7.6.17

Mania

O que podemos aprender com a história do menino que foi preso após tentar se passar por médico e foi encontrado morto?
Além de mostrar o absurdo que é a legislação brasileira não considerar Grey's Anatomy como uma formação válida para medicina (ok, talvez não), essa história pode ensinar muito sobre saúde mental.

Claro que não dá pra saber o diagnóstico do menino só por ler duas notícias, e eu posso estar bastante errado, mas o caso dele me lembra muito transtorno bipolar.

Sim, transtorno bipolar.
O mesmo que muita gente diz que tem só porque esteve feliz e triste no mesmo dia.

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Talvez seja um dos transtornos mentais menos compreendidos pela população em geral.

A oscilação de humor existe, mas ela é bem característica: numa fase, chamada de mania, a pessoa está muito animada, com autoestima muito elevada e a certeza de que não tem problema nenhum, alternada com uma fase de "cair na real" e entrar em depressão profunda.

Na mania a pessoa se sente invencível.
Os projetos dela vão dar certo, ela tem muita capacidade, e a cautela vai por água abaixo. Ela dirige acelerada, ela gasta dinheiro que está longe de ter, ela faz mudanças intensas.

Era nessa fase que, me parece, o menino estava quando invadiu o hospital.
Pra ter uma ideia de como funciona a cabeça de alguém em mania, ele não precisaria ter tido alucinação nenhuma para acreditar que era formado em medicina por assistir TV. Pode ter bastado alguém brincar que "Nossa, você podia trabalhar num hospital de tanto assistir essa série" pra ele embarcar numa aventura dessas.

Aí, depois de pego no pulo e ter virado piada pública, veio a fase de depressão. Perceber como ele estava errado fez sentir o tombo do pedestal onde ele se pôs na fase maníaca.
Obstinado como ele era, deu no que deu.
Suicidou-se.

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A coisa mais difícil de lidar com pessoas com transtorno bipolar não é a depressão. É a saída dela.
É quando a pessoa se dá conta, devagar, que a hora em que ela começa a melhorar é um momento de cautela. Que ela pode estar se sentindo mais feliz, mas que isso significa redobrar a atenção ao que sente para não cair na tentação de se empolgar de novo.

O padrão que o transtorno bipolar leva ao extremo é bem comum na vida de muita gente: os projetos começam com força, ânimo e intensidade até que não dão certo, são abandonados e deixam um trilho de tristeza e frustração.

E como a pessoa tenta sair dessa fase de tristeza? Se empolgando muito com outra coisa. Aí repete o processo.
É por isso que é tão importante aprender a ver a vida em nuances mais delicadas. Sem tanto preto e branco, sem tanto certo e errado.

Lidando com nuances a gente não precisa se pautar por extremos. Aí a gente pode estar um pouco triste ou um pouco feliz, e não oscilar o tempo todo entre onipotente e impotente.
Isso é promover saúde.

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Talvez se as pessoas conhecessem um pouco melhor o que são os transtornos mentais, casos como esse poderiam ser evitados.

Os sinais podem ser confusos para fechar um diagnóstico claro, mas para isso existem os profissionais.

Ninguém precisa ser profissional de saúde para diagnosticar um resfriado ou uma dor de barriga. A gente simplesmente aprendeu os sintomas e sabe o momento certo de uma pessoa buscar ajuda.
Vale prestar um pouco de atenção.

Esses diagnósticos não aparecem no Grey's Anatomy, mas podem salvar uma vida ou outra.

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