaria o título de adultos felizes.

Do outro lado, as pessoas que não querem isso. Que querem ter um senso mais forte de si, uma noção maior do mundo, e preferem dar ouvidos à curiosidade e à aventura em vez do medo da solidão.

Mas são só dois lados do mesmo trauma emocional: de um lado, os que querem a dedicação integral de alguém, do outro, os que tem medo de serem engolidos pelo comprometimento que um relacionamento requer.

São dois tipos de pessoa fugindo da mesma coisa, correndo para lados diferentes e - inexplicável, trágica e comicamente - se encontrando.

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No porre de vinho com a minha amiga, o que mais me doeu não foi o que ele fez comigo, apesar disso ter sido o que eu repeti enquanto desabava de chorar.

Foi o que eu fiz comigo.

Deus, eu lembro exatamente o momento que senti uma pontada no ventre me dizendo "Hora de parar", logo nos primeiros sinais de que ele não sabia o que queria. Lembro exatamente do olhar dele me pedindo outra chance.

Me lembro exatamente que eu sabia que aquilo ia dar errado. Do espaço que eu abri entre meu coração e o que eu acreditava naquele momento. De como segui em frente, engolindo absurdos cada vez mais cruéis e aumentando esse espaço até a distância ser grande demais pra uma parte de mim ajudar a outra.

Eu sabia que, para crescer, ele precisava explorar a vida que queria, se divertir, descobrir as opções que tinha antes de se decidir por alguma coisa.
Por egoísmo, por me achar pronto para viver algo sério, quis cercá-lo para que ele não fugisse de mim.

Não adiantou.
Nadar contra o fluxo natural da vida só serve pra cansar os braços.

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Quando a gente assume para os pais que é gay (ou sei lá, que quer fazer arquitetura em vez de direito, que vai usar o cabelo do jeito que prefere, qualquer ruptura), a culpa bate com força.

A sensação é a de trair o sonho de quem te deu a vida e te nutriu fazendo das tripas dinheiro pra te sustentar.

Como se o Pinóquio tivesse crescido, olhado pro Gepeto e falado "Agora que você me amou e eu sou um menino de verdade, vou dar dois chutes no seu saco e vender sua televisão pra trocar por crack."

Mas é importante não assumir para si a responsabilidade da expectativa do outro. Que sonhou, sonhou porque quis, porque viu em outra pessoa a possibilidade de realizar os sonhos que não pôde realizar por si.
Sonhar demais é inflamação. É doença. É uma bola de pus que uma hora precisa estourar.

Sem estourá-la, a dor só vai continuar enquanto o problema aumenta e aumenta e aumenta.

Não vale a pena poupar o sonho do outro. Antes pôr fim nele e deixar a bola de pus estourar de uma vez.
A frustração pode ser um presente e uma libertação.

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Ainda não sou uma pessoa dessas iluminadas, que não desenvolvem apego por alguém que amaram.

Ainda evito as ruas em que posso cruzar com ele.
Ainda dói lembrar que outra pessoa está usufruindo da propriedade que eu acreditava plenamente ter usucapião.
Ainda incomoda perceber que, se o fim não tivesse vindo contra a minha vontade, eu teria prolongado aquilo por ainda mais tempo.

Me resta respirar fundo e esperar a ardência das feridas deixadas acalmar, lembrando que eu fui tão responsável por fazê-las assim como sou por curá-las.
Ficar atento para, da próxima vez, ajustar as expectativas.

Não deixar de tê-las, mas tê-las por mim, pra mim, de mim.
Não depositá-las no outro.
De outra pessoa, só se pode esperar a vontade de ficar, e aceitar se a vontade for outra, ainda que remover essa inflamação doa.

Até lá, nada que uma garrafa de vinho e uma boa amiga não resolvam.
Pelo menos o tratamento pode ser divertido.

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