1.6.17

Gente fantasiada

Eu gosto de quem não sabe usar rede social do jeito certo.

A internet virou claramente um lugar pra se promover, com regras implícitas de como se deve agir.

Eu gosto de quem não entendeu a regra.
De quem posta uma foto de comida não porque foi no restaurante cool da semana, mas porque a mãe dela fez um quibe cru delicioso e ela quis mostrar pra todo mundo.

Aí faz aquela foto meio tremida, tirada com resolução baixa, de um prato Duralex marrom com uma lasca no ladinho, o quibe meio desmontado, um garfo com a parte de plástico derretidinha porque esqueceram numa panela quente, a toalha de mesa manchada aparecendo no canto...

Dá um gostinho de realidade. Aquilo não foi compartilhado pra fazer charme.
É só porque tava gostoso mesmo.

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Nem precisa ser uma coisa alegre.

Cês não fazem ideia do número de desconhecidas de meia idade que eu mantenho na timeline só pelo prazer de ver o que elas postam.

Aquelas postagens com 45 fotos quase iguais na frente do espelho do guarda-roupa, como se fosse impossível escolher uma, o cabelo ainda escorrendo água do banho, os olhos meio fechados, a barriga visivelmente encolhida.

Não importa se ela realmente se acha bonita ou não, o legal é ver como é transparente o esforço para que ela seja.

Ela não tem a luz ideal nem um bom aplicativo pra fazer retoques, mas tem um espelho carcomido pelo tempo e bastante confiança.

Ela tem um comentário da tia falando "ta cada dia mais linda minha menina beijo".
Ela tem um crush meio iletrado falando "nossa mas se eu te pego hein kkkk".

E ela curte isso.

Tem coisa mais singela?

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Uma cliente me contou, e me deixou recontar, a história de quando era criança e foi a uma festa de aniversário. Já na entrada, deu de cara com um marmanjo com roupa de Pato Donald dando boas vindas às crianças.

Dá pra imaginar uma fantasia de Pato Donald nos anos 80, né? Mais assustadora que um boleto a pagar.

Ela quis correr, ela chorou. ela esperneou querendo ir embora, mas sua mãe não deixou.
Ficou ao lado dela falando "Querida, olha bem. Olha bem certinho pra ele."

Ergueu a cabeça da filha e a obrigou a ver o medo de frente.
"Consegue ver, filha? É só uma pessoa fantasiada."

Ela olhou, desconfiada.
"Olha com calma até perceber que é só uma pessoa fantasiada."

Ela percebeu. Parou de chorar.
Nunca mais teve medo de fantasia nenhuma.

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Com a quantidade de imagens minuciosamente calculadas ao nosso redor, é normal ficar intimidado.

Por isso é importante lembrar o quanto é bom sorrir grandão, ainda que nosso dente seja torto.
Não porque fica lindo na foto, mas porque é gostoso.

Tudo bem querer compartilhar uma alegria que não é perfeita.
Em tempos de alegria fabricada, ostentação de verdade é ter orgulho de ser feliz com pouco.

Tem gente sarada e saudável e bem sucedida e em Paris toda semana? Tem sim.
Mas são só pessoas fantasiadas.

Olha bem que você percebe. Não precisa chorar não.

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