22.6.17

Sem cinismo

Uma criança brinca. Corre como se não tivesse limites, desbrava a sala como se fosse um campo de guerra e cai no chão como quem cai numa emboscada.
Fez dodói. Tá ardendo.

A mãe aparece, pega a criança no colo, beija sua ferida, aperta o filho contra o corpo e diz "Não se preocupe, meu amor. Vai passar. Tá tudo bem.".

A criança acredita, o choro vai embora.
Não sei o que mora no abraço de uma mãe que consegue aplacar as angústias mais profundas, mas deve ser algo mágico.

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É fácil se acostumar com esse afeto capaz de curar todas as dores.
De repente, chega a vida adulta e você se vê de cara com um problema imenso que não tem mais mãe que dê conta de acalmar no colo.

A gente se revolta.
O cinismo entra no corpo como um ferrão de abelha, e a ferida inflama.
A gente fica amargo.
Descobre que não existe Fada dos Dentes nem Papai Noel, e começa a duvidar de Deus.

De repente, a janela bonita para onde a gente olhava cheio de esperança vira só um adesivo numa parede de concreto.

E a gente entra em crise.
Não está tudo bem. Era mentira da mamãe.

Como ousa uma pessoa sã, nessa merda toda, juntar o próprio corpo contra o seu e falar que está tudo bem? Que vai passar?

Não era magia, era mentira. Só alguém muito iludido, mesmo, pra acreditar em alguém que fala essas besteiras.

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O maior perigo do cinismo é o prazer que ele causa.
É gostoso saber que estamos acima de todos os outros. É reconfortante saber que, apesar de parecerem felizes, os esperançosos são todos bobos e ignorantes da própria situação.

O sofrimento não passa, mas é quase uma libertação poder achar que tá todo mundo muito afundado na merda e que ninguém tem saída mesmo. Ser pessimista e ter a consciência de que o mundo é cheio de merda é muito fácil. Há um alto grau de onipotência na impotência.

Infelizmente, consolar a si mesmo por enfiar o pé na jaca da angústia não é uma boa estratégia a longo prazo.

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Melhorar exige fé.
Ok, talvez fé seja uma palavra com significados demais para ser usada assim, impunemente, mas de que forma uma pessoa vai conseguir melhorar de um problema que tem se ela nem acredita que isso é possível?

Só melhora quem aceita que pode ficar tudo bem, quem tem tanta confiança que a dor vai passar que a encara como uma mãe que diz "Já passou" ao filho que está chorando.

Repara bem: quando você sente dor, a dor é percebida por uma parte sua que só assiste a dor, mas não participa dela. Você sente a dor, mas você não é a dor.
A sua parte que não é dor está bem.

Repara mais um pouco: Toda dor é suportável temporariamente, e o tempo passa tão descaradamente que apaga a dor até da perda mais violenta.
Diabos, a gente passa, a vida passa, o mundo passa. É claro que seu problema também vai passar.

Você só precisa de paciência, resignação e um abraço. Talvez uma canja de galinha.
Sua mãe já tinha a receita.

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No meio do sofrimento, vale a pena ter um pouco de humildade e tentar se ver como uma criança machucada, que não sabe de tudo.
Aí que entra em ação a sua parte que precisa aprender a ser sua própria mãe.

Na ausência de um abraço carinhoso, cada um é responsável por aprender a se tratar com a firmeza e o carinho de uma mãe. Aprender a se abraçar na hora da dor, mandar secar as próprias lágrimas e tentar outra vez, com a paciência e os recursos que tiver à mão.

Com os ânimos aplacados, é possível ver a situação difícil do tamanho que ela realmente é. Quase sempre ela é menor do que se pensava. Aí sim, dá pra acreditar que é possível fazer alguma coisa e tomar uma atitude adulta a respeito do que se passa.

Claro que não vai ficar tudo perfeito... Mas tá tudo bem. Vai passar.
Beijinho na ferida e segue em frente.

Deixa o cinismo pra lá. Ele é um brinquedo de criança mimada.

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