19.6.17

Eufemismos

Eufemismos são lindos.

A ação é a mesma, mas por que diabos uma pessoa que fala "Vou fazer xixi" soa tão fofa e uma que fala "Vou mijar" parece tão invasiva?

E a pessoa que "tira água do joelho" ou "lava a louça com mangueira", que já termina a frase praticamente com um certificado de humorista?

Nem vou entrar no mérito de "fazer pipi", porque fazer pipi é a única justificativa que eu concordo para a pena de morte.

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É incrível a diferença que um pouquinho de sutileza na hora de falar faz.

Num dia menos inspirado, o Djavan não cantaria "Um dia frio, um bom lugar pra ler um livro e o pensamento lá em você" , e sim "Tô de jaqueta, cagando de pau duro com um Paulo Coelho na mão".

Talvez não tão diretamente. O Djavan provavelmente é do tipo que fala "pênis" e não "pau".

Pelo menos não é pingolim. Pingolim é o caralho.

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A Gabriela era a menina mais popular da turma.
Os olhos claros, o sorriso impecável e uma sensação vaga de ausência de personalidade combinavam com seus dezesseis anos perfeitamente.

Rainha do primeiro ano, ela não descia frequentemente do trono para falar com o meu grupo. Por isso eu me surpreendi tanto quando a vi conversando com minha melhor amiga na escada do colégio.

"Não tenho, desculpa!", minha amiga estava respondendo.

Eu, que sempre fui metido, me enfiei no papo:
"Não tem o quê?"

Ela não respondeu. Pôxa, ser popular e não andar comigo tudo bem, mas me ignorar na minha cara?
"O que você precisa?"

Ela fez "nada", com os lábios, numa expressão que implorava pra eu ficar quieto.

Confrontei.
"Porra, se você falar pra mim quem sabe eu posso te ajudar!"

Ela só mexeu os lábios, em silêncio:
"U - A - SO - EN - TE"

Eu já estava puto:
"O quê? Fala direito!"

"EU PRECISO DE UM ABSORVENTE!", ela berrou num grito-sussurro que deve ter prejudicado as suas cordas vocais até hoje.

"Pra quê?", e aí eu já estava implicando de propósito.

Ela respondeu numa frequência que só cães ouvem, enunciando todas as vogais como se fossem a letra "i".
"Eu tô menstruada!"

A força que ela fez pra falar deve ter feito sair todo o sangue de uma vez só.
"Ah", respondi. "Não tenho."

Não foi maldade. Eu não tinha mesmo.

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Às vezes a linguagem quer botar um óculos falso e um bigode pra disfarçar o que precisa dizer.

A gente falece pra fingir que não morre e diz que está lotado de coisas pra fazer quando quer tirar uma soneca. A gente até separa nossos eufemismos de acordo com onde está, e diz que teve "um problema pessoal" no trabalho enquanto "levou um pé na bunda" para os amigos.

Mas fazer charminho na hora de falar é uma maneira de se colocar no mundo. Cada palavra que você escolhe revela um pouco das suas crenças, escolhas e seu jeito de ver a vida.

Por isso a depressão e a comédia andam de mãos dadas.
Se divertir usando palavras é uma maneira de tornar a vida mais aceitável. Quanto mais sofre uma pessoa, mais ela precisa colorir a sua linguagem para lidar com a realidade.

Isso não precisa ser exclusividade dos sofredores. Uma expressão divertida não precisa ser um disfarce. Pode ser só... um tempero.

Um jeito de tornar a vida um pouquinho mais imprevisível, mesmo quando a rotina se repete.

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Por mais apreciador da linguagem colorida que eu seja, eu nunca consigo entender o que querem me dizer quando a ideia é ser sutil.

Uma vez, quando eu trabalhava num escritório, um colega me escutou passar pela porta do banheiro e chamou baixinho.
"Flávio, é você?"
"Sim", respondi pra voz do além. A voz respondeu com um tom suplicante:
"Viu, traz peagá?"

Não entendi.
"Hã?"
"Pê agá!"

"Quem?"
"Acabou o peagá, pega um rolo pra mim!"

"Cuma?"
"PÊ AGÁ, CARALHO. PAPEL HIGIÊNICO. TRAZ PAPEL QUE EU TÔ TODO CAGADO AQUI, IRMÃO".

Putz. Me senti culpado por não ter essa elegância toda, mas levei o papel.
Pelo menos dessa vez eu pude ajudar. De quebra, aprimorei meu vocabulário.

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